segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Depois da Tempestade

- Eu não sei quanto a você, mas eu quero me casar de novo.
- Não acho que o que eu quero esteja necessariamente num casamento.
- E o que você procura?
- Alguém que esteja comigo para o que der e vier.
Foi assim que conheci Renato. E toda parte decidida da conversa (a do compromisso sacramentado) refere-se a ele. Ficamos na chuva, parados em vários trechos da avenida do Contorno, falando sobre relações passadas e os presentes desencontros amorosos...

Corta para dois dias antes.
- Você viu aquele garoto? Pegou a mão da menina e, sem medo do que os amigos falariam, foi conversar com ela. Não é pouca coisa para quem tem 15 anos.
- Mas ela não está nem aí para ele. A típica menina "mais bonita da sala".
- Pois é. Ele vai tomar um fora, tadinho.
- Viu? Ela foi embora...
- Também, por que ele não abordou uma garota mais normal? Tinha que ir atrás daquela que o rejeitaria?
- Olha os amigos tirando sarro dele! Mas dei moral para o garoto. Ele está dizendo: "pelo menos eu tentei".
Foi assim que eu e uma amiga assistimos de camarote a um dos primeiros foras de um cara. Achamos o menino um fofo e a menina uma chata. Isso porque já estamos na casa dos 30. Aos 15 eu jamais teria dado atenção para alguém da minha sala. E foi o que a garota fez. Foi coerente. E eu devia ter me contido antes de soltar: "daqui 10 anos você vai ver como será diferente".

Corta para um dia depois. Fila do caixa para pagar o frango assado numa delicatessen.
- Por favor, senhor.
- Não, obrigado.
- Eu insisto: o ritmo do caixa está lento.
- De jeito nenhum. Eu sou bem mais velho que você, mas você é uma moça. As moças sempre terão preferência.
No meio da troca de gentilezas surge um gordinho, de uns 37 anos, sem aliança nas mãos. Ele se irrita com a mãe, na minha frente.
- Por que está aí? Nosso pedido quase saiu e você está aí parada.
- A fila é única meu filho. Preciso pagar o que pedimos.
Não me aguentei (de novo).
- A fila está mesmo longa. Você devia deixar sua mãe descansar na cadeira lá fora e assumir o lugar.
Ele me olhou com raiva.
- Isso mesmo meu filho, aproveita e pega uma Coca-Cola.
O gordinho, quase quarentão, abriu a geladeira com fúria. Deixou o refrigerante cair no chão. Ficou vermelho. Bufou.
Minutos depois, eu e o senhor seguimos para outra fila: a da retirada do protagonista da televisão de cachorro.
- Me desculpe pela pergunta moça, mas você já tem filhos?
- Não senhor.
- Se tivesse, seria uma ótima mãe porque saberia como educá-lo.
- Ah, obrigada.
Pensei: havia alguma razão divina mesmo para que eu não tivesse uma criança para criar...Ou não.

Volta para hoje.
Eu estava tentando resolver, na base da terapia, minha implicância com os moços na faixa do 25-40 anos, e, observando ações e reações somente a nova e a velha guarda por me achar no universo em desencanto. Então, veio o Renato e bagunçou tudo na segunda chuvosa.
Ouço "Codex".
Não encontro respostas.
E quando faço as perguntas para mim mesma, para as minhas amigas, no divã, para o Renato, que mal conheço, o efeito é boomerang.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Economizando palavras

No blog, nas redes sociais. Talvez por conta do período que antecede a comemoração de mais um outono... Estou lendo mais. Fato.

Mas para não deixar tantas lacunas, minha resenha sobre o novo Radiohead, publicada no Magazine de segunda-feira.

Radiohead equilibra climas em novo disco

A expectativa em torno do oitavo álbum de estúdio do Radiohead existia desde 2010, quando a banda anunciou, em seu site oficial, que havia concluído a gravação. "The King of Limbs" não havia sido sequer batizado. Na ocasião, o guitarrista Ed O’ Brien disse à BBC que o disco era o melhor que a banda produzira até então em sua opinião. Mas meses depois, o baixista Colin Greenwood viria a afirmar, em outra entrevista, que o projeto seria arquivado. Um balde de água gelada para os fãs que desde o genial "In Rainbowns", de 2007, se contentavam com os singles "Harry Patch (In Memory Of)" e "These Are My Twisted Words".


O quinteto quebrou o silêncio na segunda-feira da semana passada, dia 14. Mais uma vez, em sua página na internet, informou como seria disponibilizado "The King of Limbs". Diferentemente do esquema anterior, no qual podia-se pagar pelo disco um valor indeterminado, dessa vez as opções iam de US$ 9 a US$ 53, compreendendo desde formatos digitais ao vinil, em edição luxuosa, que sairá em 9 de maio. Quem optou pela pré-venda, surpreendeu-se com a antecipação da entrega das músicas em um dia. Afinal, era sexta-feira, a lua estava linda e o Radiohead queria que todos aproveitassem o fim de semana. E foi assim, em tom poético e generoso que Ed O’ Brien deu o recado.


"Lotus Flower" foi o primeiro presente que o Radiohead colocou na rede. O videoclipe, dirigido por Garth Jennings, é minimalista. Thom Yorke canta e dança (coreografado por Wayne McGregor) com sua intensidade habitual. Um artista que se expressa como poucos. Quem teve a oportunidade de assistir aos shows no Brasil, em 2009, sabe que há momentos lindos e desconcertantes quando as câmeras se aproximam dele. "Lotus Flower" entrou para os tópicos mais comentados do Twitter e do Facebook dividindo opiniões: houve quem captasse a intenção do vocalista e quem fizesse piada.


Talvez fosse essa a intenção do Radiohead, pois é impossível ser indiferente à obra que o grupo vem construindo desde "Pablo Honey". A zona de conforto nunca foi o lugar preferido dos britânicos que adoram mergulhar em experimentos musicais. Nesse sentido, são necessárias diversas audições ao novo trabalho. Mais do que gostar ou não gostar, é preciso exercitar, entender que por trás de cada acorde, textura ou nuance houve um processo de criação em continuidade.


"The King of Limbs" traz belezas, como a melodiosa "Codex" e a bem delineada "Separator". Thom Yorke canta de forma cristalina, por vezes visceral, combinando de maneira perfeita com a criatividade e a competência dos irmãos Jonny, na guitarra, e Colin Greenwood, Ed O’ Brien e Phil Selway, na bateria. O mais interessante é quando parecem existir notas dissonantes, barulhinhos e estranhezas permeando os caminhos. Nesses momentos residem a grandeza da banda que, por mais que possua um "frontman" emblemático, não é, como no título do livro de Moacyr Scliar, "exército de um homem só".


Por fim, é sempre intrigante tentar imaginar como o Radiohead faz suas escolhas e consegue, com maestria, seqüências como "Little by Little" e "Feral". É arte para ficar impregnada nos membros, sentidos e ideias. Valeu esperar por "The King of Limbs" por meses ou dias, depende do ponto de vista, para dançar conforme a música ou conforme o Thom.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Tripla cidadania

"o meu pai era paulista
meu avô, pernambucano
o meu bisavô, mineiro
meu tataravô, baiano
meu maestro soberano
foi antônio brasileiro"

No Brasil todo mundo prefere ser predominantemente europeu. Eu poderia, se fosse mais persistente, adquirir a meu passaporte italiano. Deu preguiça... Além de tudo, sou essa mistura mesmo, com orgulho.

Certa vez, quando liguei para um paquera de outro Estado perguntei: "sabe quem está falando?". Ele brincou: "com esse sotaque britânico, só pode ser você". Sou mineira no falar, no gostar de receber amigos na minha cozinha, no meu encanto por montanhas e, mais ainda, pelo distante e misterioso mar. Não sou mineira na desconfiança, no guardar o almoço na gaveta da mesa até que a visita vá embora...

Talvez o ser e o não ser foram os responsáveis por abrir minhas possibilidades para o estar. E há, neste país imenso, dois lugares muito distintos em que me sinto em casa: São Paulo e Pernambuco. O primeiro me apresentou amigos tão generosos que irão atravessar encarnações; me mostrou que eu gosto de ficar às vezes comigo mesma, sem medo do escuro; que eu tenho necessidade física, química, emocional e o que mais for de devorar arte, pastel de feira e toda essa coisa que acontece no meu coração.

No rios, pontes e overdrives de Recife encontrei o calor além da temperatura absurdamente elevada. Não me esqueço do cara que perdeu um ônibus (que chegava ao ponto a cada uma hora) apenas para me passar, com detalhes, uma informação turística. Sempre me lembro com imenso carinho do amigo que fiz em 2000 (e perdi contato) que me apresentou às iguarias culinárias daquele lugar e, me fez engasgar de emoção, quando recebi do nada um sedex com discos de novos artistas e regalos pernambucanos.

Então, para mim, sempre que alguém se mete a falar mal de São Paulo ou de Pernambuco, é como se estivesse falando mal do meu time, da minha família. Eu sou como os gatos e o Ruy Castro, posso estar aonde sinto o afeto, o aconchego, não necessariamente aonde fui registrada em cartório.