sexta-feira, abril 22, 2016

A uma aniversariante

O repertório é o mesmo, com algumas variações. Primeiramente, as palavras de raiva e indignação. Depois, vem o espanto: não é possível que você goste dela!
Sim, eu gosto. Me dá licença?
Para muitas coisas na vida, tenho vontade de andar com um gravador. Eu faria meu exercício vocal, e minha justificativa já estaria prontinha, afinada.
Eu não preciso recorrer ao traçado, nem ao céu. Também deixaria de lado explicação sobre a generosidade dos meus amigos, tanto os que nasceram ou vieram para cá. Imagine entrar no mérito de que quando vou à padaria e peço pão de sal, sou compreendida! Falar que o clima favorece meu cabelo seria frívolo?
Então deixo os absurdos saírem.
Penso nos arredores que ainda não visitei, no Catetinho que não conheço, na fila enorme da Torre de TV, que talvez eu encare qualquer dia desses.
Penso na copeira da firma, que levanta quatro da matina e faz uma verdadeira viagem no busão lotado, pagando a tarifa mais cara do país.
Penso no segurança do prédio, com seu terno escuro no sol de rachar sempre oferecendo um bom dia. Penso nas zebrinhas e baús que param de circular no feriado e no fim de semana, limitando o plano a quem é do plano.
Penso como é absurdo que essas pessoas tão fortes e gentis que conheço sejam reduzidos a "políticos", a ponto de já ter lido que os terroristas deviam chegar aqui e matar todo mundo, inclusive eu.  Tudo por conta do poder do Distrito Federal ou de qualquer representante de outros Estados. Sem falar nos meretíssimos e meritocratas.
Converso com a copeira, com o segurança e com a faxineira, que queria levar o filho ao zoo.
Apesar da vida dura, do "você sabe com quem está falando" (vindo de fluminenses, paulistas, paranaenses, mineiros, etc) e de todos que reduzem a casa deles a algo tão desprezível, eles não trocariam Brasília por outro lugar.
Será que é o Céu?
Será que é a Catedral?
Será que é o pastel da Viçosa na Rodoviária?
Será que é o Parque da Cidade?
Será que é o Paranoá?
Então, o motivo desse gostar fica mais evidente.


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