quinta-feira, abril 16, 2015

Sobre "ferpas" e verrugas

Duas coisas que achei que desapareceram com a vida adulta: "ferpas" (na verdade, farpas, mas sempre falei errado) e verrugas. O fiapinho de madeira sempre calhava de entrar na minha pele. Era uma dor aguda. Minha avó Celinha tinha a maior paciência para puxar aquele corpo estranho com a pinça, depois de me acalmar com histórias ou algum feitiço (ela inventava uma palavra mágica para eu melhorar rápido). "Tá doendo muito, vó", eu dizia soluçando. Ainda tinha o merthiolate. Dose dupla de sofrimento. E eu chorava, chorava até dormir.
Foram anos manipulando todo tipo de material e nenhuma "ferpa" me afrontou. Ontem, uma sorrateira espetou o meu pé. Achei absurdo, pois cresci com a certeza de que não iria me desesperar mais com madeiras entranhas na pele. Não doeu tanto. O problema foi encontrá-la. Coloquei os óculos, no entanto, sendo míope, não fez a menor diferença. Foi um super alongamento para colocar o pé diante dos olhos e puxar sem dó. Tirei a "ferpa" com soberba. "Eu sou melhor que você", pensei.
Então me ocorreu a lembrança da verruga. Não sei porquê vivia com verrugas nos dedos. Na escola me contaram que secava com tinta de Bic azul. Faber Castel não funcionava. Eu coloria a verruga e ela ressurgia em outro dedo. Um menino da sala veio com a piadinha de que era coisa de bruxa. Pobrezinho! Eu tinha um móbile de bruxas em cima da minha cama, era fã da Feiticeira...ser chamada de bruxa era tão legal que eu acreditava que meus poderes surgiriam algum dia.
Verrugas eram tranquilas porque não pressupunham tratamentos com injeções, xaropes e supositórios. Minha mãe mandava eu parar de mexer nelas, aplicava pomadas. Minha avó extraía uma flor que brotava no meio de espinhos e soltava um líquido leitoso para passar na verruga. Ela também me dava orientações difíceis de seguir: "pare de apontar para as estrelas. Por isso que as verrugas vão parar nos seus dedos". Vou até fazer um teste, olhar para o céu no cair do dia, e esperar os próximos. 

sexta-feira, abril 10, 2015

A coreografia

Não sei dançar, tecnicamente falando. Essa é uma das coisas que eu queria realizar na minha vida. Eu trocaria a oportunidade de escalar o Himalaia ou a fluência em italiano para conseguir ter a leveza da Jennifer Grey pulando nos braços do Patrick Swayze em "Dirty Dancing". Sempre tem alguém para dizer que nunca é tarde. No fundo, eu até acredito que nem seja.

Tive uma breve experiência com a dança quando passei um ano num colégio caro da zona sul que concentrou todas as experiências de bullying que um pré-adolescente poderia ter. Sem entrar em detalhes com meus pais, os convenci de que não precisaria continuar ali. A dança, no caso, era um módulo da educação física. Como eu não fazia balé ou jazz, achei que poderia ousar numa apresentação para o colégio, que reunia as turmas de quinta série. Eu tinha uma dupla, ao contrário das outras meninas que andavam em grupos e eram bem parecidas.

Minha dupla era como eu: uma menina estranha que vinha de outra escola. No meu caso, pública. Tive que lidar com provocações de que, no mínimo, piolho eu deveria ter. Luciana era tímida, gordinha e, aos 11 anos de idade, já havia circulado por várias instituições de ensino. Sugeri a ela que fizéssemos a coreografia de "Flashdance".  Ela amava o filme, como eu e todas as meninas. Mas me alertou que não éramos como elas, a começar pela visível predileção da professora de educação física que nos tratava com desdém. Eu insisti porque nos achei justamente identificadas com a personagem da Jennifer Beals. Ela fez tudo sozinha!

Então chegou o dia da apresentação. Na primeira fila, todos os garotos insuportáveis da sala, seus tons de voz entre o grave e o esganiçado e, ainda assim, com a capacidade ímpar de dizer para mim e para Luciana que nunca teríamos namorados porque o meu cabelo era feio e ela era gorda.  Eu os vi atrás das cortinas daquele auditório decadente e respirei fundo.

Entramos com nossas caneleiras coloridas e roupinhas justas em cena. As luzes deveriam acender aos poucos, porém minha "direção" não foi respeitada. Ela olhou para mim nervosa. Eu disse: vamos! "First when theres nothing...". Os primeiros segundos da música de Irene Cara foram perfeitos. Infelizmente, nem chegamos ao refrão. Com os risinhos e piadinhas, nos desconcentramos. Devíamos ter ido para lados opostos e trombamos uma na outra. Ela foi a primeira a sair, chorando. Eu não chorei, não naquele momento. Saí no meio da música e avisei para a professora em tom agressivo que não faria o último módulo do semestre, que era basquete, pois havia me cansado dela e daquela escola.

Não voltei para a aula iniciada após o recreio, que foi transformado na tal semana da dança. Como a única pessoa amiga daquele colégio era justamente o fiscal de alunos, Miranda, com quem tenho até uma foto, fui para a sala dele. Ninguém nunca soube disso. Ao soar a última campainha liberando as turmas, eu já estava dentro do especial do Jorge, louca para ir para casa.

Miranda era negro e me disse que o mundo era um lugar assim, cheio de gente preconceituosa e que isso começava desde cedo. Foi quando eu deixei cair as lágrimas. Miranda comentou que tinha certeza de que nossa coreografia de "Flashdance" era a mais legal, numa didática que a professora jamais teve. Ele falou que eu tinha dançar, sem me importar com o que outros pensassem. De algum modo, segui o conselho.