segunda-feira, agosto 20, 2012

Dos rituais

São essas tantas coisas, esse quase nada que acontece.
As observações dos outros que, às vezes, sugerem que eles não tem vida própria para cuidar e se ocupam da minha.
A faixa no repeat, o vinho tinto, as lágrimas que insistem em sair depois de assistir a uma bobagem na tevê, ficar tomando sol na varanda num dia frio, perder a hora todos os dias, consultar o oráculo para saber se o amor um dia voltará, lembrar de tomar os glóbulos, a pílula, a vitamina...esquecer de ir ao banco, de ligar para a amiga, de comprar o maldito refil do aspirador de pó, de vender o iBook G4 que me pede para interromper scripts o tempo todo, mas que armazena os textos, as fotos e as canções (que eu queria que tivessem feito para mim).
Vontade de voltar a correr, de ter milhas para gastar em viagens, de pregar logo os quadros na parede, de ter outro gato persa, de não fazer nada um dia que seja (inclusive pensar, tomar decisões e passar corretivo nas olheiras).
Cultivo meu pequeno jardim de suculentas, separo o lixo, como vegetais orgânicos, tento ser tolerante, compro mais livros que sapatos, desejo "bom dia" até quando estou de mau humor, assino petições para libertarem o Assange, as meninas do Pussy Riot, torço pelos meus amigos mais do que pelo meu time (e sem comentários sobre ele), acendo incensos para purificar o ambiente, cedo lugar para velhinhos e me esforço para manter a leitura, a escrita e as contas em dia.
O que mais?


quarta-feira, agosto 15, 2012

Sobre a vontade de voltar a ser estrangeira

Caminhava na larga avenida onde ninguém me conhecia. Quadras e mais quadras. Nenhum "ei, você por aqui?". Entrava num cinema de galeria, sem me preocupar com o que estava em cartaz. Um café, CPF na nota, metrô e casa. Observava janelas com luzes acesas e quem as conservava assim alta noite.

Parece que foi ontem.

Vagar pela Liberdade e me sentir no Japão, na China, na Coreia...lost in translation. "Qual o preço dessa echarpe?"(sem resposta imediata). A vendedora conversava com o gerente que devia ser seu pai. Poderiam estar me xingando. Jamais saberia.

E as ruas arborizadas para se perder, os endereços que eram verdadeiros achados, o sorriso do outro quando eu soltava inadvertidamente um "uai". O brinde com amigos, a vida sem ninguém, as horas insanas de trabalho, o noitão da sala do HSBC...e assistir ao New Order em plena terça, ter um cara lindo oferendo um drink no balcão de um bar descolado, sentir-se numa canção do Ira!

Posso voltar? Aquela cidade ainda existe?

domingo, agosto 05, 2012

Pensamentos de um domingo qualquer

Quando olhar para aquela sua foto rindo ao lado dos seus amigos não me diz mais nada.
Quando aquela ruguinha na testa que eu vejo todos os dias pede uma providência.
Quando não faz diferença dormir do lado esquerdo ou direito.
Quando o corpo pede que eu me alongue.
Quando a mente insiste para eu não delongar nas minhas palavras.
Quando o diagnóstico da terapia sugere que eu me recolha.
Quando o coração, esse desacreditado, disparou pela última vez mesmo? Ah, sim. Na pista de cooper. Semana passada, num dia de quase sol, por volta das dez da manhã.