segunda-feira, outubro 28, 2013

Lou Reed

Lou Reed se foi.
Eu não tomei um porre como a ocasião pedia. Queria ter enxugado uma garrafa de Jack Daniel's e colocado "Satellite of Love" no último volume, no meu apartamento, até a polícia aparecer. Se a polícia aparecesse, diria desaforos...tudo isso, claro, no meu imaginário wild side.
Ele se foi e eu não quis acreditar na informação. Estava de plantão, lapidando contra o tempo o texto seco que chegou pela agência de notícias.
Mal dormi.
Pensei na vida besta, no despertador, nas frutinhas matinais, nos glóbulos que seguram a frustração, no hábito de sair correndo todo dia - inutilmente - para não me atrasar,  no ato de passar o cartão de ponto, na preocupação com as contas.
Pensei na banalidade dessa escrita, que só tenho o disco clássico com a capa do Andy Warhol em CD e um punhado de MP3 da carreira solo do Lou Reed. O resto era K7, minhas fitinhas antes tão rodadas, viraram poeira. "Disco é cultura", mas disco era tão caro!
O fato é que não estou aqui para resenhar porra nenhuma, para dar uma de enciclopédia musical, para fazer ranking de canções importantes que ele compôs. Enquanto qualquer tipo de arte me comover de alguma maneira, não preciso de teorias.
Lou Reed se foi.
O mundo está mais careta, eu já não sou tão jovem. Ele escrevia, fotografava, compunha, atuava, transgredia. Eu sigo nesse toada de um dia de cada vez, para não pirar. Quando me pego resignada, tento me lembrar das noites dançando no escuro, das pouquíssimas porra-louquices que fiz até hoje. Devia ter feito mais.
Há quem tenha inveja de quem viaja para lugares maravilhosos todos os anos, de quem ganhe super salários, até de quem não tenha celulite...
Eu tenho inveja de quem é livre, como o Lou Reed.






quarta-feira, outubro 23, 2013

Já que eu ando sumida

A Moça do Guichê - publicada na minha última coluna de setembro, no Pandora

Anos atrás, saí do teatro impressionada com o espetáculo “Pessoas Invisíveis”, da companhia curitibana Armazém. A peça, inspirada nos quadrinhos do genial Will Eisner, mostrava como, numa grande cidade, certos personagens pareciam simplesmente não existir. Não se trata apenas dos marginalizados, como o bêbado ou a prostituta. O porteiro e a faxineira entram no pacote. E há uma frase, atribuída a Luis Fernando Verissimo, que diz: “Uma pessoa que é boa com você, mas grosseira com o garçom, não pode ser uma boa pessoa”. Não sei se a frase é dele, no entanto, para mim, sempre fez muito sentido.

Penso na peça, na frase e na minha formação quando acordo com o pé esquerdo. Nos dias normais, não preciso do exercício. Não deixo de entrar na academia de ginástica sem desejar um bom dia para a recepcionista, não economizo em “por favor” e “obrigada” para o atendente da padaria, e fico profundamente incomodada quando alguém ao meu lado assume esse “superpoder” de transformar o outro em nada. Na semana passada, minhas regras de conduta ficaram abaladas.

Estávamos eu e uma amiga no cinema de um shopping, fugindo da temperatura de 37°C que o termômetro marcava na rua. O ambiente climatizado era uma bênção, dava até para usar um casaquinho leve. Por isso, foi um choque quando chegamos naquele aquário para pagar o estacionamento, onde a sensação térmica beirava o inferno.

Uma senhora cheia de sacolas estava reclamando. Não era do preço, muito menos da atitude da moça. Ela argumentava que era simplesmente desumano permitir que alguém trabalhasse naquelas condições. “Se eu não aguento ficar aqui cinco minutos, imagina essa moça o dia inteiro? Isso sim é um trabalho escravo!”, disse, olhando para nós. Eu e minha amiga concordamos, argumentamos que o mínimo que a administração deveria fazer era instalar um ventilador ali.

A moça, maquiada e uniformizada, apenas nos retribuiu com um sorriso. Ela precisa do trabalho, afinal. Talvez se reclamássemos com seus chefes seria bem pior, e isso me entristeceu. O meu “boa tarde” naquele dia não levou nenhuma “estrelinha dourada”. É preciso mais do que ser educado, do que ler Dalai Lama, do que propagar as palavras do profeta Gentileza. É preciso descobrir uma "criptonita" que destrua esse nosso "superpoder" de tornar o outro invisível.