segunda-feira, outubro 25, 2010

do you believe in life after love

Sentia-se feliz com a liberdade do não amar.
Sentia-se apreensiva com o vazio do não amar.
Era a própria contradição.
Passou a acreditar que nos joguinhos da sedução poderia ter sorte.
Mas lançava os dados com muita pressa ou não tinha uma estratégia.
Suspirava por histórias de amor que não fossem de cinema,
pois via que elas (poucas) ainda acontecem.
Tinha uma certa incredulidade quanto ao sucesso de seus encontros.
Arrumava-se e ia perfumada ainda assim.
Apostava no "até nunca mais" quando ouvia "vou te ligar".
Considerava-se ultrapassada fazendo a linha difícil.
Considerava-se estúpida deixando as intenções às claras.
Considerava-se fácil quando tinha a mesma atitude que um cara teria em seu lugar.
Não faria o ridículo de pedir aos amigos que apresentassem alguém interessante.
Não entraria numa sala de bate-papo virtual.
Um dia, fez tudo isso. E tudo isso ficou para trás.
Como o amor.
Que acontece a todo dia, em qualquer esquina, como dizem.
Decidiu conhecer quem achasse interessante por si só.
Constatou que não há tantas pessoas interessantes no mundo.
Embora o mundo tenha bilhões e bilhões de pessoas.
Talvez no Nepal.
Talvez na Sibéria.
Talvez no Canadá.
Para que sua rigidez fosse quebrada, acrescentou Brasil.
No fundo, só para não ouvir bronca das amigas e da terapeuta.
Queria tomar Café da manhã em Plutão.
O problema é que o planeta fez o favor de não mais existir.

domingo, outubro 24, 2010

Do Blog do Contardo Calligaris

"A infelicidade é uma das motivações essenciais; sem ela nos empurrando, provavelmente, ficaríamos parados no tempo, no espaço e na vida. Ou ainda, a infelicidade é indissociável da razão e da memória, pois a razão nos repete que a significação de nossa existência só pode ser ilusória e a memória não para de fazer comparações desvantajosas entre o que alcançamos e o que desejávamos inicialmente".

Concordo.

sábado, outubro 16, 2010

Hoje eu acordei com Roy Orbison

Every time I look into your loving eyes
I see a love that money just can’t buy
One look from you
I drift away
I pray that you
Are here to stay

(CHORUS)
Anything you want
You got it
Anything you need
You got it
Anything at all
You got it
Baby

Every time I hold you
I begin to understand
Everything about you tells me I’m your man
I live my life
To be with you
No one can do
The things you do

CHORUS

Anything you want
Anything you need
Anything at all

I’m glad to give my love to you
I know you feel the way I do

CHORUS

Anything at all
You got it


sexta-feira, outubro 15, 2010

Porque eu queria me apaixonar


"Duvida da luz dos astros,

De que o sol tenha calor,

Duvida até da verdade,

Mas confia em meu amor"

Shakespeare

domingo, outubro 10, 2010

A menina que você acha que odeia é apenas mais esperta que você

Ela também gosta de gatos. E de bandas alternativas. Ela também tem cabelos curtos, esvoaçantes e não se veste como Paty. Ela até poderia ser sua melhor amiga. Mas garfou sem dó o cara que você paquerava. Porque foi mais rápida, mais esperta e fez mais carinha de "donzela no alto da torre", enquanto você, idiota, compartilhava uma faixa inédita da sua - e dele - banda preferida num festival de Glasgow. Você virou "brother", ela: "namorada alma-gêmea". #bemfeito. #noalarmsandnosurprises.

sábado, outubro 02, 2010

Outro dia me senti assim...

A espera - por Tati Bernardi


Atrás da pista tem um bar e atrás do bar tem um sofá. Estou sentada nesse sofá. Aguardo ansiosa por algo, olho as horas no celular, checo o e-mail pelo Iphone, reclamo com minha amiga “tá demorando”. Ela me pergunta se é o show, se é a menina passar com a comida. O que é? Não sei. Mas tá demorando. Em cima do bar, no teto, tem um daqueles globos que sempre tem. Olho pro globo e penso que estou uma eternidade sentada naquele sofá. Mais de trinta anos? Descanso os cotovelos nos joelhos e me arrependo, enquanto todos querem ver e ser vistos, eu fico nessa posição feia de vaso sanitário. Minha amiga vai fumar. Eu me animo “já tenho pra onde ir”. Eu não fumo, eu odeio cigarro, eu odeio atravessar a festa inteira pra chegar até lá fora, eu odeio a amizade instantânea das rodinhas de fumantes que não se conhecem, eu odeio festas em geral, eu odeio papos de festa, eu odeio conhecer gente que não tem nada a ver comigo, e sorrir para os papos mais furados do mundo. Mas eu já tenho pra onde ir. E vou. E ao chegar lá fora, continuo achando que está demorando. Sinto falta do sofá agora. Mas quando minha amiga acabar o cigarro, eu já terei novamente pra onde ir. E assim uma festa chata me lembra muito a vida. A eterna oscilação entre ir lá fora ver e voltar pro sofá, sempre só pra ter pra onde ir. Chegou agora um ex amor. Ele entra com sua esposa. Ele me abraça enquanto ela segue em frente sem olhar pra trás. Faz aí uns 3 ou 4 anos que não damos um abraço. A gente sempre fugia das festas pra fazer sacanagem no carro dele. Não sinto saudade. Passou, faz tempo, não sinto nada. Nada. Talvez só sinta mais claro o que eu já sentia antes. Antes de sair de casa. Antes de ficar indo do fumódromo pro sofá e vice-versa. Eu só sinto agora, com esse abraço que não me fez sentir nada, com mais clareza, o que eu já sentia antes e muito antes de antes. Eu sinto que está demorando. Eu olho de novo no celular. Eu posso ir ao banheiro e isso já é um lugar para ir. Me animo. Não, não me animo. Tudo me deprime. Eu ficar chupando a barriga pra dentro pra esconder que tenho um pouquinho de pança, eu ficar me equilibrando no salto, eu ficar fazendo minha cara de “não encosta em mim”. Tudo me deprime. As pessoas falando de trabalho, as pessoas forçando falar qualquer absurdo só porque o óbvio seria falar de trabalho. E principalmente: o grupinho de moças muito altas e muito loiras que não trabalham mas estão lá porque estar nesses lugares é o trabalho delas. Tudo é tão chato mas eu fiz cabelo e maquiagem. Antes da meia noite não dá pra ir embora. Preciso me gastar um pouco pra não dormir tão antes de tudo dar errado. Eu sei, eu deveria beber. Mas pra quê? Pra achar essas pessoas legais? Pra suportar o insuportável? Sou cínica demais pra dar esse gostinho ao mundo. E eis que adentra à festa o rapaz que, não faz nem uma semana, me pedia que eu não fosse ainda, só mais um pouquinho, espera amanhecer, porque, depois, você sabe, dá tanto sono. De mãos dadas com a moça que vive dando entrevista dizendo que eles se comem mesmo, o tempo todo. E isso não me dói em nada. Foi só um moço muito bonito que durou uma semana. Mas ele também reforça meu pé inquieto batendo ritmadamente: será que demora? Não sei. Não, não demora mais. Olho pra porta e ele acabou de chegar. Eu fui na festa por causa dele. Então era isso, eu tava esperando o tal do moço que me convidou pra festa. E então ele fala comigo e encosta um pouco em mim e eu penso em ser muito honesta. Olha, fulano, eu acho tudo isso um saco, sabe? Eu odeio a cordialidade dos bichos. Todo mundo se elogia, fala de trabalho, conhece gente, faz piadinha ruim. Mas tá todo mundo pensando o que vai ter pra comer e também pra comer. Eu vim aqui porque, sei lá, desde que te vi na reunião e eram oito da noite e você estava muito cansado mas, mesmo assim, você estava muito cheiroso e falou coisas muito inteligentes, eu fiquei a fim de te beijar na boca. Então, dá pra pedir pra esse bando de amigo chato, que fica puxando seu saco, desaparecer do mapa? A menina com a perna gorda pode, por favor, nos deixar em paz? Você pode, por favor, parar de mexer no cabelo da minha amiga e parar de dar risadinha no ouvido dela e sumir daqui comigo? Não, ele não pode. Ele não é a resposta. Ah, Tati. Você deveria saber. Eles nunca são a resposta. Nunca foram. Que é que você quer? Por que você olha tanto pro celular? Existe alguém no mundo, nesse momento, que poderia te ligar agora e te deixar feliz? Não. Ninguém é a resposta. Nem o sofá, nem a festa, nem ficar em casa, nem a água com gás, nem olhar com nojo para o grupo de piriguetes vips que não prestam pra nada a não ser frequentar festas para sair em revistas e angariar empresários. Finalmente já tenho o que esperar: o carro. Finalmente já tenho o que fazer: ir embora. Na verdade a única coisa que estou sempre esperando e querendo é ir embora. De todos os lugares, de todas as pessoas. Eu não estou esperando nada a não ser o tempo todo sair de onde eu estou.