domingo, setembro 28, 2014

Brasília

Entendi a lógica das quadras mais rápido do que imaginava.
Gosto de passear pelas mais arborizadas.
Na Copa, ensinei um gringo a chegar na Torre de TV.
Não virei fã de Legião Urbana, porém algumas letras fizeram mais sentido.
Meu nariz ainda sangra.
Não compreendo porque salpicam coentro em saladas por aqui (ou em qualquer lugar do planeta).
Faço piqueniques mais do que em qualquer lugar.
Estico o braço na faixa de pedestre e os carros param.
Acho os ônibus daqui piores que os Belo Horizonte e os de São Paulo.
Ouço diariamente todos os sotaques do Brasil.
A coexistência de tribos diferentes é mais comum nas baladas.
Diferentemente dos paulistas, por aqui não me chamam de mineirinha com tanta frequência.
O céu é dos mais bonitos que já vi e as fotos não precisam de filtro.
Não conheci as cidades-satélite ainda.
Parque da Cidade, CCBB e Cine Brasília são meus lugares favoritos.
Vi bons shows, filmes e exposições de graça.
Fico procurando sombras e azulejos do Athos Bulcão pela cidade.
Descobri meu lado voyeur ao ficar observando quadros e estantes de livros dos apartamentos com grandes janelas.
Ainda tenho que desbravar muitos pontos turísticos.
Não achei o pastel da rodoviária grande coisa.
Percebi, de imediato, o desejo dos jovens de ocupar a cidade e seus espaços de maneira bem democrática.
Aqui discute-se política mais do que em qualquer lugar onde morei.
A maioria dos taxistas tem opiniões políticas conservadoras.
A variação climática num único dia é mais "mulher de fases" que a música dos Raimundos.
Alguns prestadores de serviço tem a impontualidade como marca registrada.
Há quem me olhe com espanto porque não tenho carro.
Há quem me olhe com espanto porque não ando de bicicleta no Eixão domingo.
Eventualmente, acho o JK, o Niemeyer, o Lúcio Costa, entre outros, uns malucos por terem inventado esse lugar.
Confesso que não sei dizer se no fundo gostava daqui ou se aprendi a gostar ao longo deste tempo.
E lá se vão seis meses...






quarta-feira, setembro 17, 2014

Deus e o Diabo na Terra do Sol


"Tá contada a minha história,
verdade, imaginação.
Eu espero que o sinhô tenha tirado uma lição:
que assim mal dividido
esse mundo anda errado,
que a terra é do homem,
não é de Deus nem do Diabo!"

Este texto não é uma resenha. Muito se escreveu, estudou e se analisou de maneira tão precisa que não me arrisco. Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, segue 50 anos depois de sua realização como uma obra que impacta e provoca a reflexão sobre o Brasil. Os jagunços não estão só naquele sertão de procissões, ladainhas, seca e fome. Andam de cassetetes, agem como Antônio das Mortes cuja a visão de poder resume-se a eficiência da bala. Aliado ao Estado e à Igreja, esperam do primeiro dinheiro e do segundo uma espécie de bênção, algo que os absolva da condenação pela morte dos famintos. Os cangaceiros esses Antônios matam com prazer. Fazem de Lampiões, Marias Bonitas, Coriscos e Dadás mais míticos ainda.

O trabalho de restauro deste filme foi impecável. Infelizmente ainda tratado como luxo, já que as atividades de recuperação da arte de Glauber Rocha estão estagnados. A exibição do longa ontem no Festival de Brasília fez com que eu quisesse ter uma máquina do tempo para perceber Deus e o Diabo na Terra do Sol em 1964, sobretudo sem pessoas filmando e fotografando a tela com suas irritantes luzes azuis ou mesmo conversando em seus celulares porque não conseguem ficar desconectadas. Enxergar outros contextos sempre foi uma urgência para mim. Em meio às impressões registradas em redes sociais que tendem a um (Deus) ou outro (Diabo), vou caminhando meio Manuel, meio Satanás porque acredito que o mar vai virar sertão e o sertão vai virar mar.

Saindo da sessão, querendo conversar sobre Glauber Rocha, atravessei várias quadras conversando com um taxista que disse queria muito ver o filme a medida que eu o retratava. "Mas a senhora sabe, mesmo sendo de graça, as pessoas ficam olhando para quem é mais simples com cara feia", ele argumentou. Como ando mais Corisco provoquei: "Moço, era para eu estar em casa cozinhando para o meu marido sem nem pensar em cinema se não houvesse, décadas atrás, mulheres que desafiassem os costumes dessa sociedade machista em que vivemos". Ele concordou e me prometeu que não iria se entregar.


quarta-feira, setembro 10, 2014

Fraldas

Quando eu era criança, pedi para minha avó Celinha me ensinar a rezar o terço. Meu pai vivia praguejando contra o catolicismo. Minha mãe achava que eu tinha o livre-arbítrio para ter a religião que quisesse. Até o início da adolescência, o catolicismo fazia muito sentido para mim.

A ruptura aconteceu quando comecei a estudar história e tomar conhecimento da atuação da igreja desde a Idade Média. Eu certamente iria para a fogueira se tivesse vivido naqueles tempos. Depois, um professor de religião, que era seminarista, deu uma aula só para as meninas sobre aborto, com direito a um vídeo extremamente apelativo e um pacote de lições de moral: "se você fizer sexo antes do casamento, Deus castiga". "Se engravidar, tenha a criança, não importa quem é o pai". "A responsabilidade é toda sua". "Nós católicos condenamos pílula e camisinha".

Naquele dia, peguei meu terço e expliquei para Deus, para Jesus e para as minhas imagens de santos que não dava mais. Eu seguiria com eles, mas não com professores de religião, papa, padres, madres e, especialmente, fiéis. Não dei o desgosto de contar para minha avó em seus últimos anos, embora soubesse que ela entenderia a não prática religiosa, com tendência a buscar outra maneira de exercitar minha espiritualidade.

Respeito os católicos na medida em que eles não coloquem o dedo no meu nariz para dizer como eu devo seguir minha vida. Sou a favor de vários tópicos que a religião condena e tenho a certeza de que não queimarei no inferno por ser assim. O meu Deus acha absurdo tudo que dizem que "está na Bíblia" para justificar até mesmo o assassinato. Meu Deus estende seu descontentamento para os outros cristãos que são assim. Feliz seria a Nação que tivesse o Deus e o não-Deus de cada um, isso sim.

Eu estava justamente pensando sobre minha formação católica circulando no supermercado, depois de um dia extremamente exaustivo, no qual externei minha ira no período da tarde. Foi quando notei que um garoto me seguia. Ele sorriu quando eu peguei um pacote sem graça de torrada, balbuciou algo que eu não entendia.

Falei para o garoto ser mais claro. "Se você estiver falando assim para dentro, não posso saber o que quer". Ele me pediu para eu comprar um pacote de fraldas para a irmã dele. Não foi a primeira vez que isso me acontecia. No mesmo supermercado, semanas atrás, fui abordada por  um adulto querendo dinheiro. Pedi que o garoto me levasse até o local onde estavam as fraldas. Nem sabia que um pacote custava tão caro. "Qual o tamanho da sua irmã?", perguntei. Ele apontou o "M". O garoto olhou para os lados e disse que o segurança poderia mandá-lo sair. "Se ele fizer isso, eu vou junto e a gente compra na farmácia, ok?". Ele me avisou que esperaria do lado de fora.

Quando me viu no caixa com o pacote, veio sorrindo e ajudou a embalar as compras. "Não precisa da sacola, obrigado". Levou as fraldas sem me passar sermão. A moça do caixa já o conhecia. Disse que pouquíssimos compram fralda ou comida para ele. "Infelizmente, não pude fazer mais", comentei com ela. "Se todo mundo ajudasse um pouquinho... a começar por não olhar para ele como se fosse um trombadinha, já ajudaria". 

Não foi meu ato que fez diferença, foi olhar nos olhos daquela criança e perceber seu sorriso por mais de uma vez.

No caminho de casa, me lembrei da minha avó contando a história de que Jesus se vestia de mendigo para testar a bondade dos homens. Mesmo que acredite que é só uma fábula, não deixei de ficar pensando no olhar daquele menino que escolheu a fralda com a Mônica vestida de princesa para a irmã ficar sequinha. 


terça-feira, setembro 09, 2014

A de setembro: Universos Paralelos

Aconteceu outro dia. Eu e uma amiga ficamos um tempão na fila do cinema para uma sessão de “Metrópolis”, do alemão Fritz Lang. Ícone do expressionismo, o filme do final dos anos 20 talvez não agradasse àquela turminha jovem que estava numa espera de dobrar quarteirão. Minha esperança (egoísta) era que aquelas mensagens que estavam enviando para os celulares dos amigos seriam para demovê-los da ideia de ver a única sessão que começaria em uma hora.

Para o meu desespero, não paravam de chegar jovens que se avolumavam na fila, empolgadíssimos. De repente passei a achar incrível aquela movimentação, mesmo sob a pena de perder a chance de ver o clássico no cinema, coisa que para quem gosta faz muita diferença. Foi quando um senhor avisou no alto-falante que a sessão estava esgotada.

Eu e minha amiga fomos para o bar próximo ao cinema, ponto tradicional da boemia brasiliense. Aquele tipo de lugar onde circulam artistas que vendem as próprias gravuras e, para nossa surpresa, um cara com uma bandeja de brigadeiros à venda para financiar uma viagem para o exterior. Ele, que era treinador de um time de basquete queria, estar com seus meninos. O tipo de apelo que convenceria qualquer um que não pudesse com o açúcar por qualquer motivo.

Ainda era cedo, e decidimos encontrar amigos numa roda de samba na outra asa. Quando chegamos ao local, fiquei com a sensação de estar numa espécie de mundo ideal, não pela qualidade musical dos artistas (apelidados por um amigo como a pior melhor banda do gênero da cidade), e sim pela diversidade do público. Meninas com cabelos black power assumidíssimos conversando com amigas com mechas aloiradas no salão. Meninos de mãos dadas com os namorados. Famílias, algumas com crianças, que dançavam e pediam pipoca, alheias aos preceitos de certo e/ou errado, bonito e/ou feio tão arraigados no mundo real e/ou virtual.

Todos vestidos sem cartilhas, e os que assim estavam não recebiam olhares de reprovação. Mundo livre, leve e solto. Como os corpos, os sorrisos naquela noite quente de inverno no Cerrado. Perguntei para um nativo se era sempre assim. Ele respondeu que sim, embora alguns moradores da quadra já tivessem acionado a polícia. E nunca foi pelo samba.

Decidi buscar uma cerveja para me refrescar depois daquilo. Dois caras ao meu lado debatiam sobre política. Só falta começarem a brigar, pensei. Mas um pagou a cerveja para o outro como gesto de “bandeira branca”. Então, apostaram uma caixa para depois do dia 5 de outubro, com churrasco, samba e com toda a turma que estava na roda. “A moça é testemunha”, disse um deles apontando para mim. Só se eu for convidada para a festa, respondi.