quarta-feira, dezembro 31, 2014

Para fechar 2014...

...Drummond

O Inseguro

Que sentimento tive da vida, este ano? Que escavação tentei em suas jazidas? A que profundidade cheguei? Substituí a noção de profundidade pela de altura. Não quis saber de minerações. Cravei os olhos no espaço, para acompanhar a primeira fase de ascensão dos foguetes, ver passar os satélites. Olhei muito em redor e para cima, nada para dentro ou para baixo. Adquiri uma ciência de ver, ou perdi outras, que não eram ciências, eram artes de vi-ver?

Bom, é verdade que as circunstâncias não foram lá muito propícias. Houve de tudo, menos sossego. Quem pôde dedicar-se a certos trabalhos de geologia moral, como dizia o velho Assis? Mas as circunstâncias nunca foram favoráveis a nada, nenhum progresso jamais se fez à sombra de copada mangueira. Havia guerra, e daí? Injustiça, e daí? Explosão de ressentimentos, recalques, revoltas, e daí? Era precisamente o instante para você afirmar-se, meu velho: ou revelando a sua palavra ou pesquisando a sua verdade. Mas você se deixou ir empurrado, machucado, embolado, bola caindo fora do gramado, ou, na melhor, resvalando na trave.

Eu sei que você cultivou — mas vamos capar essa alienação da terceira pessoa — que cultivei ótimos sentimentos, isso não há dúvida. Por mim, era tudo compota de alegria, licor de anjos, flores de ternura na face da Terra. Exagerei tanto nesse bem-querer universal que, se fosse obedecido, isto aqui se tornaria insuportável, de tão doce e melenguento. Corrigi mentalmente a aridez do mundo sem me dar ao trabalho de mover o dedo mindinho para corrigi-la de fato. O que me dói mais são meus bons sentimentos; envelhecendo, assemelham-se a calos. Ou pedras. Tão aéreos, como pesam! Devia ser proibido cultivá-los em estufa.

Ora, estou empretecendo demais as faltas do homem qualquer que presumo ser (não tão qualquer, afinal: tenho meus privilégios de pequeno-burguês, e quem disse que abro mão deles?). Devo alegar atenuantes em minha defesa. Não nasci descompromissado com o mundo tal qual é, em seu aspecto rebarbativo. Deram-me genes tais e quais, prefixaram-me condições de raça e meio social, prepararam-me setorialmente para ocupar certa posição na prateleira da vida. Meus ímpetos de inconformismo são traições a esse ser anterior e modelado, em que me invisto. Donde concluo que preciso reformar-me, antes de reformar os outros.

Como? Procurei fazê-lo este ano? Que significa um ano para reforma de tal envergadura? Queria eu chegar a 1970 de estrutura nova, que nem edifício construído no lugar de casa velha? Às vezes me assalta uma espécie de simpatia criminosa pelas minhas velhas paredes, meus podres alicerces: é tão bom a gente ser a mula velha que pasta o capim do hábito, ir trotando em silêncio pela estrada sabida... A burrada moça que se aventure a outras pastagens, entre abismos. Pensando bem, não perdi meu ano, pastei sem risco. Mas este "pensando bem" dura um segundo. Quem pode terminar o ano satisfeito consigo mesmo? Quem não faltou, não se esqueceu de alguma coisa, não perdeu um gesto de ouro, não renunciou a um ato de grandeza? Agora estou generalizando uma omissão pessoal, procuro arrimar-me em possíveis faltas alheias. Olha aí esse malandro diante do espelho, procurando ver outras caras no lugar da sua! Mas é tempo de parar com a eterna canção — e celebrar: os que não morremos estamos — ó milagre — vivos. Depressa, o copo, a dose dupla!

A eterna canção: Que fiz durante o ano, que deixei de fazer, por que perdi tanto tempo cuidando de aproveitá-lo? Ah, se eu tivesse sido menos apressado! Se parasse meia hora por dia para não fazer absolutamente nada — quer dizer, para sentir que não estava fazendo coisas de programa, sem cor nem sabor. Aí, a fantasia galopava, e eu me reencontraria como gostava de ser; como seria, se eu me deixasse...

Não culpo os outros. Os outros fazem comigo o que eu consinto que eles façam, dispersando-me. Aquilo que eu lhes peço para fazerem: não me deixarem ser eu-um. Nem foi preciso rogar-lhes de boca. Adivinharam. Claro que eu queria é sair com eles por aí, fugindo de mim como se foge de um chato. Mas não foi essa a dissipação maior. No trabalho é que me perdi completamente de mim, tornando-me meu próprio computador. Sem deixar faixa livre para nenhum ato gratuito. Na programação implacável, só omiti um dado: a vida.


sábado, dezembro 27, 2014

A tal retrospectiva...

Tudo em dezembro é pesado.
Nossas medidas com tantas comidas e bebidas festivas, a intensidade dos raios e das águas que caem na maior parte do país, a obrigatoriedade de se olhar para trás e ver o que foi cumprido ou não.
Não aprendi a dirigir - e isso vem desde os 18 anos.
Não tirei férias de 30 dias - e isso vem desde 2012.
Não fiz as pazes com a balança - e isso vem desde os 14 anos.
Não obtive certificado de proficiência em outro idioma - e isso vem desde sempre.
Mudarei em 2015?
Possivelmente não.
Seguirei reclamando dos coletivos e cansaços, não pensarei duas vezes antes de comer o terceiro pedaço de pizza e irei me virar com a língua estrangeira desde que não seja grega, chinesa ou russa.
Chego em mais um dezembro imperfeita.
E lá se foram 37 outonos e alguma terapia. Não tem jeito.
Reclamar de 2014?
Foi mais um ano difícil, como 2015 pode ser. Difícil não significa péssimo, no entanto não é todo mundo que ama mudanças. Eu, como um fogo meio fajuto, prefiro ganhar na mega-sena e mudar de vida com champanhe e sem sacrifícios. Essa de sair na marra da própria cidade, encarar outro estilo de vida e ver no que vai dar, não é a minha predileção (tão pouco algo inédito).
Transições cabem melhor nos fortes.
Mas não posso reclamar.
Tenho mais do que casa, comida e roupa lavada.
E meus 12 meses não cabem num app do Facebook.
Abri mão de trabalhar com cultura, li menos livros, vi menos filmes.
Passei a praticar yoga, cozinhar mais e ser menos apegada.
Procuro o equilíbrio entre aqueles quatro títulos que eu devorava por mês e o shrishasana, que julguei ser impossível para mim.
Quero sem a mesma pressa, sem a mesma expectativa, o tal "ano bom". Mais ainda, a temporada de bonança (uns três anos) que nem precisa ser espetacular. E não só para mim. Dizem que no ano da Cabra pode ser que isso aconteça.
Aguardo.
Aguardemos.



sexta-feira, dezembro 12, 2014

Com ajudinha de Morfeu

Sempre achei curioso o fato de os sonhos terem um peso no divã. Eu interpreto os meus de modos bem particulares, isso se eu me lembro assim que acordo. Na madrugada passada tive um no qual eu reuni uma série de papeizinhos. Eles pareciam recortes de cadernos escolares, com margens. Eram nomes e telefones.
Comecei a ligar:
- Fulano, tudo bem? Aqui é Ludmila. Estou te ligando para me despedir de você. Tenha uma vida bacana!
Do outro lado, os pigarros, as gagueiras e os silêncios contrastavam com a minha serenidade.
Os papéis tinham nomes aleatórios: Rodrigo, Mateus, Flávio.
Havia a sensação de que nenhum era especial.
Nenhum realmente foi. 
Não me lembro sequer dos nomes reais.
Sei que sumiram.
Depois de elogios, beijos, sessões de cinema, pistas de dança, mesas de bar e a frase clássica: "eu te ligo".
No começo daquela fase, achei estranho. Ao final, nem dava o telefone quando pediam. 
O sonho fez uma viagem para talvez, na minha leitura, eu dizer exatamente o que eu poderia ter dito na época: tenha uma vida bacana. 
Eu tenho. Com direito carinhos pela manhã, deitar no colo para ver filme, café expresso feito especialmente para mim e mil coisas para dividir, entre ideias, segredos e planos.







sábado, dezembro 06, 2014

Florência

Passava das três da tarde e não havíamos almoçado.
Na rua San José as plaquinhas "cerrado" eram comuns, mesmo com os convivas saboreando massas e carnes dentro dos restaurantes.
Não queria comer lanchinho. Não sei se é porque nasci ao meio-dia, mas é raro eu pular almoço.
Eis que um rapaz nos aborda com um cardápio.
Mais do que a fome, quis entrar pelo nome do lugar: Locos de Asar.
Ela veio com pães e a carta de vinhos.
Voltou para saber o que estava escrito no meu braço.
Quando eu disse que era "Heroes", do David Bowie, sorriu para o rapaz que estava no balcão.
"Fizemos uma aposta", disse.
Depois que escolhi, ela teceu considerações sobre o tannat.
"Vocês já conheciam o Uruguai?"
Respondi que não, que estava apaixonada. Pelo lugar e pelas pessoas. Completei que conhecia e gostava dos vizinhos.
"Mas nós somos mais afetuosos".
Dei razão (e que me desculpem os argentinos).
Quando chegou com o vinho, expliquei que eu iria degustar e meu marido completou que na nossa casa é assim.
"E é assim que tem que ser", sorriu novamente.
Não estava no salão principal quando saímos.
Já na porta fiz questão de voltar e pedir ao rapaz do balcão para deixar um abraço meu para Florência.

terça-feira, dezembro 02, 2014

Javier

Uma pequena livraria, chica, numa praça da avenida de julho 18 de julho.
Ele abriu a porta, desejou boa tarde e não perguntou se eu queria algo especial.
Um exemplar de "Alice" me chamou a atenção tanto pela edição luxuosa quanto por ser traduzida como "Alícia".
Identifiquei um filme na prateleira de DVDs e começamos mesmo a falar sobre cinema. Foi quando passou a me dar dicas.
Levei o CD que estava tocando também, Jorge Drexler.
Perguntei seu nome, paguei e me despedi.
Poucos minutos depois, já na extremidade da praça, ouvi a voz dele.
Ofegante, ele correu para me devolver um cartão de papelão cheio de carimbos. Ao décimo, eu assistiria um filme de graça no Brasil.
Sabíamos que era importante.