segunda-feira, outubro 31, 2011

Dia D

Porque às vezes ou quase sempre há alguma poesia que fala para e sobre mim. Porque Drummond foi dos maiores e mais geniais. Porque enquanto o coração continuar, a gente pode ter o sentimento do mundo.


"Consolo na praia

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.


Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho."

quarta-feira, outubro 26, 2011

Give me a reason to be a woman

Vou dar um tempinho aqui nas minhas reflexões e no meu sabático coração para falar um pouquinho do mundo real. Esse que estampa as notícias dos jornais, dos sites e ganha compartilhamentos no Facebook. Sei que não é de hoje (que infelizmente se arrasta por décadas e é envolta em silêncio, medo e vergonha) a violência contra a mulher.

Ao ver a menina com a testa cortada em São Paulo, a que teve o braço quebrado em Natal, a que foi molestada em Belo Horizonte não consigo não ficar assustada, temendo por mim mesma, por minha irmã e por minhas amigas. Isso não vai acabar nunca? Que tipo de pais e limites esses sujeitos tiveram na vida?

Porque os "motivos" dos agressores passam por cachaça, ciúme, rejeição e provocação. Nesse último, o fato único e singular da nossa existência é o detonador da raiva. Tempos atrás, eu estava numa boate com amigas. Já cansada e um pouco alta, me sentei no sofá com uma garrafinha de água esperando que elas dançassem a última música para irmos embora. Derepente, um copo de vidro voou em minha direção. E foi tudo muito rápido. Uma delas foi agredida. Eu corri para ajudar; fui atingida no rosto.

Tive a sorte de ter testemunhas abismadas com aquilo, dos funcionários do local terem se mobilizado ao pegar RG do covarde, que fugiu correndo. Foi o que pensei. Mas para o meu azar, naquele dia, saí de casa perfumada, arrumada, de vestido. Pois como qualquer cidadã, não hesitei em prestar queixa numa delegacia onde o policial me olhou de cima a baixo e disse: "além de não adiantar nada, não vamos oferecer nenhuma proteção a vocês".

Aquilo foi mais injusto que receber menos que os homens para exercer as mesmas funções no trabalho, do que sangrar uma vez por mês, do que ouvir o jocoso "tinha que ser mulher" de alguma maneira. Aquilo me embrulhou o estômago, me deixou impotente, me tirou temporariamente a esperança e a vontade de sair à noite por um bom tempo.

Ouvi recentemente que deveria ter denunciado aquele policial, que era abuso de poder. Eu, como uma pessoa esclarecida e educada em valores que prezam a igualdade de todos os seres humanos, seus gêneros, cores, religiões e preferências sexuais, deveria ter feito algo mais. Me arrependo e não me arrependo. E se a atitude me expusesse a uma violência maior? E se afetasse, de algum modo, aqueles que eu amo? Eu leio os jornais, os sites, as redes sociais. Não é paranóia.

Eu me sinto violentada diante da violência. Sou do tipo que desvia o olhar de um acidente no trânsito com vítimas ensaguentadas, que não quer saber da reconstituição do assassinato de uma criança de cinco anos ou dos detalhes sórdidos sobre filhos que agridem pais idosos.

Talvez e nem só por isso é que aqui no blog, no meu sábatico coração e na minha vida eu tento ser algém melhor. Porque o caminho deve ser de flores, generosidade e gentileza.

sábado, outubro 22, 2011

A estrada é longa

A quantidade de dias para chegar ao destino eu não sei.
O pensamento é vasto, imperfeito.
E ouvi de alguém muito sábio que eu deveria tomar a direção dessa minha vida sem mim.
Eu não conheço atalhos, mapas ou respostas.
Estou sozinha.
Andei por alguns desses caminhos, de fato. Parei o carro e desci.
A estrada ainda está lá. Nem adianta programar o GPS
E ouvi também que eu deveria saber o que quero.
Passei tanto tempo achando que o que não quero fosse mais importante. E não soube responder o contrário.
Lá vou eu reunir essas coisas espalhadas, chamadas de bagagem. Colocar as malas no carro que não tenho.
Vou errar o itinerário por mais vezes, porém a estrada é longa.
Sinto falta de ficar no banco de trás apontando para a paisagem, para as vaquinhas no pasto e para o pôr-do-sol.
Queria colocar o rosto para fora, sentir o vento.
Aquele foi outro momento.
Poderia se repetir?
Talvez não. Alguma inocência ficou para trás entre curvas e quilômetros rodados.
Eu não sei o que encontrarei ao fim.
Eu não sei se chegarei ao fim.
Entretanto ouvi que deveria saber o que quero e concordo.
Ainda que eu mude de ideia, de rota, de casa, de cidade.
Saber o que quero.
Uma jornada e tanto.

segunda-feira, outubro 17, 2011

Nem é bem calmaria...

Tenho pensado no mar.
Não é bem a imagem de férias, dia de luz, festa de sol.
Me vejo olhando o mar; o mar imaginário que não virou cartão postal.
E na playlist, "12 Quedas" do China.
Tenho pensado em como essa letra diz muito sobre meu passado recente ou como me comportei quando deixei o meu destino para trás...

12 Quedas
China

Eu deixei o meu destino para trás
Como um rio desci doze andares
Doze quedas pra chegar no mar

Eu nadei contra toda corrente
Que tentou me afogar na ilusão
De um céu azul

O sal curou minhas feridas
E as ondas vem beijar meus pés
Mas de que adianta ter o mar

Se sou mais um rio que secou
Nem meu choro vai conseguir fazer
Uma nascente nova de esperança pra eu viver

Eu deixei todo o desejo me guiar
Me entreguei por tanta vezes
Sentimentos jogados no chão

E nadei contra toda corrente
Que tentou me afogar na ilusão
De um céu azul

O sal curou minhas feridas
E as ondas vem beijar meus pés
Mas de que adianta ser o mar

Se sou mais um rio que secou
Nem meu choro vai conseguir fazer
Uma nascente nova de esperança pra eu viver

Se sou mais um rio que secou
Nem meu choro vai conseguir fazer
Uma nascente nova de esperança pra eu viver


Tenho pensado no mar um tanto estático, como o momento presente. Não é bem calmaria. Venho me conhecendo o suficiente para saber que a decisão de levar a bóia à tira-colo é sábia. Nada de mergulhar sem saber qual a profundidade do mar, rio, piscina, fonte ou bacia. Chega de se "afogar na ilusão de um céu azul". Ao menos por hora. Por hora, não é bem calmaria, é pausa mesmo: mar em dia de chuva fina, sem vento ou ondas revoltas.

Tenho pensado em "12 Quedas" e na parte da letra na qual não me encaixo. Eu vejo um mar imaginário. Quem sabe porque sempre estive longe dele. Sou das montanhas e preciso viajar para pisar na areia. Talvez minhas analogias sejam outras, assim como minhas impressões sobre aquele infinito verde-azulado. A "nascente nova de esperança pra eu viver" é algo em que acredito, ainda que sugira agora a apatia (e nem é somente sugestão). Mas definitivamente, não sou mais um rio que secou. Seja nas profundezas oceânicas ou brincando com um caranguejinho grauçá na praia, a tal esperança aparecerá, em algum verão desses.

Tenho pensado no mar.
E por mais que não seja a imagem - longínqua - das férias, elas bem que podiam vir logo para eu mergulhar no mar.

Simples Assim:

quinta-feira, outubro 13, 2011

Post-its

Vou te contar como entrei nesse lugar.
Um belo dia, todo movimento resolveu acontecer e foi rolando rapidamente como uma bola de neve. Depois disso, tudo o que eu queria era ficar quieta. Mas aquela voz interna, impertinente, então, gritou: reaja.
Vou te contar como tento sair desse lugar.
Todos os dias, que nem sempre são belos, eu travo uma pequena batalha. Contra papeizinhos que se acumulam. Sabe os papeizinhos do visa electron? Eles se multiplicam na minha bolsa, no meu armário. Eles escondem as contas do mês. E minha memória esconde as datas de vencimento. Eu poderia colocar em débito automático. Mas antes, unificar contas de um mesmo banco. Coisa boba de se por em prática entende? Eu não consigo.
Vou te contar que todo dia acordo procurando coisas chatas. Um documento, um arquivo, um lenço. Não faço a vaga noção de onde estejam. Podem estar na casa da minha mãe, na minha casa, na caixa intocada desde a separação. Eu posso até ter jogado fora.
Para mim arrumar é jogar fora. Simplifica tudo.
Vou te contar que comprei uma revista cuja capa sugere que eu devo administrar melhor meu tempo. Eu até tenho uma planilha de orçamento doméstico no desktop e mantenho escritos na agenda quase em dia. O problema é que acabo fazendo cálculos mentais e guardando datas na cabeça: tenho determinado valor em conta, falta pagar isso e aquilo, não vai sobrar quase nada (de novo). Amanhã é consulta com nutricionista, semana que vem, terapeuta. Uma festa na terça e, no meio do caminho, programar de fazer unhas e sobrancelhas.
O dia passa.
Eu me dou a luxo de tomar um vinho, sem me lembrar da conta corrente. Eu vou resolvendo meu dia no trabalho e, quando percebo, adiei para o dia seguinte a tarefa chata de ser encaixada num horário digno com a manicure que não é a açogueira. Lá vou eu mesma pinçar a sobrancelha com medo de deixar o desenho torto.
O fogo anda comigo. A disciplina não.
O fogo anda apagado. Estou sem vontade de sair à noite, sem querer "conhecer gente nova" (e também achando que já conheci todo mundo que deveria conhecer), sem muita perspectiva de possíveis encontros com tilintar de sininhos e tudo mais (digo isso porque há uma pressão mundial para que eu me dedique minimamente aos "paraísos artificiais". E sim, tenho saído à francesa).
A disciplina vai mesmo até a página 9. Sigo o programa alimentar sem arroz, feijão, chocolate há meses. Não da maneira rígida, como deveria, porque o drink para relaxar é calórico e...bom!
Amanhã eu fico triste subindo naquela balança. Amanhã fico mais pobre com as tantas vitaminas caras que vão cutucar meu metabolismo. E quer saber? Ainda que na corda bamba, tirar oito quilos de mim foi a melhor coisa que já me aconteceu neste ano. Leveza, como na minha tatuagem do pulso esquerdo.
O problema é esse querer mais.
E o que eu quero é mais de mim.
Porque quero contar como finalmente saí desse lugar.