sábado, junho 23, 2012

Temporada de gripe

De vez em quando acho que para algumas coisas na vida sou que nem homem. Listo a incapacidade de lidar com a dor física nesse quesito. Quando contam sobre como foi um parto que demorou horas, costumo ficar horrorizada. E sou tão avessa ao desconforto que radicalizo: tirei os quatro sisos de uma vez, porém o dentista teve que chamar minha mãe para me dar a mão. Depois, claro, morri de vergonha do meu papelão e nem voltei no consultório.

Ficar doente me tira do sério. Não achar posição para dormir, ainda que sonolenta por conta dos remédios, sentir que tomei uma surra. Existem também agravantes como a minha neurose: desconfio do diagnóstico simples. Esse horror não pode ser uma gripe ou "virose" (clínico geral de pronto atendimento ama dizer que é virose. Nem sei para quê se deu ao trabalho de entrar na faculdade de medicina). Digo porque não há efeito instantâneo para os malditos remédios. Faço um coquetel com toda vitamina C possível e nada...é que o vírus já está lá fazendo a festa. Alguns dizem que o melhor é esperar e tomar água.

Repouso forçado. Nada pode ser tão anti-natural para mim do que ficar quieta. No final de semana que eu iria ao show do Marcelo Jeneci, ao teatro para ver "Estamira" e ao Natura Musical, usando o intervalo para fazer as malas para, enfim, mudar, me vejo caindo pelas tabelas. Perdi a apresentação de ontem, estou um zumbi hoje com o ingresso na mão. Só pode ser castigo por algo que se fiz, nem me lembro (aliás, o esquecimento, como no post abaixo, anda comigo. Ele e o fogo, igualzinho a música da Nação Zumbi).

Por fim, a gripe em particular tem poderes devastadores sobre mim. Ao contrário de toda humanidade, fico com um apetite de leão (e não deixo de sentir o gosto de nada porque a superdosagem de analgésicos não deixa) e me sinto a mais solitária das pessoas, levo a coroa "drama queen" de qualquer um. Não que não tenha colo, pois minha mãe sempre me dá. Tanto que quando eu era casada, fugi gripada para a casa dela para ser devidamente mimada e tomar canja de galinha. Entretanto, com um certo nojinho admito: faz falta ter um namorado para contaminar. Ficar debaixo das cobertas fungando juntos, acionar alarmes para a hora do próximo comprimido, saber que mesmo com o nariz de bambi e o pijama molambo, alguém me acha especial.

Minha sorte, enfim, é que gripes devastadoras são muito esporádicas em minha vida. Amém.


quinta-feira, junho 21, 2012

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

quanto mais vivo, escrevo, leio e pesquiso, mais tenho a sensação de que aquilo que se esquece é mais importante, para o indivíduo e para a coletividade, do que aquilo que se lembra. quando o que se esqueceu ressurge, por esforço mnemônico, por documentos buscados ou casualmente surgidos, por atos falhos ou por acaso simplesmente, revela-se mais sobre o presente do que tudo aquilo que dizemos, ou que nos esforçamos por lembrar.a psicanálise já tinha dito isso e explica o fenômeno com termos como recalque e repressão. mas, para além (ou aquém) disso, no plano linguístico e existencial, sinto (mais do que penso) que a memória é um depositário de esquecimentos, mais do que de lembranças. e que é no que se esquece que estão os cadinhos estalactíticos da poesia.

"Esquecimento", de Noemi Jaffe, do Quando Nada Está Acontecendo

Ou como diria o filósofo, "Abençoados os que esquecem, porque aproveitam até mesmo seus equívocos"( Friedrich Nietzsche)

sábado, junho 16, 2012

Sobre as madrugadas com ele

Foi quando, enfim, nos encontramos. E seu sorriso era o mesmo de quando tínhamos vinte e poucos, tanta pressa e muitos planos. Nossa conversa poderia ter durado mais do que algumas horas - ou seriam minutos? - dessa madrugada. Seu cabelo continua lindo, sem um único fio branco. E houvesse uma centena deles, não me importaria.

Passada aquela introdução diplomática sobre nossas viagens, escolhas e amores desfeitos, os assuntos eram plurais: você firme em suas posições, mas com uma doçura ácida que tanto me desconcerta. E mesmo que tenhamos falado sobre política, sobre a ausência de ambulantes vendendo balões coloridos nas ruas cidade e sobre aquela banda da qual agora não me lembro o nome, estar ali era tão bom quanto naquele dia, há mais de dez anos, no inferninho com o som alto.

Eu quis dizer que te vi no carnaval, com um tom de amarelo em sua alegria. No entanto, achei que não cabia me aproximar no meio da multidão, do calor e do alto das três latinhas de cerveja que eu havia bebido. "Você por aqui?" soaria meio ridículo.

Enfim, esse momento inesperado, um pouco nonsense - dada a circunstância - como tantos que espero subsequentes, entrou para a coleção das diversas coisas sobre você que quero desvendar. Mais uma vez, me apego a melhor lembrança que ficou entre o silêncio e quando (de novo) nos aproximamos. Fechei os olhos para me certificar se já não estavam assim.

Então, eu os abri. E despertei.

sexta-feira, junho 15, 2012

O bilhetinho

Eu nunca irei te dizer isso olhando nos olhos. Tão pouco você irá receber essas linhas um tanto inacabadas por e-mail, correio ou debaixo de sua porta num envelope branco sem remetente...

Se te assustei, se te aborreci, se nos tirei de um lugar especial, se me afastei, me desculpe. Eu não sou assim, mas estou.

E gostaria que houvesse um prazo de validade na embalagem... Para minha insensatez, para minha culpa, para o que não se pode remediar.

Essa minha insônia, esse meu receio de esbarrar com você amanhã ou depois de amanhã.

E vai acontecer. Irei sorrir mais estranha do que essa ficção sem roteiro ou diretor, pois da realidade pouco me lembro.

Não me queira mal.

Só ando um pouco perdida.

domingo, junho 10, 2012

Dos Fragmentos

Quando eu juntava frases, poemas, sonetos para te enviar.
Quando eu mesma brincava de escrever para você.
Quando bastava um sorriso seu para eu ganhar o dia.
Quando inventávamos nossos próprios rituais e roteiros.
Quando a gente tentava esticar os braços para tirar uma foto.
Quando tirávamos no par ou ímpar para decidir entre a pizza e o sushi.
Quando era domingo e você ia embora.
Quando a gente transformava a terça em sexta.
Quando meu coração disparava.
Quando a gente fazia as pazes.
Quando nos beijávamos pela manhã.
Quando eu encostava minha cabeça em seu ombro.
Quando você achava "bonitinhas" minhas estranhas manias.
Quando eu não ligava para seu moleton velho.
Quando eu dançava e você observava sério.
Quando morríamos de rir de uma bobagem.
Quando você me abraçava enquanto eu chorava, achando o mundo injusto.
Quando o nosso mundo nos bastava.
Quando a gente tirava uns dias de férias do outro. Forçadas ou voluntárias.
Quando você dizia que era eu.
Quando até doía essa coisa que eu sentia.
Quando eu achava que haveria o jardim, o crochê, a torta de maçã, eu contando histórias, você dormindo em frente a TV, os filhos, os netos, a morte...
Quando eu traçava planos para o final de semana, para o próximo ano, isso tudo deixou de ser.
Fragmentou-se o amor.
Despedaçaram-se essas lembranças do que fomos e do que não chegaremos a ser.
Tentei juntar caquinhos.
Achei inútil.
De menos valia foi ignorá-los, pois ando pisando neles.
E esses restinhos de amor também eram de sonhos.
Mas eles estão em algum lugar insuspeito, entre o atalho e uma longa viagem.


“Como serás tu que imagino mais do que recordo – a memória traz consigo também o esquecimento, continuando embora memória de gestos repetidos – com quem te encontras, como pensas, que brisas novas suavizarão teu sangue inquieto. Na distância imprecisa que o tempo traz recordo vagamente teu rosto rude e já marcado, a ternura inconsistente e macia da areia deslizando em nossas mãos.” Roland Barthes em "Fragmentos de Um Discurso Amoroso"

sexta-feira, junho 08, 2012

Das conversas de espelho

"Sempre é tarde quando se chora." Cayo Salústio Crispo, historiador romano

Estamos aqui de novo. Eu olhando para você com mágoa, raiva, decepção e medo. Esses seus rituais insanos que só sossegam quando machucam a pele e alma. Essa mania de me tirar do lugar do contentamento e me empurrar para o abismo.

Pois agora é ultimato. A vontade que eu tinha ontem era mesmo era de te matar, mas nós sabemos ser impossível. Vou acionar a Karma Police, te prender e torcer para a pena máxima. Você precisa me deixar em paz...