sábado, setembro 25, 2010

Um homem pra chamar de seu

Eu sei que o mocinho é bem casado, mas é uma coisa bunitinha de meu Deus! No palco faz derreter os coraçõezinhos maltratados.

quarta-feira, setembro 22, 2010

O regresso de um amor platônico

Descobri que amores platônicos da juventude deveriam ser obrigados, por alguma lei divina, a desaparecer. Encontrei um deles dia desses, mas preferia que o acaso não me presenteasse daquela forma tão cortante.

Houve um tempo em que ele, o amor platônico, era um cara com o olhar mais incrível e o sorriso mais lindo desse mundo. Eu me vestia umas oito vezes antes de sair de casa quando ia encontrá-lo.

Eu tinha dia e hora para encontrá-lo, pois o amor platônico trabalhava numa loja de discos e tinha cabelos longos, lisos e negros. Um ar de Mike Patton, do Faith no More, com suas bermudas largas e camisetas de banda.

O gosto musical do meu amor platônico era parecido com o meu. Um pouco mais agudo, mais visceral. Adorava conversar com ele, embora não soubesse seu nome e morresse de vergonha de perguntar.

Eu ia à loja em que ele trabalhava três vezes ao mês. Duas para escolher o disco. Uma para comprar. Porque vinil era caro e eu vendia bolo de chocolate na escola para comprar, entre outras coisas, meus discos. Não dependia de datas festivas para ganhar de presente.

Havia lojas melhores do que a que meu amor platônico trabalhava. Nenhuma delas tinha meu amor platônico, com seus olhos cor de jabuticaba, seu sorriso que me fazia enrubescer, seus cabelos compridos e seu estilo cuidadosamente desleixado.

Talvez naqueles tempos eu fosse menos boba. Eu apenas queria saber o nome dele. Não queria beijar ou namorar. A simples existência daquele cara tornava minhas tardes nos centro mais inspiradas. Era como dançar na chuva.

Um dia ele não estava mais na loja de discos. Logo no dia em que fui comprar o primeiro álbum de uma banda que ele adoraria conhecer: o Alice in Chains. Fiquei tão orgulhosa de descobrir a banda porque não havia google, nem MTV naqueles tempos. Eu era a menina que não ouvia o que as meninas ouviam (Roxette, por exemplo) e, de alguma maneira, achei que isso poderia ao menos ser um caminho para que soubéssemos o nome um do outro.

Meses depois, revi meu amor platônico num show. Estava cercado de amigos cabeludos, com suas camisas xadrezes de flanela num calor de verão. Eles bebiam. Eram maiores de idade. Eu ali com uma amiga e uma lata de coca-cola, que permaneceu intacta enquanto ele estava naquele grupo me impedindo de prestar atenção ao show.

Obviamente, meu amor platônico nem me reconheceria ou faria uma cara de míope. Evitei ser vista quando esses pensamentos me assaltaram. Até que o cara de cabelo comprido, olhos de jabuticaba, sorriso de derreter e camiseta do Metallica veio em minha direção. Gelei, empalideci. Ele disse um "oi". Não foi um "oi" blasé. Foi um "oi" de quem deixou os amigos para me dizer "oi". Ele sorriu. Sem reação, abaixei o pescoço e evitei o olhar, sob o risco de me estatelar no chão.

Meus dias seguiram desconcentrados, repetindo aquela cena: mudando o roteiro porque havia me sentido uma idiota em não ter puxado uma conversa. Por que não falei do Alice in Chains? Por que não falei do show? Por que não falei do calor?

Os shows, os inferninhos, as festas de rock que se sucederam eram acordes dissonantes porque ele não mais apareceu. Perdi meu amor platônico, embora soubesse no fundo que outros viriam.

Esbarrei muito tempo depois com um cara de olhos negros, sorriso gostoso e camiseta de banda quando já bebia minhas long necks e podia voltar para casa depois de meia-noite. Passaram-se dois anos? Não importava. Ele ainda era ele. Com um acessório indesejado: a namorada.

Foi a vez de um "oi" sem graça correspondido por outro desafiador, olhando nos olhos, sem aquela insegurança. Eu poderia falar de qualquer coisa, porém era a hora de calar e sair.

O destino decidiu que não nos esbarraríamos. Pelo menos por mais de uma década.

A última vez que vi meu antigo amor platônico faz poucos dias. Tomei um susto. Fiquei me perguntando se era realmente aquele cara que fazia o coração parar de bater quando eu entrava na loja de discos. Seu olhar ficou fosco, não sorria e os cabelos - nem curtos, nem cumpridos - estavam maltratados. Ele engordou, fez uma tatuagem rudimentar com o nome de uma mulher no pulso. Ele estava com uma camisa regata horrível. Ele não era ele.

Fingi que não vi.

Porque amores platônicos assim deviam mesmo desaparecer sem deixar vestígio.

domingo, setembro 19, 2010

Cada vez mais, adoro Woody Allen

Publicada hoje na Folha.

"Não sou culto; diversão é uma cerveja"

Cineasta Woody Allen diz que não acredita em Deus ou em vidas passadas e que velhice não traz sabedoria

"Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos", mais recente longa do diretor, estreia no Brasil em 29/10

DAVE ITZKOFF
DO "NEW YORK TIMES"

Quando perguntei se podia lhe desejar um feliz ano novo judaico, Woody Allen deixou claro que essas formalidades não eram necessárias. "Não, não, não", ele disse, com uma risadinha, no escritório de uma suíte do hotel Loews Regency.
"Não sigo essas coisas. Bem que eu gostaria. Seria uma grande ajuda naquelas noites escuras".
Aos 74 anos, Allen, cineasta prolífico e nova-iorquino emblemático, parece bem longe de descobrir a religião.
Mas a ideia da fé embasa seu mais recente filme, "Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos" [que estreia no Brasil em 29/10].
No filme, quando o casamento de um casal londrino (Anthony Hopkins e Gemma Jones) começa a se desfazer, a mulher procura consolo no sobrenatural.
"Para mim", diz Allen, "não existe diferença real entre uma cartomante, um biscoito da sorte e qualquer uma das religiões organizadas". Leia a seguir alguns trechos da conversa.

New York Times - A ideia de poderes psíquicos e vidas passadas tem papel central em seu mais recente filme. O que o levou a se interessar por isso e escrever a respeito?

Woody Allen - Eu tinha interesse pelo conceito de fé em alguma coisa. Sei que parece desanimador dizê-lo, mas precisamos de algumas ilusões para seguir em frente.
E as pessoas que conseguem se iludir com mais sucesso parecem mais felizes do que as pessoas que não o fazem. Conheço pessoas que depositaram sua fé na religião e em cartomantes.
Por isso me ocorreu que este seria um bom personagem para um filme: uma mulher para quem tudo sai errado e descobre repentinamente que a pessoa a quem recorre para ler sua sorte na verdade a está ajudando. O problema é que chegará o momento em que ela terá de encarar uma verdade desagradável.

O que lhe parece mais plausível, que tenhamos existido em vidas passadas ou que exista um Deus?
Nenhuma das duas coisas me parece plausível. Minha avaliação sobre isso é severa, científica. Para mim, o que vemos é aquilo que existe.

Como o senhor se sente sobre o processo de envelhecer?
Bem, sou contra (risos). Creio que não haja recomendações em seu favor. Você não ganha sabedoria com o passar dos anos. Na verdade, você se deteriora, é isso que acontece. As pessoas tentam retratar o processo da melhor maneira, dizem que você se torna mais terno. Você aprende a compreender a vida e aceitar as coisas. Mas você trocaria isso tudo por voltar aos 35 anos. Já passei por aquela situação de acordar no meio da noite e começar a pensar sobre a minha mortalidade, pensar no fim -e causa calafrios.

Envelhecer mudou seu trabalho de alguma maneira?
Não, meu trabalho surge ao acaso. Não existe lógica ou sequência ordenada em nada do que faço. Acabo fazendo o que parece certo naquele dado momento. Em toda minha vida, jamais assisti a qualquer dos meus filmes depois de lançados. Nunca.

O senhor disse à imprensa européia que filmar em Nova York se havia tornado caro demais. Acredita que voltará a fazer filmes aqui?
Minha primeira escolha sempre seria Nova York. Mas preciso ter dinheiro se quero filmar aqui. Eu sempre faria em Nova York por US$ 15 milhões o mesmo filme que rodaria em outro lugar por US$ 12 milhões. Isso se eu tivesse os US$ 15 milhões. Mas se não tenho o dinheiro, não é possível.

O senhor estava preparado para a tempestade de mídia que deflagrou ao escalar Carla Bruni-Sarkozy para um papel em "Midnight in Paris", seu próximo filme?
Fiquei surpreso com o interesse jornalístico que surgiu em função dela. Seu papel no filme é pequeno. Quando rodei suas cenas, no primeiro dia, todos os jornais disseram que ela era horrível e que eu precisei de 32 tomadas. Não fiz nem dez tomadas com ela. Aquele número mágico foi simplesmente inventado por alguém. Depois, disseram que o marido dela foi ao estúdio e ficou zangado com ela. Ele foi ao estúdio uma vez e gostou muito. Achou que ela tinha talento natural como atriz e não poderia ter ficado mais satisfeito.

Isso seria um bom slogan publicitário para o filme.
A imprensa desejava dizer coisas negativas sobre ela. Não sei se eles têm algo contra os Sarkozy ou se era só uma maneira de vender mais jornais. Mas as inverdades foram tão exageradas que me levaram a pensar com meus botões: e se a mesma coisa acontecer com relação ao Afeganistão, à economia, a assuntos importantes? Meu filme é uma questão trivial.

Quando o senhor tem tempo para descansar entre projetos, o que faz?
O de sempre. Levo meus filhos à escola de manhã. Saio para caminhar com minha mulher, toco com minha banda de jazz. E há a obrigação de me exercitar, a esteira, os pesos para manter a forma e não ficar ainda mais decrépito do que já sou. Normalmente não assisto aos grandes filmes de Hollywood. Quando estava em Paris, tive a oportunidade de ler um pouco de Tolstói e Norman Mailer. Coisas que deixei escapar ao longo dos anos.

Imaginei que o encontraria na montagem de 12 horas de duração para "Os Demônios", de Dostoiévski, que o Lincoln Center Festival exibiu algumas semanas atrás.
Não, não, eu não sou culto. Leio esse tipo de material mais por obrigação do que por diversão. Para mim, diversão é tomar uma cerveja e assistir a uma partida de futebol americano.

quarta-feira, setembro 15, 2010

Fiquei lisonjeada com os escritos da Sil Mascagna

Armas contra falta de cidadania - Silvana Mascagna

Vejo no Twitter que Jards Macalé riscou o carro de Tadeu Scmidt que estava estacionado na calçada.

Clico no link e fico sabendo que a nota é de Joaquim Ferreira dos Santos, de "O Globo", e diz que: "Jards Macalé ia pela calçada da rua Maria Angélica, Jardim Botânico, quando foi interrompido por um carro estacionado com as quatro rodas. Não teve dúvida. Arranhou-o de um lado ao outro - e só não continuou pelo outro lado porque de dentro do carro, escondido pelo insulfilm, saiu o motorista, de 2m de altura. Começou o bate-boca e a multidão juntou, tomando partido em discursos".

"A cena ficou mais ‘fantástica’ quando surgiu o dono do carro, o repórter Tadeu Schmidt, da Globo. A PM veio em seguida, depois, a Guarda Municipal. A cena se desfez duas horas depois, quando Macalé se dispôs a pagar os danos à lataria do carro (já orçados em R$ 1.000), desde que houvesse multa pelo estacionamento na calçada. O caso está na 15ª DP".

Não sei quanto a você, leitor, mas eu estou de lado de Macalé. Tenho ímpetos de fazer o que ele fez toda vez que vejo algo do tipo. E que decepção o Tadeu Schmidt, hein? Será que vai dar no "Fantástico"?

O caso me transportou ao que aconteceu segunda-feira à noite comigo. Eu estava entrando no estacionamento do supermercado Super Nosso, quando me deparei com carro parado na via que desce ao subsolo. Achei que o motorista e os dois trogloditas que estavam com ele estacionaram ali para alguém debilitado descer. Mas, não, o imbecil do motorista, quando me viu, disse: "Pode descer por aqui". O "por aqui" era a via normalmente usada por quem estava subindo do subsolo.

Desci incrédula e fui logo falar com dois funcionários do estacionamento, que já tinha visto a situação e foram até o carro, onde duas moças esperavam. Sabe o que elas disseram? "Vai ser rapidinho. Eles não vão demorar". Sabe o que os funcionários fizeram? Nada.

Não acreditei. Aquilo acabou com meu humor. Fiquei fantasiando vinganças. Uma delas era ter um Jipe, aquele clássico, pesadão, e ficar empurrando o carro do espertalhão até amassar totalmente. Outra, é parar atrás dele e impedir que ele saia - para ele sentir na pele o que está fazendo com o outro.

O pior é que se fizer isso, corro o risco de levar um tiro. Porque, como diz o meu marido, um cara que faz uma coisa dessa é bem capaz de matar uma pessoa que o enfrente. E quantos casos desses já vimos por aí? Não esqueço de um, em que um homem, injuriado com um espertinho que estacionou numa vaga para deficiente físico numa locadora, protestou e acabou apanhando com barra de ferro. Foi parar no hospital.

O que me irrita mais ainda nessas situações é a pessoa que está fazendo a coisa errada achar que tem razão. O Tadeu Schmidt, por exemplo, devia ter ficado quietinho ali, protegido pelo seu insufilm. Pagava o estrago do seu carro, mas não passava atestado de péssimo cidadão.

No fundo, sei que atitudes como a de Macalé ou aquelas em que fico fantasiando não levam a nada. Melhor faz minha amiga Ludj, que quando passeia com Georginha Harrison pelas ruas do Santo Antônio, costuma distribuir saquinhos plásticos para as pessoas que, diferentemente dela, não recolhem as cacas de seus cachorros. É uma maneira elegante e sutil de dizer: "Seja cidadão".

E elegância e sutileza são sempre armas poderosas contra qualquer coisa, principalmente falta de educação.

É, tenho muito o que aprender com Ludj.

terça-feira, setembro 14, 2010

Hoje eu vou assim

"Eu retribuo o sorriso. Eu correspondo ao abraço. Eu digo sim. Eu quero sim. Eu sinto sins."
Caio Fernando Abreu