domingo, março 29, 2015

365 dias

Há 365 dias eu só sabia meu endereço. Não adiantava ninguém me perguntar qual o melhor caminho para se chegar até aqui. L2, Eixão, W4 eram algo bem subjetivo. Passei a maior parte da minha vida entre ruas e avenidas. Achei que demoraria um bom tempo para desbravar sozinha as quadras pares e voltar para casa sem me perder. Foi rápido, como este tempo que passou.

Todo dia escolho caminhos diferentes, que antes me confundiam. Gosto particularmente das 300, mais arborizadas. Fotografo flores, sinto cheiro de dama da noite, manjericão e goiaba na vizinhança. Queria uma parede do cobogós para chamar de minha. Ainda dou um mini-chilique quando um calango passa por mim. Parei de achar a coruja um animal simpático quando vi um pobre gatinho fugindo dela.

Não reaprendi a andar de camelo, pulo na frente dos ônibus e zebrinhas que ignoram os pedestres. Como todos que se aventuram em improvisos de calçadas em péssimo estado, tomei alguns banhos de água suja promovidos por motoristas em seus carrões de vidros fumê. Fico irritada porque numa cidade onde existem tantos parquinhos, a circulação de cadeirantes me parece tão restrita. Me recuso a fazer parte do exército que acha que todo lugar é estacionamento.

Quando vou comer, pergunto antes se aquele verdinho é coentro. Já achei a folha até no tabule, uma heresia. Passo a milhas de distância do pequi - mais identificável porque impregna o ambiente -, enquanto mastigo outros sabores do cerrado. Incorporei a tapioca no café da manhã e não fico muito tempo longe da patisserie do Daniel Briand. A vida é melhor com pain au chocolat.

De todos os clichês, concordo com o Lúcio Costa: o céu é mesmo o mar de Brasília. A vida aqui fica menos revolta do que já foi um dia. Talvez (e principalmente) porque tenha meu amor e meu porto-seguro nos dias de chuva e seca, nos nossos pequenos rituais, decorando nossa casinha e pensando em soluções para caber mais um quadro ou um móvel pé palito. São Paulo me deu o melhor de Brasília, ainda que eu chegue zen da aula de yoga e ele esteja vibrando com o jogo do Corinthians.

Hoje faz um ano. Não sei se o primeiro de muitos. Algumas siglas permanecem um mistério. Eu via as placas apontando para SIG e me lembrava do ratinho do Pasquim. Alguns mistérios faço questão de manter. Cidades são como pessoas e sempre estarão dispostas a nos surpreender. As pessoas aqui falam como o Brasil. Uai, ôxente e tchê são meio híbridos. Ao mesmo tempo, ouvem-se línguas do mundo, especialmente no setor hoteleiro. Algumas interrompem nosso andar para perguntar onde fica a Torre de TV. Nem todas, num primeiro momento, acham aquela edificação propriamente turística. Um dia eu também fui assim. Mas aconselho em português pausado, inglês ruim e mímica que cheguem ao topo.






sábado, março 21, 2015

Portinha

Passei quase um ano em frente àquela portinha, sem nem saber o que havia por trás. Espremida entre salões de beleza, lojas de suplementos alimentares, bancos e farmácias. Foi a moça dos Correios que sugeriu, na semana passada, que eu fosse lá comprar uma embalagem. Ela, aliás, é uma entendedora de um tempo que não liga para o frenesi das novas tecnologias, age lentamente e nos leva para algum lugar chamado saudade. A moça dos Correios sempre dá notícia dos fregueses habituais, idosos, que colecionam selos, mandam cartas para parentes e se recusam a entrar na fila preferencial porque não se sentem velhos.

Entrei na portinha, um armazém. Imediatamente, um senhor saiu do balcão e veio me perguntar sobre o que eu estava procurando. Acabei levando até um espanador, coisa que minha avó usava. Paguei em dinheiro, pois não aceitam cartões, cheques e fazem questão de espalhar plaquinhas bem-humoradas para a pergunta-afirmação "crédito ou débito". Enquanto aguardava o troco, outro senhor listava à mão item por item que eu comprei num caderno cheio de margens. Perguntou meu nome e escreveu corretamente, com o "d" mudo e sem dobrar o "l". Desde então, quando passo na portinha, recebo um aceno. Fico imaginando a moça dos Correios fechando a agência e tomando um cafezinho açucarado com eles. 

No sacolão onde vou aos sábados - outra portinha -, mesmo escolhendo tudo com calma no meu boitempo, não me canso de ter surpresas agradáveis. Hoje, a dona do lugar me sugeriu trocar o mamão que eu acabara de escolher. "Muito verde. Mesmo se amadurecer, não ficará tão saboroso quanto os mais laranjinhas". Troquei e comentei que verde assim só para o doce de mamão caseiro. Ela sorriu e retrucou: "ah não, aquele verde, verde era do quintal da avó. Ela sabia qual era o melhor para colher. Este nunca ficará igual". 

Saí com gosto de doce em calda de lá.






terça-feira, março 17, 2015

É o mistério profundo, é o queira ou não queira

Certa vez, uma amiga me disse que considerava o Franz Café um lugar ideal para se terminar namoros.  Eu achava a constatação curiosa até ter o ímpeto de enviar "You're so Vain" num MP3 para um certo rapaz, mas achei por fim que ele não merecia tanta consideração. Criamos cenários e trilhas para encerrar ciclos, ainda que não intencionalmente.

Aqueles dois mesmo. Tinham uns 20 anos. Ele, de cabeça baixa, argumentava. Ela chorava, esfregava os olhos borrados de rímel. Aqueles dois sentados justamente no meio do meu caminho, era a minha pausa para colocar sacolas de compras e dar um respiro. Fiquei na posição de intrometida.

Chovia e o céu sempre único e azulado de Brasília estava no tom da tristeza. Havia um vento frio também. Ele ofereceu o abraço e ela encostou a cabeça no ombro dele. Aceitou metade, o que cabia para o momento. Eu quis dizer aos dois que daria tudo certo, que tinham uma vida pela frente e mais uma série de clichês. Por isso, cuidei de me apressar.

Marços chuvosos e de frente fria combinam com cenas assim ou talvez seja o anúncio da promessa de vida nos corações, cantada por Tom e Elis.

Sendo um meio de tarde, num dia de semana, eu os imagino agora cada um em sua casa. Ele no quarto olhando para o teto. Ela contando o que aconteceu para a melhor amiga no telefone.

segunda-feira, março 09, 2015

Coragem

Tenho recebido aqueles olhares familiares de "como você tem coragem?". Não consigo formular tantas respostas além da óbvia: se não der certo, vira aprendizado. Foi o que aconteceu há quase 10 anos. Eu estava cansada da cidade onde nasci e insatisfeita com a estagnação do meu trabalho. Não havia nada para receber (férias, décimo terceiro, fundo de garantia) e eu não tinha reservas para passar mais do que um mês sem trabalho.

Um amigo me recebeu em sua casa, para ficar o tempo que precisasse. Afirmei algumas vezes que ele é das poucas pessoas nessa vida que não ouvirão de mim a palavrão não. Ando ampliando os nãos de maneira progressiva, mais por maturidade do que por instransigência. Por menos que eu ande na linha, sempre fiz terapia, acupuntura, tratamento com homeopatia e, agora, yoga para encontrar respostas. Voltando àquela época em que larguei tudo, a entrevista de emprego que agendei deu certo. Porém, o editor sofreu um acidente e foram quase três semanas de atraso para a contratação. Não foram poucas as vezes em que fiquei com medo.

O que fiz nesse tempo? Vivi a cidade. Andei no centro, frequentei os cinemas nos horários mais baratos, procurei temas para me inspirar. Logo surgiu um freela numa revista para a qual fiz vários outros. Veio o trampo, consegui alugar um apartamento e tive boas oportunidades. Nada foi chance de ouro. Foram mais tapinhas nas costas dizendo que eu era boa no que fazia do que necessariamente uma compensação financeira. Aprendi que na ausência do jantar - minhas prateleiras viviam vazias - a espiga de milho verde do metrô era uma ótima opção, que os livros que eu ganhava das editoras, depois de lidos, podiam ser vendidos para que eu pudesse tomar uma cervejinha com amigos.

Quando conto meu ano e meio em São Paulo para as pessoas, a maioria diz: eu não teria essa coragem!

Fico pensando se é isso mesmo. E tenho até outra versão: sou movida pela minhas insatisfações. Como tendo a reclamar muito, existe um ponto em que eu simplesmente não me suporto. Esse é o momento de seguir em frente. O passar dos anos me fez enxergar, no entanto, que não preciso ficar muito tempo adiando o inevitável. Se vou mudar de ares, de trabalho e de relação é melhor que seja o quanto antes. Não minimiza impactos, não cura ansiedade, não faz o dinheiro cair do céu. Por outro lado, abrevia o desconforto (ironicamente, ficar na mesma é zona de conforto) e dá uma sensação de liberdade.

Estava ouvindo Legião Urbana outro dia (nunca fui propriamente fã da banda) e me prendi ao refrão que se encaixa como luva neste meu agora: "disciplina é liberdade, compaixão é fortaleza, ter bondade é ter coragem". Com esses pilares, vou construir outra coisa. Saí de um emprego onde estava há quase um ano para realizar projetos que sempre adiei porque decidi que seria o melhor momento. A primeira coisa que me ocorreu foi me organizar melhor. Ter, enfim, aquele tempo para ler, pesquisar, escrever e me movimentar em outros sentidos, pois não se trata de descobrir o novo lá fora. Eu preferia uma passagem para outro continente, mas não será possível.  Vou intensificar a yoga, cuidar do meu jardim, de quem eu amo e de mim. Desta decisão virão momentos diversos, alguns pelos quais atravessei um dia, outros completamente ocultos. O depois dirá.