quarta-feira, dezembro 23, 2015

Mensagem de fim de ano (de ano do fim dos tempos)


Não interessa se você tem religião ou sequer acredita em Deus. Procure ter empatia com quem está trabalhando no meio de tantos rindo, brindando, comendo, bebendo, ganhando presente e podendo viajar. Você pode achar essa época uma "bullshitagem" sem fim. Mas coloque-se no lugar de quem queria muito estar com quem gosta ou mesmo passeando por uma cidade pela primeira vez e que, ao invés disso, está batendo cartão ou precisando garantir um extra em plenos 24/12, 25/12, 31/12 e 01/01. Uma vez, presenciei um escândalo de um rapazinho com a recepcionista da academia porque esta não iria abrir no Natal. Eu não consegui me conter: "amigo, corra na praça. Você não vai morrer porque os funcionários da academia vão descansar!". O sujeito me fulminou com o olhar. E com o nível de agressividade que o mundo anda, se fosse hoje, ele poderia me agredir.

Já fiz muito plantão do tipo levantar às seis da manhã em primeiro de janeiro. Não é a melhor coisa da vida ter que trabalhar com a sensação de um mundo em recesso, curando a ressaca com vista para o mar. Existem os que se acostumam, claro, e que fazem parecer que não é tão ruim. Mesmo assim, amanhã quando você for ao supermercado comprar um vidro de azeitona porque se esqueceu, seja minimamente educado com turma que está lá. Não adianta bufar porque a moça da padaria não pegou aquele pão mais tostadinho que você apontou entre os milhares (e com uma fila grande atrás de você). É bem melhor você desejar um ano novo legal para ela. E também para o vendedor da loja de chocolate onde você foi comprar a última lembrancinha e o embrulho demorou um pouquinho ou não ficou tão bonito. Saiba: eles sairão do trampo exaustos (os horários de funcionamento estão mais amplos). Muitos desejarão pegar os filhos pequenos acordados.

Não seja mala, não vá acionar o síndico porque o porteiro estava quase cochilando quando você voltou duas da matina depois de se esbaldar nas festas com  muita champa e peru (Aliás, assista ao "Som ao Redor". Naquela reunião de condomínio você pode ser a assinante da Veja). Deixe uma gorjeta para o taxista, dê cinco estrelinhas para o motorista do Uber. Não precisa virar o ano (que já não foi dos melhores para humanidade) para ser alguém melhor. Eu tento todo dia. Nem sempre consigo. O esforço sempre compensa.




sexta-feira, dezembro 18, 2015

Tchau, 2015 (não vou esperar o dia 31 de dezembro)

Não necessariamente em ordem, como tudo na minha vida:

Adotei outro gato.
Me mudei para um apartamento maior e melhor.
Fiz sirsasana sozinha e sem medo de me esborrachar no chão.
Parei para pensar na vida por quase quatro meses.
Ganhei uma filha de coração.
Fortaleci amizades para toda vida.
Emagreci comendo o que gosto.
Segui de mãos dadas com o meu amor.
Passei fins de semana grudada com minha irmã, minha mãe e meu tio.
Revi amigos, abracei amigos, mandei mensagens de amor para amigos: sóbria, bêbada, feliz e triste.
Aprendi a viver com menos dinheiro.
Parei de me preocupar com trabalho aos sábados, domingos e feriados.

Teve a parte ruim.
E ela me ensinou, mais uma vez.





sábado, novembro 14, 2015

Foi um rio que passou em minha vida

O rio morreu.
Não tem peixe, não tem comida.
Ninguém pode nadar.
Não tem água de beber, camará.

Eu quis escrever e não tenho medo de quem agora aponta o dedo na minha cara e diz:
"- Ah, bem que você tem um iPhone, né?"
"- Você está triste por causa da tragédia da mineração, só que aposto que não assinou aquela petição do avaaz contra o desmatamento"
"- Você votou em candidatxs financiadxs por essas empresas"

Sim, é tudo verdade.
Não adianta eu rebater que não sou tão consumista (meu iPhone é um 4, bem furreca, anda bem zoado e nem poderia trocá-lo porque acho bem caro), que a maioria dos e-mails de petições vai para a caixa de spam (posso nem ter visto este) e que não só cobro de quem voto, como critico e deixo de votar na próxima eleição.

Ando bem exausta de tanta patrulha: seja da minha ideologia, do meu corpo e da minha dor.

A minha dor dói menos que a dos pescadores, da família que perdeu a filha de apenas cinco anos, de quem não tem casa, não tem cidade.
A minha dor, no entanto, existe ainda que coadjuvante.
Ou como nos versos de DJ Dolores: "a minha dor, não é a dor dela. A minha dor é doriana, a dor dela é adorela".

Não vivi às margens do Rio Doce, mas tenho uma forte relação com ele.

Não sei se diferentemente de muitas crianças, porém igualmente a vários de meus amigos de infância, acampei muito naquela região nas férias e feriadões. Meus pais eram hippies para minha sorte. E esse apreço pelo contato constante com a natureza,  por conversar com os ribeirinhos e as bordadeiras, por dar carona quando avistávamos alguém andando na estrada de chão de terra debaixo de um sol escaldante só contribuiu para eu me sentir uma pessoa melhor.

Claro que eu já quis ir para colônias de férias bem-estruturadas, com piscina e recreação. Eventualmente, achava desconfortável dormir na barraca e ser atacada por pernilongos. Sabe o que compensava tudo? Olhar para aquela imensidão de água limpa, saber que a minha mãe havia esquentado no fogãozinho um pouco de água para eu e minha irmã não morrermos de frio no banho de caneca, ouvir meu pai cantando que ia encher de vagalumes meus cabelos, fazer trilhas para descobrir novas plantas e bichos...

Eu não me lembro que idade tinha quando armamos a barraca e corri para o rio eufórica. Voltei assustada com o biquíni sujo. "O que é isso, pai? Por que o rio está sujo?". Ele me disse que era a mineração.

Não voltamos mais a acampar naquele lugar.

Se fosse hoje, não teríamos mais lugar para ir.

Não preciso visitar meu passado para me sentir completamente devastada ao ver o Rio Doce tomado pela lama suja. Tudo vai virando um retrato, do tempo em que mandávamos filmes de 12, 24 e 36 poses para revelar.


segunda-feira, novembro 02, 2015

Das causas impossíveis

Uma das últimas vezes em que fui a uma igreja católica especificamente para rezar foi em 28 de outubro de 2009. A precisão da data eu coloco na conta dele, São Judas Tadeu. Fila de carros no bairro, ambulantes vendendo velas, distribuindo a oração. Gente velha, gente jovem, bebês de colo esgoelando. O ritual cristão sempre me causou sensações distintas. Se por um lado era bonito ver a fé que eu jamais tivera, também me sentia triste com o sofrimento exalando no ar e um tanto asfixiada ao me juntar àquela multidão.

Houve um tempo que eu ia muito à igreja. Mais do que estar perto de Deus, era algo meu e da minha avó, amiga de madres e padres que me davam biscoitos e mudas de plantas. Eventualmente, ela rompia com eles e mudava de paróquia. Foi numa dessas, na missa de sétimo dia, que vi seu nome cravado no banco, como ela preferia ser chamada: Celinha. Minha avó era devota de Santo Antônio especialmente, mas tinha imagens de São Francisco de Assis e São Judas Tadeu em sua penteadeira, hoje minha penteadeira.

Por uma infinidade de razões, me afastei do catolicismo até quase me esquecer das rezas básicas. Meus picos de fé eram motivados por algum grau de desespero. Não é nenhum pouco nobre admitir isso, embora eu jamais tenha deixado de agradecer pelas graças e pelas pequenas alegrias não solicitadas de maneira mais constante do que muitos frequentadores assíduos das igrejas. Nem sempre verbalizo. Com Deus tenho uma relação mais introspectiva.

Aquele ano de 2009 encerrou um ciclo. Levantei cedo, fui àquele local sagrado lotado pedir um milagre para o santo padroeiro. Queria que os rins da minha amiga Mariana voltassem a funcionar, que ela vivesse para ver milhares de shows e de filmes, que encontrasse um grande amor. Liguei para ela, na hemodiálise, e deixei um recado na secretária eletrônica.

O milagre, no entanto, não veio. Não culpei São Judas. Era algo que apenas a ciência poderia resolver. A ciência muitas vezes barrada de avançar e de se fazer presente em nossas vidas para curar doenças por causa do pensamento atrasado de alguns "fiéis" estrategicamente posicionados onde são criadas as leis. Quando converso com Deus, não mais em igrejas, insisto em pedir solução para tantas causas impossíveis.

domingo, outubro 04, 2015

Bing

Fatio o tempo dos dias úteis em três partes. São 120 horas, das quais 40 para trabalhar, 40 para dormir e 40 para comer, praticar yoga, amar. Na impossibilidade de um ofício com carga horária menor, vou cortar esse negócio de ficar bocejando na frente da TV às 22h para esticar o meu pedaço favorito.

Ando fazendo contas de tudo. Algumas me tiram do sério, outras me dão – ao menos, espero – longevidade: cinco respirações no adho mukha, dez no sarvangasana, quinze no halasana. Também contabilizo impressões sobre baias alheias. Sim, aqueles quadrados onde parte das pessoas passa 40 horas ou mais, de segunda-feira a sexta-feira.

Como Chandler Bing, de Friends, cuja profissão os amigos não conseguiam definir,  quando arrasto a cadeira para me alongar um pouco, acabo percebendo como os cubículos dizem sobre seus donos temporários. A foto da criança, que passa o dia na creche e outro período na casa da avó enquanto a mãe trabalha; uma miniatura de berimbau para recordar as últimas férias; várias miniaturas que só nerds sabem nomear; o retrato de uma noiva sorrindo para aquele cara recém-casado; orações; santos; flâmulas de futebol; canecas de todo o tipo, garrafinhas, flores de plástico, pilhas de papel.

A minha baia cabe numa caixa de sapato, para facilitar o dia em que eu for embora. Já saí levando sacolas cheias no passado e quero carregar menos coisas. Porque há circunstâncias de despedidas em que você dá de presente os saquinhos de chá pro vizinho ou aquele bloquinho em branco pro colega que acabou de chegar e há circunstâncias em que você apenas deseja que alguém faça a bondade de ir naquele lugar pegar seu grampeador de estimação.

Estava tentando me lembrar se o Chandler terminou a carreira feliz após sair daquele emprego - e voltar a ser estagiário - enquanto a Mônica tinha certeza de que seria chef para toda a vida. Eu que já fui um monte de coisas na minha profissão, dei um tempo, estou em outra e não consigo me imaginar no futuro. Aos 17 anos a escolha me parecia tão nítida e tão certa... E as baias vão mudando: a criança da foto cresce, as férias seguintes não serão na Bahia, a esposa pode virar ex, até a fé pode trocar de religião. Os torcedores, evidentemente, não vão gritar pelo rival. E eu seguirei esticando um pouquinho para olhar cada novo mundo ao meu redor.






sexta-feira, setembro 18, 2015

Sobre observar

Sumi deixando vestígios. Quando comecei a publicar em blog há 13 anos, o hiato era uma possibilidade. Leitores deste e de outros espaços já chegaram a enviar comentários e e-mails querendo saber por onde eu andava durante minhas ausências. Era gentil.

Ao longo deste tempo colecionei amigos que jamais conheci. Pessoas que se identificaram com minha escrita, minhas ideias e minhas experiências. Os comentários foram diminuindo, embora os acessos seguissem pelo caminho inverso.

Tenho uma certa saudade da sensação de escrever para meia dúzia de pessoas. Quando um tema bate as centenas de visualizações, não me envaideço. Sinto a curiosidade de saber porque tanta gente quis ler aquilo. Morro de vergonha de ter deixado passar um erro de português. Reflito sobre o quanto me expus e me exponho na página que assume, eventualmente, o caráter de Diário. E meus Diários tinham chaves, ficam super escondidos.

Sumi deixando vestígios. No Twitter, no Facebook, no Instagram e até no LinkedIn, aquela rede social corporativa que me dá uma imensa preguiça. Outro dia, uma das poucas pessoas com quem eu não trabalharia novamente, nem por milhares de dólares mensais, foi lá espiar meu perfil.

Ele espia, você espia e eu também. Espiamos para ver se aquela amiga que se mudou para a França está feliz e se aquele ex-caso que foi um perfeito babaca se deu mal de uma vez por todas.

Não escrever por aqui recentemente foi por um pouco de tudo. Não achei quase nada demais me ausentar, embora tenham se passado dois meses e meio. Ninguém me perguntou se eu iria abandonar este blog. Talvez quem passa por aqui considere satisfatória a minha opinião sobre o filme "Que Horas Ela Volta?" ou sobre a final do "Masterchef" no Facebook e no Twitter. Quem sabe o visitante já tenha visto meu novo corte de cabelo no Instagram e, ainda, se surpreendido com a série de cursos que tenho feito na área de finanças cujos certificados ainda esqueço de publicar no LinkedIn.

Para o quase nada que mudou, para o que evoluiu gradativamente e para o que está estagnado existem testemunhas. No entanto escrevo. Escrevo porque preciso. Mesmo sem estar hoje menos inspirada do que já estive um dia.

É o meu tempo de observar, de fazer meus exercícios para melhorar a minha capacidade de ser tolerante. Isso vai além da questão astrológica, do DNA ou da personalidade. Acho que todo mundo devia tentar. Estaríamos, quem sabe, num lugar melhor.

quinta-feira, junho 25, 2015

Religião

A pergunta tem sido recorrente, justamente em tempos extremamente intolerantes. Chegamos ao absurdo de apedrejar uma criança porque ela não grita aleluia e segue o candomblé. Seria melhor refletir, não apontar o dedo. E não é que estou depilando, comprando tomate ou sentada vendo a paisagem pela janela do ônibus e lá vem ela: "você tem religião?". Respondo que não.

Houve uma época que as pessoas desconhecidas perguntavam amenidades. Queriam saber se preferíamos frio ao calor, salsinha ao coentro, montanha ao mar. Nada disso rendia tantos tratados, no máximo alguém sugerindo que se você experimentasse a moqueca com coentro feita na terra dele. Um sorrisinho amarelo bastava para a criatura entender que não, você não o fará.

Pois o não no questionamento religioso é motivo para um debate desgastante. O outro já retruca meio assustado (ou com raiva mesmo): "mas você não acredita em Deus?". Respondo que sim. E penso em pedir para deixar a outra axila como está, largar os tomates e descer em paradas que me obriguem a cumprir o resto do trajeto andando. "Então por que não frequenta uma igreja?". Respondo que respeito, no entanto, não tenho empatia pelo discurso em geral.

A conversa sempre acaba na tentativa de conversão recheada de opiniões sobre a minha capacidade de ser realmente uma boa pessoa. E nem adianta insistir na busca por atitudes éticas, corretas ou solidárias. Se não mergulharem minha cabeça numa piscina ou se eu não colocar uma pastilha de trigo na língua, estou condenada. Penso em responder: "uma pena que não vamos encontrar de novo para outra conversa 'agradável' como esta, já que você certamente vai para o céu e eu para outro lugar". Respiro e tento mudar de assunto.

Não é quando a religião se tornou tão importante, mas quando interferir na fé (ou na ausência dela) e nas escolhas do outro virou uma obsessão cega. Então, a coisa chega naquele lugar onde devem ser criados projetos de leis para todos. A parcela, que se considera maioria, se agita. "Vamos transformar em crime! Vamos jogar na fogueira!".

Outro dia me lembrei do meu pai, que tinha aversão total ao cristianismo (embora criado no catolicismo). Ele dizia que era herege. Quando estudei Idade Média nas aulas de história, eu o compreendi. Questionar dogmas e doutrinas sempre foi motivo de alvoroço. Passei anos sem ouvir essa palavra, herege. Acho que nesta semana alguém me chamou assim pelas costas. Ouvi o sussurro e segui em frente.

Certo estava o Mario Quintana:

"Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
— muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
...e um belo poema — ainda que de Deus se aparte —
um belo poema sempre leva a Deus!"


sexta-feira, junho 05, 2015

Just Breathe

Na verdade, eu não deveria pensar em nada a não ser na minha respiração. Mas quando o professor de yoga sugere variações para alunos mais e menos flexíveis, fico no segundo time. Com um ano de prática vejo meus limites físicos sendo superados devagar e sempre. Não é fácil viver em tempos imediatistas. Quando verbalizo "jamais conseguirei" para um ásana, a resposta é: "Claro que sim. No entanto, conseguir realizar a postura não é o mais importante".

Flexibilidade, capacidade de amplitude. Olho para o lado e minha cabeça permanece no joelho, para mim ir além chega a doer. Alguns me parecem relaxados com as suas encontrando as pontas dos pés. Não tenho problema em não ter um corpo flexível, mas fico me perguntando se minha mente é necessariamente a extensão dele. Esse é o grande exercício. Quando estou numa discussão com alguém que pensa totalmente diferente de mim, sou capaz de ceder? Sou capaz de não cair na armadilha do certo e errado (que, no caso, é o outro)? Olho para o lado e há quem nem se movimente. Percebo, enfim, que não é para olhar para ali ou acolá. Eu tenho que olhar para mim, eu tenho que respirar.


sexta-feira, maio 15, 2015

Pequeno tratado de grandes emoções

Das listas da minha vida, apenas a do supermercado tem uma grande margem de erros. Costumo esquecer de enumerar o detergente que já acabou ou a manteiga que sempre acho essencial. Coloco mais um pacote de café no carrinho por via das dúvidas e percebo, ao chegar em casa, que há dois.

Gosto de listas para no caso de um dia, se eu desmemoriar, alguém possa fazer a fineza de imprimir esses itens. Quem sabe eu me sinta como naquele dia em que chorei quando:

- Assisti ao show do Paulinho da Viola e Velha Guarda da Portela.
- Vi o Radiohead subir ao palco pela primeira vez.
- Saí do último espetáculo da Pina Bausch no Brasil.
- Ganhei um abraço do Paulo Autran, depois de uma entrevista para qual morria de medo de fazer.
- No cinema, aos três anos de idade e com minha avó Celinha, na sessão de "Monica e Cebolinha - No Mundo de Romeu e Julieta".

Lista de bate-pronto com os clássicos cinco momentos. Evidentemente, outros tão importantes existiram. Existirão. 

quarta-feira, maio 13, 2015

Lugar no mundo

Que o jornalismo como estamos acostumados mudou, não é de hoje. Impressos estão sumindo do mapa em todo mundo. Meu primeiro baque foi o fim do "Jornal do Brasil", que lia aos domingos por influência do meu pai. O último talvez tenha sido o "Jornal da Tarde" onde trabalhei. Juntamente com essa morte anunciada, outra bem pior está evidente: a péssima qualidade de boa parte do que se publica (claro que há exceções. Eu as leio todo dia). Falta o básico que é a apuração (ou atribuir a um ator saudável o Alzheimer avançado é apenas o caso de "erramos"?), os textos quando não estão extremamente confusos desde o título (o que, suspeito, só pode ser para dar mais cliques aos portais), não estimulam a leitura até o fim porque são um amontoado de clichês, visões estreitas e arrogantes de mundo. A qualidade despencou por uma série de razões. Estudiosos e leigos cuidam de apontá-las desde teses interessantes a posts rasteiros (sim, existe a crítica desqualificada e com muitos erros de português) em suas redes sociais.

Há duas décadas entrei na faculdade de jornalismo. Ao longo dos anos repetia para quem quer que fosse que teria feito tudo outra vez. Hoje não. Não há da minha parte o menor prazer em fazer parte desse processo. São contradições, pois adoro entrevistar pessoas, escrever e tenho carinho especial por 95% das redações onde trabalhei. No entanto, venho me desapegando. Se amanhã me chamarem para trabalhar no veículo X ou Y, é provável que eu precise pensar (eu nunca pensei, sempre aceitei de cara quando o desafio era bom). Daí percebo o quanto o jornalismo está morrendo para mim, não importa a opinião de ninguém. Não há tantos lugares que me provoquem aquele frio na barriga, como eu tinha aos 16 anos de idade e sonhava em ir para a BBC de Londres. Os meus sonhos, como cantou Cazuza, "foram todos vendidos. Tão barato que eu nem acredito".  Isso me dá uma melancolia, uma falta de esperança e um medo. Quando eu findar o período dos meus atuais projetos, o que será de mim? Não terei nem 40 anos e uma estaca zero pela frente. Bom, no meu caso isso nem sempre foi um problema.

Enquanto isso, vou lendo notícias, análises de especialistas e de leigos. Sobram-me perguntas. A maior delas: como o jornalista vê o seu lugar no mundo? Para ser mais específica, vou usar um exemplo simples: há algum tempo li a resenha de um crítico que possui um blog vinculado a um grande jornal. O tema era um restaurante em São Paulo que virou a bola da vez. Conheço o profissional e suas opiniões são geralmente interessantes. Fiquei com vontade de ir ao lugar, numa terça-feira ou qualquer dia em que não houvesse fila para comer (um clássico da cidade). Dias depois, uma amiga compartilhou um texto de um blog que ela considera relevante e a resenha destruía o restaurante. Era mais específico com relação a preços e o autor chegou a se recusar a pagar por um drink mal preparado. E assim, do 8 ao 80, estamos. Posso desconfiar do jornalista ligado ao grande veículo que foi tratado com tapete vermelho pelos assessores de imprensa e não pagou um centavo? Posso. Posso desconfiar do crítico independente que já tinha a predisposição de odiar o lugar da moda porque a praia dele é petisco de botequim? Posso. Então, terei que eu mesma checar, para usar um termo jornalístico, e seguir digerindo meus questionamentos.




sexta-feira, maio 08, 2015

Inquietude

Nesses tempos em que as minhas horas passam sem vínculo com pontos eletrônicos e rotinas de escritório fico inquieta, não apenas em face da necessidade de não desperdiçar minutos de trabalho com distrações, o que é um grande desafio.

Então, converso com meus gatos longamente, observo as reações bem particulares deles. Amelinha responde, Alice deita no meu colo e Chivito morde meu dedo.

Faço compras a conta gotas para poder caminhar, olhar para o céu, registrar uma imagem diferente. Minha observação não é meramente contemplativa. Puxo papo sobre a farinha com o padeiro. Sou interrompida pela senhorinha que diz evitar o glúten. "Só que antigamente a gente comia tudo. Ao longo dos anos, o trigo já não é mais o mesmo". Ela reproduz um desses milhões de artigos que transformaram os apaixonados por pãezinhos quentes com manteiga em monstros sem amor próprio. Quando vai me dando aquela pontinha de vergonha por admitir que poucas coisas na vida são melhores que esse carboidrato assustador, embora eu coma o integral na maioria das vezes, ela arremata: "olha, todo sábado eu tomo duas cervejinhas, sabe? Aquelas de garrafinha porque faz muito calor em Brasília e não dá para viver evitando os prazeres!". Concordo e afirmo que preciso chegar na média moderada das duas garrafinhas.

Saio da padoca artesanal feliz com o multigrãos de um lado, o pão de mandioca do outro e dois recheados de ricota e azeite.

Mais tarde, chego à consulta médica e sendo a recepcionista de uma extrema simpatia pergunto de onde ela é: Bahia. Respondo que adoro e morro de saudades. Ela saca o celular, me mostra fotos de sua cidade, vizinha a Ilhéus, e começamos a falar sobre Jorge Amado, seus personagens, a comida arretada da terra dela, essa coisa de morar longe dos pais...revista velha para quê mesmo?

Nisso, a médica abre a porta e observa que apenas esquecemos de preencher o prontuário. Reitero que a culpa é toda minha, que não deixei a moça trabalhar.

Depois da consulta, a médica que é super gente fina e àquela altura já sabe mais do que as informações sobre a minha saúde conta que adora a recepcionista justamente pela espontaneidade e que isso ajuda os pacientes a ficarem mais confortáveis.

No meu prédio, cogito abordar o porteiro sobre como foi bom a chuva ter dado uma trégua. Me contenho. Sorrio e dou boa noite.


quinta-feira, maio 07, 2015

Fui Sabendo de Mim

Fui sabendo de mim 
por aquilo que perdia 

pedaços que saíram de mim 
com o mistério de serem poucos 
e valerem só quando os perdia 

fui ficando 
por umbrais 
aquém do passo 
que nunca ousei 

eu vi 
a árvore morta 

e soube que mentia 

Mia Couto

quinta-feira, abril 16, 2015

Sobre "ferpas" e verrugas

Duas coisas que achei que desapareceram com a vida adulta: "ferpas" (na verdade, farpas, mas sempre falei errado) e verrugas. O fiapinho de madeira sempre calhava de entrar na minha pele. Era uma dor aguda. Minha avó Celinha tinha a maior paciência para puxar aquele corpo estranho com a pinça, depois de me acalmar com histórias ou algum feitiço (ela inventava uma palavra mágica para eu melhorar rápido). "Tá doendo muito, vó", eu dizia soluçando. Ainda tinha o merthiolate. Dose dupla de sofrimento. E eu chorava, chorava até dormir.
Foram anos manipulando todo tipo de material e nenhuma "ferpa" me afrontou. Ontem, uma sorrateira espetou o meu pé. Achei absurdo, pois cresci com a certeza de que não iria me desesperar mais com madeiras entranhas na pele. Não doeu tanto. O problema foi encontrá-la. Coloquei os óculos, no entanto, sendo míope, não fez a menor diferença. Foi um super alongamento para colocar o pé diante dos olhos e puxar sem dó. Tirei a "ferpa" com soberba. "Eu sou melhor que você", pensei.
Então me ocorreu a lembrança da verruga. Não sei porquê vivia com verrugas nos dedos. Na escola me contaram que secava com tinta de Bic azul. Faber Castel não funcionava. Eu coloria a verruga e ela ressurgia em outro dedo. Um menino da sala veio com a piadinha de que era coisa de bruxa. Pobrezinho! Eu tinha um móbile de bruxas em cima da minha cama, era fã da Feiticeira...ser chamada de bruxa era tão legal que eu acreditava que meus poderes surgiriam algum dia.
Verrugas eram tranquilas porque não pressupunham tratamentos com injeções, xaropes e supositórios. Minha mãe mandava eu parar de mexer nelas, aplicava pomadas. Minha avó extraía uma flor que brotava no meio de espinhos e soltava um líquido leitoso para passar na verruga. Ela também me dava orientações difíceis de seguir: "pare de apontar para as estrelas. Por isso que as verrugas vão parar nos seus dedos". Vou até fazer um teste, olhar para o céu no cair do dia, e esperar os próximos. 

sexta-feira, abril 10, 2015

A coreografia

Não sei dançar, tecnicamente falando. Essa é uma das coisas que eu queria realizar na minha vida. Eu trocaria a oportunidade de escalar o Himalaia ou a fluência em italiano para conseguir ter a leveza da Jennifer Grey pulando nos braços do Patrick Swayze em "Dirty Dancing". Sempre tem alguém para dizer que nunca é tarde. No fundo, eu até acredito que nem seja.

Tive uma breve experiência com a dança quando passei um ano num colégio caro da zona sul que concentrou todas as experiências de bullying que um pré-adolescente poderia ter. Sem entrar em detalhes com meus pais, os convenci de que não precisaria continuar ali. A dança, no caso, era um módulo da educação física. Como eu não fazia balé ou jazz, achei que poderia ousar numa apresentação para o colégio, que reunia as turmas de quinta série. Eu tinha uma dupla, ao contrário das outras meninas que andavam em grupos e eram bem parecidas.

Minha dupla era como eu: uma menina estranha que vinha de outra escola. No meu caso, pública. Tive que lidar com provocações de que, no mínimo, piolho eu deveria ter. Luciana era tímida, gordinha e, aos 11 anos de idade, já havia circulado por várias instituições de ensino. Sugeri a ela que fizéssemos a coreografia de "Flashdance".  Ela amava o filme, como eu e todas as meninas. Mas me alertou que não éramos como elas, a começar pela visível predileção da professora de educação física que nos tratava com desdém. Eu insisti porque nos achei justamente identificadas com a personagem da Jennifer Beals. Ela fez tudo sozinha!

Então chegou o dia da apresentação. Na primeira fila, todos os garotos insuportáveis da sala, seus tons de voz entre o grave e o esganiçado e, ainda assim, com a capacidade ímpar de dizer para mim e para Luciana que nunca teríamos namorados porque o meu cabelo era feio e ela era gorda.  Eu os vi atrás das cortinas daquele auditório decadente e respirei fundo.

Entramos com nossas caneleiras coloridas e roupinhas justas em cena. As luzes deveriam acender aos poucos, porém minha "direção" não foi respeitada. Ela olhou para mim nervosa. Eu disse: vamos! "First when theres nothing...". Os primeiros segundos da música de Irene Cara foram perfeitos. Infelizmente, nem chegamos ao refrão. Com os risinhos e piadinhas, nos desconcentramos. Devíamos ter ido para lados opostos e trombamos uma na outra. Ela foi a primeira a sair, chorando. Eu não chorei, não naquele momento. Saí no meio da música e avisei para a professora em tom agressivo que não faria o último módulo do semestre, que era basquete, pois havia me cansado dela e daquela escola.

Não voltei para a aula iniciada após o recreio, que foi transformado na tal semana da dança. Como a única pessoa amiga daquele colégio era justamente o fiscal de alunos, Miranda, com quem tenho até uma foto, fui para a sala dele. Ninguém nunca soube disso. Ao soar a última campainha liberando as turmas, eu já estava dentro do especial do Jorge, louca para ir para casa.

Miranda era negro e me disse que o mundo era um lugar assim, cheio de gente preconceituosa e que isso começava desde cedo. Foi quando eu deixei cair as lágrimas. Miranda comentou que tinha certeza de que nossa coreografia de "Flashdance" era a mais legal, numa didática que a professora jamais teve. Ele falou que eu tinha dançar, sem me importar com o que outros pensassem. De algum modo, segui o conselho.





domingo, março 29, 2015

365 dias

Há 365 dias eu só sabia meu endereço. Não adiantava ninguém me perguntar qual o melhor caminho para se chegar até aqui. L2, Eixão, W4 eram algo bem subjetivo. Passei a maior parte da minha vida entre ruas e avenidas. Achei que demoraria um bom tempo para desbravar sozinha as quadras pares e voltar para casa sem me perder. Foi rápido, como este tempo que passou.

Todo dia escolho caminhos diferentes, que antes me confundiam. Gosto particularmente das 300, mais arborizadas. Fotografo flores, sinto cheiro de dama da noite, manjericão e goiaba na vizinhança. Queria uma parede do cobogós para chamar de minha. Ainda dou um mini-chilique quando um calango passa por mim. Parei de achar a coruja um animal simpático quando vi um pobre gatinho fugindo dela.

Não reaprendi a andar de camelo, pulo na frente dos ônibus e zebrinhas que ignoram os pedestres. Como todos que se aventuram em improvisos de calçadas em péssimo estado, tomei alguns banhos de água suja promovidos por motoristas em seus carrões de vidros fumê. Fico irritada porque numa cidade onde existem tantos parquinhos, a circulação de cadeirantes me parece tão restrita. Me recuso a fazer parte do exército que acha que todo lugar é estacionamento.

Quando vou comer, pergunto antes se aquele verdinho é coentro. Já achei a folha até no tabule, uma heresia. Passo a milhas de distância do pequi - mais identificável porque impregna o ambiente -, enquanto mastigo outros sabores do cerrado. Incorporei a tapioca no café da manhã e não fico muito tempo longe da patisserie do Daniel Briand. A vida é melhor com pain au chocolat.

De todos os clichês, concordo com o Lúcio Costa: o céu é mesmo o mar de Brasília. A vida aqui fica menos revolta do que já foi um dia. Talvez (e principalmente) porque tenha meu amor e meu porto-seguro nos dias de chuva e seca, nos nossos pequenos rituais, decorando nossa casinha e pensando em soluções para caber mais um quadro ou um móvel pé palito. São Paulo me deu o melhor de Brasília, ainda que eu chegue zen da aula de yoga e ele esteja vibrando com o jogo do Corinthians.

Hoje faz um ano. Não sei se o primeiro de muitos. Algumas siglas permanecem um mistério. Eu via as placas apontando para SIG e me lembrava do ratinho do Pasquim. Alguns mistérios faço questão de manter. Cidades são como pessoas e sempre estarão dispostas a nos surpreender. As pessoas aqui falam como o Brasil. Uai, ôxente e tchê são meio híbridos. Ao mesmo tempo, ouvem-se línguas do mundo, especialmente no setor hoteleiro. Algumas interrompem nosso andar para perguntar onde fica a Torre de TV. Nem todas, num primeiro momento, acham aquela edificação propriamente turística. Um dia eu também fui assim. Mas aconselho em português pausado, inglês ruim e mímica que cheguem ao topo.






sábado, março 21, 2015

Portinha

Passei quase um ano em frente àquela portinha, sem nem saber o que havia por trás. Espremida entre salões de beleza, lojas de suplementos alimentares, bancos e farmácias. Foi a moça dos Correios que sugeriu, na semana passada, que eu fosse lá comprar uma embalagem. Ela, aliás, é uma entendedora de um tempo que não liga para o frenesi das novas tecnologias, age lentamente e nos leva para algum lugar chamado saudade. A moça dos Correios sempre dá notícia dos fregueses habituais, idosos, que colecionam selos, mandam cartas para parentes e se recusam a entrar na fila preferencial porque não se sentem velhos.

Entrei na portinha, um armazém. Imediatamente, um senhor saiu do balcão e veio me perguntar sobre o que eu estava procurando. Acabei levando até um espanador, coisa que minha avó usava. Paguei em dinheiro, pois não aceitam cartões, cheques e fazem questão de espalhar plaquinhas bem-humoradas para a pergunta-afirmação "crédito ou débito". Enquanto aguardava o troco, outro senhor listava à mão item por item que eu comprei num caderno cheio de margens. Perguntou meu nome e escreveu corretamente, com o "d" mudo e sem dobrar o "l". Desde então, quando passo na portinha, recebo um aceno. Fico imaginando a moça dos Correios fechando a agência e tomando um cafezinho açucarado com eles. 

No sacolão onde vou aos sábados - outra portinha -, mesmo escolhendo tudo com calma no meu boitempo, não me canso de ter surpresas agradáveis. Hoje, a dona do lugar me sugeriu trocar o mamão que eu acabara de escolher. "Muito verde. Mesmo se amadurecer, não ficará tão saboroso quanto os mais laranjinhas". Troquei e comentei que verde assim só para o doce de mamão caseiro. Ela sorriu e retrucou: "ah não, aquele verde, verde era do quintal da avó. Ela sabia qual era o melhor para colher. Este nunca ficará igual". 

Saí com gosto de doce em calda de lá.






terça-feira, março 17, 2015

É o mistério profundo, é o queira ou não queira

Certa vez, uma amiga me disse que considerava o Franz Café um lugar ideal para se terminar namoros.  Eu achava a constatação curiosa até ter o ímpeto de enviar "You're so Vain" num MP3 para um certo rapaz, mas achei por fim que ele não merecia tanta consideração. Criamos cenários e trilhas para encerrar ciclos, ainda que não intencionalmente.

Aqueles dois mesmo. Tinham uns 20 anos. Ele, de cabeça baixa, argumentava. Ela chorava, esfregava os olhos borrados de rímel. Aqueles dois sentados justamente no meio do meu caminho, era a minha pausa para colocar sacolas de compras e dar um respiro. Fiquei na posição de intrometida.

Chovia e o céu sempre único e azulado de Brasília estava no tom da tristeza. Havia um vento frio também. Ele ofereceu o abraço e ela encostou a cabeça no ombro dele. Aceitou metade, o que cabia para o momento. Eu quis dizer aos dois que daria tudo certo, que tinham uma vida pela frente e mais uma série de clichês. Por isso, cuidei de me apressar.

Marços chuvosos e de frente fria combinam com cenas assim ou talvez seja o anúncio da promessa de vida nos corações, cantada por Tom e Elis.

Sendo um meio de tarde, num dia de semana, eu os imagino agora cada um em sua casa. Ele no quarto olhando para o teto. Ela contando o que aconteceu para a melhor amiga no telefone.

segunda-feira, março 09, 2015

Coragem

Tenho recebido aqueles olhares familiares de "como você tem coragem?". Não consigo formular tantas respostas além da óbvia: se não der certo, vira aprendizado. Foi o que aconteceu há quase 10 anos. Eu estava cansada da cidade onde nasci e insatisfeita com a estagnação do meu trabalho. Não havia nada para receber (férias, décimo terceiro, fundo de garantia) e eu não tinha reservas para passar mais do que um mês sem trabalho.

Um amigo me recebeu em sua casa, para ficar o tempo que precisasse. Afirmei algumas vezes que ele é das poucas pessoas nessa vida que não ouvirão de mim a palavrão não. Ando ampliando os nãos de maneira progressiva, mais por maturidade do que por instransigência. Por menos que eu ande na linha, sempre fiz terapia, acupuntura, tratamento com homeopatia e, agora, yoga para encontrar respostas. Voltando àquela época em que larguei tudo, a entrevista de emprego que agendei deu certo. Porém, o editor sofreu um acidente e foram quase três semanas de atraso para a contratação. Não foram poucas as vezes em que fiquei com medo.

O que fiz nesse tempo? Vivi a cidade. Andei no centro, frequentei os cinemas nos horários mais baratos, procurei temas para me inspirar. Logo surgiu um freela numa revista para a qual fiz vários outros. Veio o trampo, consegui alugar um apartamento e tive boas oportunidades. Nada foi chance de ouro. Foram mais tapinhas nas costas dizendo que eu era boa no que fazia do que necessariamente uma compensação financeira. Aprendi que na ausência do jantar - minhas prateleiras viviam vazias - a espiga de milho verde do metrô era uma ótima opção, que os livros que eu ganhava das editoras, depois de lidos, podiam ser vendidos para que eu pudesse tomar uma cervejinha com amigos.

Quando conto meu ano e meio em São Paulo para as pessoas, a maioria diz: eu não teria essa coragem!

Fico pensando se é isso mesmo. E tenho até outra versão: sou movida pela minhas insatisfações. Como tendo a reclamar muito, existe um ponto em que eu simplesmente não me suporto. Esse é o momento de seguir em frente. O passar dos anos me fez enxergar, no entanto, que não preciso ficar muito tempo adiando o inevitável. Se vou mudar de ares, de trabalho e de relação é melhor que seja o quanto antes. Não minimiza impactos, não cura ansiedade, não faz o dinheiro cair do céu. Por outro lado, abrevia o desconforto (ironicamente, ficar na mesma é zona de conforto) e dá uma sensação de liberdade.

Estava ouvindo Legião Urbana outro dia (nunca fui propriamente fã da banda) e me prendi ao refrão que se encaixa como luva neste meu agora: "disciplina é liberdade, compaixão é fortaleza, ter bondade é ter coragem". Com esses pilares, vou construir outra coisa. Saí de um emprego onde estava há quase um ano para realizar projetos que sempre adiei porque decidi que seria o melhor momento. A primeira coisa que me ocorreu foi me organizar melhor. Ter, enfim, aquele tempo para ler, pesquisar, escrever e me movimentar em outros sentidos, pois não se trata de descobrir o novo lá fora. Eu preferia uma passagem para outro continente, mas não será possível.  Vou intensificar a yoga, cuidar do meu jardim, de quem eu amo e de mim. Desta decisão virão momentos diversos, alguns pelos quais atravessei um dia, outros completamente ocultos. O depois dirá. 


quinta-feira, janeiro 08, 2015

(Con) tradição

Todos os meus posts de janeiro são um coquetel de otimismo. Já comecei os novos anos com fotos festivas, poesia e arte. Mesmo depois de anteriores devastadores, com mortes e tragédias pessoais, havia em mim algo meio Scarlett O' Hara. A "fome" que concluiu a frase  "jamais passarei" era trocada por tristeza, decepção, raiva.
Ilusão.
Não há barganha com as dores, há aprender a lidar com elas, pois existirão até o último ano de nossas vidas.
O poeta, que habitava um mundo particular, sugeria que anos novos pudessem ser folhas em branco para escrevermos nossas próprias histórias.
Escrevemos. Alguns até em papéis de carta floridos e com ursinhos carinhosos.
No entanto o destino, o karma, o acaso e o que quer que seja trata de amassar a folha, rabiscar a letrinha redonda.
"Querida vida, hoje fui uma pessoa melhor".
Quantas porradas depois irão manter a doçura ou a tolerância? Não se sabe.
Então a gente levanta, segue, apanha e também bate.
Bate nem sempre porque foi provocado.
As religiões e os livros de autoajuda insistem que rupturas são ruins.
Não as vejo de maneira tão limitada.
Eu já deixei de falar meses e anos com algumas das pessoas mais importantes para mim.
Não me orgulho, mas não fico me culpando.
O destino, o karma, o acaso e o que quer que seja resolveu a questão. Evidentemente à maneira dele.
Então, eu aceito.
Eu aceito as coisas boas que 2015 vai me dar e as ruins também. As primeiras agradeço e faço por merecer. Para suportar as últimas, peço força, calma e sanidade.
Levei anos para me despedir dessa personagem cheia de esperança de janeiro. Serei eu mesma, achando cada momento do dia diferente: preocupada com o mundo que explode e sorrindo ao ver um amigo querido mandar uma mensagem de amor para o namorado numa rede social.
Eu continuarei promovendo começos com fotos festivas, poesia e arte, ainda que sejam nos derradeiros meses já com as folhas escritas, rasuradas e amassadas.





segunda-feira, janeiro 05, 2015

Para abrir 2015

ovo
o ano n'ovo cresce bem devagar, como fazem as coisas que ficam nos ovos. por enquanto, ele ainda está clarinho, clarinho, quase branco, de uma transparência viscosa e pegagenta. o ano n'ovo acabou de ser concebido e parece meleca. logo ele começará a amarelecer, encorpar, liquefazer e suas partes vão começar a se distinguir, as fronteiras se delinear. no meio do processo, as fronteiras ficam bem claras. como são chatas essas fronteiras bem delimitadas do ano n'ovo. mas o que se há de fazer? é assim com tudo o que quer nascer. vai chegar uma hora, enfim, em que, de tão bem configuradas as formas, o ano n'ovo vai querer sair para fora da casca. e, pronto. lá se vai outro ano n'ovo de novo se preparar para virar passarinho. e a casca do ovo, quebrada, ficará vazia do ano, já velho, que partiu para fora. é o fado das cascas e dos anos, dirá alguém mais sabido. e outro alguém, mais perplexo, responderá: puxa vida, mas tudo sempre tem que ser assim?

Noemi Jaff, do Quando Nada Está Acontecendo