sexta-feira, novembro 30, 2012

Não conta para ninguém

As coisas não vão bem: o relacionamento está ruindo, há mais dúvidas do que certezas sobre suas escolhas ou emprego não satisfaz e o que você faz? Divaga na terapia, aluga os ouvidos dos amigos, se acaba na cachaça. Tristeza e  frustração são menos quietos do que parecem. Conheço mais canções sobre dor de cotovelo do que as que tratam da felicidade, de um novo amor.

Mas se você comprou um apartamento, recebeu uma promoção, vai passar um mês em Edimburgo ou se apaixonou é hora de se filiar ao Clube Silêncio...No hay banda. Por que? Reza o velho conselho de Jorge Ben que prudência, dinheiro no bolso e canja de galinha não fazem mal a ninguém. As palavras são medidas na iminência da conquista. Você convida para o "open house" quando está com a chave do apartamento na mão, paga uma rodada de cerveja quando o acréscimo caiu na conta corrente, dá detalhes da aventura no outro continente na volta e só confirma que o coração vai bem obrigada quando o tal status se transforma.

Então, as pessoas se acostumam com o mundo mais triste e miserável. Com histórias que começaram bonitas e um dia viram histéricas e sem tesão; acham normal muita ralação e pouco dinheiro e o eterno "ser ou não ser" da questão uma grande frescura. Lamentar é tão fácil e automático que outro dia uma amiga me agradeceu por eu ter lembrado dela ao contar um episódio que me deixou bastante alegre.

Pactos com o contentamento são extremamente solitários. Pois os  "outros" - que na verdade somos nós, todos nós - pensam que não existiu uma verdadeira odisseia até que se chegasse a um destino satisfatório. Todo caminho tem muitas pedras e um espertinho para dizer que as de fulano nem eram tão tortuosas quanto as dele. Há um orgulho de medir e quantificar esses pesos...Pois eu tenho total desapego em relação ao meu sofrimento. Ele serve para eu ter aprendido, não o quero de volta.

Diante daquilo que vem me acontecendo de bom, que eu tenho vontade de contar até para o padeiro da esquina,  no entanto, procuro me conter. Escolho as pessoas certas para saber de antemão, uma vez que é difícil segurar meus sorrisos fáceis. Sei que torcem por mim, como eu torço por elas. E são poucas e boas mesmo. Se esse pedacinho de alegria se desfizer, poderei contar com elas. Afinal, seremos nós que planejaremos outras porções da melhor coisa que existe.





segunda-feira, novembro 26, 2012

Carta para alguém bem perto

Querido amigo,

Não sei se você gosta da Fernanda Young. Eu dei uma surrupiada no título de um livro dela para nomear esse post (que nem é um post). Acho que, como eu, você talvez pudesse eleger como preferido o "Vergonha dos Pés". O que eu penso da escritora agora não é diferente do que muita gente pensa...e nem quero ficar falando de Fernanda Young, faça-me o favor.

Eu queria escrever uma carta para você. À mão seria um completo garrancho. Tão pouco uso a máquina do meu avô. Não tenho impressora e a telepatia ainda não chegou ao nível desejado. Como eu sei que passará por aqui, não precisamos de correio.

Seu presente está comigo há meses e sinto saudade das nossas conversas literárias, dos planos - ao menos, os meus - de jogar tudo para o alto e viver uma temporada Kerouac. Sinto mais falta, confesso, da cerveja no copo lagoinha, numa noite qualquer. Por que começamos a descombinar mesmo?

Eu queria escrever algumas cartas para você, queria ter tempo para isso. Ou não. Meus livros de cartas entre escritores revelam intervalos inacreditáveis. Não somos como Clarice e Fernando. Somos como naquela música da Tulipa: eu sou assim e você assim, assim.

Esse "farway, so close" é engraçado porque eu fico lendo coisas suas que a gente não conversa e você faz o mesmo. E é como se conversássemos exatamente sobre isso que eu vivo ou que você sente na pele. Aí, a gente nem precisa falar, mas seria transgressor se mantivéssemos correspondências. Só para irritar esses tempos SMS.

Fica o convite

Cordialmente,

Ludmila



quarta-feira, novembro 21, 2012

Do Extraordinário

Houve um tempo em que se acreditava que tudo seria extraordinário um dia. E nesse tempo era comum usar a expressão "quando eu crescer" para validar a convicção.

A vida adulta parecia fantástica. Dormir tarde, almoçar na hora que fosse conveniente, não pedir para os pais a assinatura naquele boletim com notas vermelhas em exatas.

No início da vida adulta, acredita-se ainda numa dose de "extraordinariedade": o primeiro emprego, a chance de passar uma temporada fora do país, aquele amor de tirar o fôlego cujo desejo de eternidade insiste ou quando extraordinário aquieta (e espera-se um fim tranquilo).

Extraordinário vai virando extra-ordinário em meados da vida adulta: aquele gasto não planejado que bagunçou as finanças, uma doença na família, a pressão absurda no trabalho...então, há um desejo de que tudo seja ordinário, sem susto, sem trauma, sem solavancos.

Ordinário vira quase um mantra. No entanto, você se conhece desde aquela faísca da infância e se pergunta: depois de querer tudo ordinário, como vislumbrar a possibilidade? Como achar que haverá frio na barriga, viagem inesquecível ou viver de escrever?

E a noite cai, a grande ideia não chegou. No relógio é hora de dormir. E a inspiração não vem, nem de madrugada. E de manhãzinha é preciso tomar muito café para dar conta do expediente. E dar um jeito de passar no banco, ligar para a amiga que há dias combinou um encontro. Algo sempre vai faltar no percurso ordinário.

No meu caso, sempre falta. Eu fico procurando "extraordinariedades" escondidas, assim como procurava ovinhos de chocolate que minha mãe espalhava pela casa na Páscoa.



quinta-feira, novembro 08, 2012

Novembro é para se desacreditar

Desculpe, mas novembro não me desce. Ainda que eu tenha amigos incríveis que festejem seus aniversários, dois feriados (no meu caso, invariavelmente, um) e 30 dias (prefiro meses menores), ele traz algumas crises existenciais, culpas cristãs e auto-análises rígidas. Nem é preciso que venha o seu sucessor para se fechar para balanço. Até porque o tal último mês do calendário é aquele turbilhão de eventos esperados e indesejados. Não se pode respirar em dezembro.

O que resta é usar novembro como um espelho. A meta dos três quilos a menos não foi cumprida, tão pouco a de frequentar a academia com regularidade. Também não foram reduzidas as as taças de vinho, bem como palavras impensadas. A cada ano, pelo cansaço, pela correria, pela letargia, pela agonia, não foram lidos uns quatro livros por mês. Houve pausas significativas. O mesmo aconteceu com as sessões semanais de cinema. E ainda atravessaram-se os dias e meses em que aquela combinação de receber em casa pessoas queridas não passou de conversa fiada.

Novembro é para ver que as previsões falharam. O tarot, a astrologia, o I ching, a cabala, aquela cartomante picareta que te arrancou cem reais...todos mentiram. Ou você conseguiu ser tão azarado que não teve sorte no jogo e nem no amor. Novembro não irá te dar mega-sena acumulada ou uma ligação do Mark Ruffalo. Novembro é o caminho oposto de Elizabethown. Nada acontece. E isso não é um ataque de fúria contra o 11, no meu caso, é constatação.

Não acredito em novembro. Faço todo dia, tudo sempre igual em novembro. Não corro atrás de tempo perdido em novembro. Tento não surtar em novembro.

E faltam menos de 22 dias...



domingo, novembro 04, 2012

Sobre o valor que se dá ao que se perdeu

Foi-se o dia de finados e eu não o usei para me lembrar dos que partiram. Minha vida e meus mortos têm caminhos tortos. E as ausências são sentidas sem data no calendário.

Morreu essa semana o Jornal da Tarde (JT) onde trabalhei durante um ano e meio. Foi um período de muita coisa: aprendizado, adaptação e descobertas. Talvez seja o lugar mais importante em que estive, não porque pertencesse ao Grupo Estado ou estivesse em São Paulo.

Foi importante, pois no JT entendi que estudei jornalismo com a finalidade de escrever (e eu, fominha, sempre queria um paginão só para mim). Poderia ter sido letras? Sim, mas eu também adoro entrevistar, de modo que o jornal me parecia a união de tudo isso e algo mais.

Das primeiras lições assimiladas no JT: minha escrita deveria ser mais fluida, meu humor poderia fazer parte do pacote e isso até derrubaria, se necessário, a estrutura que seguimos à risca do "quem", "quando", "onde", "como", "por que" e "o que".

Conversei com artistas de todos os cantos do mundo (de Anish Kapoor a Franz Ferdinand), passava ao menos oito horas por semana assistindo a filmes, com a finalidade de escrever sobre eles, e até as pautas que pouco combinavam comigo, como as de TV, cumpri de um jeito diferente. Numa novela do Manoel Carlos, por exemplo, a matéria era em forma do poema "Quadrilha", de Carlos Drummond de Andrade.

Havia a parte ruim, que os paulistanos chamam de holerite e aqui em Belo Horizonte tratamos como salário. Na verdade, uma parte inerente à profissão. Uma parte da qual iremos reclamar a vida inteira. E reclamar é um talento peculiar de jornalista. Tanto que passei esse período do JT não só reclamando como correndo atrás de freelas que me proporcionassem um pouco de conforto (e a verdade é que quando o conforto financeiro surge, perdem-se algumas alegrias bobas como a pizza do fechamento,  a cervejinha na praça Roosevelt, aquele rebolado).

Tive dois chefes bem diferentes no Variedades e aprendi bastante com ambos sobre liberdade e respeito, essencialmente falando. O mais incrível é que alguns colegas de redação viraram amigos queridos, desses que parecem que vi ontem, mesmo que se tenham passado meses ou anos.

Nunca ganhei individualmente um prêmio de jornalismo e, para falar a verdade, não me esforço para isso. Gosto dos reconhecimentos em equipe - dos tempos de Agenda, na Rede Minas, até agora  - porque eles rendem brindes em botecos, lembranças boas ou ruins para carregar para onde quer que eu vá.

Logo eu que sempre quis voltar (estranhamente, nunca fui do tipo que voltou para um ex-amor ou um ex-emprego)...Definitivamente, o JT me transformou.

Segue a vida, segue o jornalismo e o ciclo para ser concluído. Saudades, ainda mais de você, JT...