sexta-feira, maio 15, 2015

Pequeno tratado de grandes emoções

Das listas da minha vida, apenas a do supermercado tem uma grande margem de erros. Costumo esquecer de enumerar o detergente que já acabou ou a manteiga que sempre acho essencial. Coloco mais um pacote de café no carrinho por via das dúvidas e percebo, ao chegar em casa, que há dois.

Gosto de listas para no caso de um dia, se eu desmemoriar, alguém possa fazer a fineza de imprimir esses itens. Quem sabe eu me sinta como naquele dia em que chorei quando:

- Assisti ao show do Paulinho da Viola e Velha Guarda da Portela.
- Vi o Radiohead subir ao palco pela primeira vez.
- Saí do último espetáculo da Pina Bausch no Brasil.
- Ganhei um abraço do Paulo Autran, depois de uma entrevista para qual morria de medo de fazer.
- No cinema, aos três anos de idade e com minha avó Celinha, na sessão de "Monica e Cebolinha - No Mundo de Romeu e Julieta".

Lista de bate-pronto com os clássicos cinco momentos. Evidentemente, outros tão importantes existiram. Existirão. 

quarta-feira, maio 13, 2015

Lugar no mundo

Que o jornalismo como estamos acostumados mudou, não é de hoje. Impressos estão sumindo do mapa em todo mundo. Meu primeiro baque foi o fim do "Jornal do Brasil", que lia aos domingos por influência do meu pai. O último talvez tenha sido o "Jornal da Tarde" onde trabalhei. Juntamente com essa morte anunciada, outra bem pior está evidente: a péssima qualidade de boa parte do que se publica (claro que há exceções. Eu as leio todo dia). Falta o básico que é a apuração (ou atribuir a um ator saudável o Alzheimer avançado é apenas o caso de "erramos"?), os textos quando não estão extremamente confusos desde o título (o que, suspeito, só pode ser para dar mais cliques aos portais), não estimulam a leitura até o fim porque são um amontoado de clichês, visões estreitas e arrogantes de mundo. A qualidade despencou por uma série de razões. Estudiosos e leigos cuidam de apontá-las desde teses interessantes a posts rasteiros (sim, existe a crítica desqualificada e com muitos erros de português) em suas redes sociais.

Há duas décadas entrei na faculdade de jornalismo. Ao longo dos anos repetia para quem quer que fosse que teria feito tudo outra vez. Hoje não. Não há da minha parte o menor prazer em fazer parte desse processo. São contradições, pois adoro entrevistar pessoas, escrever e tenho carinho especial por 95% das redações onde trabalhei. No entanto, venho me desapegando. Se amanhã me chamarem para trabalhar no veículo X ou Y, é provável que eu precise pensar (eu nunca pensei, sempre aceitei de cara quando o desafio era bom). Daí percebo o quanto o jornalismo está morrendo para mim, não importa a opinião de ninguém. Não há tantos lugares que me provoquem aquele frio na barriga, como eu tinha aos 16 anos de idade e sonhava em ir para a BBC de Londres. Os meus sonhos, como cantou Cazuza, "foram todos vendidos. Tão barato que eu nem acredito".  Isso me dá uma melancolia, uma falta de esperança e um medo. Quando eu findar o período dos meus atuais projetos, o que será de mim? Não terei nem 40 anos e uma estaca zero pela frente. Bom, no meu caso isso nem sempre foi um problema.

Enquanto isso, vou lendo notícias, análises de especialistas e de leigos. Sobram-me perguntas. A maior delas: como o jornalista vê o seu lugar no mundo? Para ser mais específica, vou usar um exemplo simples: há algum tempo li a resenha de um crítico que possui um blog vinculado a um grande jornal. O tema era um restaurante em São Paulo que virou a bola da vez. Conheço o profissional e suas opiniões são geralmente interessantes. Fiquei com vontade de ir ao lugar, numa terça-feira ou qualquer dia em que não houvesse fila para comer (um clássico da cidade). Dias depois, uma amiga compartilhou um texto de um blog que ela considera relevante e a resenha destruía o restaurante. Era mais específico com relação a preços e o autor chegou a se recusar a pagar por um drink mal preparado. E assim, do 8 ao 80, estamos. Posso desconfiar do jornalista ligado ao grande veículo que foi tratado com tapete vermelho pelos assessores de imprensa e não pagou um centavo? Posso. Posso desconfiar do crítico independente que já tinha a predisposição de odiar o lugar da moda porque a praia dele é petisco de botequim? Posso. Então, terei que eu mesma checar, para usar um termo jornalístico, e seguir digerindo meus questionamentos.




sexta-feira, maio 08, 2015

Inquietude

Nesses tempos em que as minhas horas passam sem vínculo com pontos eletrônicos e rotinas de escritório fico inquieta, não apenas em face da necessidade de não desperdiçar minutos de trabalho com distrações, o que é um grande desafio.

Então, converso com meus gatos longamente, observo as reações bem particulares deles. Amelinha responde, Alice deita no meu colo e Chivito morde meu dedo.

Faço compras a conta gotas para poder caminhar, olhar para o céu, registrar uma imagem diferente. Minha observação não é meramente contemplativa. Puxo papo sobre a farinha com o padeiro. Sou interrompida pela senhorinha que diz evitar o glúten. "Só que antigamente a gente comia tudo. Ao longo dos anos, o trigo já não é mais o mesmo". Ela reproduz um desses milhões de artigos que transformaram os apaixonados por pãezinhos quentes com manteiga em monstros sem amor próprio. Quando vai me dando aquela pontinha de vergonha por admitir que poucas coisas na vida são melhores que esse carboidrato assustador, embora eu coma o integral na maioria das vezes, ela arremata: "olha, todo sábado eu tomo duas cervejinhas, sabe? Aquelas de garrafinha porque faz muito calor em Brasília e não dá para viver evitando os prazeres!". Concordo e afirmo que preciso chegar na média moderada das duas garrafinhas.

Saio da padoca artesanal feliz com o multigrãos de um lado, o pão de mandioca do outro e dois recheados de ricota e azeite.

Mais tarde, chego à consulta médica e sendo a recepcionista de uma extrema simpatia pergunto de onde ela é: Bahia. Respondo que adoro e morro de saudades. Ela saca o celular, me mostra fotos de sua cidade, vizinha a Ilhéus, e começamos a falar sobre Jorge Amado, seus personagens, a comida arretada da terra dela, essa coisa de morar longe dos pais...revista velha para quê mesmo?

Nisso, a médica abre a porta e observa que apenas esquecemos de preencher o prontuário. Reitero que a culpa é toda minha, que não deixei a moça trabalhar.

Depois da consulta, a médica que é super gente fina e àquela altura já sabe mais do que as informações sobre a minha saúde conta que adora a recepcionista justamente pela espontaneidade e que isso ajuda os pacientes a ficarem mais confortáveis.

No meu prédio, cogito abordar o porteiro sobre como foi bom a chuva ter dado uma trégua. Me contenho. Sorrio e dou boa noite.


quinta-feira, maio 07, 2015

Fui Sabendo de Mim

Fui sabendo de mim 
por aquilo que perdia 

pedaços que saíram de mim 
com o mistério de serem poucos 
e valerem só quando os perdia 

fui ficando 
por umbrais 
aquém do passo 
que nunca ousei 

eu vi 
a árvore morta 

e soube que mentia 

Mia Couto