domingo, outubro 04, 2015

Bing

Fatio o tempo dos dias úteis em três partes. São 120 horas, das quais 40 para trabalhar, 40 para dormir e 40 para comer, praticar yoga, amar. Na impossibilidade de um ofício com carga horária menor, vou cortar esse negócio de ficar bocejando na frente da TV às 22h para esticar o meu pedaço favorito.

Ando fazendo contas de tudo. Algumas me tiram do sério, outras me dão – ao menos, espero – longevidade: cinco respirações no adho mukha, dez no sarvangasana, quinze no halasana. Também contabilizo impressões sobre baias alheias. Sim, aqueles quadrados onde parte das pessoas passa 40 horas ou mais, de segunda-feira a sexta-feira.

Como Chandler Bing, de Friends, cuja profissão os amigos não conseguiam definir,  quando arrasto a cadeira para me alongar um pouco, acabo percebendo como os cubículos dizem sobre seus donos temporários. A foto da criança, que passa o dia na creche e outro período na casa da avó enquanto a mãe trabalha; uma miniatura de berimbau para recordar as últimas férias; várias miniaturas que só nerds sabem nomear; o retrato de uma noiva sorrindo para aquele cara recém-casado; orações; santos; flâmulas de futebol; canecas de todo o tipo, garrafinhas, flores de plástico, pilhas de papel.

A minha baia cabe numa caixa de sapato, para facilitar o dia em que eu for embora. Já saí levando sacolas cheias no passado e quero carregar menos coisas. Porque há circunstâncias de despedidas em que você dá de presente os saquinhos de chá pro vizinho ou aquele bloquinho em branco pro colega que acabou de chegar e há circunstâncias em que você apenas deseja que alguém faça a bondade de ir naquele lugar pegar seu grampeador de estimação.

Estava tentando me lembrar se o Chandler terminou a carreira feliz após sair daquele emprego - e voltar a ser estagiário - enquanto a Mônica tinha certeza de que seria chef para toda a vida. Eu que já fui um monte de coisas na minha profissão, dei um tempo, estou em outra e não consigo me imaginar no futuro. Aos 17 anos a escolha me parecia tão nítida e tão certa... E as baias vão mudando: a criança da foto cresce, as férias seguintes não serão na Bahia, a esposa pode virar ex, até a fé pode trocar de religião. Os torcedores, evidentemente, não vão gritar pelo rival. E eu seguirei esticando um pouquinho para olhar cada novo mundo ao meu redor.