segunda-feira, junho 24, 2013

No Pandora de domingo

Minha coluna mensal...

Não é só por vinte centavos

Por mais que eu quisesse – e não quero– pensar em outros temas, as manifestações que acontecem em todo o país nas últimas duas semanas me tornaram uma pessoa monotemática nesses dias. Outra razão para eu não me esquivar, é que vejo esse espaço no Pandora como muito oportuno para falar sobre mudanças comportamentais e reivindicações consistentes.

A moda, por exemplo, sempre teve um papel fundamental em transformações porque é, em sua essência, agregadora e democrática. Criadores, muitos deles enquadrados nas minorias, como as mulheres e os homossexuais, fazem mais do que eleger o amarelo a cor da estação. É verdade que os negros precisam de maior representatividade nas passarelas do Brasil, mas as lutas que valem a pena são assim, constantes.

Só para ficar em estilistas, pense na visionária Coco Chanel, no pioneiro Christian Dior, no ousado Mark Jacobs, na guerreira Zuzu Angel, no questionador Ronaldo Fraga. Todos eles desde sempre reuniram ingredientes essenciais à legitimidade de um discurso com motivações bem embasadas. Ontem e hoje eles se depararam com uma série de adversidades: convenções sociais a serem quebradas, conservadorismo e aquela turma que tem “a velha opinião formada sobre tudo”, como cantou Raulzito.

Eu passei dias tentando entender a amplitude do grito nas ruas, nas redes sociais e li diversas análises sobre o momento – duas delas bastante pertinentes, a dos meus colegas Silvana Mascagna e Murilo Rocha. Se ainda não leu, acesse O Tempo Online. Mas, fundamentalmente, estive em várias discussões. Algumas quentíssimas, pois ainda me assustam ideias reacionárias, apologia à violência e qualquer coisa que não seja o diálogo.

Sou filha de pais que participaram de diversos movimentos libertários e, eventualmente, me frustrava por ser menos engajada do que poderia. É verdade que pintei a cara de verde e amarelo quando era adolescente pedindo o impeachment do Collor, também marchei contra a devastação da floresta amazônica, além de outras causas políticas e ambientais.

No entanto, como muitos da minha geração, estava me sentindo inerte nesse hiato: por que não gritava mais? Afinal, o bolo da indignação é feito de diversas cerejas no topo. Exatamente por isso, é preciso que as pautas dos manifestantes sejam mais focadas e, assim, serão passíveis de mudanças, do país que queremos.

“Não é só por vinte centavos”. E foi importante observar as ruas ocupadas por pessoas de diferentes gerações no início. Sim, temos mais a cobrar dos nossos governantes, da Comissão dos Direitos Humanos e de nós mesmos nesse momento tão singular quanto global. Como bem aponta o crítico político Noam Chomsky, “as pessoas estão indo às ruas para defender bens comuns, aqueles que são compartilhados dentro das sociedades”.

Sigamos lutando contra injustiças, especialmente as sociais, mas devemos estar abertos ao debate, precisamos ouvir e nos informar bem. A história sempre tem algo a nos ensinar.


sábado, junho 22, 2013

Beijo Abreviado

De todas as abreviações da língua portuguesa utilizadas nas novas tecnologias, certamente a que mais me incomoda é a do beijo.
Tolero o "kd vc?", acho um tanto invasivos certos "posso t add?" e, eventualmente, num sms até utilizo "qq coisa, me liga".
Confesso que não havia pensado nisso até ele me mandar um "bj".
Não quero "bj" dele.
Quero beijo, BEIJO.
Do tamanho de "pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico", a maior palavra registrada na minha língua pátria.
Mas sendo essa palavra esquisita, ficaria com algo mágico, cinematográfico...um beijo assim "supercalifragilisticexpialidocious".
Ai, moço lindo, por que não para de abreviar o que não se pode?




sábado, junho 15, 2013

Sobre as memórias que se deixam no outro

O dia em que Lucas olhou para Ana, no meio daquela turma, na mesa de um bar, e ela ficou sem jeito.
O dia em que Lucas um elogio, que deixou as bochechas de Ana queimando e a emudeceu.
O dia em que se beijaram, sem saber quem começou, e sem querer parar.
O dia em Lucas levou Ana para tomar uma cerveja inofensiva e os dois acabaram embaçando os vidros do carro na despedida.
O dia em que Ana subiu até o apartamento de Lucas, e do sofá da sala foram para a cama, para a cozinha, para o chuveiro: o dia em que não dormiram.
O dia em que Ana sugeriu a Lucas que fossem antes àquela livraria do cinema que tanto amavam, e, por acaso, encontraram um amigo dele a quem foi apresentada como namorada. Ana já suspeitava, de modo que encostou a cabeça no ombro de Lucas enquanto o filme passava.
O dia em que Lucas chamou Ana de “minha pequena”. Ela, imediatamente, colocou as mãos na cintura indignada pela insinuação maldosa sobre sua estatura, foi também o dia em que ele desfez esse gesto ao dizer: "vem cá, não vou te largar nunca, minha pequena".
O dia em que Ana e Lucas brigaram feio, e ela quis apagar do calendário enquanto derramava algumas lágrimas ouvindo Cat Power.
O dia em que Lucas enviou um e-mail com umas palavras lindas para Ana, avisando que sentia saudade.
O dia em que Lucas tirou Ana para dançar Chet Baker e ela, meio "funny valentine", rodopiou como criança.
O dia em que Lucas brincou que se tivessem filhos, um deles bem que poderia ser uma menina linda com Ana.
O dia em que Ana levou brigadeiros para Lucas, depois que ele se machucou no jogo de futebol com os amigos.
O dia em que Lucas e Ana mentiram para os amigos e não foram a uma festa chata porque queriam ficar grudados.
O dia em que disseram “eu te amo”.
O dia em que Ana morreu de ciúmes ao conhecer a ex super simpática de Lucas (mas, claro, não admitiu nem para o terapeuta).
O dia em que não comemoraram o dia dos namorados porque tinham seus próprios dias especiais.
O dia em que Lucas deu bolo em Ana porque achava que estavam virando um casal grudento e convencional.
O dia em que Ana disse às amigas que nunca esteve tão feliz na vida.
O dia em que Lucas ficou monossilábico e Ana insistiu em saber: “no que você está pensando?”
O dia em que Ana discutiu a relação (com a parede, é fato).
O dia em que Lucas e Ana foram almoçar sem trocar uma palavra.
O dia em que Ana terminou com Lucas.
O dia em que Lucas não ligou no dia seguinte.
O dia em que Ana chorou no banheiro do trabalho.
O dia em que Lucas admitiu para o amigo que encontrou na livraria que seria melhor não namorar tão cedo, pois tinha muito o que viver.
O dia em que Ana tomou tequila e foi até a casa de Lucas (um dos piores dias).
O dia em que Lucas acordou ao lado de Ana e, finalmente, discursou sobre seu "momento egoísta, o quanto ela era maravilhosa e ele complicado, blá blá blá".
O dia em que Ana quis sumir do mapa.
O dia em que Ana odiou Lucas pela primeira vez.
O dia em que Lucas deixou de ir a um show para não encontrar Ana.
O dia em que Ana esbarrou com Lucas no café - que ela frequentava antes dele - com outra.
Há muitos dias dentro desse dia: o dia em que Lucas soltou a mão de Letícia imediatamente; o dia em que Ana foi indiferente a Lucas; o dia em que Lucas mandou um sms dizendo que foi bom revê-la, que o novo corte de cabelo estava ótimo e que ela ficava mais bonita com a pele queimada de sol; o dia em que Ana achou Lucas um babaca e teve vontade de vomitar; o dia em que Ana não respondeu a mensagem, embora tivesse, no mínimo, umas três opções de resposta, que iam do diplomático “obrigada” a um palavrão bem cabeludo.
O dia em que Ana sonhou com Lucas e eles estavam juntos no Vietnã.
O dia em que Lucas falou para os amigos do futebol que não devia ter deixado Ana ir embora, entretanto, não iria procurá-la porque ela parecia melhor sem ele. Era o que se via no Facebook enfim.
Não houve o dia em que Ana esqueceu Lucas.
Não houve o dia em que Lucas esqueceu Ana.
Ao menos, a título de registro.
Ana se mudou para Londres.
Lucas está saindo com Bárbara.

terça-feira, junho 11, 2013

Dores do Mundo

Eu queria ter o sorriso do Louis Armstrong no refrão de "What a Wonderful World". Ainda que eu veja beleza no meu jardim, nas manhãs de outono, na criancinha que acena para mim na praça, na Alice me acordando com seu miado de soprano, não acho o mundo maravilhoso.

Eu queria ver a morte como um rito de passagem, da mesma maneira que os orientais vêem, agradecer pela vida que eu tive na hora de partir, ir embora sem dor ou demência. Acendo incensos, leio textos budistas, rezo, medito e tento tanta coisa por uma vida melhor, mas não parece ser o suficiente.

E assim, notícias recentes sobre tumores e mortes prematuras, somadas às pequenas e grandes indelicadezas de cada dia vão atravessando meu caminho. Tento ser passarinho...quero voar para bem longe.

sábado, junho 08, 2013

Das manhãs de sábado no salão

O pequeno salão que eu frequento tem as mesmas manicures há meses. Uma é meio mal humorada, mas não arranca um bife. A outra é fofa, porém distraída. Sempre marco com a segunda. Sei que ela gosta de roda de samba e vai todo fim de semana desde que se separou. Cuidando das minhas mãos há tempos, ela acha que eu deveria sair mais para dançar e que não aparento de jeito nenhum ter a idade que tenho. O melhor: ela nunca me mostra o carrinho com esmaltes branquinhos.

No dia do pacote completo (pé, mão, sobrancelha e cabelo), recorro àquela que não é de muita conversa. No entanto, desde abril mais ou menos ela vem puxando papo comigo. Foi num sábado em que estavam as duas, a dona do salão e algumas clientes falando sobre comprar cupons de desconto na internet para uma pernoite no motel e, evidentemente, naquela esperança de que os maridos voltassem a ser namorados, ao menos por uma noite. Como entrei na brincadeira, acho que a conquistei. Não foi complicado matar a charada: há no cantinho uma série de revistas Nova. Mais delas do que Cláudia, Caras ou qualquer outra. Trata-se, portanto, de um salão de mulheres calientes.

Digamos que encontrei o meu lugar, mesmo que eu não leia Nova, com seus truques "infalíveis" para seduzir na cama. Aliás, quando penso em seguir algum conselho do tipo, vem a lembrança da vez em que comprei uma calcinha fluorescente que matou um ex-namorado de rir. Demorou até voltarmos às preliminares. A partir dali, resolvi seguir meus próprios instintos e comprar calcinhas menos esquisitas.

Hoje, em especial, a mulherada estava em polvorosa porque o Dia dos Namorados bate à porta. Luzes, cortes, depilação, unhas francesas. Chegou uma moça com os olhos cheios d'água - sim, mulheres são a espécie mais dramática que existe - implorando uma tintura com escova. A dona do salão, que ia atender só pela manhã, pois veria a filha dançar quadrilha à tarde, bem que tentou ligar para os concorrentes da vizinhança, mas ninguém tinha horário. Aflita, a moça disse que tinha um encontro muito importante. Confesso que se pudesse, cederia minha vez. Entretanto, dei bolo na estética semana passada e minha sobrancelha estava assustadora.

Nada pior do que se dar conta de que esqueceu de marcar o salão da semana, só mesmo quando aquele cara liga exatamente nesse dia convidando para um cinema ou um jantar (já falei do drama lá em cima, porém, em muitas situações me solidarizo, em especial, quando se trata de bad hair day ou de depilação que não está essas coisas). É como a maldição da calcinha bege que está ali, justamente quando você resolve ceder às investidas.

A melhor solução é sempre ter um horário fixo no salão durante as manhãs de sábado. Do contrário, eu não teria papos divertidos, dicas das meninas e, claro, uma garantia contra imprevistos.