sábado, janeiro 06, 2018

O amigo do amigo



Sempre tive uma dificuldade imensa com matemática. Ainda por cima, sou da geração decoreba. Aprendi a somar, subtrair, dividir e multiplicar com cartões coloridos feitos em cartolina. Eu só precisava memorizar aquilo para me livrar, para estudar coisas mais interessantes.

Meu tio Marcelo, uma vez, num exercício imenso de paciência quis me explicar equações de um modo subjetivo. Para que eu entendesse as regras do sinal, exemplificou: o amigo do meu amigo é meu amigo, o inimigo do meu inimigo é meu amigo, assim por diante. Eu fazia provas repetindo isso. Algo sempre dava errado e quando vinha a prova corrigida, meu alívio era estar na média.

Outro dia, fiquei pensando no amigo do amigo além do conceito que meu tio tentou me ensinar. Há vários amigos de amigos que não suporto, alguns até já chamei de amigos. Tem pessoas que meus amigos detestam e que, eventualmente, são meus amigos. Já fiz uma festa, aliás, em que pedi para ninguém fotografar porque tive que deixar de convidar uma amiga para convidar outra.

A gente vive andando na corda bamba com essa fragilidade chamada amizade. Essa fragilidade que nos dá e também nos tira chão, que quando se tem é loteria e quando se perde é abismo. Até hoje sei de cor o telefone celular da minha melhor amiga, que partiu muito cedo em 2010. Nunca existirá na minha vida alguém como ela. Para nossa sorte, não compreendemos isso depois da perda. Foi justamente no dia em que nos tornamos amigas.

Ao longo do tempo perderemos amigos, não somente para a morte. Acredito que algumas relações sejam feitas para acabar e deixem uma saudade boa, como a daquela amiga do colégio com quem se dividiu tanta coisa e, depois de cada uma seguir uma carreira, se mudar de cidade tenha ficado a beleza das memórias.

Perdemos amigos que de fato nunca foram, que não olham para amizade e sim para seus umbigos e seus anseios de poder. Perdemos amigos por bobagens, porque estamos mais impacientes com os defeitos do outro e de nós mesmos. Queremos ser o profissional como pregam as cartilhas do LinkedIn, a pessoa good vibes dos textos de bem-estar que pipocam no Facebook assinadas por quem tem um estilo de vida completamente diferente do nosso, às vezes genuinamente desapegado.

Seremos profissionais com falhas, nos estressaremos com os chefes, com os colegas de trabalho e não vamos seguir a etiqueta corporativa à risca. Não vamos levantar à cinco para correr, nem meditar ou comer orgânicos. Nem sempre vamos mentalizar positivamente que tudo vai melhorar e cultivar a resiliência em meio ao trânsito parado ou à constatação de que o dinheiro na conta não vai pagar os boletos.

Ao rolar a lista de contatos da agenda do telefone são poucos os que entendem sem julgar, que acolhem e também dão uns safanões porque são e vivem as imperfeições. São esses poucos como eu, sinalizados com uma estrelinha amarela, na lista de favoritos, sem tempo. Eventualmente, vão adiar os encontros porque não podem e, de vez em quando, porque não estão com vontade mesmo.

Está tudo bem, mas também é um pouco melancólico.

Vamos acionando os recursos virtuais para sorrir com a foto no Carnaval de cinco anos atrás, no registro daquela viagem em que estávamos com a pele mais brilhante e os cabelos mais curtos. Vamos todos nós cuidando de pequenas e grandes ausências, com mensagens no Whatsapp e perceber que um ano se passou e não nos vimos...

Seguimos, então, aperfeiçoando o currículo, colocando o despertador na soneca, evitando o congelado no supermercado, tentando se abrir para o amigo do amigo que achamos um pouco pedante na mesa do bar.

sábado, dezembro 02, 2017

Definições

Sobre montar ou não árvore de Natal em mais um ano de desencanto.
Sobre arriscar uma viagem para o Chile, em abril, considerando o futuro incerto.
Sobre insistir em escrever, não aqui. Em escrever.
Sobre me matricular no mesmo estúdio de yoga, mesmo querendo noites livres.
Sobre ainda dar importância para grosseiras dos outros, tentando ser compassiva.
Sobre desistir de vender as roupas usadas e doar tudo numa só tacada, ainda que precise de dinheiro.
Sobre qual quantia de dinheiro preciso mesmo para viver.
Sobre a preocupação e a fuga a respeito de exames médicos.
Sobre aceitar que depois dos 40 anos há coisas sobre mim que terei que aceitar, gostando ou não.
Sobre arrumar horários, tempo e dinheiro para estudar.
Sobre respirar e tentar ser paciente com quem me procura apenas para reclamar.
Sobre tentar meditar.
Sobre entender que tudo bem ter bem menos amigos do que eu pensava que tinha.
Sobre ser loira, morena, ruiva, joãozinho ou cabeluda.
Sobre o sentimento do mundo e a necessidade de voltar para a terapia.
Sobre o fato de que tudo isso é constante, e que tudo isso um dia acaba.





sábado, setembro 23, 2017

Amizade

Há muito venho pensando nos encontros que ganham profundidade e levam seu nome.
O que é a profundidade se não transcender os mesmos gostos por filmes, livros e discos.
Perceber que diferenças podem ser transformadoras quando sabemos aceita-las, abraça-las.

Semana passada, tive reencontros que me inspiraram a parar os relógios.
Que tempo é esse que nos rouba possibilidades de trocar afetos e ideias?
Que tempo é esse que nos dá a falsa sensação de que estamos presentes?
Nos aniversários.
Nas separações.
Nos nascimentos.
Nas mortes.

Outro dia, um conhecido disse que não usava redes sociais, para que ninguém soubesse quando estava gripado, sem grana, apaixonado ou triste. Ele completou que tinha o privilégio de tomar uma cerveja com a turma toda semana. Não precisavam nem telefonar para este encontro marcado.

Há muito venho pensando como a turma virou um encontro sazonal.
Nos aniversários.
Nos casamentos.
Nos velórios.

Onde estamos armazenando tantas ausências?





domingo, agosto 06, 2017

Domingo

Sem a televisão ligada, ouço o barulho das motos, as sirenes da ambulância e vozes embriagadas vindas do prédio vizinho no churrasco que já acabou. Não há fumaça ou cheiro de carne no ar.

A tevê na noite de domingo é das coisas mais desnecessárias que existem. Os programas que misturam jornalismo, entretenimento e espetáculo desde sempre trazem consigo uma angústia, um sufocamento.

Tenho evitado sofrer com o anúncio das segundas-feiras. Eventualmente, nem penso muito nelas ou penso que são um dia como outro qualquer. Ainda sinto dificuldades em dormir bem, certamente pelo excesso de edredom no fim de semana.

Aproveito que os sons lá fora começam a cessar. Tento planejar uma playlist, as comidinhas da minha marmita e coloco um livro na mochila. Vou ver um seriado, sonhar com férias como não tiro há três anos e com o bilhete premiado da loteria que não jogo.


domingo, julho 09, 2017

Dia a Dia, Lado a Lado

Tulipa Ruiz e Marcelo Jeneci são artistas contemporâneos, com propostas tão diferentes quanto complementares. Ela tem uma voz que trafega entre a doçura e a potência. Também assina a arte de seu disco de estreia. Ele canta de modo suave, além de ser um sanfoneiro de mão cheia. Tulipa faz deliciosas crônicas musicais sobre encontros após uma tarde de chopes na rua Augusta. Jeneci é afeito a letras para se viver um grande amor.

"Dia a Dia, Lado a Lado" foi composta pelos dois - e por Gustavo Ruiz, guitarrista e irmão de Tulipa -  há oito anos, nunca foi gravada, embora esteja disponível na rede. A música foi o melhor pretexto para uma dobradinha no dia 8 de junho, sábado, no Cine Joia. Com o repertório costurado por canções como "Felicidade", "Pra Sonhar", " O Melhor da Vida", de Marcelo Jeneci, e "Só sei Dançar com Você", "É" e "Proporcional",  de Tulipa Ruiz, os duetos são pontuados pela sintonia, espontaneidade e uma banda extremamente competente.

Impressionante como a voz dela me encanta, como se fosse a primeira vez que eu a tivesse visto ao vivo, tanto quanto a fluidez dele com a sanfona combinando baião com os solos de guitarra, por exemplo. Já tive o prazer de ouvir Jeneci acompanhando os sinos de uma igreja na hora da "Ave Maria", na Praça de Santa Tereza, quando um concerto que fazia para o Natura Musical precisou dar uma pausa para missa (coisas de Minas Gerais). São artistas múltiplos, poéticos e com muita personalidade.

Enquanto Tulipa, mais extrovertida, conta sobre sua viagem pela Colômbia e brinca de falar portunhol apresentando os músicos,  Jeneci, mais tímido, parece conversar apenas com sorrisos num primeiro momento. Mas à medida que o show avança até um passinho arrisca. A dupla retribui todo o carinho do público, que canta todas as faixas. Tulipa sempre dá um ar de descontração aos gritos de "linda" e "maravilhosa" que surgem da plateia entre uma e outra pausa. No fim do show, Jeneci literalmente "vai para a galera", circula pelo Cine Joia, permitindo que vozes emocionadas e desafinadas dêem o tom do espetáculo. Afinal, esses encontros únicos são feitos dessas muitas vozes: a do outro e a de nós mesmos.

Na literatura há obras que se tornaram clássicas, como as cartas trocadas entre escritores: Rilke, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Pablo Neruda, Vinicius de Moraes, Caio Fernando Abreu e tantos outros relatavam sentimentos alinhavados por amizades que atravessaram distâncias e o tempo. O encontro de Tulipa Ruiz e Marcelo Jeneci na composição e no palco dá um alento similar àquele de se encerrar um capítulo desses livros de cartas com sorriso e um punhado esperança. Celebrar a amizade, as afinidades e as particularidades de uma maneira tão generosa é resistir. Resistir a tempos duros, de indelicadezas e golpes. Fazer parte, de algum modo, daquela cumplicidade dos dois artistas é uma preciosidade.




domingo, junho 25, 2017

Contentamento

O despertador toca 6h45.
Para quem não gosta, para quem não está acostumado e pensa que o mundo seria um lugar melhor se aceitassem que há quem prefira levantar às 9h, só resta pular da cama em direção ao banheiro.
Torneira ligada, água gelada e alguns segundos para coragem de lavar o rosto...
Acorda! (Penso).
Visto qualquer combinação no escuro enquanto Emerson, quentinho, está dormindo aninhado com os gatos.
Se eu tivesse levantado às 6h30 faria o café, mas eu mesma pego uma banana e corro para o metrô.
Terça-feira, vagões lotados, fones de ouvido que ainda permitem ouvir os vendedores de aparelhos eletrônicos.
Os raios de sol invadem a janela. De Santana até a Armênia. Depois vem o túnel.
Chego pontualmente, converso com uma senhora que reclama de dores na coluna.
Juliana sorri ao me dar bom dia. Entrega a ficha para eu assinar.
Entro na cabine, tiro a meia calça para as agulhas serem fincadas de modo certeiro nas pernas e pés.
Passo meia hora tentando meditar, relaxo.
Acordo melhor.
Acordo, enfim.
"Até sexta", o doutor me lembra.
Passo pelos Budas do corredor.
Escolho um bom lugar na padaria e peço uma média caprichada com pão na chapa.
Faz menos frio agora.
Deixo os 10% que não aparecem na notinha.
Vou trabalhar.
Vou pro Yoga depois do trabalho.

Segue a semana com exposição do Cícero Dias no CCBB antes de um show incrível de Arrigo Barnabé, Claras e Crocodilos, na Casa de Francisca, quarta-feira. Aquele "date" com o marido fora do usual para quebrar a rotina.

Na quinta-feira tenho um encontro com a inspiradora Monja Coen. O coração se enche de paz e alegria.

E quando vem sexta-feira, a hora-extra é assistir à peça Nu de Botas, no Sesc Belenzinho. Volto para casa pensando na sorte de trabalhar assim. Há quem sinta a maior adrenalina numa super cobertura da editoria de cidades. Respeito. Meu desejo nunca foi aquele, embora saiba fazer  (como quase tudo e em constante aprendizado no jornalismo).

Sábado.
O despertador não toca.
São 10 horas da manhã. Gatos e Emerson ainda dormem.
Fico mais uns minutos na cama.
Ele acorda e me beija. Vamos juntos preparar o café.
Faço feira, compro frutas, verduras e plantinhas para enfeitar a casa.
Ele pinta nossas janelinhas de azul.
Tomamos vinho, almoçamos, ouvimos música.
Seguimos para o Sesc Pompeia para ver o maravilhoso show do Arnaldo Antunes. Revejo na plateia um amigo que nem imagina o quanto eu o admiro, por sua inteligência e generosidade.
Dançamos e cantamos juntos.
Olho ao redor e todos sorriem.
Saímos de mãos dadas pela noite fria.
No metrô, encosto minha cabeça nos ombros do meu amor.
Cochilo. Sempre cochilo depois de tomar chope e no sacolejar do trem.
Vou dormir leve.

Hoje é dia de fazer massa e de tantas outras coisas que fazemos juntos.
"A vida nem sempre é fácil, minha filha", já dizia minha avó.
Mas há o contentamento.


segunda-feira, maio 08, 2017

Cotidiano

Pensa nesse lugar que é o melhor lugar para perder-se de alguém.
Para não ter contato por dias, meses, anos sem se dar conta.
Até não reconhecer mais a importância do outro.
Teria sido um dia?
Foram apenas rodadas de cervejas, risos sobre banalidades e uma afinidade passageira?

O metrô passa lotado, o próximo também.
Não há sinal de celular, nem chance de escutar os próprios pensamentos no intervalo entre as sirenes.
A multidão conduz até o vagão, não há lugares para se segurar.
Ar frio demais ou sufocante demais.

Aqui não há meio-termo.
Aquela mensagem para tomar um café terá data ou sequer será entregue.
O trem estaciona e aguarda uma desobstrução qualquer da via.
Um dia a viagem leva 15 minutos.
No outro, em mesmo trajeto, uma hora.

Há o sorriso e a nota de dois reais depositada no chapéu do músico que adentra pela porta.
Há a irritação profunda com o vendedor estridente de fones de ouvido que passa pela mesma.
E o contrário.

Os dias se alternam entre as manhãs sempre atrasadas de segunda-feira com bilhete de transporte vazio e apenas um terminal de recarga funcionando e inesperada gentileza daquele que se oferece para carregar a bolsa pesada.
Senta, levanta, sacoleja, desiste de ouvir música, abre o livro, checa as mensagens.
Lembra-se dos amigos que moram longe ao ver uma foto, suspira.
Consegue um ingresso para um show disputado, suspira.

Já não pensa naquele que se perdeu.
O impasse é bem mais simples: baldeação por trem, o fim do trajeto por ônibus, caminhada ou táxi?
E se o trem enguiçar?
E se o motorista de ônibus estiver conversando animadamente com um passageiro e não acelerar?
E se chover no caminho sem marquises?
E se o taxista pegar aquela rua errada que nos obriga a uma volta interminável?

Está quente.
Vai Chover.
Esfriou...

Espirra.
Respira.
Amanhã é tudo igual e diferente.