quarta-feira, setembro 28, 2011

Andando por aí...

Gosto de andar por ruas que pouco conheço. Em endereço novo, mudo minha rota com frequência para poder observar as casinhas que restam, os quintais escassos, as janelas com telas, plantas no parapeito ou simplesmente abertas. No Santa Efigênia há mercadinhos e armarinhos que parecem de cidade do interior. Eles constrastam com muros pichados, novos prédios e carros barulhentos. Mais do que dizer aonde eu posso comprar pão ou jornal na redondeza, sei que a duas esquinas abaixo da minha rua existem damas da noite no meio do quarteirão e também um boteco desses que parecem vender ovo cozido azul.

Gasto o tempo livre juntamente com a sola do sapato. Hoje ao sair do salão no Funcionários (onde cometi uma traição com aquele que corta meus cachos por tantos anos que perdi as contas), resolvi não pegar ônibus ou táxi. Decidiria no trajeto se o melhor era voltar para casa ou ir ao cinema. Porque comecei o dia inspirada, depois dei uma murchada com algo bacana que eu esperava que acontecesse e não rolou simplesmente. Muitos passos até a avenida e a resolução do impasse estavam por vir. Enquanto isso, li o emblemático "mudança" num caminhão, acompanhei o ritmo de uma velhinha amparada por uma enfermeira em seu caminhar, tentei reconhecer novas vitrines.

Não sei porquê parei diante de um lugar com a parede lilás. O cheiro amadeirado foi um convite para eu entrar. Diante de diversos incensos e mandalas (tenho esse lado riponga), surgiu uma mulher com uma expressão tão serena...Também não sei porquê, em segundos, comecei a contar tudo sobre mim. Um tudo recente, essa avalanche 2010-2011. Era Saturno, dizia ela. E foi assim que me convidou a ver como os planetas do meu mapa estavam transitando confusos enquanto euzinha andava pelas ruas procurando a tal poesia cotidiana. A mulher de ar tranquilo me deu uma essência, conselhos de purificação e, mais que qualquer fórmula mágica imaginada pelo leitor, um ombro amigo.

Porque tem coisas que às vezes a gente não diz mesmo nem para os amigos. Ou não fica repetindo como um disco arranhado.

E escrevendo essa crônica, que nem é das mais inspiradas, coincidentemente anotei de uma revista que estava lendo na espera do salão uma pequena delicadeza que sintetiza e coloca, talvez, a dose criativa que faltou nas minhas linhas.


"As coisas não querem ser vistas por pessoas razoáveis. Elas desejam ser olhadas de azul".


Só podia ser o Manoel de Barros

quarta-feira, setembro 21, 2011

Club Silencio

Eu estava ali, atrás da linha amarela, procurando o sol em frestas. Ventava muito, o trem demorava e meus pensamentos não. Comecei a chorar. Foi poucos dias atrás. Escondida pelas lentes dos óculos escuros, nem procurei disfarçar.

Porque eu choro semanalmente. Eu choro quando estou de TPM, eu choro vendo um casal de velhinhos de mãos dadas na praça, eu choro na volta de uma viagem a São Paulo, eu choro ouvindo música - e tenho até playlists específicas para tal -, assistindo a certos filmes e lendo o que me emociona.

Eu choro descascando a cebola e choro porque meu esmalte lascou. Porém nunca choro por esses motivos. São as lembranças fervilhando, as ausência assombrando, as limitações sufocando, as belezas sorrindo para mim. Eu choro para conseguir lidar. Eu choro por não conseguir lidar.

Eu enxugo minhas lágrimas tão rapidamente que, às vezes, acho que não choro há meses. Foi um cisco, foi um risco, foi o trem que eu perdi por segundos. E eu ali, atrás da linha amarela, procurando o sol em frestas.

terça-feira, setembro 13, 2011

Uma década

Ontem li algumas crônicas de colunistas da revista TPM dizendo como a vida delas mudou em dez anos. Fiquei pensando sobre a minha própria, pesando na balança as tais perdas e os tais ganhos, tentando entender se eu era mais feliz naquele lugar ou neste.

Não era. Não sou. E não que eu peça para tirarem o sorriso do caminho para passar com a minha dor. Eu simplesmente tive momentos maravilhosos e duros na casa dos vinte, como os tenho agora. E aos quarenta, cinquenta, sessenta e enquanto durar o estoque.

Dividindo os maravilhosos ontem, hoje e amanhã estão meus amigos. Eles são os protagonistas dos meus mais sinceras alegrias. Com eles eu viajei, dancei até o dia amanhecer, dividi sonhos e confidências. E eles seguiram ao meu lado quando as nuvens negras pairaram. Deram colo quando o sofrimento era agudo demais para suportar e sacudidelas quando eu encarnava a "drama queen".

Muita gente em dez anos trocou de carro, comprou uma casa e teve um filho. Eu não dirijo, estou tentando achar o meu lugar e tenho uma gata de estimação. Na minha rota, sempre sem planejamento, fiz a pós graduação que queria (e não aquela que garantiria um empregão), me mudei de cidade quando não desejava mais andar pelas ruas e ladeiras de Belo Horizonte, escrevi um livro virtual que me fez entender que seria possível arriscar, me casei e me separei de um grande amor.

O que eu sou hoje não é de perto o rascunho do que eu pensava que seria dez anos atrás. Sou bem melhor em muitos aspectos e, por que não, uma decepção em outros. O melhor não é para que eu me envaideça e o decepcionante é para que eu não desista.

Fiquei pensando naqueles textos das meninas da revista que eu lia e que hoje, eventualmente, folheio. Elas são como eu, como você, como o título do filme do Woody Allen, "igual a tudo na vida".

sábado, setembro 10, 2011

Vai chegar a hora...

Vai chegar a hora que eu vou te esquecer.
Não me lembrarei mais do sabor do seu beijo.
Vou me esquecer do seu sorriso tímido.
Não me lembrarei mais de como era ouvir você dizendo que me achava linda.
Vai chegar a hora que eu não vou querer saber por onde você anda.
Não me importarei se o acaso nos levou ao mesmo lugar.
Você já não será a saudade que eu não gosto de ter.
Vai chegar a hora que nossa predileção por chocolate meio amargo, cinema, música e pelo mesmo time no futebol serão apenas mais um punhado de interseções que me ligam a tantas outras pessoas.
Pessoas mais importantes do que você foi.
Você simplesmente nem quis ser.
Eu que te trouxe para o meu mundo, pois queria te dedicar poesias escritas em post-its e deixar de presente em alguns lugares.
Para você se lembrar de mim.
Mas você me esqueceu rápido.
Você nem olhou para trás.
Eu ainda estava me lembrando de você.
Eu ainda puxava da memória nossas conversas meio sem sentido.
Eu me lembrava de como era bom acariciar o seu cabelo.
Na minha recordação você fechava os olhos. Você sorria com seu sorriso tímido.
Era eu que enrubescia naquele breve intervalo.
Era eu que me esquecia de quem eu era ao seu lado, só de sentir suas mãos entrelaçadas com as minhas.
Eu que me esquecia de que precisava também não ser tão eu.
Fui eu, fui sua e fui outra.
Te confundi.
Estou tentando me lembrar de mim. Aos poucos.
E vai chegar a hora que eu vou te esquecer.


sexta-feira, setembro 09, 2011

Tomorrow is another day

Todo mundo tem um personagem de cinema para servir de alterego em determinados momentos. Eu tenho vários. Um deles, no entanto, nunca me abandona. Scarlett O' Hara. São delas frases como "amanhã vai ser outro dia", "amanhã eu penso nisso" e "nunca mais passarei fome". Mocinha épica, dramática, heroína...e eu arriscaria dizer que nasceu sob o signo de áries. Tudo bem que pode parecer devaneio, contudo se o alterego é meu, o roteiro também será.

Eu me lembro de Scarlett sempre que faço "algo errado". Um exemplo: beber além da conta. Amanhã, aquele dia sem ressaca, será definitivamente outro dia. E, com o estômago revirado, costumo sentenciar que nunca mais bebo tanto ou que nunca mais deixarei de me hidratar no processo e coisas do gênero. Diferentemente de Scarlett, essa é uma promessa não cumprida.

Decidi encarar então o lado diva quando eu sair da linha. Regra número um: checar com uma fonte confiável qual tipo de heleninha eu fui (alegre, sonolenta, chorona, agressiva). Regra número dois: não sofrer com o fato de ter sido um pouquinho inconveniente. Afinal, já aturei milhares de porres alheios levando super na esportiva. Se o estrago for grande, claro, o pedido de desculpas é imediato. E página virada, pois será um longa jornada sorvendo água, gatorade, coca-cola e todo milagre anti-ressaca que se anunciar. Regra número três: caprichar no visual. Sair de casa arrastando toda a lama da manguetown só irá piorar o olhar de inquisição daqueles que acordam dispostos e sãos em 80% de seus dias. Regra número quatro: rir de si mesmo por ter agido como adolescente bocó porque a vida é curta blábláblá. Regra número cinco: nada de rebater. Voltar o quanto antes para casa e dormir muito para receber feliz o tão aguardado o dia seguinte.

"Tomorrow is another day".

Esse é o mantra.

domingo, setembro 04, 2011

The Whole Love (este post não é uma resenha)

Azul de domingo. Café forte com pão de queijo. The Whole Love. E meu dia começa, minha vida se reinventa a todo momento. Penso em como não viveria sem a cor, o afago, o cuidado, a inspiração e a amizade.

Um punhado de anos atrás um amigo me deu meu primeiro CD do Wilco. E por mais que tempo, distância e circunstâncias adversas tenham nos afastado, lembro-me dele com carinho quando ouço Jeff Tweed cantar. Dedicaria, ainda, para um grande amor que hoje é um grande amigo. E faria o mesmo para o próximo escolhido. Tenho apreço profundo pela a cumplicidade. Simples assim.

Cumplicidade, aliás, invadiu minha vida. Estou dividindo casa com uma amiga extremamente gentil e de quem, a cada dia, gosto mais. E assim vou abrindo meu coração para que outras pessoas generosas, sensíveis e divertidas entrem lá e sejam sócias vitalícias.

Tenho estreitado outras amizades, que me comovem. Recebi um e-mail essa semana e me vi numa espécie de "Cartas para o Coração". Mas como não estamos em continentes distintos, conforme aconteceu com a Clarice Lispector e o Fernando Sabino, mais do que desejar, colocaremos em prática nossa ideia do pic nic na sala de estar. Porque a vida e as pessoas não precisam o tempo todo complicar.

Escuto essa lindeza The Whole Love querendo encher o tempo que resta de cores. Sei que às vezes baixa um "no colors anymore, I want them to turn black"...Porém, estou virando expert em nadar contra a corrente. Quem sabe aos poucos eu me liberte até de bóias que me ajudam a cruzar rios e mares?!?

Tem muito amor para haver nessa vida. Eu tenho essa sorte tranquila. Eu brindo essa sorte com música, com minha admiração sem fim. Porque a gente só consegue amar o que admira primeiro. E admirar é espontâneo.





quinta-feira, setembro 01, 2011

Entregando para poesia

Não é para Deus, para o acaso, para os astros, para a sorte, para o destino, para a análise. Eu sei que precisava de ter nessa vida - e nesses ciclos de mudanças intermináveis - mais fé, mais tranquilidade, mais paciência. Entrego para o que me inspira. Ainda e por enquanto. Entrego para me forçar a acreditar: que seja doce.


O Lutador

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entretanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.

Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue...
Entretanto, luto.

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.

Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.

Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor

me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.

O ciclo do dia
ora se conclui
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.

(Carlos Drummond de Andrade)