quarta-feira, setembro 23, 2009

O ano em que meus posts saíram de férias

Olhando as atualizações ao lado, constato que nunca escrevi tão pouco no meu blog. Alguns motivos têm a ver com essa escassez: mais transpiração do que inspiração, a passagem do tempo que me fez compreender que nem sempre a gente pode escrever/dizer o que bem entende - ainda que o espaço seja virtualmente "meu" - e que as coisas que me moviam e emocionavam não possuem o mesmo colorido...Nem atribuo a ausência ao facebook ou twitter. Poucos caracteres me ajudam no poder de síntese que busco (em vão porque quando quero gastar o português, quase nada ou ninguém consegue impedir).

Eu me exponho - para quem nem sequer vi na vida - desde os 25 anos, quando criei meu primeiro blog. Muita gente que por este endereço passa acha que me conhece bem. Até eu mesma, relendo antigas divagações aqui rabiscadas, chego a achar, por alguns momentos, que me conheço bem. Preciso voltar à terapia para tentar entender o que não consigo publicar ou mesmo digerir. Não me lembro por que razão me dei alta ou por que parei de pintar, por exemplo. Temo, um dia, parar de escrever porque as tantas coisas que já quis expressar deixam de ser revelantes de um dia para o outro.

Num passado distante experimentei a sensaçao de ter uma ex-amiga, a única até o momento. Senti mágoa e raiva. Hoje não sinto nada. E se tivesse que recriar a história, ela teria menos nuances, pois precisei aprender a dar a devida importância ao que aconteceu. Recentemente, um amigo próximo fez a linha "casou, mudou e não convidou". O contexto da coisa me deixou meio passada (na ocasião) e, confesso, do alto dos 23 dias de setembro de 2009, não faz mais diferença alguma. Saí de tantos "mailings" nos últimos dois anos. Cumprimentos acalorados de gente por quem eu tinha um certo apreço viraram uma saudação mais formal. Afinal, não tenho um espaço na TV ou no jornal para oferecer. Não sou ninguém na noite. Ainda bem.

O que isso tudo tem a ver com eu não escrever com a desejada ou devida regularidade? Muita coisa. No meu mundo de malboro, quem sabe seja um exercício de compaixão? Com os outros e comigo. Sempre acreditei que férias são oportunas e revigorantes.

quarta-feira, setembro 16, 2009

Para eu não me esquecer

"A prática da paciência traz uma estabilidade emocional que não só nos faz mais fortes mental e espiritualmente como mais saudáveis fisicamente. Sem dúvida atribuo a boa saúde de que desfruto a uma mente em geral calma e serena.
Entretanto, o benefício mais importante da paciência consiste em sua ação como antídoto poderoso ao mal da raiva, a maior ameaça à nossa paz interior e, consequentemente, à nossa felicidade. A paciência é o melhor recurso de que dispomos para nos defender inteiramente dos efeitos destrutivos da raiva.
Pense bem: a riqueza não protege ninguém da raiva. Nem a educação, por mais talentosa e inteligente que a pessoa seja. A lei, muito menos, pode ser de qualquer ajuda. E a fama é inútil. Só a proteção interior do autocontrole paciente evita que experimentemos o tumulto das emoções e pensamentos negativos." Sua Santidade, o Dalai Lama

quarta-feira, setembro 09, 2009

Imã





Elogiar o Grupo Corpo pode ser chover no molhado, ainda mais quando há gente que entenda bem mais deste cortado do que eu, como a Michele Borges da Costa ou a Helena Katz. Eu apenas me emociono. Apenas lembro da poesia da Cecília Meireles porque como toda menina já quis ser bailarina. Claro que gostaria imensamente de ter o domínio que a Michele e a Helena têm, porque elas sabem traduzir isso para o papel e deixar a gente com vontade de correr para bilheteria, antes mesmo da estreia de um espetáculo.

Mas eu tive meus anos felizes, de contato mais direto com os bastidores da companhia. Porque entender o Corpo como um processo faz muita diferença. Até Onqotô, tive o privilégio de entrevistar os irmãos Pederneiras, a Macau, o Fernando Velloso e todos aqueles bailarinos que são além de extremamente talentosos, gentis. Arrisco dizer que foram as reportagens que fiz com mais carinho na minha vida de repórter (ainda que eu não saiba se poderiam ser consideradas as melhores, pois isso é muito subjetivo). Mesmo que dança seja o assunto que mais me desafia na área cultural.

Quando o Corpo sobe ao palco, eu sinto saudade de saber como se deu a escolha da trilha, do figurino, do cenário. Que intenções existem por trás da coreografia e quais as matizes exploradas para iluminar (ou não) tudo aquilo...Eu sinto falta daquela curiosidade que eu buscava satisfazer "olhos nos olhos". Porém quando o primeiro bailarino surge em cena, paro de pensar. Como fiz ontem. Só consigo me sentir maravilhada, só consigo pensar na beleza e em como tenho sorte de poder ter assistido a maioria dos espetáculos do repertório do Corpo.

Se Imã seguisse em temporada no Palácio das Artes, eu veria de novo. Imã é uma delícia.

terça-feira, setembro 08, 2009

Presente da amiga Carol

Briga de Cão e Gato

Por Fabrício Carpinejar

O gato é o melhor amigo do poeta brasileiro.

O cachorro antes era o preferido dos estros. Deixou a realeza para o felino. Talvez seja a mudança de hábito, a adoção do apartamento em detrimento da casa, a adoração do silêncio dos condomínios residenciais e dos escritórios na hora de escrever, sem o alvoroço dos quintais e dos pátios.

Não que a figura canina tenha desaparecido. Affonso Romano de Sant'Anna, em 'Textamentos" (Rocco, 1999), tece emocionada homenagem ao seu afinado cão, capaz de acompanhar o adágio da 6ª Sinfonia de Beethoven com o ritmo da respiração. O pernambucano Alberto da Cunha Melo (1942-2007) escreveu um de seus últimos livros dedicado a um cão de olhos amarelos, triste, soturno, sofrendo na calçada de um bar.

O que aconteceu é uma secreta revolução dos bichos. As patas perderam prestígio para as garras. Miados dominam o teclado e o mouse tem que se cuidar para não ser engolido.

A verdade é que o cão ficou trancado na máquina de escrever. Pode até permanecer como o dileto na memória dos ficcionistas (destaque para Baleia, de “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos), mas não manda mais nos versos. Antigamente, até os anos 70, o cachorro funcionava como um alter ego confessional. Aparecia como personagem predileto de toda a geração 60 brasileira e de grande parte dos portugueses, de Fernando Pessoa a Ruy Belo. Mario Quintana o idealizava como um paranormal do lar, "o único que enxerga o vento" e percebe sua corrida pelas árvores. João Cabral de Melo Neto chegou a fazer todo um volume comparando os movimentos do rio Capibaribe de Recife a um cão sem plumas.

"O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão."

Houve uma variação da tipologia do poeta que abandonou o aspecto baldio de vira-lata e boêmio, do senhor do boteco e da rua, do uísque cão engarrafado celebrado por Vinícius de Moraes, para assumir o espaço doméstico, individualista e caseiro do escritório.

Os gatos são as novas beldades dos enigmas e das metáforas. Do Rio de Janeiro de Carlito Azevedo a Manaus de Aníbal Beça. Além de tomar a companhia da escrita, abocanharam a ração da bandeja.

Poetas jovens como Alice Sant'Anna, em Dobradura (7 Letras, 2008), extravasam a predileção com humor. Cria cinco tópicos com o título "O que sei sobre os gatos". É óbvio que ela cutuca os adversários de estimação, exercendo comparações de comportamento.

"Os cachorros mexem o rabo
quando estão felizes, os gatos mexem o rabo
quando estão nervosos: quando estão contentes
os gatos fazem barulho de motor
que se chama ronronar."

Ter um gato perto é quase uma escolha filosófica, uma postura reflexiva. Ganhou o eleitorado lírico pela sua independência e cotidiano autônomo. Por circular entre mundos. Pelas sete inesgotáveis vidas. Como parece que não está nem aí para o que está acontecendo, excita a meditação e os símbolos. O gato já é um poema naturalmente, inescrutável, dono de uma discrição absoluta. Facilita inúmeras interpretações.

A paulista Orides Fontela (1940-1998) demonstrava um fascínio pelas criaturas de bigodes, investigou seu domínio misterioso tanto em "Helianto" (1973) quanto em "Teia" (1996). Considerava o animal como um visitante, que não se entrega à submissão e ao controle. Tanto que gato não usa coleira, usa colar.

"na casa
o imperecível mito
se aconchega
quente (macio) ei-lo
em nossos braços"

O cachorro protege a residência, o gato protege a solidão. O cachorro mendiga afeto, o gato seduz com a distância. A sensação é que o cachorro é fofoqueiro, quer contar algo sempre, o gato já é um confidente, que escuta e guarda, protetor dos segredos. Nasceu com a batina no pêlo.

Assim como pode ser um gorducho preguiçoso, comilão de pizza, ilustrado pelo temperamento Garfield, pode ser um corajoso trapezista dos telhados. Concilia a dupla personalidade com perfeição. Sadiamente bi-polar. Em “Livro de Auras” (Iluminuras, 1994), Maria Lúcia Dal Farra tenta registrar sua rápida transformação, essa metamorfose súbita, a migrar de repente da maior inércia para elasticidade de um acrobata. Define o bichano como "um viveiro de alheios". Está com um olhar aqui, atento aos mínimos movimentos próximos, e outro acolá, em pensamentos longínquos.

Chacal, em sua antologia premiada "Belvedere" (Cosac Naify/7 Letras), traduz essa contemplação suficiente. Nem é bem um olhar, significa uma admiração.

"o gato lhe acompanha
onde quer que você vá
só com olhos - não é besta -
para ele basta olhar."

Os gatos são os filhos dos tigres de Jorge Luís Borges, netos dos tigres de William Blake. Herdaram a floresta, resíduos elegantes do mato. Sábios, professam sabedorias em fachada de esfinge.

Ensinam inclusive Ferreira Gullar. Em "Lição de um gato siamês", da obra "Muitas Vozes" (José Olympio, 1999), Gullar passa a entender que o tempo é eterno porque afetivo.

"Dura eternamente
enquanto vivo."

Ser professor de um dos maiores poetas da língua portuguesa não é qualquer coisa. É tarefa inspirada de musa.