sábado, dezembro 28, 2013

Os (quase) silêncios

Pensa na festa que recusou para poder dormir mais cedo, mas está insone.
Não guardou todas as coisas da mala, porém teve o bom senso de tomar apenas uma taça de vinho.
Começa a desenhar planos.
Em fevereiro nem se lembrará deles.
Em novembro a calça não vai entrar de novo.
Decide pela milésima vez ter férias inesquecíveis.
Precisa ligar para o terapeuta, voltar a tomar a vitamina cara intacta na prateleira e marcar o ortopedista.
Vai para o banheiro, olha o cabelo, prende a franja.
Lembra-se da temporada de chuva, do cabelo em pé, das sapatilhas enchardas, do edredom há 40 dias na lavanderia.
Amanhã tem salão, tem plantão.
Não há nada na geladeira.
Prefere não imaginar o saldo no banco.
Esquece os planos em meio ao tanto que vai ficando pra trás.
A sexta ficou para trás.
2013 também.
Faltam seis minutos para o download ser concluído.
Mais um episódio e luzes apagadas.
O infalível leitinho morno cairia bem.
Tem chocolate.
Melhor não comer.
O cabelo continua horrível.
Um chá seria perfeito.
Venta na Serra.
Milagrosamente, silenciosa.

segunda-feira, dezembro 16, 2013

15 anos

Foi numa final de campeonato brasileiro. Cruzeiro X Corinthians. Meu time perdeu. De longe ouvi um "gol, porra!" do meu pai. Ele estava com radinho de pilha em plena colação de grau, mas ninguém se importava. Final era final.

Ali se encerrava um ciclo. Apesar de ter entrado na faculdade com apenas 17 anos, eu sabia o que queria. Aos 21 tinha a mesma certeza. 15 anos depois, sou reticente. Não se trata de arrependimento, mas de buscar a tal alternativa.

Se não fosse jornalismo, seria história, letras e qualquer curso que não entra no ranking da revista Exame como promissor.

Tem dias que eu acho que ser jornalista é como ser ascensorista. Os prédios começam a eliminar elevadores antigos, os novos não precisam de condutores. Eles conversam com a gente, acima deles há monitores com notícias e previsão do tempo.

Tem dias que eu não digo pro motorista de táxi, com um jornal no banco da frente, qual a minha profissão. Por que? Eventualmente, não quero ser pautada, interrogada sobre algum podre que só eu deveria saber ou ver a cara de decepção do sujeito quando ele descobre que não denuncio os buracos da cidade.

Há dias especialmente bons, de entrevistados que fazem tudo valer a pena.

Eu ainda guardo jornais, como fazia quando sonhava em ser jornalista.

Há os dias de correria, de refeições trocadas por sanduíches gordurosos.

Foram duas ou três vezes que me tranquei no banheiro para chorar porque minha reportagem foi arruinada.

A primeira delas, no Grupo Corpo. Gravei uma série de entrevistas, e quando cheguei na TV, a fita estava estragada. Para melhorar, não havia fita liberada. Não era "matéria cair" simplesmente.

Tive chefes que me ensinaram e me ensinam mais que todo o corpo docente da faculdade.

A maioria, se não virou amigo, me respeitou profundamente.

Uma vez eu estava dura que só. Esperava a hora do jantar no bandejão porque a geladeira estava vazia em casa. Ganhei um ingresso para um espetáculo que queria muito ir, porém não havia espaço para crítica no jornal. Entendi que perderia, mas meu chefe pediu um carro para me levar e buscar ao teatro, pois como repórter, mesmo que não desse samba, eu tinha que acompanhar.

Existem ex-colegas com quem não desejo trabalhar novamente. São pouquíssimos, na verdade.

Existem alguns que até ficam distantes, em suas editorias e outros veículos, mas são pessoas com quem gostaria de desenvolver um projeto, tamanha é minha admiração por elas.

O salário do jornalista é desanimador no Brasil inteiro.

Os sindicatos dos jornalistas não são atuantes. 

Fico me perguntando se não ser sindicalizada é como votar nulo...

Jogo na loteria para deixar de ser jornalista.

Desde 1998 faço frilas e coloco música em festas (essas brincadeiras deram origem ao Ludj, o meu nome "artístico" que batiza também este blog).

Tentei até me dedicar a pequenos jantares como forma de renda extra.

Tentei fugir para o cinema, mas não tendo grana e/ ou influências, senti que o campo estava minado.

Neste ano, mais que os outros, ouvi um monte de gente dizendo que "jornalistas mortos não mentem".

Também na edição comemorativa do diploma, nunca presenciei tantas demissões nas redações.

Dizem que o jornalismo vai morrer.

Eu mesma tive mais de um recomeço na carreira, mais de cinco funções.

Trabalhei em todas as mídias.

Vivi um ano e meio numa redação fora da minha cidade.

De certa maneira, atualmente, também trabalho em outra cidade.

Gosto muito das pessoas que me cercam, aprendo com elas, com meus entrevistados, com meus erros.

Sempre me senti mais realizada trabalhando com cultura do que com qualquer outro assunto. Acho super importante e valorizo a turma investigativa, no entanto, ainda sinto por parte de alguns um ar de desprezo, como se o que eu fizesse se resumisse a ver show, filme e peça de graça.

Honestamente? Muito do que me chateia no modos vivendi e operandi não vai mudar.

Eu mudei muito, felizmente, nessa jornada.

O jornalismo me tirou e me deu.

Dizem que é cachaça, "marvada".

Só não sei (talvez nunca saberei) quantas doses me restam.





sábado, dezembro 07, 2013

Ano ruim X ano difícil

Dezembro tem essa coisa. Mal começa e já tem gente gritando "que venha o próximo ano!' Sem dúvida, poucos meses são mais rápidos, etílicos e reflexivos: "poxa, 2013 voou!", "como vou conseguir participar de tantas festas? Esse povo é foda! Não rola de empurrar para janeiro?", "não fiz nada do que planejei!"...Todas essas questões me atravessam.
No ano em que passei férias em Buenos Aires.
No ano em que vi o show do Radiohead.
No em em que minha melhor amiga morreu (que foi o ano em que me separei).
Há anos ruins e difícies. Fácil confundir e misturar os dois.
Dezembro nem acabou e já tenho a nota para atribuir a 2013.
Não tomou bomba, mas me proporciou um dos maiores períodos de sufoco financeiro da vida.
Vendi meus vestidos legais, se tivesse férias, não poderia fazer uma super viagem, acabei com a minha poupança...tudo para pagar contas.
Morar sozinha é caro.
Mas posso tomar cerveja segunda-feira, deixar a cama desarrumada, ter o controle remoto só para mim e andar de calcinha apenas.
Morar sozinha é liberdade.
2013 me ensinou muita coisa. Algumas na marra. Percebi sem muito esforço que tinha amigos (poucos) independentemente de ser ou não "alguém na noite", passei mais sábados em casa, cumpri minha meta de não me envolver com idiotas, porém larguei a dieta...não se pode ter tudo!
Um ano atrás, eu comprava presentes de Natal. Hoje são lembrancinhas.
Eu tinha uma sensação de que aquele ensaio viraria uma relação. Naufragou rápido. Eu passei um bom período repensando tudo.
Foi em agosto, aquele mês que a maioria detesta.
Ele apareceu e cuidou de mim.
Assim, de imediato.
Quando o beijei, em outubro, não quis mais beijar ninguém.
Mas, vamos lá, 2013 não é fácil.
Eu preciso de um táxi, um ônibus, um avião e outro táxi para chegar até a casa dele.
Mesmo assim, a parte boa e fácil é imaginar a gente ouvindo música junto, fazendo massa e planos.
Me dá um medo bobo e infatil, às vezes, de perdê-lo. E acho que já disse isso ao telefone, depois de uns drinks.
Um encontro. Decisivo para não ser um ano ruim.
2013 foi difícil apenas.
Todavia, não foi só um encontro.
Eu esperei três anos até achar quem realmente valesse a pena.
Alguém que eu quisesse sufocar de beijos.
Alguém para quem pudesse ligar para falar bobeiras.
Alguém que tivesse a cumplicidade para entender o que nem sempre digo.
Então, eu contos os dias.
Então, eu olho pras estrelas.
E se o mar for revolto, ele vai me dar a mão.
Se o tempo assim quiser, teremos anos pela frente.
Que sejam fáceis, que sejam bons.
Porque na astrologia eu até parei de acreditar.

terça-feira, novembro 26, 2013

Do mês passado...

Me esqueci de postar essa!

Longe

Como no filme de Marcelo Gomes, a primeira parte da frase faz muito sentido para mim: “Viajo porque Preciso”. Em São Paulo para cobrir a 37ª Mostra Internacional de Cinema, aproveito as brechas entre as sessões para colocar papos em dia com velhos amigos dos tempos em que morei por aqui. Às vezes, sinto que o tempo voltou diante do combinado chope e pastel, tão paulistano.

Pego o metrô, mas meu destino não é a Vila Madalena como antes. Dessa vez, não comerei milho-verde quentinho na estação. Mais uma vez, entro em filas, intermináveis. No Museu da Imagem e do Som, o MIS, foi mais de uma hora para conseguir entrar e ver o acervo do Stanley Kubrick. Enquanto isso, e como sempre, fiz amigos na fila. “Ah, você é mineira, seu sotaque é tão fofo!”, me disseram.

Eu amo São Paulo. Andar pela avenida Paulista ouvindo as conversas de pessoas de todos os lugares do mundo. Meninas japonesas de cabelo roxo, meninos bem-vestidos de mãos dadas com seus namorados, velhinhas cheias de laquê no cabelo, judeus ortodoxos caminhando com seus filhos, Elvis Presley pedindo uns trocados na porta do shopping. Me perco por horas em livrarias, lojinhas de arte, cafés e padarias. Como pão na chapa cheio de manteiga, e sempre tenho assunto com taxistas e pipoqueiros.

A cidade tem tanto barulho que me faz ficar em silêncio. Às madrugadas, abro as janelas do quarto para olhar o Conjunto Nacional. Ainda há pessoas na calçada. Aqui não se dorme, como Sinatra um dia cantou para uma de suas musas, Nova York. Apesar de estar em hotel, me sinto em casa. Sinto saudade de tanta coisa, de tantos rituais. Muitos nem pude cumprir nesses dias. E não os cumpri intencionalmente. Quando venho a São Paulo, compro um tíquete de metrô a mais, deixo de visitar um museu ou um novo restaurante só para voltar correndo.



quinta-feira, novembro 21, 2013

Dos questionamentos

A despeito de toda alegria recente, e da tão esperada paz que invadiu o coração, ouvia perguntas/ frases como:
- Você anda tão calada (por que?)
- Você não tem escrito (por que?)
- Você devia tirar umas férias (como?)
- Você devia deixar pra trás essa nova-velha descrença ("Is it getting better?Or do you feel the same? Will it make it easier on you now. You got someone to blame?")

Nem sempre há como responder às próprias perguntas.

quarta-feira, novembro 06, 2013

Ironia do Destino

Eu tenho a mania de pensar sobre clichês, frases feitas e afins. No intuito de entendê-los e descontruí-los. "Ironia do Destino" é um deles. Como fosse ele o remetente, ela a carta e eu quem recebe.
Quando penso na postagem, os Correios não estão em greve, o endereço é preenchido corretamente. Nesse dia, eu saio mais tarde de casa (ou atrasada, para dar mais dramaticidade ao fato) e, como nunca acontece, encontro o carteiro para assinar o protocolo.
Abro o envelope e o texto tem uma saudação extremamente formal, algo como "Ilustríssima Senhora Ludmila Azevedo Dias".
Ele, o Destino, é muito frequente. Pode me avisar que por mais que eu prefira dias frios, os de calor e de chuva serão mais extensos, justamente por eu viver nesse país tropical, por não ter como fazer as malas imediamente. No discurso, o remetente faz questão de me lembrar o conjuntos de porquês que atravancam o meu caminho.
Sarcástico e cruel em ocasiões específicas, o Destino troca assinaturas como "atenciosamente" por "eu te avisei".
Nunca respondi a essas correspondências, são como avisos da conta de luz não paga. Aperto de cá, me viro dali e acerto. Não dou explicações, elas não são necessárias.
Certa vez, depois de beber sozinha uma garrafa de vinho, decidi que iria redigir, nada ficaria subentendido. De quebra, diria umas verdades para esse grandessíssimo filho da puta. Achei, aliás, uma boa ideia começar assim.
Acordei em cima do papel amassado, com uma dor de cabeça monumental. Eu tinha uma reunião de trabalho que durou horas, enquanto as pessoas ao redor da mesa falavam, me esforçava para lembrar de tudo que quis escrever, mas a mente apagou cada palavra.
Também passei um período sem abrir as cartas, que se amontoavam entre as demais.
Rasguei sem ler, joguei diretamente no lixo.
Hoje eu as leio. Resgatei umas antigas até.
Admito que tento reinterpretá-las.
Fiquei com os olhos cheios d' água quando li sobre uma determinada Ironia que tornou os tempos melhores.
Pensei no que deveria conter o conteúdo desprezado.
E respirei fundo.




segunda-feira, outubro 28, 2013

Lou Reed

Lou Reed se foi.
Eu não tomei um porre como a ocasião pedia. Queria ter enxugado uma garrafa de Jack Daniel's e colocado "Satellite of Love" no último volume, no meu apartamento, até a polícia aparecer. Se a polícia aparecesse, diria desaforos...tudo isso, claro, no meu imaginário wild side.
Ele se foi e eu não quis acreditar na informação. Estava de plantão, lapidando contra o tempo o texto seco que chegou pela agência de notícias.
Mal dormi.
Pensei na vida besta, no despertador, nas frutinhas matinais, nos glóbulos que seguram a frustração, no hábito de sair correndo todo dia - inutilmente - para não me atrasar,  no ato de passar o cartão de ponto, na preocupação com as contas.
Pensei na banalidade dessa escrita, que só tenho o disco clássico com a capa do Andy Warhol em CD e um punhado de MP3 da carreira solo do Lou Reed. O resto era K7, minhas fitinhas antes tão rodadas, viraram poeira. "Disco é cultura", mas disco era tão caro!
O fato é que não estou aqui para resenhar porra nenhuma, para dar uma de enciclopédia musical, para fazer ranking de canções importantes que ele compôs. Enquanto qualquer tipo de arte me comover de alguma maneira, não preciso de teorias.
Lou Reed se foi.
O mundo está mais careta, eu já não sou tão jovem. Ele escrevia, fotografava, compunha, atuava, transgredia. Eu sigo nesse toada de um dia de cada vez, para não pirar. Quando me pego resignada, tento me lembrar das noites dançando no escuro, das pouquíssimas porra-louquices que fiz até hoje. Devia ter feito mais.
Há quem tenha inveja de quem viaja para lugares maravilhosos todos os anos, de quem ganhe super salários, até de quem não tenha celulite...
Eu tenho inveja de quem é livre, como o Lou Reed.






quarta-feira, outubro 23, 2013

Já que eu ando sumida

A Moça do Guichê - publicada na minha última coluna de setembro, no Pandora

Anos atrás, saí do teatro impressionada com o espetáculo “Pessoas Invisíveis”, da companhia curitibana Armazém. A peça, inspirada nos quadrinhos do genial Will Eisner, mostrava como, numa grande cidade, certos personagens pareciam simplesmente não existir. Não se trata apenas dos marginalizados, como o bêbado ou a prostituta. O porteiro e a faxineira entram no pacote. E há uma frase, atribuída a Luis Fernando Verissimo, que diz: “Uma pessoa que é boa com você, mas grosseira com o garçom, não pode ser uma boa pessoa”. Não sei se a frase é dele, no entanto, para mim, sempre fez muito sentido.

Penso na peça, na frase e na minha formação quando acordo com o pé esquerdo. Nos dias normais, não preciso do exercício. Não deixo de entrar na academia de ginástica sem desejar um bom dia para a recepcionista, não economizo em “por favor” e “obrigada” para o atendente da padaria, e fico profundamente incomodada quando alguém ao meu lado assume esse “superpoder” de transformar o outro em nada. Na semana passada, minhas regras de conduta ficaram abaladas.

Estávamos eu e uma amiga no cinema de um shopping, fugindo da temperatura de 37°C que o termômetro marcava na rua. O ambiente climatizado era uma bênção, dava até para usar um casaquinho leve. Por isso, foi um choque quando chegamos naquele aquário para pagar o estacionamento, onde a sensação térmica beirava o inferno.

Uma senhora cheia de sacolas estava reclamando. Não era do preço, muito menos da atitude da moça. Ela argumentava que era simplesmente desumano permitir que alguém trabalhasse naquelas condições. “Se eu não aguento ficar aqui cinco minutos, imagina essa moça o dia inteiro? Isso sim é um trabalho escravo!”, disse, olhando para nós. Eu e minha amiga concordamos, argumentamos que o mínimo que a administração deveria fazer era instalar um ventilador ali.

A moça, maquiada e uniformizada, apenas nos retribuiu com um sorriso. Ela precisa do trabalho, afinal. Talvez se reclamássemos com seus chefes seria bem pior, e isso me entristeceu. O meu “boa tarde” naquele dia não levou nenhuma “estrelinha dourada”. É preciso mais do que ser educado, do que ler Dalai Lama, do que propagar as palavras do profeta Gentileza. É preciso descobrir uma "criptonita" que destrua esse nosso "superpoder" de tornar o outro invisível.

quinta-feira, setembro 19, 2013

Para Mariana

Primavera, essa estação exaltável.
Que venham os ipês abarrotados, que as flores se abram.
Adeus, inverno, mesmo que ele não exista de fato.
Não há frio nessa (minha) irônica Belo Horizonte.
As pessoas cantam Tim Maia e Los Hermanos.
Acreditam que agora vai.
Vai?
Um estranho te oferecer flores é propaganda dos anos 80, com violinos de Vivaldi.

Quando vem a primavera, penso nela, com seus cabelos da cor de girassol.
Lembro-me com exatidão do sonho que tive na véspera de sua partida.
Estávamos de branco, num jardim.
Não sou de usar branco, mas era ocasião de despedida.
A única possível.
Na vida real, eu torcia por sinais naquele quarto de hospital. 

Mas ela se foi no outono, pouco antes do meu aniversário.
E quando chega a primavera, a saudade dá aquela espetadinha no meu coração.
Lá se vão três anos.
Saudade sem chance, por hora, de acabar.
Honestamente, nem sei se um dia irei para o mesmo lugar.
Pois o dela é, por demais, especial.

Não esperei o dia 23 dessa vez. 
Queria essa hora estar planejando uma festa de arromba, como fazíamos.
Éramos jovens, seríamos para sempre.
Dançaríamos Bowie.
Olharíamos nos olhos da outra na hora do brinde para não cair na maldição dos sete anos sem...
Trocaríamos livros, confidências, e-mails e mensagens.
Combinaríamos, enfim, aquela viagem para Paris que eu não pude - até hoje - fazer.

Toda primavera, penso nela.
Penso em mim.
Penso em seguir.
Penso em florir.






domingo, setembro 15, 2013

Maria

Prólogo: Resolvi contar a história de Maria por aqui depois de ler o resultado da pesquisa do Think Olga. O site foi idealizado pela Juliana De Faria, com quem trabalhei no Jornal da Tarde, em São Paulo. A Ju era estagiária naqueles tempos, mas meu faro certeiro sempre deu conta de que ela viraria uma grande profissional. E foi o que aconteceu.

Maria autorizou que eu publicasse aqui o porquê de ela não querer saber de fiu fiu quando anda pelas ruas. Eu sou como Maria. Imagino que a maioria das mulheres seja.

A história.

Maria tinha medo de andar nas ruas à noite. Também não gostava de passar por becos ou lugares sombrios. Não era medo de assalto. Ela teria esse medo se morasse numa cidadezinha de poucos habitantes, pois entre eles estariam os homens.

Maria tinha 12 anos quando aconteceu pela primeira vez. Ela estava deitada na sala de televisão assistindo a desenhos. Fazia calor, ela usava um vestido curto. Como parte da geração "meu primeiro sutiã" da Valisére, ela mal tinha peito, no entanto, usava seu modelo branco que a mãe lhe deu de presente, a exemplo de todas as meninas da classe. 

Achou estranho o barulho que vinha da casa ao lado, uma oficina. Resolveu olhar da janela. Saiu correndo ao perceber que o mecânico que sempre a olhava de um jeito estranho quando passava pelas ruas estava de calças arriadas. 

Ficou quieta o dia inteiro. Quis contar para a empregada, para os pais. Os dias se passaram. Ela dava a volta no quarteirão para entrar em casa, evitando passar na porta da tal oficina. Via desenhos com as cortinas fechadas. 

Por anos, apagou aquela imagem de sua memória. Achou que um episódio assim, jamais se repetiria.

Maria completou 16 anos. Gostava de futebol, ia ao estádio com o pai. Vestia-se como um garoto às ocasiões: calça jeans, tênis e a camiseta do clube. Mesmo assim, ao passar no meio da multidão, sentiu uma mão apertando sua bunda com força. O homem desapareceu. Ainda que dessa vez tenha contado para o pai, foi inútil.

Parou de ir ao campo.

Maria passou no vestibular. Não se aguentava de felicidade. O curso era noturno. A mãe achava perigoso ela voltar sozinha de ônibus. O pai argumentava que, em algum momento, ela teria que enfrentar os perigos da vida. Como não havia celular naqueles tempos, o combinado era que se alguma aula se prolongasse, ela deveria ligar para o pai buscá-la.

Rapidamente, Maria arrumou uma turma de amigos que pegava a mesma condução. Mas foi justamente no dia em que Renato faltou que ela correu desesperada pelas ruas do bairro. 

Eram onze horas. Desceu do ônibus e seguiu pela parte iluminada da rua. Andaria três quarteirões apenas. Foi quando ouviu passos atrás. Olhou de relance, acelerou o movimento. O sujeito, então, começou a chamá-la de gostosa, descrever tudo o que faria com ela assim que lhe arrancasse a roupa.

Correu, correu como nunca. Imaginou tantas coisas, como uma bala lhe atravessando as costelas. Na porta do prédio, não achava as chaves. Chorou, jogou tudo que havia na mochila no chão. Entrou em casa, contou para a mãe. Ligou para o pai, que já não morava com elas.

Nas semanas que se seguiram, o pai a esperava no ponto de ônibus. Era horrível, mas era bom conversar com ele, contar como foi o dia, assim como era quando era criança.

Maria mudou-se, arrumou uma carona que a deixava na porta de casa.

Ela já havia se formado quando aconteceu pela última vez. Era uma festa fora da cidade, todos riam e bebiam. Fernando se aproximou. Não era bonito, mas tinha algo de atraente que não sabia explicar. Conversaram a noite inteira, começaram a se beijar. Maria estava exausta, embriagada e disse a ele que retornaria à pousada. Fernando fez questão de acompanhá-la. Foram de mãos dadas. 

Na despedida, ele disse que queria ficar um pouco mais, insistiu para que ela fosse até o quarto dele. Não que Maria fosse bobinha e inexperiente. Um lado dela até pensou em não resistir ao charme de Fernando.

Quis que aquele beijo prolongado fosse a despedida. Subitamente, ele segurou forte em sua cintura, foi a empurrando para um cômodo vazio. Maria pediu que Fernando parasse, queria ir embora.

Percebeu que ele ficou agressivo e tentava rasgar sua calcinha. Não tinha forças, estava apavorada. Foi quando veio o grito "socorro" uma, duas vezes bem baixinho, tão baixo que nem ele ouviu. Na terceira, o tom era grave. Ouviram um barulho no corredor. Fernando a soltou e disse: você queria, só estava fazendo charme.

Não dormiu. Passou a madrugada observando a porta, imaginando que ele voltaria, que conseguiria o que não conseguiu.

Quando amanheceu, ficou mais de uma hora no chuveiro. Percebeu hematomas nas coxas. 

Sentia pavor, nojo e culpa: por que ele achava que ela queria, quando disse na festa que iria embora?

Encontrou com Fernando no café da manhã, que a chamou de gatinha. 

Não conseguiu comer.

Vomitou quando foi buscar sua mala no quarto. Vomitou até sangrar.

Contou para Daniela, a amiga que chegara na sequência, após uma madrugada animada em outro quarto. 

Dani perguntou se Maria queria registrar queixa. Maria não sabia se tentativa era crime. Desde que colocou o maldito primeiro sutiã, foram várias tentativas. Essa, de longe, a mais terrível.

De volta à cidade, ela que nem tinha religião, entrou numa igreja. 

Rezou e caiu em lágrimas.

domingo, setembro 08, 2013

Arrumação

Lavar as mantas e edredons. Guardá-los. Parece simples, não para mim. Pensar na ausência de noites frias me dá uma certa melancolia. Vem a primavera, o horário de verão, o verão, o calor e a chuva. O frio ficou quase nada. E desde o último dia quente há coisas não resolvidas. Papéis, sempre eles. Livros espalhados, outros não lidos. As gravuras à espera de moldura, o sofá pedindo reparo, a consulta médica que eu não agendei.

Pode pedir tempo? Pode pedir altas?

Estranho que ouvi outro dia esse pedido de altas, e concedi. Eu beijava um cara no cantinho de um inferninho, mas ele achou por demais intenso, o que para mim não era nada demais. Pediu o telefone, mandou mensagem de madrugada, de manhã, disse que estava apaixonado, que queria me levar ao cinema. Evidentemente, me assustei porque nossas urgências eram bem distintas. Visualizei o facão, a cena de "Psicose". No entanto, nem tive tempo de cultivar essa neurose, pois ele sumiu na mesma rapidez que apareceu. Não me importei. Um beijo é só um beijo...as times goes by.

Na vida que segue, enfim, depois de mais de um mês coloquei as músicas no iPod. Eu as perdi em agosto, andei por aí sem trilhas. Ouvia o funk dos carros tunados que subiam a Serra, as conversas das pessoas no celular, a seleção da rádio que o taxista escolheu. Imaginei que seria mais sofrido, pois para mim tudo é melhor quando estou com fones de ouvido.

Pintei o cabelo, manchei o tapete do banheiro de vermelho, encontrei cds perdidos, tomei meu café com açúcar em mais essa dança sem par.

Semana que vem eu como menos carboidratos, vou mais ao cinema, faço a unha no salão, arrumo uma diarista e ligo para a agência de viagem.

Estou amarrando esses lacinhos-lembretes invisíveis nos dedos, sempre nessa eterna arrumação.

segunda-feira, setembro 02, 2013

No último domingo...

Comédias românticas pós-Balzac

Após ser beijada, o que acontece com Josie Geller? O casamento de Matt e Jenna é feliz? Janine, após a separação, está namorando? Os personagens citados de comédias românticas de Hollywood – “Nunca Fui Beijada”, “De repente 30” e “Ele não Está Tão A Fim de Você” – estiveram comigo na casa dos vinte e dos trinta.

Uma vez alcançada a marca dos trinta e tantos, passei a não identificar meus dilemas amorosos com o que via na telona de modo tão recorrente. Eu tinha essa curiosidade de saber o que vinha depois, o ponto exato de quem já sentiu o frio na barriga, namorou, usou um vestido de noiva bordado com corações e, um belo dia, desfez a casa, disse adeus, voltando a marcar a opção “solteira” nos formulários de hotéis.

Em qual trama eu estaria? O cinema sempre ajudou a entender a minha própria vida – e sim, faço terapia para ir a fundo, que isso não seja uma preocupação – e sentia que ele congelou na casa dos “vinte-trinta”. Os pré-quarentões, quarentões e cinquentões estariam por onde nas tramas?

O que me faltava, admito, era um pouquinho de pesquisa, pois não desisti da comédia romântica – me desculpe, caro leitor, se você não gosta de doses generosas de açúcar, mas a vida dá muito limão tanto quanto o excesso de caipirinha causa ressaca no dia seguinte – e comecei a prestar mais atenção em filmes franceses, especialmente que não focassem na turma recém-formada da faculdade, cheia de ilusões e com nenhuma ruguinha no rosto.

O que era doce deixou de ser melado. Não se perde, porém, a ternura. Como sabiamente poetizou Drummond, “o primeiro amor passou, o segundo amor passou, o terceiro amor passou, mas o coração continua”. Vieram sessões solitárias com pipocas e lencinhos de papel para ver “Românticos Anônimos” e “Paris- Manhattan”, ambos franceses. De maneiras muito distintas, mostram que é preciso vencer resistências (apaixonar-se novamente ou simplesmente apaixonar-se) e aceitar o outro com uma bagagem que inclui até mesmo pequenas obsessões e loucurinhas.

Eis que nessa semana entrou em cartaz no cinema o ótimo “A Sorte em Suas Mãos”, do argentino Daniel Burman (“O Abraço Partido”), estrelado pelo cantor uruguaio Jorge Drexler. Separado, com dois filhos, Uriel (Drexler) reencontra uma antiga ficante dos tempos de faculdade, Gloria (Valeria Bertuccelli). O termo ficante aqui é apropriado, pois o fato de ele nunca ter pegado a mão dela ou ligado no dia seguinte ajudou o desencontro do passado (as mulheres gostam disso em qualquer idade, e em qualquer cultura).

O fundamental no longa, vale ressaltar, é a relação que ambos querem construir, apesar de tantas complicações. Dessas que a gente vai criando e desatando, relação após relação, com intervalos de desilusão intercalados com aquele otimismo romântico incorrigível. Por isso, no fim, o que queremos é que tudo fique leve, com sorriso e beijo na boca no final, assim como acontece no cinema.

sábado, agosto 24, 2013

Videotape*

É uma imagem bonita, já usaram até em videoclipe: o passado revisto produzido em Super-8.
Pois eu andava na manhã fria fugindo de marquises para que o sol me alcançasse.
Veio o filminho na cabeça, a menina de 13 anos no pátio da escola observando os outros correndo.
Eventualmente, seu olhar se fixava na colega mais bonita da sala rodeada de amigas.
E os meninos passavam por ela com cara de idiotas.

Ela gritava por dentro, eram tantas coisas inquietantes e urgentes:
a prova de matemática,
o garoto de cabelo comprido daquela pequena ruazinha do Prado,
pedir para os pais dinheiro para com as amigas sair no fim de semana,
não ter que dividir o quarto com a irmã,
querer passar a tarde ouvindo Faith no More...

Veio a sombra inevitável, o bom dia do porteiro, o celular tocando.
A menina foi embora.
Mais uma memória fragmentada, um cinema mudo.
Não me lembro de como era a minha voz.

*Esse post tem a trilha sonora da música homônima do Radiohead


sexta-feira, agosto 16, 2013

Quando estávamos offline

Há dias venho sofrendo pelo inbox que não vem. Sim, a mensagem foi visualizada, sei a hora exata. E nada de 17h, 21h ou 23h30. Foi algo como 19h47, essa coisa fragmentada.

O mundo era um lugar melhor quando a gente beijava o menino e ele ligava no dia seguinte. No meu caso, mais ou menos. Nós dificilmente nos encontrávamos. Eram horas de vigília no telefone e o pensamento constante: Será que deu pane na Telemig? Então, eu ia fazer qualquer coisa, ia escrever, viver, me refugiar numa banca de revistas para comprar meu exemplar da Luluzinha da semana. Quando voltava, a empregada dizia com desdém que um tal de Leonardo havia telefonado. Quer dizer: ela não se lembraria do nome com exatidão porque o arroz estava queimando quando o infeliz interrompeu sua rotina. Poderia ser Ricardo ou Bernardo... O tal de Leonardo, antigamente, poderia ainda ter o azar de se deparar com meu pai do outro lado da linha, que iria tratá-lo mal e não daria o recado. Minha irmãzinha também, ao pegar o telefone, balbuciaria o dialeto do bebê e dá-lhe "desista, ela não vai te atender".

O bom é que esse cara existiu um dia e não se deu por vencido. Hoje, ele não está na rede de amizades do Facebook, definitivamente. Pode estar casado, com filhos ou morar em Londres e você junto com  aqueles tempos ordinários de colégio serão uma vaga lembrança, mas tudo bem. Se o Leonardo atravessasse as décadas e me adicionasse, não ficaria no curtir ou cutucar. Ele não seria o tipo de fazer suspense no inbox, não postaria indiretas, não demoraria meses para chegar a qualquer finalmente. Mesmo porque ele foi o garoto que, nos primeiros acordes aquela música brega do A-Ha, te tirou para dançar. Os outros apenas olhavam quando o menino desajeitado passou a mão na minha cintura. E todos comentaram quando não nos desgrudamos no cantinho da sala.

Saudade dele, saudade imensa. De tudo que é palpável e possível. De menos musiquinhas, poeminhas, emoticons, coraçõezinhos e mais "te encontro no pátio durante a aula de religião". Não sei nada da bíblia por conta dele, admito. Pior: não me fez falta...mas sei beijar, gosto de beijar, aprendi com ele. E de dançar, de pisar no pé dele, de saber que ali não tinha joguinho, não tinha "o que minhas amigas iriam pensar" porque, sim, elas pensavam e eu não dava a mínima. 

Os olhos dele brilhavam ao me ver naquele uniforme azul  horrível que parecia um pijama. A gente fazia provas em dupla de história. Eu, na verdade, porque ele nem era de estudar. E teve o dia em que combinamos de ir ao cinema juntos, aquela mentira pros nossos pais, numa tarde de quarta: "Vou estudar na casa da Flávia". E foi assim que ele me deu a mão na sessão de "Ghost" e me perguntou - para o desespero do meu coração que saía pela boca - se eu não queria ser sua namorada.

Eu não sei como tudo evaporou, como ele sumiu, como a faculdade chegou e os anos se passaram. Não sei como outros amores surgiram e partiram...eu sei que ele ficou nessa saudade, memória ou invenção.

Porque ele teria me respondido no Facebook, no Twitter. Teria postado comentários no blog. O que são esses míseros caracteres para um moleque de 13 anos que virou uma batida de côco só para chegar perto de mim na frente de toda a sétima série? Pois eu digo com muita propriedade, os homens hoje estão muito bobos e não são páreo para o Léo e seu beijo metálico com sabor de ice kiss.




quarta-feira, julho 31, 2013

O diagnóstico

Não sou médica, nem farmacêutica. Não poderia prescrever uma receita, ou dar uma dica para Carolina, dessas tiradas de uma das várias gavetas da prateleira de remédios. Talvez, ao revelar sua história, estivesse ainda quebrando uma situação de confidencialidade. Mas veja bem, meu caro leitor, minha cara leitora, não se trata de pedir um palpite por aqui. O que se passou com Carolina é apenas desencontro, mais um dos vários que me contam, ou que me acometem. Eu conversava com um amigo sobre isso, tomando um café. Foi no dia em que resolvi parar de usar adoçante e adotar o açúcar, mas essa fica para outra crônica.

Carolina atravessou uma fase de seca, que durou meses. Não tinha repertório quando amigos íntimos contavam, na mesa do bar, suas peripécias sexuais. Por vezes, ficava enfastiada daquele cenário "Sex and the City", do estresse do vestido justo, de dizer a coisa certa, na hora certa, aquele roteiro fictício que não funciona na vida real. Começou a exercitar seu lado outsider, sair com outra turma.

É aí que que entro na história. Foi numa terça, esses dias-nada. Carolina vestia jeans e camiseta. Ríamos de suas besteiras num buteco copo-sujo. Flávio, um conhecido meu, apareceu e se juntou à mesa. Encantaram-se um pelo outro. Era visível. 

(Sei lá o porquê ele pediu para mim o telefone dela no dia seguinte. Deixei minha parte da conta, saí sutilmente, justamente para não interferir)

E lá se foram três semanas até eu receber as primeiras notícias. Pode ser normal no caso dos dois gêneros, porém, entre as mulheres é mais comum o desaparecimento parcial ou completo da vida dos amigos após uma paixonite aguda. Se ela acha que vai dar namoro então...Nessa toada, já tive amigas que quase espalhei cartaz de "procura-se" nos postes.

Nas primeiras informações, via redes sociais, o mundo de Carolina e Flávio enjoava de tão doce. Até então, sem contra-indicações. No instagram, ela exibia sorrisos-prozac, o twitter só conhecia doses cavalares de poesia. O termômetro indicava febre alta.

Como os encontros, acredito que os desencontros também podem acontecer sem mais nem menos. Ela me ligou querendo conversar, precisava de um diagnóstico sentimental. Eu que não sou psicóloga, terapeuta e arrumei birra com o Lacan,  fiquei com um pouco de preguiça, mas fui.

Carolina encheu a casa de velas aromáticas, despachou Ana, sua roomate, para casa dos pais no interior. Comprou uma calcinha rendada, só que seus planos caíram por terra. Flávio chegou ao encontro com quase duas horas de atraso, depois de uma reunião de trabalho, e quis dormir. Ela tomou sozinha o espumante. Esperou pelo sono frustrada, pensou em provocá-lo, desistiu. Devia estar cansado, não era disso. No dia seguinte, ele partiu cedo. Não quis acordá-la, mandou um SMS bonitinho.

Interrompi dizendo que não entendia o motivo da minha consultoria.

(Fazia frio e eu, para variar,  estava sem casaco. Arrumaria uma gripe e dá-lhe resfenol, vick, naldecon...)

O fato é que, a partir daquele momento, uma rotina se estabeleceu. Toda abordagem dela seria mal-sucedida. Flávio, sempre educado, dava um beijo no rosto de Carolina antes de virar para o canto e repetia variações sobre o mesmo tema: estou cansado, me deu uma dor de cabeça, hoje não.

Nesse ciclo, lá se foram garrafas de vinho, espumante, cervejas especiais para agradar Flávio e shots de tequila para agarrá-lo de supetão e...nada. 

A questão é que Carolina não sabia mais o que fazer. O terapeuta - aquele que é pago para isso, não eu - falou que não havia nada de mais com toda aquela empolgação dela, havia muita energia acumulada mesmo, porém, aconselhou cautela e prescreveu um ansiolítico. Quanto a Flávio, podia ser uma fase, deviam conversar. O caso é que não eram tecnicamente namorados, de modo que  parou de pedir opiniões, sabe?

(Então, o que eu estava fazendo ali?)

O problema é que ela o desejava, e ele dormia. Ele era encantador, apesar de um tanto fanático por futebol (e sobre esse quesito, eu havia alertado), lia ótimos livros, gostava de bichos de estimação, tinha um beagle lindo e tudo mais. 

(Entendi...tu te tornas eternamente responsável por aquele que apresentas!)

Carolina subia pelas paredes a cada recusa. Na noite de drinks com as garotas, aquela turma chata que se acha habitante de uma ilha em Nova York, ela decidiu ligar para Flávio, dizer umas sacanagens. Nada contra, no entanto, pensei imediatamente que isso seria sugestão da amiga patricinha, a leitora de "50 Tons de Cinza". Caiu na caixa postal. 

Acordou péssima, ao mesmo tempo, desejando a fórmula mágica do amor, a que nem o Leo Jaime encontrou dos anos 80 pra cá. Passou o dia a base de sonrisal, engov e jejum, uma que Flávio não deu sinal de vida.

Eu me arrisquei no parecer: Carolina, contra o homem-neosaldina, do tipo que dá dor de cabeça (ou, vá lá, tenha) por qualquer motivo só há uma saída: evite! 

Ela, como de costume nesses casos, parecia pouco convencida. Coisas da superdosagem.




domingo, julho 28, 2013

O dia d*

Não foi exatamente quando disse que não dava mais para seguirem de mãos dadas. Tão pouco na manhã fria em que fez as malas.
Não foi exatamente quando fechou a porta, segurando as lágrimas insistentes.
Tampouco naquela tarde no cinema em que, às vezes, percebia a moça sentada à sua frente encostando a cabeça no ombro do rapaz.
Não foi exatamente quando inventou de entrar no shopping cheio, sem rumo. Detestava shoppings, achava triste tomar um chope na praça de alimentação. Chope é bebida para beira-mar.
Tampouco quando se deu conta de que um ano havia passado. Todos diziam “eu te amo”, mas isso estava mais para filme de Woody Allen.
Foi quando o despertador não tocou. O despertador, esse inimigo. Sintomático da correria cotidiana, do café forte bebido às pressas, que habitualmente lhe queimava a língua, do passar o olho na manchete do jornal e só.
O despertador não tocou. Não foi programado. Talvez para que houvesse aquele momento exato.
Às dez da manhã era possível escutar um bem-te-vi cantando na vizinhança, e isso dava uma angústia esquisita.
Era um dia qualquer.
Não era um dia qualquer.
Haveria tempo de tomar café da manhã em Plutão, em frente à Tiffany’s. Seria possível ler até os classificados, se assim desejasse.
E nessa extensa lista entrariam possibilidades como: passar o dia de pijama, o dia vendo televisão, o dia comendo chocolate, o dia arrumando o armário, o dia encontrando as velhas cartas de amor naquela caixa escondida.
Eram dez e quinze da manhã. Cada minuto iria se arrastar silenciosamente. O bem-te-vi ainda cantava.
Em algum momento, seria meio-dia.
E de que serviria o meio-dia? Não serviria canapés como entrada ou mesmo um brinde: “saúde, à nossa!”.
Não serviria para ser uma máquina do tempo capaz de levar à casa dos avós que não estão mais por aqui.
Serviria um almoço congelado, requentado no micro-ondas. Almoço com gosto de plástico.
Era o ponto em que a solidão rasgava, com exatidão.
Não há nada comparável à mesa para um no domingo. Por isso, seria inútil sair de casa. Melhor engolir aquele molho-cor de-rosa com pelotas de não sei o quê.
O telefone seguiria mudo, a caixa de e-mail só traria promoções imperdíveis. Vontade de comprar passagem apenas de ida para Paris, Montevidéu ou Nepal.
Restava esperar o fim da tarde sem bem-te-vi cantando, às seis em ponto, o sino da igreja, o sol indo embora, a noite chegando e o barulho vindo da casa do vizinho que assiste ao seu programa preferido em volume acima do tolerável.
Restava esperar uma madrugada sem insônia: uma irônica torcida pela segunda-feira.
*Minha crônica no Pandora deste domingo


segunda-feira, julho 15, 2013

Eu Não Sei Dançar Tão Devagar

Eu não tenho discos da Marina Lima. Mas ela tem músicas que me desconcertam e me definem de modo que prefiro nem admitir. Prefiro nem admitir porque são anos de terapia para resolver certas questões. Da antroposofia ao desastre da lacaniana até chegar na homeopatia. E, sim, estou há uma semana sem glóbulos da minha Ignatia Amara porque não tive tempo de mandar manipular.

Quando a Marina canta "às vezes eu quero demais, e eu nunca sei e eu mereço", me sinto na segunda voz desse refrão. Não no fiapo de voz que restou a ela, e sim da voz dos anos 90, da gravação original, porque ainda há algo de vigor em mim que não está na versão acústica.

Entrevistei Marina quando ela mal podia falar. Saí do Othon Palace devastada. Era um dia quente, no entanto ela estava agasalhada. Diante da minha visível consternação, a assessora me chamou no canto e disse: "você sabe, ela passou por uma depressão severa". Àquela altura, eu nem fazia cálculo do que era isso. A tarja preta ainda não havia me dado uma mãozinha para levantar da cama, trabalhar, viver os dias.

Agradeci o convite de assistir ao show no Palácio das Artes. Um amigo foi e me disse que chorou do começo ao fim. Por tudo. Pela Marina, pelo fim da voz da Marina, por ele, pela nossa existência de merda. Imagino o que tenha sido. Quando ouço "Eu Não Sei Dançar" sinto um monte de coisas. A diferença é que o que eu posso dar é solidão com vista para montanha. E o mar é mais bonito. Talvez, por isso, ninguém queira esse meu presente...

Eu ouvi a Marina, pela primeira vez na vida, sem o Lima. Extremamente solar, chamando o verão e o calor no coração. Essa não me pegou. Foi a Marina do "Virgem", das "coisas não precisam de você. Quem disse que eu tinha que precisar?" que me me obrigou a ir ao hotel com o nome dela para tomar um drink e riscar o amor temporariamente.

Eu risco o amor temporariamente. "Meus olhos se escondem onde explodem paixões".

C' est la vie.


sábado, julho 06, 2013

Na fotografia estamos felizes

Antes as lembranças que transcendiam a memória ficavam restritas a caixas. Na caixa de fotografia, eu apareço bebê no colo da minha mãe, filando sorrateiramente uma cerveja quando ainda era criança, chorando na minha própria festa de aniversário. Tenho fotos com quem se foi: meus avós, meu pai, meus tios e minha grande amiga. Tenho fotos com quem está aqui, mas não mais em minha vida. Eu acesso esse arquivo eventualmente. Do mesmo modo, as caixas de cartas. Divido-as em duas. Numa delas jazem os ex-amores, seus poemas, bilhetinhos, cartões postais, e até e-mails impressos. Ela é a caixa-preta raramente vasculhada, pois histórias findas, mesmo que um dia lindas, me entristecem.

Hoje, enquanto eu respondia um comentário sobre uma postagem de três anos atrás, fiquei intrigada. Minhas lembranças não são mais preservadas nas memórias e em caixas apenas. Posso tentar viver analogicamente, apagar esses históricos? Talvez não. Até pouquíssimo tempo, eu não tinha noção de quem me visitava por aqui. Então, desenvolveram ferramentas que me mostram visualizações até do leste europeu. Diariamente, alguém vasculha essa caixa de Pandora que atende por Ludj. Vou publicando e me esquecendo. No entanto, fico sabendo que leram sobre aquela solidão que eu senti num domingo à tarde de 2006, quando morava em São Paulo. Nessa semana, acessaram o álbum do meu casamento que já acabou. São populares os textos que remetem às poucas vezes em que achei que iria me apaixonar. A palavra "amor" é dos tópicos mais espiados neste blog. Sinto-me imbuída a mencioná-la, ainda que ficcionalmente.

Vou percebendo outras caixas abertas e criadas pela era digital. São intervenções no meu mural do Facebook, por exemplo: desde o carinho da amiga, que não vejo desde a faculdade, em forma de uma foto do antigo colégio à incômoda curtida, mensagem inbox e afins de um cara que apenas vagueia virtualmente em minha vida, após um breve histórico de três encontros, seguido do desaparecimento dele do meu mundo real. E sim, sou do time da Lia Bock ("Não me quer? Acha que eu estou indo rápido demais? Que não é o momento? Então não fica curtindo minhas fotos no Instagram! Não fica retuitando o que eu digo nem me mandando carinha sorridente no gtalk! Se não tá a fim de levar o pacote todo pra casa, me deixa esquecer, por favor! Esquecer que você existe, esquecer que você não me quis e, pior, que ficou sem graça por isso"). Acho que certas pessoas simplesmente devem ser coerentes com suas escolhas. Tenho a elegância de não blindar o que publico com bloqueios de qualquer tipo, porém deixo de ler feeds, pois nos tempos analógicos, quando uma tentativa de romance não ia para frente, os fantasmas se divertiam em outras bandas... Eu realmente sigo o refrão: "o que passou, passou daqui pra melhor. Foi. Só quero saber do que pode dar certo".

Se eu deixar de lado as fotos instantâneas, o check-in do Foursquare, parar de escrever aqui, ali, acolá, quantas caixas me restarão? Isso é só uma questão.






segunda-feira, junho 24, 2013

No Pandora de domingo

Minha coluna mensal...

Não é só por vinte centavos

Por mais que eu quisesse – e não quero– pensar em outros temas, as manifestações que acontecem em todo o país nas últimas duas semanas me tornaram uma pessoa monotemática nesses dias. Outra razão para eu não me esquivar, é que vejo esse espaço no Pandora como muito oportuno para falar sobre mudanças comportamentais e reivindicações consistentes.

A moda, por exemplo, sempre teve um papel fundamental em transformações porque é, em sua essência, agregadora e democrática. Criadores, muitos deles enquadrados nas minorias, como as mulheres e os homossexuais, fazem mais do que eleger o amarelo a cor da estação. É verdade que os negros precisam de maior representatividade nas passarelas do Brasil, mas as lutas que valem a pena são assim, constantes.

Só para ficar em estilistas, pense na visionária Coco Chanel, no pioneiro Christian Dior, no ousado Mark Jacobs, na guerreira Zuzu Angel, no questionador Ronaldo Fraga. Todos eles desde sempre reuniram ingredientes essenciais à legitimidade de um discurso com motivações bem embasadas. Ontem e hoje eles se depararam com uma série de adversidades: convenções sociais a serem quebradas, conservadorismo e aquela turma que tem “a velha opinião formada sobre tudo”, como cantou Raulzito.

Eu passei dias tentando entender a amplitude do grito nas ruas, nas redes sociais e li diversas análises sobre o momento – duas delas bastante pertinentes, a dos meus colegas Silvana Mascagna e Murilo Rocha. Se ainda não leu, acesse O Tempo Online. Mas, fundamentalmente, estive em várias discussões. Algumas quentíssimas, pois ainda me assustam ideias reacionárias, apologia à violência e qualquer coisa que não seja o diálogo.

Sou filha de pais que participaram de diversos movimentos libertários e, eventualmente, me frustrava por ser menos engajada do que poderia. É verdade que pintei a cara de verde e amarelo quando era adolescente pedindo o impeachment do Collor, também marchei contra a devastação da floresta amazônica, além de outras causas políticas e ambientais.

No entanto, como muitos da minha geração, estava me sentindo inerte nesse hiato: por que não gritava mais? Afinal, o bolo da indignação é feito de diversas cerejas no topo. Exatamente por isso, é preciso que as pautas dos manifestantes sejam mais focadas e, assim, serão passíveis de mudanças, do país que queremos.

“Não é só por vinte centavos”. E foi importante observar as ruas ocupadas por pessoas de diferentes gerações no início. Sim, temos mais a cobrar dos nossos governantes, da Comissão dos Direitos Humanos e de nós mesmos nesse momento tão singular quanto global. Como bem aponta o crítico político Noam Chomsky, “as pessoas estão indo às ruas para defender bens comuns, aqueles que são compartilhados dentro das sociedades”.

Sigamos lutando contra injustiças, especialmente as sociais, mas devemos estar abertos ao debate, precisamos ouvir e nos informar bem. A história sempre tem algo a nos ensinar.


sábado, junho 22, 2013

Beijo Abreviado

De todas as abreviações da língua portuguesa utilizadas nas novas tecnologias, certamente a que mais me incomoda é a do beijo.
Tolero o "kd vc?", acho um tanto invasivos certos "posso t add?" e, eventualmente, num sms até utilizo "qq coisa, me liga".
Confesso que não havia pensado nisso até ele me mandar um "bj".
Não quero "bj" dele.
Quero beijo, BEIJO.
Do tamanho de "pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico", a maior palavra registrada na minha língua pátria.
Mas sendo essa palavra esquisita, ficaria com algo mágico, cinematográfico...um beijo assim "supercalifragilisticexpialidocious".
Ai, moço lindo, por que não para de abreviar o que não se pode?




sábado, junho 15, 2013

Sobre as memórias que se deixam no outro

O dia em que Lucas olhou para Ana, no meio daquela turma, na mesa de um bar, e ela ficou sem jeito.
O dia em que Lucas um elogio, que deixou as bochechas de Ana queimando e a emudeceu.
O dia em que se beijaram, sem saber quem começou, e sem querer parar.
O dia em Lucas levou Ana para tomar uma cerveja inofensiva e os dois acabaram embaçando os vidros do carro na despedida.
O dia em que Ana subiu até o apartamento de Lucas, e do sofá da sala foram para a cama, para a cozinha, para o chuveiro: o dia em que não dormiram.
O dia em que Ana sugeriu a Lucas que fossem antes àquela livraria do cinema que tanto amavam, e, por acaso, encontraram um amigo dele a quem foi apresentada como namorada. Ana já suspeitava, de modo que encostou a cabeça no ombro de Lucas enquanto o filme passava.
O dia em que Lucas chamou Ana de “minha pequena”. Ela, imediatamente, colocou as mãos na cintura indignada pela insinuação maldosa sobre sua estatura, foi também o dia em que ele desfez esse gesto ao dizer: "vem cá, não vou te largar nunca, minha pequena".
O dia em que Ana e Lucas brigaram feio, e ela quis apagar do calendário enquanto derramava algumas lágrimas ouvindo Cat Power.
O dia em que Lucas enviou um e-mail com umas palavras lindas para Ana, avisando que sentia saudade.
O dia em que Lucas tirou Ana para dançar Chet Baker e ela, meio "funny valentine", rodopiou como criança.
O dia em que Lucas brincou que se tivessem filhos, um deles bem que poderia ser uma menina linda com Ana.
O dia em que Ana levou brigadeiros para Lucas, depois que ele se machucou no jogo de futebol com os amigos.
O dia em que Lucas e Ana mentiram para os amigos e não foram a uma festa chata porque queriam ficar grudados.
O dia em que disseram “eu te amo”.
O dia em que Ana morreu de ciúmes ao conhecer a ex super simpática de Lucas (mas, claro, não admitiu nem para o terapeuta).
O dia em que não comemoraram o dia dos namorados porque tinham seus próprios dias especiais.
O dia em que Lucas deu bolo em Ana porque achava que estavam virando um casal grudento e convencional.
O dia em que Ana disse às amigas que nunca esteve tão feliz na vida.
O dia em que Lucas ficou monossilábico e Ana insistiu em saber: “no que você está pensando?”
O dia em que Ana discutiu a relação (com a parede, é fato).
O dia em que Lucas e Ana foram almoçar sem trocar uma palavra.
O dia em que Ana terminou com Lucas.
O dia em que Lucas não ligou no dia seguinte.
O dia em que Ana chorou no banheiro do trabalho.
O dia em que Lucas admitiu para o amigo que encontrou na livraria que seria melhor não namorar tão cedo, pois tinha muito o que viver.
O dia em que Ana tomou tequila e foi até a casa de Lucas (um dos piores dias).
O dia em que Lucas acordou ao lado de Ana e, finalmente, discursou sobre seu "momento egoísta, o quanto ela era maravilhosa e ele complicado, blá blá blá".
O dia em que Ana quis sumir do mapa.
O dia em que Ana odiou Lucas pela primeira vez.
O dia em que Lucas deixou de ir a um show para não encontrar Ana.
O dia em que Ana esbarrou com Lucas no café - que ela frequentava antes dele - com outra.
Há muitos dias dentro desse dia: o dia em que Lucas soltou a mão de Letícia imediatamente; o dia em que Ana foi indiferente a Lucas; o dia em que Lucas mandou um sms dizendo que foi bom revê-la, que o novo corte de cabelo estava ótimo e que ela ficava mais bonita com a pele queimada de sol; o dia em que Ana achou Lucas um babaca e teve vontade de vomitar; o dia em que Ana não respondeu a mensagem, embora tivesse, no mínimo, umas três opções de resposta, que iam do diplomático “obrigada” a um palavrão bem cabeludo.
O dia em que Ana sonhou com Lucas e eles estavam juntos no Vietnã.
O dia em que Lucas falou para os amigos do futebol que não devia ter deixado Ana ir embora, entretanto, não iria procurá-la porque ela parecia melhor sem ele. Era o que se via no Facebook enfim.
Não houve o dia em que Ana esqueceu Lucas.
Não houve o dia em que Lucas esqueceu Ana.
Ao menos, a título de registro.
Ana se mudou para Londres.
Lucas está saindo com Bárbara.

terça-feira, junho 11, 2013

Dores do Mundo

Eu queria ter o sorriso do Louis Armstrong no refrão de "What a Wonderful World". Ainda que eu veja beleza no meu jardim, nas manhãs de outono, na criancinha que acena para mim na praça, na Alice me acordando com seu miado de soprano, não acho o mundo maravilhoso.

Eu queria ver a morte como um rito de passagem, da mesma maneira que os orientais vêem, agradecer pela vida que eu tive na hora de partir, ir embora sem dor ou demência. Acendo incensos, leio textos budistas, rezo, medito e tento tanta coisa por uma vida melhor, mas não parece ser o suficiente.

E assim, notícias recentes sobre tumores e mortes prematuras, somadas às pequenas e grandes indelicadezas de cada dia vão atravessando meu caminho. Tento ser passarinho...quero voar para bem longe.

sábado, junho 08, 2013

Das manhãs de sábado no salão

O pequeno salão que eu frequento tem as mesmas manicures há meses. Uma é meio mal humorada, mas não arranca um bife. A outra é fofa, porém distraída. Sempre marco com a segunda. Sei que ela gosta de roda de samba e vai todo fim de semana desde que se separou. Cuidando das minhas mãos há tempos, ela acha que eu deveria sair mais para dançar e que não aparento de jeito nenhum ter a idade que tenho. O melhor: ela nunca me mostra o carrinho com esmaltes branquinhos.

No dia do pacote completo (pé, mão, sobrancelha e cabelo), recorro àquela que não é de muita conversa. No entanto, desde abril mais ou menos ela vem puxando papo comigo. Foi num sábado em que estavam as duas, a dona do salão e algumas clientes falando sobre comprar cupons de desconto na internet para uma pernoite no motel e, evidentemente, naquela esperança de que os maridos voltassem a ser namorados, ao menos por uma noite. Como entrei na brincadeira, acho que a conquistei. Não foi complicado matar a charada: há no cantinho uma série de revistas Nova. Mais delas do que Cláudia, Caras ou qualquer outra. Trata-se, portanto, de um salão de mulheres calientes.

Digamos que encontrei o meu lugar, mesmo que eu não leia Nova, com seus truques "infalíveis" para seduzir na cama. Aliás, quando penso em seguir algum conselho do tipo, vem a lembrança da vez em que comprei uma calcinha fluorescente que matou um ex-namorado de rir. Demorou até voltarmos às preliminares. A partir dali, resolvi seguir meus próprios instintos e comprar calcinhas menos esquisitas.

Hoje, em especial, a mulherada estava em polvorosa porque o Dia dos Namorados bate à porta. Luzes, cortes, depilação, unhas francesas. Chegou uma moça com os olhos cheios d'água - sim, mulheres são a espécie mais dramática que existe - implorando uma tintura com escova. A dona do salão, que ia atender só pela manhã, pois veria a filha dançar quadrilha à tarde, bem que tentou ligar para os concorrentes da vizinhança, mas ninguém tinha horário. Aflita, a moça disse que tinha um encontro muito importante. Confesso que se pudesse, cederia minha vez. Entretanto, dei bolo na estética semana passada e minha sobrancelha estava assustadora.

Nada pior do que se dar conta de que esqueceu de marcar o salão da semana, só mesmo quando aquele cara liga exatamente nesse dia convidando para um cinema ou um jantar (já falei do drama lá em cima, porém, em muitas situações me solidarizo, em especial, quando se trata de bad hair day ou de depilação que não está essas coisas). É como a maldição da calcinha bege que está ali, justamente quando você resolve ceder às investidas.

A melhor solução é sempre ter um horário fixo no salão durante as manhãs de sábado. Do contrário, eu não teria papos divertidos, dicas das meninas e, claro, uma garantia contra imprevistos.


sexta-feira, maio 31, 2013

Sobre o querer e a mexerica

Engraçado o Antonio Prata ter escrito essa semana que gostava de goiaba, mas não de comê-las. E que gostava de Alice, mas não de namorá-la por motivos similares à implicância dele com goiabas...

Pois hoje eu pensava em você enquanto comia mexerica.

Você me beijaria com a boca de mexerica? Estabeleceria comigo uma nova versão de "Cotidiano", do Chico? Confesso que eu queria aquele tudo sempre igual. Não há mais lugar para o meu querer na montanha-russa, muito menos trancafiado por meses no meu quarto.

Tenho a sensação de que para você eu sou como Alice. Desconfio até que não goste de mexerica. E eu encolhida nesse frio que eu amo, abrindo os gomos, tirando os caroços. Fico com a boca de mexerica, a mão de mexerica...até meu pijama, outrora com cheirinho de amaciante, exala mexerica.

Sou mesmo a Clementine Tangerine. Diante agora de certezas trazidas pela ausência e, pior, pela indiferença. Apesar de desejar que você nunca tivesse existido, desenvolvi meu próprio brilho eterno de uma mente sem lembranças.

Seguirei esperando alguém que aprecie mexerica.


terça-feira, maio 28, 2013

Antes tarde...

Como saiu justamente no dia das mães, foi aquela correria. Acabei não postando a crônica do mês no Pandora, mas é como reza o ditado.

Para a minha amiga Mary
Elas se encontravam eventualmente, e sempre havia uma cordialidade pairando no ar nesses momentos. Foi quando a morte deixou como herança para minha pequena família pertences que não se doam ou não podem ser jogados fora, como aquele álbum de fotografias da formatura da turma de odontologia da UFMG na década de 80. Mary havia sido colega do meu tio Marco. Nenhum dos dois virou dentista. Minha mãe, por sua vez, diante das lembranças e de tamanha tristeza sorriu ao reconhecê-la naqueles registros longínquos.

Não sei precisar quando os encontros das duas viraram marcados. Só me lembro da alegria da minha mãe dizendo que seria uma das musas inspiradoras da nova coleção de ninguém menos que Mary Design! Por trás da marca que virou praticamente o sobrenome dela – poucos dizem Arantes – e é reconhecida em território nacional pelo bom gosto e pela feminilidade, há uma mulher tão delicada e generosa quanto justamente a perfeita tradução do tema que escolheu para a temporada, certamente atemporal.

A designer selecionou um time de mulheres incomuns para elaborar muito mais que acessórios. Imagino que traduzir personalidades tão distintas em colares, anéis e brincos não deva ter sido tarefa fácil. Digo isso pela minha mãe... Ela viveu fora do Brasil nos anos 70, foi da geração hippie supercolorida, mas adora uns ícones, digamos, góticos (eu e minha irmã, por exemplo, somos chamadas carinhosamente de morceguinhos por ela).
Durante o processo de pesquisa da Mary, acabei ouvindo relatos da minha mãe sobre as afinidades das duas, suas surpresas ao remexer seu baú afetivo, a tarde divertida no ateliê da designer, o café da manhã das musas inspiradoras, a empatia com a turma do estúdio Chá Gelado, que fez uma série de vídeos sobre a coleção. Essa indizível sensação de sentir-se querida acabou por virar um presente não apenas para a minha mãe.

Entrevistei a Mary algumas vezes. Desde o primeiro momento, anos atrás, percebi que fazia parte de um tipo raro. Como se seu talento não fosse suficiente, ela nunca deixou a doçura de lado, ao oferecer um café passado na hora com bolo de laranja, assim que você entra em seu showroom nada impessoal, por exemplo. Particularmente, sempre peço para visitar o jardim dos fundos para observar detalhes, como a plaquinha com uma frase de Rubem Alves na parede.

Por causa da sensibilidade de Mary, que mostrou a um punhado de gente um pouquinho da mulher maravilhosa que é minha mãe, agora ela me parece mais uma amiga de longa data que uma fonte para reportagem. Sei que com amigos a gente não fica cheio de dedos e formalidades, mas eu não consegui, até o momento, agradecer a ela por todo carinho. E carinho, ainda mais num mundo cada vez mais indiferente, a gente não só agradece como tenta, na medida do possível, retribuir.

Foi assim que minha mãe me ensinou.

sábado, maio 25, 2013

Sobre desejos para o Gênio da Lâmpada

Eu ouço constantemente a mesma música um milhão de vezes.
Eu também tento me livrar das minhas manias irritantes e insanas.
Busco cultivar disciplina e plantas.
Não gosto da maior parte dos meus sonhos quando estou dormindo, porém adoro fazer pactos com pequenas alegrias de olhos bem abertos.
Tem gente que torce o nariz quando eu digo que sou ariana, me acham briguenta, difícil...
Para ser sincera, não quero que me entendam.
E sobre pouquíssimas pessoas, espero apenas que me abracem.
Eu sou aquela que quer fazer mais algumas tatuagens e suspira quando lê fragmentos de discursos amorosos.
Choro com frequência, rio todo dia.
Larguei a dieta e a malhação, mesmo assim, preciso ajustar minhas roupas.
Torço para que os dias frios permaneçam.
Acendo incensos para purificar o astral.
Se pudesse, viajaria mais, leria mais, beijaria mais, dormiria mais...
Acho que já tive muito do menos até o momento.
Nem precisaria ganhar na loteria.
Meus desejos são tão realizáveis que não hesitaria diante do Gênio da Lâmpada.



segunda-feira, maio 20, 2013

Há alguém

Você não me perguntou, mas percebi sua intenção.
Estranho te conhecer tão bem só agora, e isso nem fazer diferença.
Você insiste sem ao menos me dirigir a palavra.
Eu te digo, sim, há alguém.
Depois que tudo entre nós se findou, e eu fiquei vendo a banda passar tocando coisas de amor (à toa na vida).
Displicentemente, coloquei flores na janela.
Estranhamente eram violetas.
Eu voltei a me alongar, parei de me delongar.
Ele chegou devagar.

Inesperadamente, diria.
Para mim.
Para você.

Há alguém.

Ele não sabe, suponho.
Não me arrisquei a contar.
Pois perco meu tempo imaginando como seria beijá-lo.
Eu gasto minutos nesse pensamento.
Esse pensamento dura horas ao longo do dia.
Porque chego bem pertinho da perfeição.
Quando abro os olhos, não há transito ou deadline que me tirem do sério.

Houve um dia que pensei em você dessa maneira.
E essa sua mania de me cercar, depois de ter me perdido, irrita-me bastante.

Penso nesse alguém na tarde de domingo.
Tomando esse vinho.
Imaginando o que ele acharia do novo livro que comprei.

Há alguém.

E dele, sinais que você não deu.
Como a chance de uma  manhã preguiçosa de sábado ao meu lado, que você evitou.

Porque simplesmente ele quer o mesmo que eu.




quarta-feira, maio 08, 2013

Pure Morning*

Gosto do café expresso. Mais ainda do seu sorriso instantâneo que me acompanha enquanto rodopio pela cozinha com meu ar de sabe-tudo.
Gosto do aroma que invade as nossas manhãs. Mais ainda de você interrompendo minha metodologia no preparo de uma torrada cheia de manteiga. Sim, há uma ciência neste prosaico afazer.
Você concorda, me beijando concorda.
E nós não lemos o jornal nesse dia. Não conseguimos nos importar, por algumas horas, com o mundo que não é o nosso: de sabores quentes, concentrados e doces.
E na nossa mesa há aquelas flores do campo, que você trouxe para mim noite passada.

*com o nome de uma música (Placebo) que me ocorreu, o rascunho num caderninho perdido recém resgatado e a inspiração que bateu no momento


quarta-feira, abril 24, 2013

Dos cadernos de viagem

Olhou-se nua no espelho. Reparou bem na pele branca, trêmula e por dias intocada.
Suspirou
Ligou o chuveiro, mas a água não esquentou.
Sentou-se no meio do box, tampou o rosto com as mãos.  E chorou.
Chorou pelas gotas geladas que escorriam pelo seu corpo.
Chorou porque teria que ligar para um faz-tudo, e não conhecia nenhum.
Chorou porque se viraria com a lâmpada queimada, a rolha emperrada do vinho e até o prego na parede.
Mas lidar com um possível curto-circuito ficou para trás, quando um dia estudou física.

Levantou-se, tomou aquele banho da maneira mais rápida que conseguiu.
Enxugou tudo, ainda que as lágrimas resistissem.

Colocou um roupão, foi até a cozinha preparar um café.

Remoendo o frio e a dor pensou que antes dele acreditava no amor.
Acreditava até mesmo na astrologia.
Acreditava naquelas promessas ditas no carro, durante a última viagem.
Era um sábado para se acreditar em céus avermelhados.
Era um tempo de tirar da caixa escondida tudo aquilo que, por algum motivo desacreditou, para acreditar de novo.

Agora acredita no que é concreto, palpável, real.
Acredita que fará calor em outubro, que esta é uma segunda-feira típica, que o engarrafamento vai atrasá-la em no mínimo 40 minutos, que vai passar o sábado à noite sozinha.
Talvez vá àquela nova sala de cinema.
Quem sabe marque uma viagem para a Turquia.

Bebe o café devagar.

Vai até o quarto e não encontra nada ao abrir o armário.
Escolhe qualquer combinação capaz de deixá-la invisível.

Decide chamar um táxi.
E no meio do trajeto parado, escreve esse texto na agenda.





sábado, abril 13, 2013

Seletividade

Um dia esse momento iria chegar. Trocar a falsa sensação de um milhão de amigos pelos poucos e bons, a pista cheia e barulhenta pela música do vento que bate à minha janela enquanto leio um bom livro, o salto pela sapatilha, a cantada de quinta pela voz do Sinatra ou aquele poema do Leminski, qualquer guloseima por um lindt, assim por diante.

Ando eliminando certos convívios nocivos faz tempo. E hoje estava pensando que, por coincidência, eram pessoas de mesmo nome. Algo como evitar laços fraternos com Danielas ou afetivos com Leandros - não se chamam assim, mas manter a identidade secreta faz parte de evitar explicações que vão desde o fatores objetivos, como confiabilidade, e subjetivos, como a preguiça (algumas relações datam, fazer o quê?), àquela mania de tratar como Radiohead quem eventualmente me tratou como Coldplay (a princípio e por princípio, não sei ser indelicada. No entanto, nas minhas veias não corre sangue de barata, e quando percebo determinados condicionamentos meus e dos outros, consigo tranquilamente fazer uma grande viagem de ida sem volta para Blaselândia. Tudo isso, claro, é ação e reação).

Ao mesmo tempo, venho me surpreendendo com a tolerância trazida pelos últimos anos. Outro dia, uma velhinha no salão interferiu na  minha conversa com a manicure. A moça, que eu acabara de conhecer, me perguntou se eu tinha filhos. Eu brinquei: sim, de quatro patas. Imediatamente, e sem que eu pedisse, veio o palpite. Ouvi que as pessoas como eu estavam perdendo os valores de família, trocando crianças por cães. Eu olhei para ela e falei: no meu caso são gatos e se chamam Alice e Serge. Não satisfeita, soltou que gato era traiçoeiro e que achava o fim eu dar nome de gente para bichos. Assim. Eu retruquei que os meus eram extremamente carinhosos. 

A velhinha, então, quis saber se eu era casada. Respondi que não mais. Ela versou, mais uma vez, que os jovens de hoje - gentilmente referindo-se a mim - desprezavam valores essenciais, sendo que essencial naquele momento seria ficar longe de gente intransigente e grosseira como ela. Derepente, o discurso da rainha foi interrompido pelo noticiário na TV. Mudando de assunto, ela comentou algo sobre a boa fase Atlético, aguardando a minha reação.

-  Como a senhora pode supor, sou cruzeirense. 

Honestamente, achei que isso seria motivo para nossa não afinidade acabar por ali. No fundo, estava aliviada por conseguir responder educadamente a tanta bobagem. Foi quando ela conseguiu que eu esboçasse uma cara feia, voltando à estaca zero.

-  Por que você não adota uma criança? 
-  Porque a minha vida está bem assim, ainda que eu ache um ato muito bacana e que deveria ser facilitado pela lei. Tenho muitos amigos gays, por exemplo, que seriam pais ótimos e amorosos e há mesmo muita criança precisando de um lar. O que atrapalha é a "burrocracia" brasileira.

A nem um pouco doce velhinha começou a se transformar numa víbora e eu me lembrei de um texto do Dalai Lama falando sobre a crueldade dos chineses contra os tibetanos... mas peraí, eu não sou o Dalai Lama! Ela bufou que gays nunca dariam ótimos pais, que na bíblia...

Foi quando eu não a deixei continuar. 

- Olha, dona Esther (ou qualquer nome de velhinha, pois o verdadeiro não me recordo agora), é melhor a gente não prosseguir em nossa conversa. Está claro que eu não penso como a senhora, nem sou da maneira da sua geração e por respeito à sua idade, não vou me alterar porque eu não faço a menor distinção entre homossexuais e heterossexuais. O que eu sei da bíblia é a passagem do "amai-vos uns aos outros", dos tempos em que eu era católica,  minha avó era viva e isso faz um bom tempo.  

Ela ficou muda, passou a conversar com a filha da dona do salão sobre o filho dela que era um ótimo partido (fiquei imaginando o tipo). Escolhi um esmalte vermelho "bem alegre" (em outros tempos, teria dito em alto e bom som "bem biscate"), agradeci à manicure e cedi o lugar à velhinha, como costumo fazer. 

No caixa, sem graça, depois de ter assistido àquele festival de inconveniência, a filha da dona do salão me pediu desculpas baixinho.

-A dona Esther é assim mesmo, não leve à mal.

Enquanto passava o cartão, sorri para ela. Observei minhas unhas impecáveis como há muito não ficavam. Questionada se queria marcar na semana seguinte um horário, limitei-me a dizer que ligaria depois. Perder um tratamento de beleza tão bom é sempre triste, especialmente para quem tem cutículas sensíveis, mas não é o fim do mundo. Faz parte da lista de seletividade.

domingo, abril 07, 2013

Crônica do mês no Pandora


Febre de juventude

No último fim de semana, fui a um festival de música que quase sepultou a minha vontade de assistir a um evento do mesmo gênero nesta encarnação, mas o assunto aqui não é sobre a lama do Lollapalooza Brasil, é justamente sobre o que aconteceu antes. Há um provérbio de que gosto muito e se aplica para a ocasião: "O melhor da festa é esperar por ela".

Adoro um ritual pré-show. Ouço a discografia do artista (sim, eu tenho CDs originais), tiro do armário algumas possibilidades de figurino (camiseta preta, camisa xadrez, jeans surrado, All Star) e, como jornalista, procuro ler entrevistas nas quais posso prever o clima da apresentação. Tem sido assim durante anos, desde o primeiro concerto de rock a que fui, ainda criança e acompanhada pelo meu pai, no final dos anos 80.

Se os principais shows que despertam o meu interesse se concentram no eixo Rio-São Paulo-Porto Alegre, é para lá que eu vou (normalmente São Paulo, por ter uma relação afetiva com a cidade). Também antes, faço roteiros de padarias, restaurantes, livrarias e lojinhas para tentar frequentar nas horas vagas.

Foi quando tomar o trivial café da manhã saiu do script. Eu e minha turma - seis pessoas - desistimos da padoca simpática por causa da fila quilométrica. Fomos parar, sob alguns protestos, na Starbucks. Entre cafés servidos em copos enormes, que nem de longe lembram nosso tradicional coado no pano, bagels e algum mau humor matinal, uma amiga brincou com a minha irmã: "Olha o Brandon Flowers ali!", apontando para a entrada do hotel Renaissance.

De repente, bateu a febre de juventude, como no filme de mesmo título em português do Steven Spielberg (um dos meus favoritos do cineasta). Eu propus a ela que atravessássemos a rua para checar. Alarme falso. "Não é o vocalista do The Killers", comentei. Ela retrucou: "E esse cara nem é bonito".

Resolvemos voltar para a cafeteria, porém, fomos interrompidas por um gringo que ia para o mesmo lugar. "Esse cara toca em alguma banda, aposto!", disse. Ela me olhou confirmando, e apertamos o passo.

Rompemos o silêncio do grupo, que começou a acionar nos smartphones imagens do Google que pudessem desvendar aquele mistério. Não era integrante do Franz Ferdinand nem do Kaiser Chiefs. Voltei para a fila dos pedidos a fim de conseguir uma pista. Nada além do cappuccino com muffin.

Sugerimos que alguém pedisse para tirar uma foto com o rapaz, no entanto, ninguém se dispôs a passar o óleo de peroba na cara. "Vai ver ele é um executivo", sugeriu outra amiga. "Claro que não. Só se for muito excêntrico. Gordinho para usar calça skinny e aquele tipo de bota? Só pode ser roqueiro", arrematei.

Horas depois, no famigerado festival, o Two Door Cinema Club subiu ao palco. A turma estava espalhada. O iPhone vibrava enlouquecidamente com as mensagens. Nosso gordinho da Starbucks era o baterista Ben Thompson. Contratado, verdade, um "quase famoso" (para remeter a outro filme). Mas eu sabia, não que viveria uma cena de filme. Apenas que teria uma história para contar.


Ludmila Azevedo é jornalista, pós-graduada em cinema e redatora do Magazine.
Ela divide este espaço com Jack Bianchi, Lobo Pasolini e Mariana Rodrigues

sexta-feira, março 22, 2013

Desaniversário

O ritual de todos os anos foi interrompido naquele chuvoso 4 de abril de 2010.  Talvez antes. Não fazia o menor sentido comemorar, uma vez que mal fazia sentido levantar da cama, trabalhar, ler, correr, insistir em sentimentos que iriam dar lugar a outros menos nobres.

Teve gosto amargo, tarja vermelha, dor na alma, coração partido, e "parabéns para você nesta data querida", seria, no mínimo, uma piada de péssimo gosto. Foi a primeira vez que desaniversariei.

Anos atrás havia uma euforia. Existiu festa surpresa, festa interestadual, banquete no Aurora e uma esperança ingênua que desejou habitar próximos aniversários.

A vida cuidou, naquele 2010, de não deixar o sabor do brigadeiro nem para a manhã seguinte.

Mas eu não quis me desapegar de açúcares e afetos. Insisti. Teimosia ariana, coisa de filha de um outono cada vez mais incomum. Superdosei nos prepartivos no ano seguinte. Afinal, eu sobrevivi (ou achava que sim). Joguei fora os comprimidos que me ajudavam a cumprir compromissos, rotinas e que, ao mesmo tempo, cortavam meu sono e meu tesão. Foi quando veio outra perda, logo quando eu cheguei feliz do almoço com amigos.

Imagine a desconfiança de celebrar o dia 5 de abril em 2012, o ano do fim do mundo que não aconteceu? No entanto, o que haveria mais a se perder? Foi sem estardalhaço e sem bolo porque os rituais foram ficando em algum lugar do passado que, sinto, não consigo recuperar.

Então, eu me olho no espelho e vejo essas marcas na minha testa. Elas me incomodam. Não há creme caro que as remova, não há porquê acreditar na propaganda, na matéria da revista, em algumas pessoas com as quais tive que conviver, em outras nas quais jamais votaria e que andam por aí arruinando minhas convicções em territórios como ética ou justiça.

O gosto ruim saiu da boca. Apesar de tão pouco sentir traços de doçura. Aquela vida que ficou sacundindo meus sonhos até que quase se espatifassem, não se tornou generosa da noite para o dia. Não ter grandes prejuízos virou meu maior lucro.

Sigo numa linha reta, sem atalhos ou jardins, com uma paciência inimaginável. Quero que os dias passem, inclusive o 5 de abril.

Será outro desaniversário, longe de ser o pior de todos. No lugar de caixas de presentes, vou carregando um aprendizado que eu ainda não sei para o quê vai servir. Quando as marcas forem escorrendo pelo resto do rosto, quem sabe? Quem sabe será época, novamente, de aniversário?




Uma praça chamada Liberdade

Uma praça chamada Liberdade

Texto meu, fotos do Rodrigo Mendes sobre a performance de Cassilene Abranches

domingo, março 17, 2013

No Pandora

Foi publicada hoje minha crônica no Pandora, do jornal O Tempo. Deixo aqui meu agradecimento especial para a querida Natália Dornellas, editora do caderno. E reproduzo abaixo para quem não leu.

Um amor para reencontrar


O vídeo da artista Marina Abramovic, que circulou pelas redes sociais há algumas semanas, me fez perder o fôlego. Eu estava na redação e olhei para os lados, preocupada com o primeiro que flagrasse não só a minha pequena transgressão de não estar fechando um texto, mas também com as lágrimas que escorriam sem eu pedir.


Marina Abramovic, para quem não sabe, viveu com Ulay, por cinco anos, um amor intenso - passaram dez dias na cama - e decidiram transformar o fim do relacionamento em uma quase performance. Cada um partiu de um extremo da Muralha da China para dar o último abraço. E não se viram por anos. Até que os dois se reencontraram na recente exposição de Marina, quando Ulay apareceu de surpresa. E foi um daqueles silêncios que conseguem dizer tudo, deixando reticências no ar.


É quando a vida parece imitar um dos meus filmes favoritos, "Antes do Pôr do Sol", de Richard Linklater. O norte-americano Jesse (Ethan Hawke) e a francesa Celine (Julie Delpy) são jovens que se conheceram numa viagem de trem pela Europa - no caso, no longa que deu origem aos outros da série, "Antes do Amanhecer" - e marcaram um encontro que não aconteceu. Nove anos se passam até que ela vai ao lançamento do livro dele em Paris.


Jesse está casado, e sua personagem é aquela garota com quem tinha passado a madrugada em Viena. Celine continua engajada e encantadora. Os dois dividem uma tarde juntos e percebem o quanto aquela memória afetiva ficou impregnada em todos os sentidos.


Saí do cinema desidratada. Tenho o DVD em casa e sempre o revejo quando eu quero acreditar no reencontro. Talvez até comigo mesma, pois sempre fiz questão de colocar o ponto final em todos os meus relacionamentos amorosos, mesmo que eu parecesse hesitante durante aquele momento triste em que se estabelece o acordo de que a separação é o melhor a se fazer.


Dentre os ilustres desconhecidos, tenho bons amigos que reviveram velhos amores. Já vi um casal renovando votos anos após o próprio divórcio. E outro, formado por ex-namorados da adolescência.


Depois do rompimento, eles se esbarraram um dia, no tempo em que o tempo varreu mágoas e ressentimentos. Todos vinham de outros casamentos, sabiam onde estavam pisando. E, mesmo assim, decidiram retomar o romance.


Confesso que há em mim um alguém que mata, aos poucos, aquele que já foi a razão de sorrisos e suspiros, com quem fiz viagens e planos de todo tipo. Não sei se é uma combinação astrológica de áries, câncer e escorpião. Prefiro pensar que sempre rezei a cartilha do Paulo Mendes Campos para soar mais poético: "O amor acaba".


Mas, e se não acabar?

Marina, Ulay, Jesse, Celine e esses meus amigos anônimos sempre abalam um pouco as minhas certezas.