quarta-feira, dezembro 28, 2016

Agora

Agora é a pausa.
Desse turbilhão que é 2016.
Na última semana, ganhei dias de folga.
Não tive essa pausa em 2015.
Agradeço essa que tenho agora.
Agora é tomar café da manhã devagar, ouvir Tim Maia no rádio, fazer carinho nos gatos, dar um beijo no marido e fazer planos, no máximo, para uma sessão de cinema ao entardecer.
Agora é vestido solto, chinelo e expectativa de um vento na janela para aliviar o calor do momento.
Agora é revisão, é esperar por dias melhores. Mas, principalmente, aproveitar o momento.
Cravei "Leveza" na pele cinco anos atrás.
Para que seja agora, para que seja sempre.
Para que seja calmaria onde se quer turbulência.



sábado, dezembro 17, 2016

Salpicão

Eram duas velhinhas com poucas sacolas na linha azul.
Eu tentava ler, mas acabei prestando atenção no que diziam.
Discutiam (contrariadas) sobre a possibilidade de excluir o salpicão da ceia.
- Antigamente, todo mundo comia e repetia.
- Pois é. Mas e se a gente tirar as passas?
- As passas são a graça do salpicão, Maria! E, ainda por cima, tem a Rosângela que agora não come um monte de coisa.
- Ah é, dieta, né?
Estavam pensativas.
Eu também fiquei.
Antigamente, todo mundo comia e repetia mesmo.
Não tinha essa de chamar comida de "proteína", "carboidrato" ou "lactose".
Elas, por certo, nomeiam os ingredientes como frango, batata e maionese.
Sobre as passas, não sei explicar porque se tornaram tão odiadas nos últimos tempos.
E não custava nada separarem no cantinho do prato para agradar aquelas velhinhas.
Cheguei ao meu destino.
Sorri paras as duas e desci com a vontade de me convidar para jantar.

quarta-feira, dezembro 14, 2016

O buraco

Foram lançados ali alguns sentimentos e esperanças.
Nem tudo era nobre e havia também alguma pequenez.
No buraco estavam o que não mais servia, o que devia se esconder e o próprio caos.
Se fosse uma escavação, estaria fácil jogar terra por cima.
E esquecer.
Mas esquecer é o que deve ser feito, mesmo quando sentimentos e esperanças são lançados no buraco.
Esquecer é uma maneira simbólica de fechar
Um ano
Um ciclo
Uma vida
Eu sei a profundidade do meu buraco.
Só eu sei.

sexta-feira, outubro 21, 2016

A vida vai na velocidade do trem

A vida vai na velocidade do trem.
Existem as temporadas de mal dormir, de sair de casa sem tomar um café.
Vagão lotado que sequer permite, fora as derrubadas do 4G, a leitura de notícias no feed do Twitter.
Repara na moça que se maquia com destreza e decide se passará um batom.
Quase perde a estação de destino.

Existem as temporadas do despertador desligado, do dia inteiro de camisola
O eterno F5 na caixa de e-mail para ver se respondem o currículo enviado no dia anterior.
Vai ver uma exposição no centro, e não se dá conta de que escolheu a hora do pico para voltar.
Embora essa hora seja subjetiva, os trens emperraram e operam com lentidão.
Lá fora faz 35 graus e aqui dentro não está diferente.
Quase desce uma estação antes para achar o vento caminhando.

A velocidade do trem está entre o que se arrasta e voa.
A vida vai entre empurrões, entre garotos com a cara prateada pedindo um trocado.
A vida vai entre a moça que se oferece para segurar a bolsa pesada e o músico que se disse satisfeito apenas com os (poucos) aplausos no vagão.
Esqueço a proximidade de algumas estações quando passo o bilhete na catraca por instantes.
Lembro-me de todos os acessos às linhas de outras cores para ajudar o turista que parece perdido.

Por que te vas?
Hoje resolvi ouvir playlists em espanhol.
Fiquei com vontade de comer uma medialuna caprichada.
Quis ir ao show do Soda Stereo, que não existe mais.
A vida vai na velocidade do trem.




terça-feira, agosto 16, 2016

Farmácia

Tento me lembrar dos itens que faltam. Não sei se a cartela da pílula está no fim, se há o remédio para sinusite em casa. Pego apenas a solução para lentes de contato. Deveria aproveitar o colírio, embora tenha aflição de usá-lo. Misturo colírio e delírio na fila do caixa. O cara engravatado na minha frente desabotoa a camisa impecavelmente passada. "Estou um molambo", penso. Ele borrifa o desodorante ali, no meio das pessoas, no começo do dia. Paga em dinheiro, não quer o CPF na nota. Possivelmente não tomou café. Ele tem cara de café de cápsulas. Ouço um "próximo, por favor" cheio de tédio. Dou bom dia sem resposta, CPF na nota e recuso a promoção de levar duas vitaminas. Só me lembro da caixa cheia, de a a zinco, que era para ser aberta diariamente. Dispenso a sacola, jogo a embalagem na bolsa e saio de lá com olhos espremidos. Esqueci os óculos escuros. No dia anterior foi o bloquinho. Penso no quanto me identifico e me distancio do homem que usou o desodorante sem o menor constrangimento. Há meses não saio de casa com uma camisa bem passada.

quinta-feira, julho 14, 2016

Um mês

Ainda procurando o porta-copos de gatos que a amiga trouxe para mim da Paris que não conheço.
Ainda tentando me encontrar.
Ainda buscando aulas de yoga, emprego e paciência com as pequenas coisas.
Meio arrumada, meio acampada e bastante cansada.
Sumi daqui por achar que caixas de mudança não são assim um repertório tão rico quanto uma viagem de férias.
Ou seriam?
Achei minha boneca Juanita, que tenho desde criança. Abri livros autografados e páginas abandonadas sinalizadas por marcadores. Um último grifo, sempre feito a lápis.
Sou muito diferente e muito igual àquela que um dia se mudou para cá.
Um mês, dois resfriados. Um inverno e um certo verão dentro do inverno. 
Amigos que revi. Amigos que sei que nosso tempo foi outro: por mais que tentemos, nada será como antes.
Já é quinta-feira.
Já estamos no meio de julho.
Preciso pintar a parede amarela, ver Picasso, comprar o ingresso para o show do Ney Matogrosso, requisitar as milhas não atribuídas na última viagem.
Especialmente, pensar em novos rumos. 
Estou onde devia estar.
Entre o caos, a poeira, a sirene estridente lá fora, o sono profundo dos meus gatos, as caixas e os meus poucos sonhos. 


domingo, maio 29, 2016

Bye bye Brasília

Hoje completo dois anos e dois meses de Brasília, com ventos de mudança soprando. Dois anos, dois meses, dois endereços, dois empregos e um sabático no meio. Em Brasília encontrei o amor da minha vida, adotei outro gatinho e fiz amigos incrivelmente especiais. Na minha habitual urgência, sei que não conseguirei me despedir de todos. Mas levo um pouco deles comigo, para sempre.
Já sinto saudades do meu calendário da revolução. Onde nos concentraremos para um mundo melhor e justo para todos? O centro do poder tem uma simbologia muito forte e me ensinou muito, especialmente sobre ouvir o outro.
Já sinto saudades dos cobogós, dos ipês, das pessoas usando tu no lugar de você, dos restaurantes naturebas, dos cafés da manhã no Daniel Briand, do "meu" parque Olhos d'Agua, da Revista Traços, da Beira Beer, de praticar yoga, de reclamar do coentro em tudo e do CCBB.
Foram dois anos e dois meses intensos, que me fizeram gostar muito de Brasília e me sentir um pouco em casa. Não sei se em algum momento da vida me sentirei em casa. Talvez por isso, eu me mude tanto.
Estava me lembrando que há 10 anos eu partia para São Paulo, para onde volto totalmente diferente, com o coração aberto, como da primeira vez, e certa de que minhas jornadas me fizeram uma pessoa melhor.
Obrigada pela acolhida, Brasília. Um beijo e até breve!

Para Bel, com todo meu afeto.


sexta-feira, maio 06, 2016

Masterpiece

Domingo o Radiohead lança seu disco. Quem me conhece, sabe que é a banda da minha vida. Pelas pistas, tenho certeza de que não será um álbum, será uma obra-prima.







quinta-feira, abril 28, 2016

Alarmes

Outro dia silenciei um dos grupos. Depois, achei melhor me despedir cordialmente. Muitos links, muitas opiniões e ninguém de fato conversando.
Penso em excluir o aplicativo todos os dias. Ele já não me manda alertas. Abro uma vez ou duas, e conto mais de 200 mensagens não lidas.
Sigo para o trabalho escutando os mais diversos burburinhos, entre os quais muitos absurdos. No ônibus, no trajeto que faço a pé, quando paro para comprar uma fruta na barraquinha.
Durante o expediente, me levanto depois de minutos mirando a tela branca, vou tomar um café. O colega me dá notícias sobre o valor inexistente de uma bolsa ligada a um programa social. Ele parece contente com a possibilidade de ver pessoas mais pobres do que ele perderem o que chama de esmola. Explico pacientemente que esse teto foi inventado. Como são olhos nos olhos, enxergo a vontade de revidar, mesmo que sem nenhum argumento convincente. Me antecipo e sugiro: busque informações confiáveis.
O iPhone vibra. Outro alarme para desarmar. Uma amiga publica um link. Sim, é um texto  jornalístico. Sim, está assinado. Não, não é uma informação confiável, mesmo sendo produzido por quem, na teoria e prática, deveria ser confiável. Suspiro, ignoro, aciono outro aplicativo. Aguardo os segundos para pular o anúncio e ouvir música.
E não é que aquela publicação de uns dias atrás, não sei como, chama a atenção de alguém que não me cumprimenta nem no meu aniversário. Por que não desativei também esta notificação? Leio. Imagino o sangue nos olhos ao me perguntar o que eu - a sabichona das humanas, a que questiona as informações - acho daquilo.
Vou tomar outro café, olhar o céu de Brasília que está particularmente bonito nesses dias tristes. Penso numa tapioca, porém como fatias de melão gelado.
Volto, respondo educadamente. Estendo a tal bandeira branca, rasgada, surrada e cansada.
Leio os e-mails com as promoções de passagens aéreas. Clico e não existe nenhuma disponível. Férias daqui dois meses. Nenhuma perspectiva de viajar. Mas gostaria imensamente de antecipá-las e dormir. Dormi, descansar, como cantou meu mestre Walter Franco.


sexta-feira, abril 22, 2016

A uma aniversariante

O repertório é o mesmo, com algumas variações. Primeiramente, as palavras de raiva e indignação. Depois, vem o espanto: não é possível que você goste dela!
Sim, eu gosto. Me dá licença?
Para muitas coisas na vida, tenho vontade de andar com um gravador. Eu faria meu exercício vocal, e minha justificativa já estaria prontinha, afinada.
Eu não preciso recorrer ao traçado, nem ao céu. Também deixaria de lado explicação sobre a generosidade dos meus amigos, tanto os que nasceram ou vieram para cá. Imagine entrar no mérito de que quando vou à padaria e peço pão de sal, sou compreendida! Falar que o clima favorece meu cabelo seria frívolo?
Então deixo os absurdos saírem.
Penso nos arredores que ainda não visitei, no Catetinho que não conheço, na fila enorme da Torre de TV, que talvez eu encare qualquer dia desses.
Penso na copeira da firma, que levanta quatro da matina e faz uma verdadeira viagem no busão lotado, pagando a tarifa mais cara do país.
Penso no segurança do prédio, com seu terno escuro no sol de rachar sempre oferecendo um bom dia. Penso nas zebrinhas e baús que param de circular no feriado e no fim de semana, limitando o plano a quem é do plano.
Penso como é absurdo que essas pessoas tão fortes e gentis que conheço sejam reduzidos a "políticos", a ponto de já ter lido que os terroristas deviam chegar aqui e matar todo mundo, inclusive eu.  Tudo por conta do poder do Distrito Federal ou de qualquer representante de outros Estados. Sem falar nos meretíssimos e meritocratas.
Converso com a copeira, com o segurança e com a faxineira, que queria levar o filho ao zoo.
Apesar da vida dura, do "você sabe com quem está falando" (vindo de fluminenses, paulistas, paranaenses, mineiros, etc) e de todos que reduzem a casa deles a algo tão desprezível, eles não trocariam Brasília por outro lugar.
Será que é o Céu?
Será que é a Catedral?
Será que é o pastel da Viçosa na Rodoviária?
Será que é o Parque da Cidade?
Será que é o Paranoá?
Então, o motivo desse gostar fica mais evidente.


terça-feira, abril 12, 2016

A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota*

Ser mulher é lidar, desde os primeiros anos, com o ódio e com a provocação constantemente.  Já fiquei calada e já chorei. No entanto, minhas melhores recordações são as de quando eu consegui revidar. Na primeira vez percebi que foi mais fácil encarar a diretora da escola e explicar por que fui para cima do Rodrigo, e rasguei o uniforme dele, do que engolir o choro. Ele chamou a tia de vagabunda. No mundo dos adultos os dois levaram cartinha para casa. A minha pena, porém, foi mais leve porque a agressão, que não se justificava, era motivada por uma causa nobre.

Também na adolescência aguentei um bocado. Marcelo, na quinta série, chegou a colocar o pé na minha frente para eu cair. Eu sabia que não teria condições de medir forças. Então, pedi aos meus pais para me mudar de escola.  Precisei descobrir o modo mais eficiente de combater a raiva dos meninos. Pratiquei a ironia quando o André, que tinha o rosto coberto por espinhas, disse que meu cabelo era ruim. Respondi que adorava meus cachos (mentira, eu não tinha autoestima naquela época e vivia de rabo de cavalo), além disso, se eu enjoasse deles, poderia fazer escova. Ele, por sua vez, tinha que nascer de novo para ver se o rosto não teria aquele aspecto de chokito.


Fico pensando que Rodrigo, Marcelo e André certamente namoram, noivaram, casaram e divorciaram, e, imagino, continuaram machistas. Podem até ter se relacionado com outros homens, o que não os transformam em menos machistas, uma vez que leio e escuto com frequência ataques vergonhosos dirigidos às mulheres por muitos deles, os gays. Não existe estudo, religião ou estilo de vida zen que faça com que eu compreenda por qual motivo a maioria dos homens odeia as mulheres. E, honestamente, não tenho o menor interesse em saber. Quando fui agressiva, quando fui cruel, quando pedi para pararem com aquilo sinto que só doeu mesmo em mim. 

*Jean-Paul Sartre

terça-feira, março 29, 2016

Dois anos

Comemorei silenciosamente, logo cedo, praticando yoga. No caminho do trabalho, comprei um cuscuz para o café da manhã. Há mais rugas em meu rosto e mais fios de cabelos brancos. Meu aniversário mesmo é na semana que vem.  O céu está naquele azul que prefiro, e o clima começa a ficar ameno. O termômetro do setor bancário sul marcava 25 graus às nove horas.

Sigo entre contrastes. O silêncio das quadras, a ausência de engarrafamento, as pitangas que tento colher no caminho. Sinto também tédio e frustração.  Penso em ir embora desse lugar tão importante e tão provinciano em muitos aspectos.  Dois anos e já quero me mudar?

Mas eu moro ao lado do parque.
Mas meu apartamento é aconchegante.
Mas tenho amigos e afetos aqui.
Mas eu sou assim.

Todo dia me despeço dos cobogós, dos pássaros, dos ciclistas e do cerrado.  Penso nas saudades que sentirei (com exceção do coentro em tudo) quando eu for para outra cidade.

O que faz alguém querer partir tantas vezes?
Não é por não gostar.
Mesmo porque me irrito quando a pergunta sobre onde moro vem seguida de uma afirmação cretina e cheia de certezas sobre Brasília.
Nunca terei certezas sobre Brasília, nem sobre lugar algum.



sexta-feira, fevereiro 26, 2016

Sobre boiar

Ela me ensinou a não me afogar, antes de eu aprender a nadar. Estava pensando na simbologia disto, neste sobreviver, mesmo não dominando as modalidades. Afinal, eu poderia chegar à superfície como qualquer campeão.
"Mãe, me segura até eu boiar?"
Ela segurava e, possivelmente, afirmava que eu tinha ficado muito mais tempo por minha conta do que eu realmente ficava. Talvez seja isso o tal de nos preparar para o mundo.
Alguns irão nadar de braçada, outros serão trapaceiros.
Mas foi ela que me disse sem palavras que eu não me afogaria.
Tem dias que nos falamos incontáveis vezes.
Hoje eu liguei, fiquei engasgada.
Ela ligou de volta. Foi como se entrasse na piscina e abrisse os braços para eu me deitar.
Respirei.
Não há palavra que a defina mais do que coragem.
Reinvetar-se aos 60. Não tem holofote nisso, nem reportagem da Marie Claire para inspirar leitoras.
Então achei um fragmento de uma obra, "Os Infinitos do Amor", de José Luís Nunes Martins, filósofo português, que admito, não li ainda: "A coragem é um movimento do espírito pelo qual um coração grande se dá a conhecer. Não é uma força bruta da vontade, é uma decisão da consciência. é a capacidade de ser livre apesar do medo".
E tudo fez sentido.





quarta-feira, fevereiro 24, 2016

Mickey

Até o momento, a fase dos 30 foi é a mais instável e interessante que vivi. Não me encontrei na mulher de Balzac e talvez minha personalidade se aproxime mais de personagens de cinema e de séries de TV. Tenho me divertido com a Mickey, de "Love", e me identificado com o jeito extrovertido especialmente moldado para mascarar inseguranças, a vontade de não desperdiçar os últimos suspiros de juventude (e, com isso, acordar com as piores ressacas possíveis) e a capacidade de me adaptar a trabalhos que simplesmente paguem as contas.

No entanto, sou mais generosa comigo mesma (ou aprendi a ser). Nunca me achei a rainha da merda, como ela afirma, assim que deixa o Gus em casa, após um encontro desastroso com a ex dele. Por mais que eu tenha me autossabotado além da conta justamente na faixa dos trinta e poucos, tenho a certeza de que jamais fui covarde ou pisei em alguém. Aliás, esses são meus pequenos troféus sentimentais, que para muitos nada valem.  Faltam dois episódios para eu terminar a primeira temporada. Ao que tudo indica, a série terá continuação. Na vida da Mickey, como na minha, sempre espero aquele ajuste de roteiro. Porque o happy end, sabemos, não existe.





sexta-feira, janeiro 29, 2016

Sabemos

Observo o colega que compra suplementos online.
Ele vai converter o valor  da compra em pontos, 
os pontos para adquirir uma cafeteira com cápsulas. 
Eu mesma tenho janelas simulando vôos para lugares onde meu dinheiro não vale muita coisa. 
Entre as planilhas do excel, a campanha pausada na frase de impacto que não veio.
Sonhamos com aquele corpo jovem, capaz de correr uma maratona.
Queremos receber amigos e finalizar a noite com um sabor inusitado,
Imaginamos um museu com arte do século XVII.
Ouvir aqueles palavras que não saberemos traduzir...

Parte disso será realizado por alguém.
Há quem tenha tudo.
Ou quase.

Sabemos (entre a abertura das outras janelas que trazem as notícias):
Sobre a nova epidemia.
Sobre "Como se programar para curtir os blocos de Carnaval na cidade" (os títulos dos portais jornalísticos e de entretenimento são siameses).
Sobre a decisão arbitrária de um juiz a respeito da guarda de um menino que apanha do pai.
Sobre como fazer economia doméstica em tempos de crise.
Sobre a morte de um cineasta da Nouvelle Vague.

Sabemos (entre a abertura das outras janelas que nos trazem uma avalanche de pessoas):
Quando piscam as janelas com notificações das conversas no gtalk.
Quando vem aquela interação na rede social de alguém que mal nos cumprimenta na rua. 
Quando é hora de desabilitar parte dos alertas em vermelho. 
Quando uma propaganda chata atrapalha a sequência de músicas (porque não optamos por uma vida sem intervalo comercial por apenas R$9,99 por mês).

Sabemos que seremos interrompidos para explicar algo sobre o trabalho, pelo horário de almoço, por mais uma reunião e até pelo telefone que sequer conserva o hábito de tocar em meio a whats apps e sms.

Mas não sabemos por que os ponteiros do relógio parecem estagnados...
Nem o colega que concluiu a compra de whey protein, nem eu que não tenho destino de viagem.

Quanta eternidade cabe nesses minutos em que observo?


terça-feira, janeiro 12, 2016

O dia em que encontrei David Bowie

Quando veio a notícia da morte, não consegui escrever nada. Estava profundamente triste, mas a verdade é que eu já me encontrei com David Bowie. Era uma tarde fria em Tóquio. Eu estava olhando a vitrine de uma loja, quando notei o reflexo dele no vidro, vestido com um sobretudo bege e um terno bem cortado por baixo. Não consegui me segurar: "David Bowie!". Ele sorriu e respondeu: "sim". Repeti algumas vezes algo como "inacreditável". Ele falou que não era inacreditável, que adorava passear por Tóquio, que a cidade o inspirava. Eu, atônita, perguntei por que ele estava me respondendo em português. Ele sorriu, mais uma vez, e disse: "porque eu sou David Bowie, não há nada que eu não consiga". Então, ele me perguntou se eu queria tomar um café. Aquilo durou minutos ou horas? Não sei. Acordei me sentindo a melhor pessoa do mundo. Quem não queria bater um papo displicente com o David Bowie numa tarde qualquer em Tóquio? Então ontem veio o pesadelo. Eu só consegui me lembrar do sonho.


segunda-feira, janeiro 04, 2016

Desejos grisalhos

Primeiro dia útil do ano.
Tem aquele sono,
aqueles dois quilos a mais,
aquelas pessoas bronzeadas,
as que não voltaram de viagem,
as que não foram.
As mesmas velhas resoluções,
as novas com muitas chance de não ir para frente.
Eu me antecipei e li as previsões de 2016 para Áries em dezembro de 2015.
Ainda não sei se vai ser bom, mas vou até o fim trabalhada no livre arbítrio.
Faz tempo que larguei oráculos.
E projetos.
E escritos.
E pessoas.
Vai, 2016, vai ser melhor para humanidade.
Eu só não quero ter muitos solavancos.
Porque já balancei demais.
Como meu último ano na casa dos 30 gosto de pensar que, de uma vez por todas, poderia existir o tal respeito aos meus cabelos brancos.