quarta-feira, maio 30, 2012

A urgência do amor e a felicidade ao redor

Duas amigas soltaram a mesmíssima frase essa semana, quando disse que tinha "uma novidade para contar".
- Já sei, você está namorando!
Como as duas são gentis, delicadas e torcem incondicionalmente por mim, segui com o meu sorriso mal interpretado e, sem respirar, revelei que era uma mudança bacana na minha carreira, um novo trabalho, um desafio pela frente. Por que as mulheres em especial tem essa obsessão pelo "happy end" de comédia romântica?

(pausa para mea culpa)

E fiquei pensando...
Nessas coisas que não tem a ver com as outras, mas que se misturam virando aquilo que convencionamos a chamar de "realização": empregão, status de relacionamento sério no Facebook, cozinha planejada, férias em Ibiza, milhões de amigos "para bem mais forte poder cantar", barriguinha enxuta, filhos e um pique de atleta...
Minha empolgação tem cores e brilhos; estende-se por mais de uma área da minha vida. Sou capaz, inclusive, de noticiar aos pulos felicidades dos outros, como se fossem do meu infinito particular.
Não estou torcendo o nariz para o que não acontece nesse momento - ele, sempre ele, o amor. Ainda mais agora, às vésperas do dia dos namorados. Vejo o amor espalhado em vitrines, em vídeos virais fofos, em historinhas edificantes contadas nas revistas, em campanhas da internet que pedem "mais, por favor". E os propagadores mais entusiastas são normalmente os que não sabem lidar com ele, me perdoem a franqueza.
Amor não depende somente de combos de lealdade e admiração, como na amizade, ou de dedicação e talento, como no trabalho. O elemento sorte tem sua cota de participação. E sorte é algo muito subjetivo para ser resumido a um oráculo que prevê: "saia de casa, você irá encontrar o seu par" (e você fica entre ir para a rua como uma diva do cinema americano e não dar a menor atenção para aquilo, enquanto assiste de pijama àquele sitcom pela enésima vez).
Conselho bom e dos pouquíssimos que sigo é do meu terapeuta. Eu lido com aquilo que está em minhas mãos. E sigo bem sem a urgência do amor (não quero de jeito nenhum a ausência, que fique fluorescente), comemorando conquistas que também me dão frio na barriga e causam efeitos externos notáveis. Hoje, por coincidência, outra amiga e minha prima disseram: "nossa, como você está bonita! Esse reconhecimento profissional te fez muito bem".
Foco, pé no chão, perseverança...Esses são os tons da vez, ainda que toque eventualmente aquela notinha dissonante que faz com que eu desvie o olhar para algum rapaz que valha a pena, por seu papo divertido, gostos em comum e sorriso encantador.

sexta-feira, maio 25, 2012

Strike a pose

Ainda que alguns tenham caído em lugar comum, Oscar Wilde tem aforismos geniais. Dia desses, eu estava pensando justamente em "só os tolos não julgam as aparências". Quem me conhece bem ou superficialmente, sabe que não levanto bandeira de que a beleza deva por a mesa. Sou mais os charmosos, os levemente desalinhados, os descabelados. O fato é que certos códigos estéticos bem particulares me aprisionam no bom e velho "botar reparo".

Pois a cena que me vem agora é minha e de uma ótima amiga num evento, conversando com o gerente de marketing da empresa. De cara, impliquei com a camisa jeans do moço. Eu sei que não tem a gravidade da pochete, do sapatênis, mas para mim é do mesmo clube. Como o papo estava agradável, pensei: "ah, o que é uma camisa jeans, né?". Havia espumante e preferi ser meio tolinha para variar. Minha amiga trocou um olhar de cumplicidade, aquele que se estivéssemos num restaurante anunciaria: "vou ao banheiro". E eu, claro, "vou junto". Tivemos que esperar alguns instantes, com a língua coçando.

O veredito foi unânime: sim, ele era bem interessante. Ela, bem mais entendida de moda que eu, não mencionou o alvo da minha implicância inicial, totalmente absolvida antes de deixarmos o local. Foi quando eu revelei: "mas tem uma coisa que incomoda muito: a pulseirinha com as cores da bandeira da Jamaica". O acessório está na lista "don't". Eu sei, sou chata, sou o diabo que nem veste Prada. Oscar Wilde me entenderia, mas "reggae night" é demais...

Meses atrás, um amigo de um amigo confessou na mesa de bar que achava muito antipática essa mania feminina de torcer o nariz se o cara não estava com "a camiseta certa" (e olha que ele vestia uma camiseta tão legal que até tirei foto pro Instagram). Defendi o meu gênero afirmando que todos nós colocamos o tal reparo. Se não é no "look", é no "shape", só para usar linguagem fashion, style, sei lá o quê. O amigo deste supracitado rapaz, que estava na mesmíssima mesa, por exemplo, quase quebrou o pescoço observando as curvas de outra amiga minha que se juntou ao grupo, fazendo cair por terra esse discurso de que a primeira impressão não tem valor algum.

Se ela fica? Dificilmente, mesmo que seja boa. Foram pouquíssimos os meninos por quem me apaixonei que já vinham na embalagem Mark Ruffalo. O que ficou foi a primeira vez que senti as pernas tremerem, o rosto arder de tão vermelho, perder todos os fios da meada. Essas bobagenzinhas são para rir com a amiga, que vai entender perfeitamente...são boas para virar crônica...

Mas que um sujeito que prefere a camisa xadrez ao modelito jeans, a surradinha camiseta de banda indie àquelas sem personalidade e um all star ao tênis mega colorido que parece ter saído da academia ganha mais estrelinhas douradas, ah isso ganha.

domingo, maio 20, 2012

Frio

Pode continuar assim.
Que eu me enrolo nas cobertas feliz, ainda que você traga o vento para assoviar na minha janela, interromper meu sono leve.
Pode atravessar o outono e ficar até a última hora do inverno. Pois se pudesse, eu te daria uns dias de primavera e todos do verão.
Deixe-me mais tempo com a xícara de café quente nas mãos, o afago da minha gatinha Alice e meus casacos coloridos.
Você me faz buscar aquele solzinho raro, aqueles pensamentos escondidos, aquele sabor concentrado.
Pode esperar um pouquinho?
...
Fui ali garimpar um poeta de verdade para te encantar.
Porque essa estação em mim não é gelada.
Um pouco de Alberto Caeiro, Fernando Pessoa, como queira.
Fique.

"Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar —
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável".


domingo, maio 13, 2012

Dos guardados

Eu sei, é puro apego. Guardo coisas como minha primeira boneca Juanita, figurinhas que já perderam a cola, a cor e uma tonelada de papel. Dos itens desse meu colecionismo mais afetivo do que acumulador, diria que adoro minhas caixas de cartas, em especial, as de amor.

Estava na minha torcida por dias frios, à procura das blusas quentinhas que, entre as várias mudanças que faço, sempre vão parar em malas distintas, escondidas. Foi quando decidi abrir a terceira porta do alto do armário onde, sabia, iria encontrá-las (confesso, costumo evitar esse tipo de arquivo em determinadas circunstâncias. Contraditoriamente, é número um dos itens empilhados. Talvez o botão de emergência).

A caixa de cartas de amor contém, por exemplo, e-mails daqueles que sequer conheci. Eram os tempos da internet discada, dos chats. Para ser precisa, o ano era 1998. Skywalker foi meu primeiro "namoradinho" virtual. Passamos meses nos correspondendo, porém a distância, somada ao fato de que éramos jovenzinhos estagiários sem grana, fez com que deixássemos para a memória tanta coisa em comum confessada nas salas virtuais, nas correspondências e, finalmente, no telefone.

Numa atitude nada ecologicamente correta, eu imprimia TODOS os emails dele. Só que antes, eu ficava uns minutos olhando a caixa de entrada em negrito com aquela nova mensagem, suspirava. Chamava-se Sérgio, morava em Campinas, gostava de Star Wars e de britpop. Quando a gente não estabelecia nenhum tipo de contato, era como se o dia não tivesse existido.

Não me lembro o que levou ao nosso estágio offline. Imagino vagamente que foram as coisas da vida, acrescidas de um amor desses que a gente pode dar as mãos, beijar e dormir abraçadinho. Relendo tudo, sorrio. Fizemos uma série de pactos não cumpridos e sinto um imenso carinho por Sérgio. Não tenho nenhum retrato dele. Não sei se casou, se teve filhos, se é feliz, se mudou de país...

E das centenas de escritos dele, escolhi este para partilhar aqui.

sexta-feira, maio 04, 2012

Esse meu bobo coração

Bocó, tolinho, meu coração é uma bobagem.
Dispara feliz ao saber que aquele moço gostou do que eu escrevi e seria capaz de parar por instantes se o vir andando por aí.
Remendado, esperançoso, meu coração se derrete com certas músicas que aquele moço poderia ter oferecido para mim.
Medroso, meu coração prefere os pequenos gestos, as singelezas, as entrelinhas, a distância. Não quer se partir de novo, mas quer ser também daquele moço.