quarta-feira, dezembro 31, 2014

Para fechar 2014...

...Drummond

O Inseguro

Que sentimento tive da vida, este ano? Que escavação tentei em suas jazidas? A que profundidade cheguei? Substituí a noção de profundidade pela de altura. Não quis saber de minerações. Cravei os olhos no espaço, para acompanhar a primeira fase de ascensão dos foguetes, ver passar os satélites. Olhei muito em redor e para cima, nada para dentro ou para baixo. Adquiri uma ciência de ver, ou perdi outras, que não eram ciências, eram artes de vi-ver?

Bom, é verdade que as circunstâncias não foram lá muito propícias. Houve de tudo, menos sossego. Quem pôde dedicar-se a certos trabalhos de geologia moral, como dizia o velho Assis? Mas as circunstâncias nunca foram favoráveis a nada, nenhum progresso jamais se fez à sombra de copada mangueira. Havia guerra, e daí? Injustiça, e daí? Explosão de ressentimentos, recalques, revoltas, e daí? Era precisamente o instante para você afirmar-se, meu velho: ou revelando a sua palavra ou pesquisando a sua verdade. Mas você se deixou ir empurrado, machucado, embolado, bola caindo fora do gramado, ou, na melhor, resvalando na trave.

Eu sei que você cultivou — mas vamos capar essa alienação da terceira pessoa — que cultivei ótimos sentimentos, isso não há dúvida. Por mim, era tudo compota de alegria, licor de anjos, flores de ternura na face da Terra. Exagerei tanto nesse bem-querer universal que, se fosse obedecido, isto aqui se tornaria insuportável, de tão doce e melenguento. Corrigi mentalmente a aridez do mundo sem me dar ao trabalho de mover o dedo mindinho para corrigi-la de fato. O que me dói mais são meus bons sentimentos; envelhecendo, assemelham-se a calos. Ou pedras. Tão aéreos, como pesam! Devia ser proibido cultivá-los em estufa.

Ora, estou empretecendo demais as faltas do homem qualquer que presumo ser (não tão qualquer, afinal: tenho meus privilégios de pequeno-burguês, e quem disse que abro mão deles?). Devo alegar atenuantes em minha defesa. Não nasci descompromissado com o mundo tal qual é, em seu aspecto rebarbativo. Deram-me genes tais e quais, prefixaram-me condições de raça e meio social, prepararam-me setorialmente para ocupar certa posição na prateleira da vida. Meus ímpetos de inconformismo são traições a esse ser anterior e modelado, em que me invisto. Donde concluo que preciso reformar-me, antes de reformar os outros.

Como? Procurei fazê-lo este ano? Que significa um ano para reforma de tal envergadura? Queria eu chegar a 1970 de estrutura nova, que nem edifício construído no lugar de casa velha? Às vezes me assalta uma espécie de simpatia criminosa pelas minhas velhas paredes, meus podres alicerces: é tão bom a gente ser a mula velha que pasta o capim do hábito, ir trotando em silêncio pela estrada sabida... A burrada moça que se aventure a outras pastagens, entre abismos. Pensando bem, não perdi meu ano, pastei sem risco. Mas este "pensando bem" dura um segundo. Quem pode terminar o ano satisfeito consigo mesmo? Quem não faltou, não se esqueceu de alguma coisa, não perdeu um gesto de ouro, não renunciou a um ato de grandeza? Agora estou generalizando uma omissão pessoal, procuro arrimar-me em possíveis faltas alheias. Olha aí esse malandro diante do espelho, procurando ver outras caras no lugar da sua! Mas é tempo de parar com a eterna canção — e celebrar: os que não morremos estamos — ó milagre — vivos. Depressa, o copo, a dose dupla!

A eterna canção: Que fiz durante o ano, que deixei de fazer, por que perdi tanto tempo cuidando de aproveitá-lo? Ah, se eu tivesse sido menos apressado! Se parasse meia hora por dia para não fazer absolutamente nada — quer dizer, para sentir que não estava fazendo coisas de programa, sem cor nem sabor. Aí, a fantasia galopava, e eu me reencontraria como gostava de ser; como seria, se eu me deixasse...

Não culpo os outros. Os outros fazem comigo o que eu consinto que eles façam, dispersando-me. Aquilo que eu lhes peço para fazerem: não me deixarem ser eu-um. Nem foi preciso rogar-lhes de boca. Adivinharam. Claro que eu queria é sair com eles por aí, fugindo de mim como se foge de um chato. Mas não foi essa a dissipação maior. No trabalho é que me perdi completamente de mim, tornando-me meu próprio computador. Sem deixar faixa livre para nenhum ato gratuito. Na programação implacável, só omiti um dado: a vida.


sábado, dezembro 27, 2014

A tal retrospectiva...

Tudo em dezembro é pesado.
Nossas medidas com tantas comidas e bebidas festivas, a intensidade dos raios e das águas que caem na maior parte do país, a obrigatoriedade de se olhar para trás e ver o que foi cumprido ou não.
Não aprendi a dirigir - e isso vem desde os 18 anos.
Não tirei férias de 30 dias - e isso vem desde 2012.
Não fiz as pazes com a balança - e isso vem desde os 14 anos.
Não obtive certificado de proficiência em outro idioma - e isso vem desde sempre.
Mudarei em 2015?
Possivelmente não.
Seguirei reclamando dos coletivos e cansaços, não pensarei duas vezes antes de comer o terceiro pedaço de pizza e irei me virar com a língua estrangeira desde que não seja grega, chinesa ou russa.
Chego em mais um dezembro imperfeita.
E lá se foram 37 outonos e alguma terapia. Não tem jeito.
Reclamar de 2014?
Foi mais um ano difícil, como 2015 pode ser. Difícil não significa péssimo, no entanto não é todo mundo que ama mudanças. Eu, como um fogo meio fajuto, prefiro ganhar na mega-sena e mudar de vida com champanhe e sem sacrifícios. Essa de sair na marra da própria cidade, encarar outro estilo de vida e ver no que vai dar, não é a minha predileção (tão pouco algo inédito).
Transições cabem melhor nos fortes.
Mas não posso reclamar.
Tenho mais do que casa, comida e roupa lavada.
E meus 12 meses não cabem num app do Facebook.
Abri mão de trabalhar com cultura, li menos livros, vi menos filmes.
Passei a praticar yoga, cozinhar mais e ser menos apegada.
Procuro o equilíbrio entre aqueles quatro títulos que eu devorava por mês e o shrishasana, que julguei ser impossível para mim.
Quero sem a mesma pressa, sem a mesma expectativa, o tal "ano bom". Mais ainda, a temporada de bonança (uns três anos) que nem precisa ser espetacular. E não só para mim. Dizem que no ano da Cabra pode ser que isso aconteça.
Aguardo.
Aguardemos.



sexta-feira, dezembro 12, 2014

Com ajudinha de Morfeu

Sempre achei curioso o fato de os sonhos terem um peso no divã. Eu interpreto os meus de modos bem particulares, isso se eu me lembro assim que acordo. Na madrugada passada tive um no qual eu reuni uma série de papeizinhos. Eles pareciam recortes de cadernos escolares, com margens. Eram nomes e telefones.
Comecei a ligar:
- Fulano, tudo bem? Aqui é Ludmila. Estou te ligando para me despedir de você. Tenha uma vida bacana!
Do outro lado, os pigarros, as gagueiras e os silêncios contrastavam com a minha serenidade.
Os papéis tinham nomes aleatórios: Rodrigo, Mateus, Flávio.
Havia a sensação de que nenhum era especial.
Nenhum realmente foi. 
Não me lembro sequer dos nomes reais.
Sei que sumiram.
Depois de elogios, beijos, sessões de cinema, pistas de dança, mesas de bar e a frase clássica: "eu te ligo".
No começo daquela fase, achei estranho. Ao final, nem dava o telefone quando pediam. 
O sonho fez uma viagem para talvez, na minha leitura, eu dizer exatamente o que eu poderia ter dito na época: tenha uma vida bacana. 
Eu tenho. Com direito carinhos pela manhã, deitar no colo para ver filme, café expresso feito especialmente para mim e mil coisas para dividir, entre ideias, segredos e planos.







sábado, dezembro 06, 2014

Florência

Passava das três da tarde e não havíamos almoçado.
Na rua San José as plaquinhas "cerrado" eram comuns, mesmo com os convivas saboreando massas e carnes dentro dos restaurantes.
Não queria comer lanchinho. Não sei se é porque nasci ao meio-dia, mas é raro eu pular almoço.
Eis que um rapaz nos aborda com um cardápio.
Mais do que a fome, quis entrar pelo nome do lugar: Locos de Asar.
Ela veio com pães e a carta de vinhos.
Voltou para saber o que estava escrito no meu braço.
Quando eu disse que era "Heroes", do David Bowie, sorriu para o rapaz que estava no balcão.
"Fizemos uma aposta", disse.
Depois que escolhi, ela teceu considerações sobre o tannat.
"Vocês já conheciam o Uruguai?"
Respondi que não, que estava apaixonada. Pelo lugar e pelas pessoas. Completei que conhecia e gostava dos vizinhos.
"Mas nós somos mais afetuosos".
Dei razão (e que me desculpem os argentinos).
Quando chegou com o vinho, expliquei que eu iria degustar e meu marido completou que na nossa casa é assim.
"E é assim que tem que ser", sorriu novamente.
Não estava no salão principal quando saímos.
Já na porta fiz questão de voltar e pedir ao rapaz do balcão para deixar um abraço meu para Florência.

terça-feira, dezembro 02, 2014

Javier

Uma pequena livraria, chica, numa praça da avenida de julho 18 de julho.
Ele abriu a porta, desejou boa tarde e não perguntou se eu queria algo especial.
Um exemplar de "Alice" me chamou a atenção tanto pela edição luxuosa quanto por ser traduzida como "Alícia".
Identifiquei um filme na prateleira de DVDs e começamos mesmo a falar sobre cinema. Foi quando passou a me dar dicas.
Levei o CD que estava tocando também, Jorge Drexler.
Perguntei seu nome, paguei e me despedi.
Poucos minutos depois, já na extremidade da praça, ouvi a voz dele.
Ofegante, ele correu para me devolver um cartão de papelão cheio de carimbos. Ao décimo, eu assistiria um filme de graça no Brasil.
Sabíamos que era importante.

domingo, novembro 30, 2014

Montevidéu

Por razões que não cabem análise, viajo menos do que gosto e preciso. Tirei poucas férias na vida. De 30 dias foram três. Mas não fico me lamentando e aproveito para comer, beber e viver intensamente os curtos períodos. Tirei 10 dias maravilhosos agora em novembro e segui com meu amor para a capital do Uruguai. Deixamos de fazer muitas coisas,  é fato. Porém tenho essa mania de ter uma pendência que me estimule a voltar.

No caso de Montevidéu, eu viveria fácil lá, por mais que conhecesse cada cantinho. Andar por ruas planas, sentir o vento que vem do mar, tomar vinhos e conversar com as pessoas que mal conheço me encantam. Por causa de Pepe Mujica, que hoje deixa de ser presidente por lá, muita gente tem escolhido o destino para o descanso. Assim os próprios montevideanos dizem.

A cidade é limpa e mesmo na área nobre não está gradeada de modo neurótico. Não há catracas nos ônibus. Os homens se cumprimentam beijando os outros. Como é permitido fumar maconha, jovens passam a tarde de sábado nas praças ao lado de velhinhos que não fazem cara de horror. Casais gays andam de mãos dadas na feira grande de domingo.  Até os partidos conservadores e progressistas coexistem sem a agressividade que se viu no Brasil. Todos tomam chimarrão o tempo todo. O sal na comida é o grande vilão e é possível nos dias úteis ver os executivos almoçando tomando uma tacinha de vinho. Foram muitas surpresas boas e pouquíssima vontade de voltar para casa. Por isso, mais do que um post, vou iniciar uma série por aqui.


domingo, novembro 16, 2014

Sobre matar o blog

Eu queria matar você.
Eu iria te excluir sem salvar nenhuma palavra.
Não haveria uma única letra necessária.
Não existiria mais o dia em que não aluguei aquele apartamento.
Todas as promessas de ano-novo sumiriam.
As frustrações, os pés na bunda, os textos em homenagem aos meus mortos estariam sepultados.
Há dias planejei sua morte.
Pensei até no post de número 1.000 pela simbologia.
Apenas oito publicações e pronto: você iria desaparecer do mundo virtual.
As pessoas abandonam seus escritos.
Percebi isso limpando a listas que eu seguia.
Eu não queria te largar apenas.
Seria matar mesmo, executar a sangue frio.
Não me lembrar de comentários ou das setenta e poucas pessoas que te adicionaram à lista.
Queria acabar com você.
Seria um grande feito.
Para essa que nada tem feito.
Desprezaria os porquês.
Já pensou?
Você, sepultado, mortinho da Silva.
Eu seria sua viúva-negra.
Quando me perguntassem pessoalmente, me esquivaria.
No Facebook, bloquearia.
No Twitter, ignoraria.
Seguiria meus dias clicando na página branca do word para que só eu lesse minha próxima inquietação.
Em inglês tem um termo de que gosto muito: the master plan.
Sua morte seria o meu trunfo.
Contra tanta coisa que não consigo explicar ou entender...
Acordei com um punhal na mão.
A conexão estava perfeita.
E você ali, quietinho, sem comentário para eu moderar.
Foram apenas 19 visualizações neste dia, quem iria perceber?
Veio o filminho na cabeça.
12 anos escrevendo num blog!
Gente que foi, gente que está.
Não sou a mesma.
Eu iria te matar, certamente.
Fiz uma mudanças no layout para você morrer mais atualizado, uma dignidade virtual, sei lá.
Então, fui alimentar as gatas, regar as plantas, pendurar roupas no varal, fazer um café.
Voltei, mas não consegui.
Abri outras janelas ao longo do dia.
Comentei lá e cá. Voltei e não havia medo no ar.
Eu poderia te matar tranquilamente.
Você existiria além de mim de algum modo.
E eu não consegui.

A última colaboração

Demorei a publicar por aqui. Minha última crônica para o Pandora. Eu me despedi de um espaço muito querido no último mês por alguns motivos, sendo a falta de tempo o principal. Carinho e gratidão imensos sempre irão permear a relação.

O primeiro dia

Há uma cena do filme “Vicky Cristina Barcelona” em que uma das protagonistas revira a mala e troca de roupa diversas vezes para passar a impressão de não estar tão ansiosa pelo encontro com Javier Bardem. Woody Allen traduz nossas fragilidades e inseguranças e as converte num sorriso reflexivo. Afinal, quem nunca?

Eu me lembro de ter usado amarelo quando fui fazer uma prova para trabalhar emO TEMPO. Quando vi os concorrentes todos discretos, nos mesmos tons, pensei: e agora? Seria impossível voltar para casa e improvisar um terninho. Eu havia escolhido amarelo porque era a cor da sorte da minha avó. Deveria ter lido aquele famoso consultor de etiqueta corporativa? Não necessariamente.

Eu, a roupa e o primeiro dia para quase tudo na vida somos um eterno caso pitoresco. Como Vicky, eu visto todo tipo de proposta num encontro. Quando conheci meu marido, estava num vermelho decotado e o puxei, tímido que só, para dançar The Cure. No meu primeiro dia no novo emprego em Brasília, mandei os looks por WhatsApp para minha mãe e minha irmã escolherem. Estava ótima de seda verde até babar com a espuma do creme dental no tecido depois do almoço. Pronto, será que vão me achar meio pateta? Ao menos, meus dentes estão branquinhos, pensei.

Primeiro dia é dia de frio na barriga, dia de “o que é que vão pensar de mim”, dia de “não acredito que falei essa besteira” e daquelas apresentações formais. Conto para que chegue lá pelo sexto ou oitavo dia para poder quebrar o gelo, usar um tênis ou sugerir: a gente bem que podia combinar um café, heim? Admito que ainda me atrapalho com o tal do “Casual Friday,” aquele dia em que os colegas da firma usam jeans. Já apareci de camisa social e me senti tão inadequada quanto a personagem título vestida de coelhinha na cena de “O Diário de Bridget Jones.”

Quando o tempo passa sem que eu perceba, vou alternando dias de ficar enrolada na toalha – bolando duas ou três possibilidades de vestir que dependem do meu humor, do meu manequim e do que quero dizer para o mundo – com dias de essa combinação está ótima, é o que temos. Eis que chega o último dia. Ele, de alguma maneira, me despe. Penso que nada cabe porque sobra tanto a se dizer, tanto a querer o impossível: de se voltar atrás, de fazer de outra maneira, de ter usado mais amarelo. Queria ficar um pouquinho mais pelo respeito e pelo carinho que construí com a turma da redação e com os leitores nos últimos anos. A eterna falta daquele outro tempo não me dá alternativas. Certamente, não agradei todo mundo, mas fiz o meu possível, como se estivesse vestindo a roupa do primeiro dia. Muito obrigada, um abraço e até, breve quem sabe.


Ludmila Azevedo é jornalista, pós-graduada em cinema e escreve essas e outras crônicas no ludj.blogspot.com.br.

sábado, novembro 08, 2014

O Flautista

Algumas manhãs, quando vejo o mercador de canetinhas entrando no ônibus, são como refrões do samba "Saco cheio" de Almir Guineto. Todo material que ele vende é para ajudar jovens dependentes de drogas. O sujeito consegue dizer o nome de Jesus umas 40 vezes para aqueles que supõe cristãos.

Sou do tipo que compra quase tudo de ambulantes: amendoins, incensos e até um CD que nunca escutei. As tais canetinhas sempre são recusadas e já levei uma direta de um desses voluntários cuja a boa intenção lotaria outro lugar. Diante da minha negativa, acusou-me de não ser solidária. Disse que os drogados sofriam o descaso da sociedade, de pessoas que não sabem o que é ter uma dor dessa para carregar.

Só não retribuí com meia dúzia de verdades porque estava a um ponto da descida e sem a menor disposição para expor aquele cidadão a uma situação constrangedora. Ando tolerante ou me forçando a isso, o que não tem nada de religioso.

Dia desses porém, acordei um pouco mais implicante e quis saber detalhes sobre a tal instituição. O cidadão me perguntou se eu era da polícia e eu afirmei que não tinha a menor obrigação de dizer o que eu estava representando, no entanto, caso ele quisesse meu dinheiro, devia prestar alguma conta.

Há tempos não esbarro com os mercadores de canetinhas nos ônibus da W3, deve ser a reza brava deles.

Andava naquele mais do mesmo: sendo ignorada ao dar o sinal na maioria das vezes, sacolejando nas zebrinhas e não facilitando o troco dos cobradores (uma nota de vinte reais é sempre uma afronta).

Então, essa semana aconteceu um novo encontro. O sol havia se posto, eu sentia um vento que prenunciava a chuva e, ao sair do trabalho, decidi beber uma uma taça de vinho.  Estava particularmente de bom humor.

Ao passar pela roleta ouvi acordes de Tom Jobim. Era um flautista tipicamente hippie, ignorado pela maioria dos passageiros que olhava para as janelas com tédio e cansaço.

Antes de passar o chapéu, ele informou que precisava juntar dinheiro para voltar para a Colômbia. Eu, sempre com trocos volumosos, tinha poucos centavos para dar. Fiquei triste e decepcionada, algo em mim queria contribuir de maneira mais justa, escutar um pouco mais daquele solo no coletivo.

Foi quando um garotinho pediu para ele, prestes a saltar, para tocar mais uma. O flautista tinha arrecadado tudo o que poderia, mas sorriu para sua principal plateia. Perguntou o nome do menino e se ele gostava de música. Só vi o pequeno balançando positivamente a cabeça.

Foram mais algumas quadras com Luiz Gonzaga e a vontade de esbarrar novamente com o artista num desses trajetos. Neste caso, não checaria a veracidade da volta para seu país.

sábado, outubro 25, 2014

25 anos depois daquela carta

Quando eu tinha 12 anos escrevi uma carta para o Brizola. Eu não tinha idade para votar para presidente, mas eu tinha a convicção de que se ele ganhasse, talvez, pudesse fazer algumas mudanças que eu sugeria. Meu pai, que trabalhava com marketing político, fez a carta chegar até Brizola. Fomos ao comício dele, perto da rodoviária, e o envelope com a minha letrinha cursiva foi entregue para um cara que nunca mais vi na vida. Fiquei um pouco frustrada por não tê-lo conhecido. Eu estava de lencinho vermelho, em meio a uma multidão esperançosa que por anos perdeu mais do que o direito ao voto para presidente. Estavam ali pessoas como meus pais, que arriscaram as próprias vidas por liberdade. Todas elas, imagino, queriam apertar a mão do Brizola.

Fiquei sabendo que o Brizola leu a minha carta, que gostou muito das minhas propostas. Ele não se elegeu em 1989. Ganhou o Collor, que era pelos debates (que eu não perdia), o pior. Meu palpite não estava errado e em meados de seu governo, perdi aulas para ir a uma das várias passeatas dos cara-pintadas. Como meu colégio católico e careta não permitiu a minha liberação, fugi no recreio. Liguei para minha mãe de um telefone público para tranquilizá-la: "estou mudando o meu país", pensava. Na avenida Afonso Pena, me lembro da chuva de papel picado e a gente lá gritando: "de camarote não, a luta é aqui no chão". Tirei meu título antes dos 18 anos, não via a hora de votar para presidente. Tive que ter paciência para que o meu candidato ganhasse.

Não escrevi carta para o Lula, no entanto me recordo de uma explosão de otimismo num showmício - quando ainda podia - do Gilberto Gil. Fui com minha querida amiga Marianinha e nós ficávamos nos perguntando até quando o medo das pessoas da sala de jantar colocaria canditados como FHC na presidência. Lula ganhou. Quebrei minha promessa com Brizola e até liguei na Globo. Vi todos os noticiários e chorei porque boa parte do meu país, enfim, havia entendido que ser bem apessoado ou ter estudado na Sorbonne não eram garantias suficientes. Acho que nunca teremos essa garantia e me agradam exercícios de ter uma mulher na presidência e, quem sabe um dia, uma liderança negra, uma indígena, um militante LGBT... No país dos meus sonhos, eu sempre quis essa possibilidade para todos, especialmente os que nem sonham em alcançá-la. Estava na cartinha que escrevi para o Brizola.  A única memória que eu tenho dela era o pedido para se cuidasse bem das crianças. Por isso, quando penso que há quem proponha redução da maioridade penal, me bate uma profunda tristeza.

Mas não quero falar sobre propostas do outro. Esse texto é apenas uma colcha de retalhos sobre meu envolvimento com a política, que na verdade tem bem mais de 25 anos, pois criança de colo eu ia para reuniões e comícios com meus pais. Senti a necessidade de escrevê-lo porque as eleições de 2014 amplamente debatidas em redes sociais abriram margem para questionamentos que não cabem em 140 caracteres. Não tenho problema em ser questionada sobre as bases da minha informação. Como jornalista e crítica ao jornalismo, ela vem cada vez menos daquele monte de papel estampado na banca. O por quê não será ampliado neste texto. Eu tenho muito problema é com gente desrespeitosa e arrogante que desejou, virtualmente, neste período enfiar o dedo na minha cara. Não sou e nem serei a dona da verdade. Defendo a minha verdade que vem do meu legado, da minha ética e da minha vivência.

O debate eleitoral nas redes sociais fez sim com que eu reduzisse a possibilidade de ser amiga de conhecidos naqueles espaços, não porque eles votam no outro candidato ou em branco/ nulo. Manifestações agressivas e preconceituosas não entram em meus afetos. Não se trata de apenas um número, vi muita gente banalizando a questão. Para mim, política é algo que se estende para vida. Não chamo de amigo gente que acha o cúmulo a empregada estudar ou dois homens andarem de mãos dadas porque se amam. Não chamo de amigo quem sugere que uma mulher num cargo de chefia precise de um pau e não chamo de amigo quem passa tudo isso para seus filhos repetirem, para serem seus espelhos. Crianças e adolescentes andam repetindo isso por aí, sabiam?

Eu sou do tempo em que fui expulsa de sala de aula pela professora num desses atos cívicos de dia da bandeira ou algo que o valha na educação da era da ditadura. Tudo porque ao comentar que achava o Brasil lindo, porém que "havia um tal de Figueiredo fodendo o país", fui expulsa. Me orgulho imensamente desse episódio, agradeço todos os dias aos meus pais por ter coragem e posicionamento. Ao contrário de muitos amigos filhos de esquerda que compartilham banners cheios de ódio do DEM - os filhotes e netinhos da ditadura - em seus murais, eu não mudei de lado. Tenho uma visão crítica, realista e bem informada sobre meu voto. E sobre a Dilma, minha candidata, ainda escreverei um post especial.




domingo, setembro 28, 2014

Brasília

Entendi a lógica das quadras mais rápido do que imaginava.
Gosto de passear pelas mais arborizadas.
Na Copa, ensinei um gringo a chegar na Torre de TV.
Não virei fã de Legião Urbana, porém algumas letras fizeram mais sentido.
Meu nariz ainda sangra.
Não compreendo porque salpicam coentro em saladas por aqui (ou em qualquer lugar do planeta).
Faço piqueniques mais do que em qualquer lugar.
Estico o braço na faixa de pedestre e os carros param.
Acho os ônibus daqui piores que os Belo Horizonte e os de São Paulo.
Ouço diariamente todos os sotaques do Brasil.
A coexistência de tribos diferentes é mais comum nas baladas.
Diferentemente dos paulistas, por aqui não me chamam de mineirinha com tanta frequência.
O céu é dos mais bonitos que já vi e as fotos não precisam de filtro.
Não conheci as cidades-satélite ainda.
Parque da Cidade, CCBB e Cine Brasília são meus lugares favoritos.
Vi bons shows, filmes e exposições de graça.
Fico procurando sombras e azulejos do Athos Bulcão pela cidade.
Descobri meu lado voyeur ao ficar observando quadros e estantes de livros dos apartamentos com grandes janelas.
Ainda tenho que desbravar muitos pontos turísticos.
Não achei o pastel da rodoviária grande coisa.
Percebi, de imediato, o desejo dos jovens de ocupar a cidade e seus espaços de maneira bem democrática.
Aqui discute-se política mais do que em qualquer lugar onde morei.
A maioria dos taxistas tem opiniões políticas conservadoras.
A variação climática num único dia é mais "mulher de fases" que a música dos Raimundos.
Alguns prestadores de serviço tem a impontualidade como marca registrada.
Há quem me olhe com espanto porque não tenho carro.
Há quem me olhe com espanto porque não ando de bicicleta no Eixão domingo.
Eventualmente, acho o JK, o Niemeyer, o Lúcio Costa, entre outros, uns malucos por terem inventado esse lugar.
Confesso que não sei dizer se no fundo gostava daqui ou se aprendi a gostar ao longo deste tempo.
E lá se vão seis meses...






quarta-feira, setembro 17, 2014

Deus e o Diabo na Terra do Sol


"Tá contada a minha história,
verdade, imaginação.
Eu espero que o sinhô tenha tirado uma lição:
que assim mal dividido
esse mundo anda errado,
que a terra é do homem,
não é de Deus nem do Diabo!"

Este texto não é uma resenha. Muito se escreveu, estudou e se analisou de maneira tão precisa que não me arrisco. Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, segue 50 anos depois de sua realização como uma obra que impacta e provoca a reflexão sobre o Brasil. Os jagunços não estão só naquele sertão de procissões, ladainhas, seca e fome. Andam de cassetetes, agem como Antônio das Mortes cuja a visão de poder resume-se a eficiência da bala. Aliado ao Estado e à Igreja, esperam do primeiro dinheiro e do segundo uma espécie de bênção, algo que os absolva da condenação pela morte dos famintos. Os cangaceiros esses Antônios matam com prazer. Fazem de Lampiões, Marias Bonitas, Coriscos e Dadás mais míticos ainda.

O trabalho de restauro deste filme foi impecável. Infelizmente ainda tratado como luxo, já que as atividades de recuperação da arte de Glauber Rocha estão estagnados. A exibição do longa ontem no Festival de Brasília fez com que eu quisesse ter uma máquina do tempo para perceber Deus e o Diabo na Terra do Sol em 1964, sobretudo sem pessoas filmando e fotografando a tela com suas irritantes luzes azuis ou mesmo conversando em seus celulares porque não conseguem ficar desconectadas. Enxergar outros contextos sempre foi uma urgência para mim. Em meio às impressões registradas em redes sociais que tendem a um (Deus) ou outro (Diabo), vou caminhando meio Manuel, meio Satanás porque acredito que o mar vai virar sertão e o sertão vai virar mar.

Saindo da sessão, querendo conversar sobre Glauber Rocha, atravessei várias quadras conversando com um taxista que disse queria muito ver o filme a medida que eu o retratava. "Mas a senhora sabe, mesmo sendo de graça, as pessoas ficam olhando para quem é mais simples com cara feia", ele argumentou. Como ando mais Corisco provoquei: "Moço, era para eu estar em casa cozinhando para o meu marido sem nem pensar em cinema se não houvesse, décadas atrás, mulheres que desafiassem os costumes dessa sociedade machista em que vivemos". Ele concordou e me prometeu que não iria se entregar.


quarta-feira, setembro 10, 2014

Fraldas

Quando eu era criança, pedi para minha avó Celinha me ensinar a rezar o terço. Meu pai vivia praguejando contra o catolicismo. Minha mãe achava que eu tinha o livre-arbítrio para ter a religião que quisesse. Até o início da adolescência, o catolicismo fazia muito sentido para mim.

A ruptura aconteceu quando comecei a estudar história e tomar conhecimento da atuação da igreja desde a Idade Média. Eu certamente iria para a fogueira se tivesse vivido naqueles tempos. Depois, um professor de religião, que era seminarista, deu uma aula só para as meninas sobre aborto, com direito a um vídeo extremamente apelativo e um pacote de lições de moral: "se você fizer sexo antes do casamento, Deus castiga". "Se engravidar, tenha a criança, não importa quem é o pai". "A responsabilidade é toda sua". "Nós católicos condenamos pílula e camisinha".

Naquele dia, peguei meu terço e expliquei para Deus, para Jesus e para as minhas imagens de santos que não dava mais. Eu seguiria com eles, mas não com professores de religião, papa, padres, madres e, especialmente, fiéis. Não dei o desgosto de contar para minha avó em seus últimos anos, embora soubesse que ela entenderia a não prática religiosa, com tendência a buscar outra maneira de exercitar minha espiritualidade.

Respeito os católicos na medida em que eles não coloquem o dedo no meu nariz para dizer como eu devo seguir minha vida. Sou a favor de vários tópicos que a religião condena e tenho a certeza de que não queimarei no inferno por ser assim. O meu Deus acha absurdo tudo que dizem que "está na Bíblia" para justificar até mesmo o assassinato. Meu Deus estende seu descontentamento para os outros cristãos que são assim. Feliz seria a Nação que tivesse o Deus e o não-Deus de cada um, isso sim.

Eu estava justamente pensando sobre minha formação católica circulando no supermercado, depois de um dia extremamente exaustivo, no qual externei minha ira no período da tarde. Foi quando notei que um garoto me seguia. Ele sorriu quando eu peguei um pacote sem graça de torrada, balbuciou algo que eu não entendia.

Falei para o garoto ser mais claro. "Se você estiver falando assim para dentro, não posso saber o que quer". Ele me pediu para eu comprar um pacote de fraldas para a irmã dele. Não foi a primeira vez que isso me acontecia. No mesmo supermercado, semanas atrás, fui abordada por  um adulto querendo dinheiro. Pedi que o garoto me levasse até o local onde estavam as fraldas. Nem sabia que um pacote custava tão caro. "Qual o tamanho da sua irmã?", perguntei. Ele apontou o "M". O garoto olhou para os lados e disse que o segurança poderia mandá-lo sair. "Se ele fizer isso, eu vou junto e a gente compra na farmácia, ok?". Ele me avisou que esperaria do lado de fora.

Quando me viu no caixa com o pacote, veio sorrindo e ajudou a embalar as compras. "Não precisa da sacola, obrigado". Levou as fraldas sem me passar sermão. A moça do caixa já o conhecia. Disse que pouquíssimos compram fralda ou comida para ele. "Infelizmente, não pude fazer mais", comentei com ela. "Se todo mundo ajudasse um pouquinho... a começar por não olhar para ele como se fosse um trombadinha, já ajudaria". 

Não foi meu ato que fez diferença, foi olhar nos olhos daquela criança e perceber seu sorriso por mais de uma vez.

No caminho de casa, me lembrei da minha avó contando a história de que Jesus se vestia de mendigo para testar a bondade dos homens. Mesmo que acredite que é só uma fábula, não deixei de ficar pensando no olhar daquele menino que escolheu a fralda com a Mônica vestida de princesa para a irmã ficar sequinha. 


terça-feira, setembro 09, 2014

A de setembro: Universos Paralelos

Aconteceu outro dia. Eu e uma amiga ficamos um tempão na fila do cinema para uma sessão de “Metrópolis”, do alemão Fritz Lang. Ícone do expressionismo, o filme do final dos anos 20 talvez não agradasse àquela turminha jovem que estava numa espera de dobrar quarteirão. Minha esperança (egoísta) era que aquelas mensagens que estavam enviando para os celulares dos amigos seriam para demovê-los da ideia de ver a única sessão que começaria em uma hora.

Para o meu desespero, não paravam de chegar jovens que se avolumavam na fila, empolgadíssimos. De repente passei a achar incrível aquela movimentação, mesmo sob a pena de perder a chance de ver o clássico no cinema, coisa que para quem gosta faz muita diferença. Foi quando um senhor avisou no alto-falante que a sessão estava esgotada.

Eu e minha amiga fomos para o bar próximo ao cinema, ponto tradicional da boemia brasiliense. Aquele tipo de lugar onde circulam artistas que vendem as próprias gravuras e, para nossa surpresa, um cara com uma bandeja de brigadeiros à venda para financiar uma viagem para o exterior. Ele, que era treinador de um time de basquete queria, estar com seus meninos. O tipo de apelo que convenceria qualquer um que não pudesse com o açúcar por qualquer motivo.

Ainda era cedo, e decidimos encontrar amigos numa roda de samba na outra asa. Quando chegamos ao local, fiquei com a sensação de estar numa espécie de mundo ideal, não pela qualidade musical dos artistas (apelidados por um amigo como a pior melhor banda do gênero da cidade), e sim pela diversidade do público. Meninas com cabelos black power assumidíssimos conversando com amigas com mechas aloiradas no salão. Meninos de mãos dadas com os namorados. Famílias, algumas com crianças, que dançavam e pediam pipoca, alheias aos preceitos de certo e/ou errado, bonito e/ou feio tão arraigados no mundo real e/ou virtual.

Todos vestidos sem cartilhas, e os que assim estavam não recebiam olhares de reprovação. Mundo livre, leve e solto. Como os corpos, os sorrisos naquela noite quente de inverno no Cerrado. Perguntei para um nativo se era sempre assim. Ele respondeu que sim, embora alguns moradores da quadra já tivessem acionado a polícia. E nunca foi pelo samba.

Decidi buscar uma cerveja para me refrescar depois daquilo. Dois caras ao meu lado debatiam sobre política. Só falta começarem a brigar, pensei. Mas um pagou a cerveja para o outro como gesto de “bandeira branca”. Então, apostaram uma caixa para depois do dia 5 de outubro, com churrasco, samba e com toda a turma que estava na roda. “A moça é testemunha”, disse um deles apontando para mim. Só se eu for convidada para a festa, respondi.

sábado, agosto 23, 2014

Sobre regras

O mundo virtual não é o problema, não me canso de repetir. Ele é extremamente útil para eu saber que uma velhinha norte-americana de 99 anos faz um vestido por dia para uma criança que vive no continente africano. Ele é importante para eu ver a evolução do bebê de uma amiga querida que mora longe. Ele me dá, diariamente, pelo feed de notícias que escolhi mais de uma visão sobre o mesmo fato. Há nesse mundo a possibilidade de eu enviar uma música para o meu amor, mesmo que eu vá encontrá-lo horinhas depois.

Mas evidentemente há quem chamará a velhinha de oportunista, minha amiga de "monotemática", as notícias de distorcidas e a minha declaração de amor de exibicionismo. Algumas pessoas andam extremamente grosseiras, com mania de apontar o dedo para o outro e, pior, extremamente hipócritas. Ficam determinando regras de comportamento e conduta, como se estivessem além do bem e do mal.

Já li por aí que odeiam que postem amenidades no mural (quando utilizo esta palavra, penso no quão leve é ser ameno). "Isso é auto-ajuda!", esbravejam. Criticam e minimizam os gostos e afetos que predominam no tópico "No que você está pensando?", seja um pedaço de bolo, seja um gato bem cuidado. No quesito informação, há os "ombudsmen" de plantão sempre dispostos a invalidar a apuração de um jornalista ou a opinião de um articulista pelo simples sabor da discórdia. Sobre mim, talvez pensem que eu mandei um Gilberto Gil para ele para mostrar que sou carinhosa, porém na vida prática devo ser uma mala que o enche de cobranças.

Pois bem, uma das vantagens do mundo virtual é um recurso incrível chamado filtro. Ele permite esconder os outros. No meu caso, ele não é utilizado necessariamente para quem pensa diferente. Aliás, gosto dos diálogos, dos debates e até dos embates que possam me dar novas perspectivas. Desde que sejam realizados de forma respeitosa e educada. Utilizo o filtro para os ditadores de regras, os preconceituosos, os cheios de ódio, os reis das indiretas, os que me fazem arrepender de ter aceitado o convite para uma"amizade". Isso não deixa de ser imposição de regra da minha parte, admito. E é interessante refletir sobre a nossa natureza contraditória.

O filtro, no entanto, é mais complexo na vida real. Eu posso não querer exercitar a tolerância ali na minha rede naquele momento, mas terei que desvendar como praticá-la no dia a dia. A tolerância é a virtude que mais tento alcançar entre todas. Leio muito sobre o tema, forço-me (não existe outro verbo) a mantê-la diante de diversos momentos. Nesse exercício, acho que tenho alcançado de vez em quando a média cinco. A homeopatia ajudou, a Yoga vem contribuindo. Vou caminhando devagar para um dia, quem sabe, ganhar meu oito. Por quê estou no nível mediano? Porque ainda me abalo, me irrito e perco o humor. Porque aperto o botão "excluir" da rede social, do meu cérebro e do meu coração eventualmente. Tenho a capacidade de eliminar de fato certas pessoas da minha existência sem olhar para trás. Como tudo que é demasiadamente humano, isso tem os dois lados.

Haverá dias que darei a volta ao mundo na timeline. A capacidade de olhar para os conflitos no Oriente Médio será a mesma da preocupação com os moradores de Isidoro. Haverá dias que me permitirei, com a sensação de um planeta a explodir, de colocar um verso do Saramago ou o sono das minhas gatinhas. Haverá dias em que não escreverei nada, não emitirei opiniões. Haverá dias completamente analógicos, sem retweets, compartilhamentos, curtidas ou selfies. Serão os dias para armazenar tudo na memória. Não peço para ser ocultada, não peço para ser favoritada. Peço para mim e para as pessoas mais tolerância e menos imposições. O mundo virtual pode dar uma mãozinha, acredite.




terça-feira, agosto 19, 2014

Cansaço - Álvaro de Campos


O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Precisando de mais do que férias (as últimas foram em 2012 e contando...)

domingo, agosto 10, 2014

Sobre aquele que cuida

Nos últimos anos, não foram poucos os momentos em que pedi para antecipar nossos encontros. Ele sempre me recebeu com sorriso e um abraço, por mais que eu fosse lhe contar que estava me machucando de alguma forma. Por tristeza ou descontentamento, minhas atitudes faziam com que eu mergulhasse num estranho e escuro lago. E era a mão dele que me segurava quando não queria mais respirar. Firme e terno, ele sugeria que eu simplesmente buscasse a tranquilidade de aceitar a situação. Isso me daria a calma necessária para nadar até a superfície. 

Sabe a imagem tranquila de alguém boiando leve e contente, com o sol iluminando o rosto? Hoje eu me sinto assim. Talvez não tenha chegado à superfície. Talvez falte bem pouco. Eu aceito e aproveito certas calmarias, como o amor que ganhei de presente no fim de uma longa turbulência. Ele foi um dos primeiros a saber, não porque estava no roteiro. Foi porque tantas vezes ouvi: "não te digo isso como médico, e sim porque é algo que eu diria para a minha filha". Com este carinho, ele foi o pai que preencheu a ausência do meu, uma ausência provocada não só pela morte. 

Passei o dia pensando nele, no quanto acreditou e cuidou de mim. Bem que poderia ter enviado um presente, no entanto como a ideia não surgiu antes, telefonei para desejar um dia feliz. No fundo crianças, que deviam ser os netos, faziam aquela algazarra boa da qual todos se lembrarão, como eu me lembro dos domingos na casa da Nova Suíça. Quis agradecer, quis dizer tanta coisa... e as danadas das palavras não saíram. Quem sabe a minha voz embargada e os segundos de silêncio antes de me despedir cumpriram esse papel? Sinceramente, espero.


domingo, agosto 03, 2014

Coletânea

Conversando com uma amiga hoje, senti que havia uma sensação de que eu não estava mais escrevendo. De fato, pouco aqui. Minhas adaptações demandam o exercício de falar menos, observar mais. Estou retomando coisas boas, estou praticando Yoga.  

Também hoje disse para o meu marido o quanto gostava de ter, ao menos um domingo por mês, o espaço em O Tempo, por uma série de motivos. Sou muito grata aos meus ex-colegas e aos amigos que fiz por lá. A ideia de chegar na casa das pessoas, no papel jornal ainda me dá alegria.

Foi quando me dei conta de que por aqui, não estava documentando devidamente minha colaboração para o querido caderno Pandora neste blog, só nas minhas redes sociais. Gosto mais do meu blog do que das minhas redes. De modo, que peço aos leitores que gostam do que escrevo, que leiam a coletânea abaixo com carinho e me desculpem pelo vácuo que deixei desde novembro. 


A era do telefone - agosto de 2014


Já foi bem mais difícil. Quando um dos dois estava a milhas e milhas distante, só mesmo as cartas. Elas demoravam dias para chegar ao destinatário. Foi ali que o Rei Roberto resolveu dar um basta na situação: “Cartas já não adiantam mais, quero ouvir a sua voz, vou telefonar dizendo que eu estou quase morrendo de saudade de você”. Utilizar a invenção de Graham Bell doía no bolso. Tinha gente que esperava o fim da novela das oito para tal finalidade.

Eu fui do tempo da linha fixa, do “não sou sócio da Telemig!”, “pendurada de novo nesse telefone, menina?” quando a conta chegava. O tempo do “desliga você”, “não, desliga você”, “aaah, desligamos juntos em 3, 2, 1...”. E quando me lembro disso, vem a cena de “Friends” em que a Rachel, irritada com o tom meloso do Ross com a Julie do outro lado da linha, faz uma intervenção nada sutil.

A invenção do celular foi uma eternidade para mim. Porque não bastou criarem um telefone que só eu atenderia, sem o risco da irmã mais nova gritar “é seu namoradinho” quando atendia primeiro (e normalmente, do outro lado da linha, havia um dito cujo bem indeciso). Era preciso ter grana para adquirir aquele tijolinho. Os modelos avançaram, por outro lado, numa velocidade incrível, assim como as suas funcionalidades. O simples telefonema se desdobrou em todos os tipos de mensagem, e ainda é possível rastrear o seu amor por meio de um aplicativo. Ficou tão fácil que perdeu a graça.

Eu troco uma infinidade de mensagens de textos diariamente com o meu amor. Não é incomum ficar na dúvida se foi Whats App ou SMS. Mas ando pensando em radicalizar: passar numa papelaria qualquer dia desses para comprar material e escrever uma carta para ele. Na caixa do correio, onde só existem contas e folhetos de entrega de pizza, estaria o envelope escrito à mão, como todo o conteúdo naquela letrinha quase infantil e redondinha. Rechearia de afeto e, especialmente, jogaria fora todas as abreviações, como “vc”, “abs” e “bjs”, desses tempos frenéticos de textos instantâneos. Será que minha ansiedade aguenta?


A grande mania - junho de 2014

No processo da casa nova doei eletrodomésticos, roupas e livros. Outro dia, estava procurando um casaco e me lembrei que ele foi embora nesse ritual de desapego que encheria qualquer monge budista de orgulho. Duas amigas ficaram chocadas com meu espaço compacto para roupas e sapatos no armário. “Como você conseguiu?”, perguntou uma delas. Tudo bem que ocupei um pouco do território vizinho, mas isso fazia parte do acordo.

Arrumando caixas de uma mudança interminável, que chega à fase final, me deparei com uma série de jornais e revistas velhos dos quais simplesmente não consigo me desfazer. São publicações que nem existem mais, que possivelmente os jovens jornalistas nunca tenham visto, como o “Jornal do Brasil”. Meu pai adorava ler aos domingos e eu, de quebra, sempre guardava uma crônica ou uma entrevista interessante. Imagino que tenha sido o começo da minha formação como jornalista. Por isso, um casaco é um casaco. Não tenho como me desfazer daqueles recortes amarelos e fedorentos assim de maneira tão racional.

Juntar papel é uma das minhas maiores manias. Na bolsa, consigo me fazer dos que apelidei de Gremlins – comprovantes de cartões de débito e crédito que se multiplicam como os monstrinhos do filme – semanalmente. Foi um exercício e tanto. Tive que entoar o mantra: “se o banco fizer uma cobrança indevida, eu hei de provar quanto gastei” um milhão de vezes. Até pouquíssimo tempo atrás guardava uma caixa com cartões de visita. Não preciso dizer eles continham números completamente defasados.

Sou a alegria de quem distribuiu panfletos na rua. Guardo alguns, sempre penso que podem ser úteis. Eu vivo dizendo para mim mesma: “pare com isso, Ludmila, qualquer coisa você busca esse marceneiro na internet, onde é possível buscar uma lista já com os orçamentos”. Respiro, conto até dez e fico diante de lixeiras por segundos. Alguns passantes me acham meio louca. No entanto, eu não chego a dizer “tchau panfletinho, foi bom enquanto durou”. Eventualmente, em surtos de arrumação, jogo tanto papel fora que acabo despachando algum documento importante, como comprovante de imposto de renda, a senha da poupança que evito usar, portanto, não memorizo, e assim por diante.

Meu segundo maior tesouro após a caixa de jornais e revistas é a caixa de cartas. Ali estão garranchos de amigas dos anos de colégio (quem sabe elas mal se lembrem de mim?), juras de amor de amores que deixaram de ser, votos de feliz aniversário das pessoas mais importantes da minha vida, muitas das quais não estão mais por aqui. São caixas que, mudanças após mudanças, seguem intactas, e não há quem consiga me convencer a me desfazer delas. Se a vida fosse como no cinema, eu teria uma daquelas portinhas secretas em bancos blindadíssimos para guardar meus amados papéis.


Desfazendo Amizades - maio de 2014


A culpa não é do Zuckerberg. Antes de existir Facebook as pessoas já eram intolerantes. No lugar de utilizar comentários para tecer convicções umbiguistas, timeline como espaço para indiretas e ironias ou o inbox com aquele amigo em comum para certificar-se de que o veneno foi bem destilado, elas sempre se fizeram valer de diversas ferramentas que dariam um livro, não uma crônica. Isso também já foi feito na ótima série “Plenos Pecados”, da editora Objetiva. Peço a licença de retirar a gula e a luxúria do pacote. Os fascículos do livro virtual que andamos escrevendo estão voltados para ira, inveja, avareza, soberba e preguiça.

Tenho observado a rede mais como estudo e menos como usuária – dizem que o Facebook está com os dias contados, mas não quero aqui fazer uma análise de mídia – no entanto, sempre que vou postar uma notícia mais, digamos, polêmica, penso duas vezes. Não é medo das pedras, é preguiça de ter que rebater, eventualmente, argumentos que não me convencem. Exemplos? Sou contra o racismo, a homofobia, o machismo e favorável aos direitos humanos, assim como o direito à manifestação da religiosidade de cada um, para citar um tópico recente (e, num mundo perfeito, que parassem de perseguir quem nem tem religião). Para mim são pontos sobre os quais não há um outro lado. Aliás, tem sim, histórico: o de quem oprime. Por isso, acabo também fazendo parte desse exército disposto a acionar o botão “desfazer a amizade”. E já o fiz dezenas de vezes, sem alarde.

Até então esse bloqueio da vida virtual atingia 99% de ilustres desconhecidos: um músico que me adicionou para eu dar uma força sobre um show que ele faria no roteiro do jornal, um jornalista que tinha muitos amigos em comum, um ex-colega que eu só via no corredor e sequer me cumprimentava (no entanto adorava uma piadinha escrota na rede), por aí vai. A coisa andava bem sutil, até que comecei a ocultar o feed de gente com quem já bebi cerveja e/ou conheço há anos. Como na sabedoria popular, achei melhor dar um peso de ouro ao meu silêncio e não cair na tentação de um dia ir no seu mural com um “não é bem por aí”. O fato é que num boteco o bate-boca não está documentado. Ninguém tem uma linha do tempo para certificar-se de que foi ofendido. O problema da rede, do e-mail e de tudo que se documenta é que a palavra não irá brincar com o vento depois. Um jocoso “ah, mas você é meio comunista mesmo” assume formas bem diferentes.

Num ano de eleição, a coisa anda fervilhando no Facebook e no Twitter. Minuto a minuto me deparo com um personal MMA na minha lista. Poderia customizar meu feed, mas adiantaria? Hoje foi uma amiga e um conhecido, ontem dois grandes amigos. Amanhã, quem será que entra no embate? Se essa onda já respingou em mim? Evidentemente. Ainda por cima respondi num clássico “dia de fúria”, porém não peguei pesado. O desgaste me chateou mais do que toda tentativa do outro de desmerecer meus argumentos. No fim, validei a minha teoria de que a crítica pela crítica morre na beira da praia, pois não tem informações confiáveis para se ancorar. Contudo não se enganem, meu caro leitor e minha cara leitora: perdemos por 1 a 1, já que o outro lado saiu com certeza de que eu não faço ideia do que seja informação confiável.

Enquanto escrevia esse texto, li no Face de uma amiga que 2014 seria um ano propenso para desfazer relações, azeitando o tema de hoje. Logo me veio à memória um inventário de adjetivos pejorativos atualmente mais propagados que posts pagos. Na rede, eles servem como sujeito e objeto do que muitos chamam de consciência. No debate proposto por essa amiga, o comentário de uma desconhecida me chamou a atenção: “Se o fulano é seu amigo mesmo, ele precisa respeitar a sua opinião”.

Aguardando as cenas dos próximos capítulos.


Canção de Ninar - abril de 2014

Eu estava atrasada. Dia de outono, calor do deserto. Andava me aventurando entre os quadradinhos (como apelidei o que sempre chamei de rua, mas, morando em Brasília, virou outra coisa).

Cheguei ao ponto de ônibus sem errar. É como vencer uma partida de batalha naval.

Por sorte, os coletivos que pego para a Asa Sul pela W3 são constantes. Mal dá para sentar no banco e folhear um livro qualquer. Quando digo livro, não é o que está na minha bolsa – sobre redes sociais, relacionado ao novo trabalho. Nos pontos do plano piloto há bibliotecas com uma série de doações. A iniciativa muito bacana é de um açougue, o T-Bone.

Olhei no relógio e já enviei aquele WhatsApp para a turma do trabalho para o caso de o trânsito não colaborar. Parece que aqui todo mundo dirige ou se vê obrigado a aprender. O contrário de São Paulo, onde morei, e as pessoas estão vendendo os carros e aderindo ao transporte público.

Posso escolher o assento. Escolho um individual, longe do sol escaldante. Quando começo a listar mentalmente as tarefas do dia, mas sou interrompida por uma voz. Ela canta, afinada e com doçura.

Olho para trás e vejo uma mulher linda, com tranças afro. Ela carrega um bebê no colo e a filha está encostada em seu ombro cantarolando junto. É um idioma que não consigo identificar muito bem. O bebê dorme com uma tranquilidade de dar inveja.

Eu me sento ao lado deles. A menininha não corresponde aos meus sorrisos. Prefere cantar com a mãe. Meus olhos se enchem de água. Sinto saudade da minha mãe, de colo, de cantar junto. Eu adorava cantar Gilberto Gil e Jorge Mautner. Mamãe tem até uma fita K7 com esse registro.

A mulher percebe que estou os observando, meio sorridente, meio comovida, meio desajeitada com a indiferença da garotinha.

Chega o ponto, enfim.

“Sua família é linda!”, digo.

Ela se limita a sorrir.

Eu atravesso aquilo que na minha cidade se chama avenida.

Eu passo o dia me lembrando daquela música.



Onde você guarda seu ódio? - março de 2014


Neste mês o Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura, da Universidade Federal do Espírito Santo, publicou um mapa de redes de admiradores das Polícias Militares no Facebook. Por meio delas, páginas correlatas que defendem, por exemplo, a volta da ditadura militar surgiram. Afinal, na rede social de Mark Zuckerberg é assim: curtiu Chanel, vem a sugestão de Karl Lagerfeld, por aí vai.

O que os pesquisadores trouxeram à luz por trás desse tipo de manifestação – com milhares de likes, diga-se de passagem – foram discursos inflamados contra os direitos das mulheres, dos negros, dos homossexuais e de outras minorias. Os famosos “justiceiros” são legitimados nessas fanpages e o linchamento é livremente defendido. Conceitos tortos de moralidade (o que é, afinal, uma família?) e de religião (ao que me consta, Jesus andava com os excluídos) fazem parte daquilo que muitos atribuem erroneamente à “liberdade de expressão”.

Li a entrevista na íntegra no site Outras Palavras, mas confesso que, por mais assustador que seja o desenho, ele não me surpreende. Essa massa conservadora é, ao menos e na pior das hipóteses, organizada de tal modo a ser mapeada. Está todo mundo ali de cara limpa, disposto a aceitar um pedido de amizade. Quem eu temo é justamente aquele ilustre desconhecido, conhecido ou “amigo de Facebook” que vai até a minha timeline e se posiciona estrategicamente como num ringue de boxe.

Ao sinal, ele entra numa postagem minha contrária ao espancamento de um menor que roubou um relógio, por exemplo, e começa a me bater também. Aos poucos, por defender direitos humanos, também sou amarrada, acuada. Não se chega a lugar algum com o clichê: “E se fosse o relógio da sua mãe?”. Se fosse, eu me preocuparia unicamente com o bem-estar dela. Um objeto é um objeto, mesmo que tenha pertencido a minha avó. Quanto ao assaltante, deixo para a Justiça. E o ponto está aí: é dela que devo exigir eficiência.

O “amigo de Facebook” não se dá por vencido. Sugere armas e ações tão mirabolantes que interessariam a Quentin Tarantino em seu próximo filme com cérebros explodindo. Ao perceber que não irá me convencer, me chama de “Pollyanna”. Pois saiba, meu caro amigo, a última cor que eu enxergo neste mundo é a rosinha. A vida só é em rosa na canção de Piaf. E é isso que, invariavelmente, esses seres que caem de paraquedas em sua vida virtual fazem: encerram o debate de maneira irônica ou ofensiva.

Quando eu leio que um inocente foi preso ou morto porque foi confundido com um “bandido” nessa sede de justiça, abro aquela minha gaveta condenável – porque somos humanos e não cultivamos apenas os ensinamentos de compaixão do Dalai Lama – e pego o meu ódio. Eu vou ao mural do “amigo de Facebook”, pergunto se ele está satisfeito. Escrevo, reescrevo e, por fim, apago. Depois, penso na indireta, um dos recursos favoritos dos facebookianos. Às vezes, resisto à tentação. Às vezes, não.



Isso aqui não é Nouvelle Vague - fevereiro de 2014


O cenário é uma mostra de cinema. Estamos diante de uma escadaria e há muita gente ao redor. Olho para baixo e penso que pisar em falso poderia ser fatal, como todo o trajeto de calçadas estreitas e de ruas de pedra-sabão de Tiradentes.

Ela conversa com um sujeito, seu olhar está distante. Eu a observo, mas não são as montanhas o objeto da contemplação. Não nos víamos há mais de um ano, e sempre a considerei uma pessoa inteligente e agradável.

No último ou primeiro degrau da escadaria, depende da perspectiva, ela me vê. Nesse momento há um peso insustentável, um incômodo sem fim. E continua pausadamente aquele não assunto, enquanto eu espero.

Ela ensaia descer os degraus ou quem sabe correr para o banheiro que fica à esquerda. Ela não correria para o banheiro, mas a escadaria vai ganhando mais pessoas, seriam alguns desvios entre pesos e incômodos.

Decido romper, enfim, aquela indecisão. Sorrio e a cumprimento. Ela respira fundo: “Oi, você por aqui”; “Que tédio você por aqui”; “por que você por aqui resolveu exercitar sua boa educação?”. Tudo por trás de um seco e burocrático “tudo bem”, sem exclamação para não render diálogo.

O sorriso branco fica amarelo. O sujeito se toca que ele mesmo é um fardo estacionado no primeiro ou último degrau, dependendo da perspectiva. Ele a beija no rosto. Não sou hipócrita, desço os degraus. Dou com breves acenos para algumas das gentes que conheço ali.

Já me disseram que pode ser timidez, já me disseram que pode ser efeito de um baseado, já me disseram que tem gente blasé no mundo, mas isso aqui não é nouvelle vague, minha filha, não estou num filme do Godard. Faz um calor danado, e por isso nem preciso de abraço. Só acho grosseiro, invariavelmente grosseiro, olhar com tanta indiferença para alguém que não se conhece por alto.


De uma quase implicância com o Ano Novo - Dezembro de 2013


Eu sempre detestei a festa de Réveillon, tanto que já tentei passá-la dormindo. Claro, não consegui o feito porque os foguetes não deixaram. Imposição de roupa branca – não é a minha cor preferida –, de comida – não pode ave porque cisca para trás – e de uma felicidade obrigatória – não sei por quê, mas a imagem de gente bêbada cantando, depois da meia-noite, “Viver e Não Ter a Vergonha de Ser Feliz” me vem à mente – são as grandes responsáveis por isso. Acho a celebração de Ano Novo uma espécie de Studio 54 das festas na qual sinto que serei barrada.

Foi na virada de 2001 que decidi encarar todos os meus traumas de frente. Viajei para o Rio de Janeiro com uma amiga e irmã de alma disposta a incorporar todos os clichês. Comprei flores para Iemanjá, calcinha da cor do meu grande desejo para os próximos 365 dias. À meia-noite (que não é por causa do horário de verão. Sou sempre a chata que frisa isso na hora da euforia) eu estava sambando na areia. E assim segui até o primeiro dia do ano seguinte em meio a todas as oferendas possíveis. Honestamente, não me lembro se 2002 foi tão maravilhoso assim, porém a farra da noite anterior, com tequila, champanhe, cerveja e abraços em pessoas desconhecidas é das minhas melhores lembranças da vida.

Réveillon sim, Réveillon não, eu alterno a implicante com a que se joga. Vai de acordo com meu desejo e, trabalhando alternadamente nessa época do ano, com o plantão na redação. Nem sempre posso viajar, mas meu único ritual consiste em ter uma virada bem acompanhada. Em 2009, fiz uma ceia familiar e sem extravagância alguma, e acordei muito equilibrada para encarar um período que quase me tirou o chão. O ano passado terminou numa festa linda de aniversário de outra grande amiga, com noite estrelada, sem chuva como costuma acontecer em Belo Horizonte, e a certeza de que 2013 seria bem melhor.

2013 foi bem melhor, percebo agora, enquanto escrevo esta crônica, talvez influenciada por um artigo que li numa dessas revistas de bordo. A autora propunha listar cinco coisas ótimas acontecidas nas últimas 24 horas. Eu que havia pegado um engarrafamento terrível, quase perdi o voo e nem consegui tomar café da manhã, me lembrei de um brinde com queridos, de um presente delicado, de um abraço apertado, do pernil saboroso, do afago de um cãozinho. Coisas extremamente triviais que nocauteavam as chateações. Enquanto terminava essa lista mentalmente, contava os minutos para pousar em São Paulo, e encontrar aquele com quem vou passar essa virada e, espero, tantas outras.


Como preparar um presente - Dezembro de 2013


Pensei em pedir para a minha professora Agnes Farkasvölgyi a receita de um bolo para a ocasião. Teria que ser leve, ousado, com frutas vermelhas, chocolate, castanhas...algo assim quase como o docinho de amêndoas que ela prepara, cujo apelido dado por mim é Nirvana. Mas, e se eu errasse nas medidas? Se ficasse muito açucarado? Se na empolgação do preparo, eu deixasse queimar ou solar? Eu não tenho a genialidade da Agnes em certas alquimias, só a enorme vontade de preencher esse espaço com delícias e afetos.

Cogitei marcar, enfim, um café com a Odette Castro. Ela me daria dicas para arranjos floridos, iria sugerir que eu tirasse as velas aromáticas da caixa, utilizasse fitas coloridas e recadinhos ao estilo do nosso “amigo virtual” Antonio (se não conhece, procure por Eu Me Chamo Antônio no Facebook ou no Instagram) em todo ambiente. Mas, e se eu esbarrasse em algum enfeite, quebrando-o? Se a decoração ficasse um baile de Carnaval nonsense? Eu não tenho a inspiração da Odette, só a enorme vontade de deixar esse lugar bonito, aconchegante como o Arnaldo Antunes canta: “A Casa

É sua. Por que não chega agora? Até o teto tá de ponta-cabeça. Porque você demora”.

Pensei em escrever palavras lindas por aqui. Não sem antes propor uma ocupação poética de alguém que escrevesse crônicas que sempre me emocionam. Será que a além da quarta-feira a Silvana Mascagna toparia também acumular este domingo? Eu queria causar a sensação de borboletas na barriga ao relatar o encontro do casal no metrô de Nova York, a alegria de um passeio de fim de semana com o melhor amigo, aquela viagem inesquecível, a cena do filme que não sai da memória. Ainda me falta estrada para ter um olhar como o da Sil e sua capacidade de transformar aquele espaço em item de colecionador.

Comecei a ficar nervosa, pois o grande dia bate à minha porta e nada do presente! Que outra habilidade eu teria? Claro! Nas horas vagas, sou DJ. Uma bela coletânea de rock, soul e jazz seria fundamental para dar o clima: Esquentar a pista e equilibrar com momentos de sofá depois de, como na letra de Jorge Ben, “balançar a pema e arrastar a sandália sem parar”. Então, me dei conta de que faltaria um toque de samba ali, uma bossa acolá. Eu sei, não se pode ter a perfeição, porém é o grande dia. Eu queria arredar as cadeiras pra gente dançar. Eu, você, as garotas que fazem o Pandora com o maior esmero e quem mais quiser vir para o baile.

Por fim, percebi que o presente mesmo já estava nesse pequeno conjunto de desejos. Quando abri a caixa, fui colocando gostos de infância e de surpresa, aromas de flor de laranjeira, cartas de amor, lágrimas só de felicidade (e pouca, para não estragar a maquiagem), leveza, música, beijo na boca, saúde de ferro e gratidão. É bom estar aqui com tanta gente querida. Agora, com licença, que eu vou me jogar na festa!

quinta-feira, julho 10, 2014

Tempo bumerangue

"O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou." Vergílio Ferreira, escritor português

Hoje foi uma fonte luminosa. Era uma área do Conjunto Nacional, não a Praça da Liberdade.

Outro dia um pedaço de queijo Canastra que tostei na trempe do fogão. Era eu sem a ajuda do meu avô. Medo do fogo, nunca tive.

As táticas para fugir momentaneamente da vida adulta são muitas. Tiradas da memória, elas me aproximam de alegrias infantis, das pessoas que morreram. Sobretudo fazem com que eu me esqueça da adulta que sou, obrigada a conviver com os outros, pagar contas, gerenciar tarefas, cuidar da casa, da sobrancelha...

Pinça para mim um dia foi um objeto estranho. Daqueles que quando sumia, deixava minha mãe com cara de brava. Tenho, atualmente, pinças espalhadas em necessáires diversas. Elas disputam lugar com trocentos objetos, que vão dos óculos escuros ao casaco fininho, numa bolsa cada vez mais pesada.
Bolsa de adulto. Quando eu corria em círculos pela fonte e assoprava o queijo fumegante para não queimar a língua, adorava mexer na bolsa da minha mãe. Eu sonhava em ter um grande compartimento de coisas importantes para carregar. Na primeira distração dela, lá ia eu passar amostras de perfume, roubar um mentex ou pastilha garoto.

Minha avó, que tinha até leque na bolsa, dizia que na dela havia uma cobra guardada. Como na história do "homem do saco" e toda lenda que pudessem me contar, ao invés de ter medo, eu queria era checar a veracidade dos fatos: "onde, vó? Me mostra!".

Na minha lembrança eu era uma criança destemida. Naquele tempo que voou, eu soltava a mão dos adultos para atravessar a rua sozinha. Levava bronca, claro. No fundo, era ânsia de independência, não dose de peraltice.

Agora sou mais uma dessas pessoas apressadas, atrasadas, de óculos escuros, com bolsas grandes e vários papéis importantes atravessando na faixa de pedestre. Por isso, eu vou atrás do barulho das águas na fonte, da cor azul da chama no fogão.

terça-feira, junho 17, 2014

Ainda saudade

Saudade é aquilo que não muda.
Talvez a forma de de lidar com ela sim.
Anos atrás, morando em outra cidade, eu não tinha a tecnologia que tenho agora disponível para falar com a minha família em diversos momentos do dia.
Havia email, skype e tudo mais. Eu nem possuía uma computador em casa. Aliás, em 2006, eu vendi muitos livros que ganhava para fazer supermercado ou mesmo esperava um pouco mais para jantar no bandejão do jornal.
Eu sentia falta do tempero, dos lugares, dos rituais, especialmente de almoçar domingo com a minha família.
Estranhamente, quando voltei para casa, passei a sofrer de outras ausências. Eu queria ter aqueles amigos por perto, ir a um show internacional em plena terça-feira e cultivar certas desobrigações.
Saudade tem é onipresença.
Agora, vivendo longe do ninho de novo ela atravessa a minha rotina. Quando atendo o telefone e digo o nome da editoria de cultura que eu trabalhava até março no lugar do "alô", quando recebo fotos e mensagens de amigos dizem que eu deveria estar ali, quando desligo o telefone após ter falado com a minha mãe e a minha irmã.
Saudade é inimiga da ciência.
Por que não posso teletransportar?
Como antes e diferentemente daqueles tempos, tenho muitas horas de ficar olhando para o teto. Horas que deveria gastar lendo, indo ao cinema, porém que se contrapõem com a necessidade de ficar online. Tem dias que não tenho para quem ligar e chamar para um chope, há territórios ainda difíceis para eu circular com a mesma destreza que eu tinha de pegar a linha verde e fazer  uma pequena baldeação.
Vou tendo com Brasília a mesma relação de São Paulo e Belo Horizonte: uma alternância de ser ou não o meu lugar.
Saudade, roubando de um dos brasilienses mais famosos, "tem sempre algo mais, seja como for..."


domingo, junho 01, 2014

Supermercado

Tenho uma relação de amor e ódio com supermercados. Gosto de conhecer novos produtos e de saber que minha despensa estará cheia, mas não gosto do tempo que perco ali e do ritual de mirar um produto cinco vezes (pega na prateleira, coloca no carrinho, devolve para a esteira do caixa, enfia na sacola e, enfim, guarda).

No supermercado invento receitas, canto musiquinhas (no caso do Carrefour que tem uma rádio com hits dos anos 80) sem perceber que estou sendo vigiada, me irrito com gente que fecha o caminho (lugar nenhum supera o Verdemar do São Pedro nesse quesito), tento alcançar produtos que não sei porque cargas d'água colocam lá no alto (mostarda dijon, alcachofra em conserva).

Se existe uma coisa que nunca deixo de fazer é bisbilhotar o carrinho alheio, como naquela crônica do Luis Fernando Verissimo sobre vizinhos que comentam o lixo um do outro. O sujeito bonachão que compra carne gordurosa, caixas de cerveja, mas tem o cuidado de ligar para a mulher para saber se precisa levar algo; a moça com milhares de produtos saudáveis que não resiste a um danette; o econômico que só compra produtos genéricos; os pais que deixam a molecada encher a gondola de gulodice; os vários tipos de chatos que analisam rótulos de cerveja, vinho e café como se fossem grandes entendedores do riscado.

Na minha frente na fila havia uma família que aparentemente ia abastecer um bunker. A famosa "compra do mês". Isso era muito comum nos anos 80, quando o preço de um achocolatado quintuplicava de uma semana para outra. Não vejo muito sentido com a estabilidade econômica atual, a não ser o fato de que eles possam odiar ficar horas vagando com carrinhos num domingo de manhã. Foram dois cheios: mil reais em produtos, entre biscoitos recheados, queijos amarelos, refrigerantes. Havia naquele meio uma revista dessas de dieta.

Ao lado, a típica mulher light comia um saquinho de Ferrero Rocher, esses vilões que fazem a barreira até o caixa que, por sua vez, para, registra coisa errada, acende a luz à procura do gerente. Trabalhar domingo é mesmo a coisa mais chata do planeta. A cara da funcionária não deixa dúvida. Sigo bicando o carrinho da vizinha e flagro mais duas porcarias: um pote margarina e aquela famigerada revista semanal.

Repreendo com o olhar o tiozinho que larga nos biscoitos diversos frios. Com a fila parada, não custava nada deixar no lugar de origem. Mas as pessoas acham que funcionário de supermercado e de praça de alimentação estão lá para recolherem mesmo ou "ganham para isso". Sempre penso que não custa nada devolver o produto, colocar a bandeja no local indicado...

Sou interrompida por um "próximo, por favor". Momento de olhar para o que comprei e fazer a minha própria (auto) crítica.







sábado, maio 10, 2014

Mães

Não sou mãe, dificilmente serei. Eventualmente, como toda mulher da minha idade, sou questionada sobre o fato de não ter filhos. "Mas você nunca pensou?", "Alguma questão física te impediu?", "Por que não aproveita e congela uns óvulos antes de fazer 40?", "Pensa em adotar?", "Gosta de criança?".

São perguntas invasivas, talvez porque o tópico maternidade não aceite palpite, estando você dentro ou fora. Porém, as pessoas não resistem. Todas as mães que conheço já soltaram um: "quando você estiver no meu lugar, a gente conversa" para algum fulano sem experiência com noites em claro, mamadeiras e depressão pós-parto que tentou ensinar uma tática "infalível" anti-pirraça ou pró-brocólis.

Mas como disse, certa vez Regina Navarro Lins, não existem "as pessoas" ou "sociedade", como se isso fosse numa galáxia distante. As pessoas somos nós. Nesta semana inundada por homenagens, promoções de eletrodomésticos e brindes "ops, a senhora não é mãe, me desculpe", me deparei com três tipos de mãe que eu não seria.

Fiquei pensando a partir dos pequenos esbarrões que deve ser a coisa mais difícil do mundo. O tal equilíbrio é digno de virar atração principal do Cirque du Soleil. Mesmo assim, que fosse para render a reflexão, quis apresentar as três mães. Eu acho que elas podem encontrar um jeito afetuoso, sem perder a firmeza, de criar suas crianças. Eu honestamente espero que consigam.

Supermercado - A mãe preconceituosa

Eu estava diante da prateleira de biscoitos, lugar propício para a criançada pedir umas 15 marcas de uma só vez. Fui criança na época da inflação: numa semana dava para comprar o Nescau, na outra ele triplicava e era Xuc mesmo. Minha mãe sugeria bater as bolotas de achocolatado genérico no liquidificador (sem drama e com criatividade, a gente engole o Xuc).

Havia uma garotinha linda, de uns quatro anos, em pé no carrinho. A mãe super bem-cuidada e bem-vestida ria das gracinhas da filha. O semblante dela mudou quando a pequena soltou:

- Oxe, mãe, vamos levar este biscoito?
- Eu já te disse mil vezes para parar de falar "oxe"!

A menina ficou de cabeça baixa e a mulher saiu resmungando que não queria a filha falando como a empregada.

Isso me lembrou da Augusta, que trabalhou na minha casa de quando eu era um bebê até 11 anos de idade. Baiana arretada, me influenciou a falar "culé" e "mulé" que, naturalmente, foram pronunciadas como "colher"e "mulher" anos depois. Graças a ela, eu comia feijão com farinha em cima. E só não amassava pimenta na comida porque ardia. Minha baianidade, jamais repreendida, é lembrada sempre com um enorme carinho.

Shopping - A mãe sem noção


O garoto já havia colocado meia loja abaixo. Os vendedores se entreolhavam e alguns clientes também. Sabonetes espalhados, embalagens prestes a perderem o lacre só para ele cheirar um a um.

- Filhinho, por favor, pare. Mamãe fica desapontada com você desse jeito.

Ele balançou os ombros e continuou tocando o terror, até que virou um hidratante (caro) no chão. A criatura continuou no discurso de súdita e o reizinho causando estragos pelos quais ela, evidentemente, não pagou.

- Vamos para casa, filhinho. Lá, a gente vai pro cantinho do pensamento.

Me desculpem adeptas da Super Nanny, mas isso não funciona. Aliás, como eu li numa coluna da Rosely Sayão, até uma certa idade. Depois dos sete, ele já deve ter uma noção mais clara do que pode ou não pode. Corte radicalmente um benefício e o garoto não repete a vandalização. Nem é preciso gritar. Eu me lembro de ter sido impedida durante uma semana de ouvir meu LP do Balão Mágico porque sentava a mão na minha irmã caçula. Quando a punição terminou, demorou bem mais para eu puxar o cabelo dela de novo.

Banheiro - A mãe tirana

Algumas mães têm problema em convencer os filhos a tomar banho. Outras a tirá-los do chuveiro. Eu, que não fui uma criança fácil,  adorava ir para a casa da minha avó tomar banho na banheira: "Vó deixa eu sair quando a minha pele ficar toda enrugada?". Ela deixava, mas com mãe não tem isso. Cheguei a ouvir argumentos lógicos do tipo: não se pode desperdiçar água. No fim, o que funcionou mesmo foi estabelecer um tempo limite. E quando eu crescesse e tivesse minha casa e pagasse minhas contas, poderia me demorar.

Avizinha já chegou gritando.

- Vai atrasar na escola! Você não tem jeito mesmo!
- Deixa mais um pouquinho?
- Sai desse chuveiro agora, senão apanha!

Gritos, berros e ameaças insuportáveis por uma questão trivial.

Sim, crianças tiram os pais do sério. Quando são birrentas então...haja meditação e sangue frio para conter. Mas o menino ao lado nem teve a chance de ameaçar o choro. Deve morrer de medo da mãe.  A mãe é do tempo que bom mesmo era a "chinelada".  Toda essa geração, ao que me conta, se lamenta por não ter tido mais diálogo e troca de abraços com os pais.



quarta-feira, maio 07, 2014

sábado, março 22, 2014

Mais uma vez, mudança

Não poderia ter escolhido uma trilha melhor: Radiohead (óbvia talvez para quem me conhece, mas cada vez mais me importo menos com o que pensam sobre mim. Coisas de inferno astral mesmo, de estar mais perto dos 40 que dos 20).

Só há um tipo de vento por aqui. Janela aberta e a sensação de deserto nesse outono.

Quem sopra não vem apenas de fora, vem de dentro, vem novamente.

Já odiei com todas as forças possíveis a mudança. Quanto mais eu odiava, mais ela me empurrava para o abismo.

Passei a temê-la.

Mas houve o tempo antes daquele tempo que eu a buscava, por inquietação mesmo.

Aí mudei de cidade, fui ganhar salário de recém-formado já tendo uma bagagem considerável. Passava um cortado daqueles, no entanto fiz amigos para toda a vida e desenvolvi um grande instinto de sobrevivência.

Até os 33 anos eu achava mudança essencial.

E como na "Roda da Fortuna" do tarot, veio a virada.

Perdas, rompimento, desamparo, (des) encontros com gente tóxica. 

Claro que querer ficar quieta, na minha era objetivo dessa encarnação.

Só que por mais que eu não quisesse sair do casulo, ela é o que há de mais inevitável, se não considerarmos a morte.

E não é que venho tão surpreendentemente boa, suave e me dando as mãos como num pacto silencioso para que eu parasse de temê-la?

Veio no abraço, nas doses de café, no beijo, nas taças de vinho, nas músicas, nas mensagens, num conforto que nem me lembrava que existia (ou nem sabia).

Não sendo possível viver longe, a mudança, o destino ou sei lá o quê acelerou os relógios.

Eu estaria em pânico num passado recente.

E me ocorreu de ouvir Radiohead, preparar um jantar só para mim, tomar uma cerveja, olhar a montanha e cumprir meus rituais bobos, pequenos e solitários.

Eles não serão mais tão solitários assim.

Olho para minha casinha, tão desejada, tão enfeitadinha, que me trouxe tanta alegria e agradeço. Fui feliz aqui, na alegria e na tristeza.

Daqui uma semana, malas prontas. Mais uma vez, outra cidade. Mais uma vez, o desconhecido. Mais uma vez, a saudade da minha mãe, da minha irmã dos meus amigos do coração.

E, fora isso será todo aquele punhado de surpresas que eu guardarei na memória, enquanto houver memória.

Caixas vêm e vão. Roupas viram peça de bazar, eletrodomésticos viram desapego. Eu me viro. E me viro naquele cantinho da cama para buscar o colo mais gostoso do mundo.







sexta-feira, março 07, 2014

O sentido da pausa

Ainda não era o tempo de assimilar o aprendizado que viria da estagnação.
Não estava, portanto, no depois.
Era o maior durante de todos.
Parecia aquele pesadelo clássico de tentar nadar até a superfície.
Inutilmente, sem força alguma.
Os dias iguais se arrastam.
O mês que se foi é idêntico ao que está.
Dentro em breve, mais um ano será cantando no "parabéns a você".
Encherá os pulmões apenas de ar.
O desejo mentalizado tem distâncias incalculáveis.
Serão mais dias, horas, minutos, segundos, milésimos de segundos.
Um mergulho no tudo igual.
Por hora, apenas.


sábado, fevereiro 08, 2014

Nem isto, nem aquilo

Era um dos livros que mais amava quando criança, "Ou Isto, Ou Aquilo". Cecília Meirelles escrevia que toda menina queria ser bailarina. Eu era como as da poesia, mas não virei. Ela também fez uma declaração de amor ao último andar. Cheguei ao penúltimo. Dá para ver a cidade: os outros prédios com poucas luzes acesas dos apartamentos na madrugada e também a favela, a Serra do Curral. Para ser sincera, preferia uma casinha pequena com quintal.

Penso nos istos e aquilos. Penso na forçada coluna do meio, aquela do "não é bem assim". A vida é melhor nas estrofes de Cecília. A minha apenas é uma vida na medida do possível, com grandes períodos ordinários, intercalados por pequenas alegrias, algumas tristezas e perdas.

Talvez as alegrias e tristezas, istos e aquilos, fossem o combustível desse lugar. Esse lugar está inabitado de novas ideias, de outras palavras, de fotos, de músicas, pois ando mais Alice, a Ruiz, em "socorro não estou sentido nada".

Não tenho vontade de escrever e ando lendo muito pouco. Nem isto, nem aquilo.
Não vejo TV, em compensação tenho visto mais filmes que a média. Ou isto, ou aquilo.
Não estou feliz, nem estou triste. Nem isto, nem aquilo.

Estou com saúde, o que importa. Tenho amor, o que mais importa. Trabalho, o que é bom.

E tem os poréns de ter largado o pilates, de morar longe de quem quero perto e rebolar para pagar as contas.

Não existe quem não os tenha, ainda que as praias lindas, os brindes com os melhores amigos do mundo e os ícones de corações se derramem na internet por meio das redes sociais.

"Dê a um homem tudo o que ele deseja e ele, apesar disso, naquele momento, sentirá que esse tudo não é tudo", Kant.

Não há  inspiração alguma nessa altura de fevereiro, quando aqui era para estar, por uma certa tradição do blog, o post inaugural, com alguma esperança para o ano.

Eu sei que esse bonde existe (o da esperança), no entanto parece que ele é controlado, sei lá, pela BH Trans.

Senti alguma necessidade dessa justificativa para os meus poucos leitores, para mim mesma. Quando olhava meus cabelos brancos no espelho pela manhã e lutava internamente contra meus descuidos recentes, pensei neste post. Ou não. É um não post.

Não prometo ser mais frequente por aqui.

O que quer dizer nem isto, nem aquilo.