sexta-feira, outubro 30, 2009

As crônicas dos outros - a série

O Bloqueio.

De Edson Aran.

Escritor é um bicho muito besta.

Escritores não são pessoas normais feito eu e você. Escritores têm “bloqueio” – um jeito pretensioso de dizer que eles não têm porra nenhuma na cabeça. Você não vê carteiros parados no meio da rua, a mão cheia de envelopes, falando sozinhos: “Não adianta! Por mais que eu entregue cartas, eu jamais farei uma obra-prima! Ou cirurgiões: “Não adianta! Implantar esta ponte de safena não fará de mim um novo James Joyce!”

As pessoas simplesmente fazem. Plantam tomates. Colhem abóboras. Pilotam tratores. Praticam abominações com animais de pequeno porte. Escritor não. Escritor trava. Escritor estanca. Escritor estrila. E aí, meu amigo, não há o que fazer, a não ser, talvez, usar o bloqueio a seu favor e escrever um conto.

O NADA (Um conto de Oraldo Grunhevaldo)

Era outubro, chovia. E o escritor estava com bloqueio. “Não consigo pensar em nada”, ele pensava, se contradizendo. Pensar que não havia no que pensar era, em si, um pensamento, ele pensava. Ou pensava que pensava. O mundo, afinal, podia ser apenas um breve pensamento na mente de um deus infinitamente criativo ou genuinamente retardado. Isso lembrou Borges. Juvenal Borges, cafetão e agiota. O escritor devia 200 paus pra ele. Eu devia ter virado dentista, ele pensou. Dentista ganha dinheiro. Dentista não tem bloqueio, dentista só tem broca e boticão. Ele releu tudo. Ele pensou em suicídio. Mas tinha empenhado o revólver para comprar munição.

Mas veja: usar o bloqueio como tema não faz o bloqueio desaparecer. Você simplesmente muda de calçada e evita contato visual. Ele continua lá, paradão. Bloqueio adora ficar paradão. Então você finalmente percebe. Não é só você. Todos os escritores, em todo o mundo, estão diante do mesmo bloqueio. Ninguém escreve. Não há mais romances, contos, poemas ou livros de auto-ajuda. Não há mais bulas papais ou bulas de remédio. Não há mais roteiros, nem diálogos, nem peças, nem minisséries, nem novelas.

Você desliga o computador e vai assistir a um reality show.

terça-feira, outubro 20, 2009

O post que não quis se revelar

Gastei horas nas palavras que não serão publicadas. Escrevi e apaguei frases uma dezena de vezes. Talvez não fossem mesmo para ser escritas aqui. No fundo, eu não estou nenhum pouco à vontade de dizer como eu me sinto no momento.

Fechada para balanço.

domingo, outubro 11, 2009

Sobre tudo que temos que engolir

Desde criança odeio xarope. Não suporto o cheiro, a textura e, principalmente, o gosto. Para não tomar a colherada ou copinho indicados na bula, eu costumava me esconder inutilmente na minha barraquinha da Mônica. Mas a tática nunca funcionou porque, invariavelmente, eu tinha que engolir.

Impossível entender porque engolir, se ele é apenas um paleativo. Muitas gripes, tosses e amigdalites vieram desde aqueles tempos amargos e sempre me pergunto: por que xarope? Não dá para curar por hipnose? Quando me lembro de que no mundo há pragas como injeções e supositórios respiro fundo, tampo o nariz e tomo logo umas duas doses.

A vida foi seguindo com outros xaropes. Decorava a odiosa tabuada e isso me serviu para questionar, aos sete anos de idade, todo o sistema educacional brasileiro - o mesmo que impunha educação moral e cívica e outras lavagens cerebrais - e hoje usar a calculadora sempre. Tabuada teria sido útil se no meio do caminho não houvesse a recuperação. Aquele infortúnio de estudar semanas o que você deveria ter aprendido em um ano... Tudo para não voltar à estaca zero. Ao menos, nunca tomei bomba (coisa que não existe mais)...E eu me pergunto: para que aquela tabuada em cartolina rosa e números vermelhos?

Eu sempre questionei tudo tenho que engolir a contragosto. Na maioria esmagadora das vezes, sei que não devo (o que não me impede de mentalmente perguntar por que? Por que? Por que?). Ainda mais quando as respostas me parecem estúpidas. Sabe a resposta "porque sim"? Então, ela é a mais acionada nesses casos. Tem que tomar xarope para melhorar, decorar para aprender e aprender para não cometer novamente o mesmo erro.

Diante desse verdadeiro sacrifício voluntário (ou não) pelo qual passsamos eventualmente ou frequentemente, ficamos ali pendurados, como o Enforcado na carta 12 do Tarot, esperando que nunca possamos ter nada de muito sério à nossa espreita porque soubemos engolir certas coisas: o remedinho, o bife de fígado, a aula de matemática, pequenos e médios desaforos das pessoas que te cercam, algumas crises pessoais e profissionais.

Fundamental é engolir sabendo exatamente as consequencias por trás do ato de cuspir. Sim, cuspir é punk, é libertador. Pois da mesma forma de que me recordo com perfeição do gosto de xarope de morango na infância, lembro-me de meus primeiros momentos de "maturidade", digamos assim, na tenra idade (diante do que não era realmente necessário engolir). Argumentei que não toleraria comer um prato de dobradinha, pois já havia experimentado e detestado. Além do mais, aquilo não fazia bem para nada (nenhum adulto na ocasião mencionou ferro, vitaminas ou algo do gênero). Como não quisessem ouvir os argumentos bem ponderados que explanei, meus "algozes" assinaram minha sentença. Engoli tudo sem mastigar, com lágrimas nos olhos. Na última garfada, pus tudo para fora, feliz da vida.