quinta-feira, junho 25, 2015

Religião

A pergunta tem sido recorrente, justamente em tempos extremamente intolerantes. Chegamos ao absurdo de apedrejar uma criança porque ela não grita aleluia e segue o candomblé. Seria melhor refletir, não apontar o dedo. E não é que estou depilando, comprando tomate ou sentada vendo a paisagem pela janela do ônibus e lá vem ela: "você tem religião?". Respondo que não.

Houve uma época que as pessoas desconhecidas perguntavam amenidades. Queriam saber se preferíamos frio ao calor, salsinha ao coentro, montanha ao mar. Nada disso rendia tantos tratados, no máximo alguém sugerindo que se você experimentasse a moqueca com coentro feita na terra dele. Um sorrisinho amarelo bastava para a criatura entender que não, você não o fará.

Pois o não no questionamento religioso é motivo para um debate desgastante. O outro já retruca meio assustado (ou com raiva mesmo): "mas você não acredita em Deus?". Respondo que sim. E penso em pedir para deixar a outra axila como está, largar os tomates e descer em paradas que me obriguem a cumprir o resto do trajeto andando. "Então por que não frequenta uma igreja?". Respondo que respeito, no entanto, não tenho empatia pelo discurso em geral.

A conversa sempre acaba na tentativa de conversão recheada de opiniões sobre a minha capacidade de ser realmente uma boa pessoa. E nem adianta insistir na busca por atitudes éticas, corretas ou solidárias. Se não mergulharem minha cabeça numa piscina ou se eu não colocar uma pastilha de trigo na língua, estou condenada. Penso em responder: "uma pena que não vamos encontrar de novo para outra conversa 'agradável' como esta, já que você certamente vai para o céu e eu para outro lugar". Respiro e tento mudar de assunto.

Não é quando a religião se tornou tão importante, mas quando interferir na fé (ou na ausência dela) e nas escolhas do outro virou uma obsessão cega. Então, a coisa chega naquele lugar onde devem ser criados projetos de leis para todos. A parcela, que se considera maioria, se agita. "Vamos transformar em crime! Vamos jogar na fogueira!".

Outro dia me lembrei do meu pai, que tinha aversão total ao cristianismo (embora criado no catolicismo). Ele dizia que era herege. Quando estudei Idade Média nas aulas de história, eu o compreendi. Questionar dogmas e doutrinas sempre foi motivo de alvoroço. Passei anos sem ouvir essa palavra, herege. Acho que nesta semana alguém me chamou assim pelas costas. Ouvi o sussurro e segui em frente.

Certo estava o Mario Quintana:

"Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
— muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
...e um belo poema — ainda que de Deus se aparte —
um belo poema sempre leva a Deus!"


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