sábado, dezembro 31, 2011

Que o tempo, mano velho, seja amigo, seja legal



O Tempo‎

"A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é Natal…
Quando se vê, já terminou o ano…

…Quando se vê não sabemos mais por onde andam nossos amigos…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…

Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casaca dourada e inútil das horas…
Eu seguraria todos os meus amigos, que já não sei como e onde eles estão e diria: vocês são extremamente importantes para mim.

Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
Dessa forma eu digo, não deixe de fazer algo que gosta devido a falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará".

Mário Quintana

Que 2012, que é amanhã, traga tempos bons

sexta-feira, dezembro 30, 2011

No dia que vem por aí - por Ivan Martins

É difícil não sentir esperança. A vida parece ter sido feita para isso. Em vez de um tempo contínuo e inacabável, dentro do qual a nossa existência teria o ritmo dos bichos, habitamos um tempo fragmentado, dividido, que se encerra e recomeça por ciclos – de uma hora, de um dia, de um ano. Esses períodos definem a nossa existência e ajudam a dar sentido a ela. Eles fomentam a esperança.
Lembro de uma conversa, já antiga, em que alguém me explicava, do fundo de uma grande tristeza, o alento que recebia de cada manhã. “Hoje”, ela me disse, “eu posso ser totalmente diferente do que fui ontem, mudar a minha vida, mudar eu mesma e começar do zero. Cada novo dia me apresenta a possibilidade de ser outra pessoa e deixar a dor para trás.” Essa não é uma definição soberba de estar vivo? Andamos tão presos ao passado que ignoramos a possibilidade de mudança embutida no futuro. Começar de novo é a maior delas – para todos nós.
Houve um tempo, quando criança, em que eu costumava me imaginar um homem feito. Teria 25 ou 30 anos, seria veterinário ou agrônomo, seria casado com uma mulher com cabelos de índia e olhos de jabuticaba e viveria, com ela e três filhos, numa casinha rural rodeada de colinas, com cerca de madeira e chaminé, como as crianças costumam desenhar. Nesse cenário idílico, que nunca se materializou, eu seria feliz, destemido e generoso, como os heróis dos livros. Sobretudo, eu estaria pronto, teria me tornado um adulto perfeito – e os adultos, toda criança sabe, não têm medos ou dúvidas.
Os anos se passaram e, a cada 12 meses, a criança que eu era se confronta com o adulto que eu sou. A conversa nem sempre é tranquila, mas é fundamental que ela aconteça. O cara que eu me tornei deve satisfações à criança que eu fui. Tem de lidar com os sonhos dela e com as ilusões que ela engendrava sobre o futuro. O homem tem de contar para o menino que as coisas não são como ele sonhava, que a gente não faz a vida exatamente como quer, mas que, nem por isso, deixamos de ser dignos e bons. É importante que a criança dentro de nós saiba, também, que nunca estamos realmente prontos, nunca crescemos inteiramente, e que as nossas dores – e essa é a pior parte da conversa – não somem quando ficamos adultos. Seguem conosco, mesmo não sendo parte de nós. São como espinhos na nossa carne, e é preciso arrancá-los. Existe, afinal, a esperança de viver sem eles no ano que vem, na semana que vem, amanhã.
A moça com cabelos de índia e olhos de jabuticaba tomou outras formas ao longo do tempo. Foi loira, teve olhos castanhos, cabelos crespos. Mas, em cada mulher real, havia algo da Eva infantil, primordial, que eu procurava como se fosse uma resposta absoluta. Aí há outra complexidade que o menino não previra. Parece não haver uma mulher na nossa história, mas várias. Parece não haver uma única resposta, uma única possibilidade. Também nesse terreno (o do amor), podemos tentar, recomeçar, sonhar, sofrer – ter alegrias e surpresas, enormes.
Então, eu penso, que venha o Ano Novo.
Que venham os velhos e novos amigos. Que o amor encontre o seu lugar na nossa vida e que saibamos reconhecê-lo, preservá-lo ou deixá-lo morrer, quando for preciso. Que o ano nos traga coragem para fazer coisas novas, coragem também para lidar com as coisas antigas que deixamos de lado. Que neste ano a gente se encontre – uns aos outros e a nós mesmos – de um jeito que produza mudança e transformação. Sem auto-indulgência, sem auto-piedade, sem mi-mi-mi. Que 2012 venha para alegrar a criança que fomos e nos ajudar a ser os adultos que merecemos ser – no novo ano, na próxima semana, no dia que vem por aí.

quinta-feira, dezembro 29, 2011

Vai, Carlos! ser gauche na vida

Escrever é Triste

Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, puré de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.
O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem você, porque com você não é possível contar. Você esperando que os outros vivam, para depois comentá-los com a maior cara-de-pau ("com isenção de largo espectro", como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo, que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto, uma revolução, um adultério grego — às vezes nem isso, porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. Sim, senhor, que importância a sua: sentado aí, camisa aberta, sandálias, ar condicionado, cafezinho, dando sua opinião sobre a angústia, a revolta, o ridículo, a maluquice dos homens. Esquecido de que é um deles.
Ah, você participa com palavras? Sua escrita — por hipótese — transforma a cara das coisas, há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos, adjetivos, verbos? Mas foram os outros, crédulos, sugestionáveis, que fizeram o acontecimento. Isso de escrever «O Capital» é uma coisa, derrubar as estruturas, na raça, é outra. E nem sequer você escreveu «O Capital». Não é todos os dias que se mete uma ideia na cabeça do próximo, por via gramatical. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. Vazio, antes e depois da operação.
Claro, você aprovou as valentes ações dos outros, sem se dar ao incómodo de praticá-las. Desaprovou as ações nefandas, e dispensou-se de corrigir-lhes os efeitos. Assim é fácil manter a consciência limpa. Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação, que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Ao passo que, em sua protegida pessoa, eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel.
E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado do espetáculo. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade em abranger a cena com o simples pai de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia... explosiva. Na hora ingrata de escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar, se não nos concedem tempo para isto entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. Não é redator de boletim político, não é comentarista internacional, colunista especializado, não precisa esgotar os temas, ver mais longe do que o comum, manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. Você é o marginal ameno, sem responsabilidade na instrução ou orientação do público, não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. Que é isso, rapaz. Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Concluiu que não há assunto, quer dizer: que não há para você, porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não sabe ir além disso, não corta de verdade a barriga da vida, não revolve os intestinos da vida, fica em sua cadeira, assuntando, assuntando...


Carlos Drummond de Andrade, 'O Poder Ultrajovem'

quarta-feira, dezembro 28, 2011

O diário de Marina

Não foi por acaso. Beatriz rastreava cada movimento de Marina. Tanto que no dia em que a viu, em carne e osso, sentiu o ímpeto de cumprimentar. Talvez no banheiro, quando fossem retocar a maquiagem. Beatriz sentiria-se um tanto quanto sórdida se o fizesse, uma espécie de personagem assustador interpretado por Glenn Close.

Não havia razão para olhar Marina daquele jeito de cima a baixo, atitude que destava que fizessem com ela. E Marina era jovem, bonita; dançava e estava visivelmente alegre. Dias depois, não haveria aquele sorriso. Não foi culpa de Beatriz, que agora, por ironia, desejava se aproximar de Marina por outros motivos.

Essa história termina com a leitura dos desabafos de uma estranha e começa com Marcos. Ele não pode ser considerado um sujeito bonito, ainda que ambas tivessem se encantado por ele. Beatriz adorava acariciar-lhe os cabelos. Já Marina fixou-se no segredo daqueles olhos.

De um jeito aparentemente displicente, ele sabia escolher o elogio, a trilha musical e a parte do corpo de cada uma para beijar. À Beatriz pegou emprestado um poema, colocou Nina Simone no toca-discos e, na sequência, sem a suavidade de instantes atrás, arrancou-lhe o sutiã. A primeira noite dos dois parecia não ter fim. À Marina presentou com chocolates e uma coletânea de Chico Buarque especialmente escolhida para ela. Dormiram abraçados, tomaram café da manhã juntos.

Marcos deixou Beatriz sozinha, na porta do cinema. Ela o esperou até o início da sessão. Ligou para ele algumas vezes e, sem resposta, decidiu ver um drama indigesto. Saiu dali querendo desaparecer. Mais ainda: precisava de uma justificativa. Ao menos, ele teve a coragem de terminar com Marina, dizer adeus. Beatriz foi meio que jamais.

Beatriz jura que ouviu alguma promessa. Era seu coração vagabundo que não se cansava de ter esperança e, eventualmente, pensava ser tudo uma grande invenção. Quem sabe Marcos nunca tivesse existido? No fundo, ela exigia resposta. Não se esquecia do fim de tarde em que cedeu lugar na fila da bilheteria para várias pessoas enquanto ele não vinha. Uma sensação estranha que voltava na madrugada, em sonhos. Estava ela numa caverna, só ouvia ecos.

Marina chegou a ostentar a condição de namorada, escutou "eu te amo" como se fosse "Sinfonia de Paris" e tinha a certeza que envelheceria ao lado de Marcos. Não economizou em carinhos, lingeries coloridas e até aprendeu a fazer panquecas cobertas de mel para acordá-lo aos domingos.

E Marcos? Marcos era só o caos, que atravessou a vida das duas e fez o diário de Marina cair nas mãos de Beatriz.

Beatriz nunca teve raiva de Marina. Quando soube que Marcos estava namorando, ficou magoada claro, porém, bastante intrigada. "Ele não queria nada sério comigo", pensou. Reviu diversos filmes bobos de amor e percebeu que boba era ela, que sua vida não seria um roteiro de Nancy Meyers. Naquela altura, seguia seu script: saiu, inclusive, com um ou dois caras. No entanto, Marcos era incômodo. Ela evitava todo e qualquer lugar que pudesse esbarrar com ele.

O que Marina era para Beatriz? A necessidade infantil de saber o que ela tinha de mais. Marina era mais nova, cultivava uma euforia dos iniciantes. Beatriz se considerava ponderada, só que Marcos foi seu incalculado equívoco. De maneiras extremamente distintas, eram mulheres interessantes, inteligentes e, não fosse aquele caos, descobririam uma série de afinidades.

Quando tirou o diário de Marina da bolsa, Beatriz não sabia o que estava acontecendo. Os relatos partiam de um arremedo de gente, com os sonhos dilacerados. Fechou o caderno rapidamente, com uma tristeza familiar.

Voltou para as linhas depois de beber duas taças de vinho. Decidiu ler de trás para frente afim de juntar peças, de tentar entender o que houve com Marina e o que houve com ela mesma. Marcos seguia como um mistério.

O namoro foi breve, de emoções intensas com as quais ele não soube lidar. Marina foi das nuvens ao inferno de não querer levantar da cama, comer ou sair de casa. Do namorado lindo, dedicado e sensacional, ele passou a gélido e covarde. "Covarde", Beatriz leu em voz alta. Concordava em gênero, número e grau. Estava com ódio de Marcos. Não sentiu isso antes porque até então era do tipo que alimentava uma ancestral resignação.

Beatriz agora conhecia a vida da outra. Queria chamar Marina para tomar um café, dar conselhos que daria para uma irmã. Sabia que Marina encontraria alguém realmente especial, com coragem e não é porque é o tipo de coisa que se diz após um tombo. Beatriz sabia disso...só não sabia como devolver o diário para a dona.

E que tipo de pessoa larga seu caderno de emoções inconfessáveis na mesa de um bar? Mesmo tomando aquele porre, com uma dose sutil de vexame. Para Beatriz era inconcebível: ela nunca esquecia nada para trás. Tinha listas infindáveis para todas as ocasiões.

Não devia ter ido sorrateiramente pegar o objeto esquecido. E agora? Se entregasse o diário no estabelecimento, seria questionada. Caso deixasse jogado na mesa, como se ele tivesse surgido num passe de mágica, poderia ser pega. Cogitou ligar para Marcos. Um desatino. Como ela diria para ele: "estou com o diário da sua ex namorada"? Insensatez, confissão de toda uma energia gasta para se chegar até Marina e a troco de quê? Já nem sabia. Beatriz não queria Marcos de volta e torcia para que essa vontade parasse de corroer Marina.

Nem correio, nem motoboy. Seria tão mais fácil se a dona do diário preenchesse um endereço ou tefone de contato. Jogar no lixo não era alternativa, de modo que optou por guardar aquele caderninho vermelho, escrito com letrinhas arredondadas, na última gaveta da cômoda, aquela que mal abria em seu dia-a-dia. Amanhã saberia o que fazer.

segunda-feira, dezembro 26, 2011

Ainda o amor

Não sou boa em guardar diálogos de filmes. Preciso rever para anotar. Alguns deles, nem sei se assistirei novamente. Mas Cindy disse algo como "não quero mais ter essa raiva e não quero mais que você beba tanto", assim que resolveu encerrar o casamento com Dean. O triste é que o fim é um pouco por aí mesmo. Se não é raiva, pode colocar tristeza no lugar. Se não é bebida, talvez tarja preta.

Outra cena de "Blue Valentine" (não gosto da tradução "Namorados para Sempre") que toca lá no fundo é quando os dois estão no banheiro daquele quarto ridículo de motel. Não há da parte dela nenhum desejo a não ser ir embora. E por que não foi ainda? Porque é duro aceitar que acabou. É difícil não se apegar à memória de quando tudo era apaixonante, engraçado e leve. Eu admiro quem consegue ser "funny valentine" estando casado, pois não há nada mais raro do que isso nesse mundo.

Estranhamente, um dia antes, eu havia visto "José e Pilar". Documentário que revela uma história de amor tão delicada que parece ficção. Há cenas muito emocionantes, como a de Saramago no hospital. Ele está preocupado com a solidão da mulher depois da partida dele, mas imediatamente diz que suas cinzas estarão no jardim, perto dela. Talvez seja mais complicado se encantar pela "personagem" Pilar. Seu pragmatismo, as cartas dos leitores que rasga, as ideias para a vida...No entanto, é impossível não se comover quando ela, por trás da agenda exaustiva que monta para o marido, quer somente que ele esteja em movimento, que ele fique mais. E não existe disfarce na cerimônia de casamento. Toda mulher, até a mais feia, fica linda nesse dia. Aquele brilho nos olhos é muito singular. Eu sei e reconheço. Nem preciso das minhas fotos antigas para lembrar.

Os filmes foram devidamente entregues na locadora. Só que eu fiquei pensando sobre o amor. Lembro-me vagamente de como ele age/reage. De vez em quando quero vivê-lo e penso que ele vai me encontrar (eu decidi que procurá-lo é das tarefas mais inúteis que existem), mesmo em meio a tantos desencontros. O fato é que já tive meus tempos de "Blue Valentine" e o depois desses tempos também. Portanto, nos pensamentos eventuais que me tomam de assalto, sonho com um José, que me faça dedicatórias e me dê as mãos. Parece-me tão simples quanto inatingível.




sábado, dezembro 24, 2011

Um pouco de Vinícius

Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

terça-feira, dezembro 20, 2011

inbox

Caixa de entrada cada vez menos com mensagens pessoais. São sempre as compras coletivas, horóscopos virtuais e outros que já vão direto para o spam. E eu adoro receber e-mails, notícias, músicas, sinais de fumaça de amigos que estejam tão longe, tão perto. Ontem fui presenteada com essa lindeza da querida Olívia. E isso me lembrou que tenho que caprichar nos meus desejos de ano novo para quem realmente importa.


A Carlos Drummond de Andrade (João Cabral de Melo Neto)

Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.

Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.

Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.

Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.

Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.


segunda-feira, dezembro 19, 2011

Staircase e The Daily Mail

Dia de duas músicas novinhas em folha da safra "The King of Limbs". O que mais dizer? Amo por demais o Radiohead! Mas isso todo mundo sabe né?



Fernando Pessoa disse...

"Que me pesa que ninguém leia o que escrevo? Escrevo-o para me distrair de viver, e publico-o porque o jogo tem essa regra. Se amanhã se perdessem todos os meus escritos, teria pena, mas, creio bem, não com pena violenta e louca como seria de supor, pois que em tudo ia toda a minha vida. Não é outra, pois, que a mãe, morto o filho, meses depois estar aí [?] e é a mesma. A grande terra que serve os mortos serviria, menos maternalmente, esses papéis. Tudo não importa e creio bem que houve quem visse a vida sem uma grande paciência para essa criança acordada e com grande desejo do sossego de quando ela, enfim, se tenha ido deitar".

domingo, dezembro 18, 2011

Para todo mal...

Outro dia brinquei com uma amiga que sempre que busco, por exemplo, uma frase do Shakepeare para definir o momento, acabo sendo traída por uma perfeita do Metrô (sim, a banda dos anos 80 que cantava "coração ligado, bit acelerado"). Tenho esse humor pop, essa coisa meio personagem de Nick Hornby de ser romanticamente infeliz por conta das músicas que escuto.

E cultivo também essa mania que devia ser superada na vida adulta: a de deixar no repeat uma faixa que me diz algo mais. Gosto de significâncias, significados, signos, sinais. Hoje me deparei com "A Cura", do Lulu Santos. Estava abrindo um vinho despretensiosamente e já havia gastado um trajeto de Contagem- Belo Horizonte (desses pós-plantão-com-iPod-descarregado) pensando em como prefiro nessa galáxia as pessoas que valorizam a consideração; respondendo a e-mails, buscando retribuir ou minimamente agradecer um carinho.

Achei que havia refletido o suficiente para o domingo chuvoso, mas não. Veio essa letra, esse trecho:

"E se virá
Será quando menos se esperar
Da onde ninguém imagina
Demolirá
Toda certeza vã
Não sobrará
Pedra sobre pedra

Enquanto isso
Não nos custa insistir
Na questão do desejo
Não deixar se extinguir
Desafiando de vez a noção
Na qual se crê
Que o inferno é aqui"

Cicatrizar uma dor é tão menos rápido do que a posologia que os nossos merthiolates prometem... E, às vezes, a gente estranhamente se apega ela, porque acredita que virou velha conhecida, está a um passo da cumplicidade.

E ouvindo "A Cura", percebi que insisti na questão do desejo, desafiei de vez noções (e até limites), vi que o inferno era aqui mesmo. Saio, na emergência, do processo dantesco e vou hiperdosando merthiolates, acrescentando arnicas, colocando band-aids na pele e na alma. Acontece que venho enxergando um certo farol que "iluminará uma ponta de esperança".

Me apeguei mais a ele do que àquela antiga dor. E agora?

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Thanks, but no

2012 será o ano do não. A afirmação sugere uma negativa, mas vou tentar explicar essa minha seta e meta para o ano do fim do mundo.
Saber dizer a palavra com três letrinhas e seu sinal em forma de arabesco vai tirar certos pesos que não pretendo carregar, nem ao longo dos 365 dias, muito menos dos dias que seguirão até o agora virar nunca.
O aprendizado é tardio, reconheço. Devia ter usado a palavra quando a colega de classe me fez trocar o papel de carta mais bonito que eu tinha por um ordinário, com um rasgo na borda. O fato é que aquilo foi a tradução do que se repetiria em outras circunstâncias, envolvendo pessoas, sentimentos e coisas. Dizer sim para ser aceito, para ser querido. Dito o não, eu teria feito o que costumava fazer: usaria o papel de carta para escrever para minha avó Celinha.
Da colega eu sequer lembro o nome, no entanto se fiz alguma questão em lhe ceder algo que era precioso de minha coleção, é porque eu queria ser chamada por ela para brincar no recreio. Da minha avó, sinto saudade todo santo dia e queria ter derramado meu amor na vida dela em doses mais generosas (e a gente sempre quer fazer isso quando a morte nos tira, sobretudo sem avisar, pessoas como ela).
A situação seria diferente se eu tivesse dito não? Quem sabe.
Ouvi mais não do que sim em 2010-2011. Para mim, aliás, eles foram um ano só, um ciclo. E, para me consolar, meus amigos estimados disseram: o apartamento não saiu porque não tinha que ser seu, aquele sujeito que não te deu valor, não merece sua consideração, por aí vai. Até ontem eu achava que isso era unicamente para me acalmar meu coração.
Até que percebi.
O poder do não.
Ele te leva a batalhar pelo sim, mais do que meramente desejar ou achar que merece. E quando o sim vem, não há dúvida. Aquele lar pode estar pouco mais de 500km de distância deste provisório, por que não? Ele ainda faz parte do que se quer realizar. A possibilidade do amor só existe pela travessa da conquista. Mensagem sem resposta nunca acaba em mãos dadas no escurinho do cinema. Contrariando a matemática, certas ordens de fatores alteram os resultados.
2012 será o ano do não. E ele rima com auto-preservação. Dispensarei um punhado de convites quando sentir a velha suspeita de que estou entrando numa situação que não me fará bem: seja ouvir a ladainha de quem só saber falar mal até dos próprios amigos, seja a chance de rever quem sumiu sem deixar pistas (após prometer um céu de estrelas), seja por não se sentir mais à vontade com determinados grupos/ assuntos porque afinidades são mesmo varridas e temos que aceitar isso e ponto.
Vou preferir sempre ler um livro, ver um filme, ouvir música e até arrumar o meu guarda-roupa.
Será um exercício, como foram os (poucas) promessas que cumpri no ano 2010-2011. Será complicado, pois sei que sou do sim. E devo peneirá-lo, torná-lo puro e simples, pois me enganei e enganei meio mundo tratando-o como abertura. Verdadeiro, libertador e necessário: que venha o não e que ele contribua para que façam-se a luz e a fluidez.

sábado, dezembro 10, 2011

Das sensações de dezembro

Não sentiu a intermitente euforia dos sábados ao acordar. Continuaria na cama, se pudesse...Se não se forçasse. "Melancolia", pensou. E vem desde aquele estranho sangramento, aquilo que já devia ter resolvido. Mas teve medo, engavetou o exame, embora saiba de tudo o que não pode mais adiar.

Das desconfianças que se arrastavam, vieram respostas imediatas. Eram óbvias. Nem devia se importar, ainda que estranhamente tenha se forçado a isso, como se forçou a levantar mais cedo. Necessidade de olhar para trás e ver que, enfim, passou. Foi encerrada por ela, na presente data, a procura nos cinzas e flicts (a cor que não existe) de elos entre o azul e o amarelo. O próximo movimento seria de retomada pela conquista de seus mais caros projetos (os objetivos e, por que não, os mirabolantes).

De seus poucos encantamentos nesse período dividido em 12 fatias, escolheu o improvável: por querer extrair dele a surpresa, não a ilusão. Terminou por descobrir que o maior encantamento estava onde sempre esteve. Por mais que, eventualmente, se perdesse de si mesma, iria se forçar a levantar da cama, a se importar, a olhar para trás sem mágoas. Sabia, agora, que não era esforço, era força.

Todos os desejos traídos, todo afeto que jogaram fora, todo mal estar inexplicável, todo sangramento silencioso eram como a melacolia, que dali sairia. Paradoxalmente, na marra, para que na metade do dia prevalecesse o gosto de chocolate com amêndoas e a vida que segue.

domingo, dezembro 04, 2011

Que emocionante é uma partida de futebol

No momento final eles choraram.
Eu fiquei engasgada.
Sou dessas que faz coro por jogadores que honrem suas camisas como outrora.
Hoje mordi a língua.
E quando o Roger pediu desculpas para torcida, quis abraçá-lo.
Nem lembrava mais do gosto amargo da decepção das partidas anteriores.
E vieram goleada, euforia, provocações aos vizinhos.
Vem sempre a lembrança do meu pai, com o seu radinho de pilha no campo, do vovô com seu radinho de pilha no quarto.
Aqui em casa a gente sempre xinga o comentarista televisivo atleticano. Xingar tevê é outro clássico.
Eu liguei para o meu amigo Thiago porque ele entende.
Ele entendeu quando eu disse sexta-feira: não vamos cair.
E sim, sou arrogante. E sim, sou apaixonada.
Passei parte da minha infância brincando na sede antiga do Cruzeiro no Barro Preto. Por incontáveis vezes, entrei de mãos dadas com os craques nos gramados naqueles tempos.
Tudo para mim sempre foi azul.
Eu vi meu time levantar taça em Libertadores, Supercopa e Brasileirão. Eu vi ídolos de cabeça ensanguentada lutando com dignidade celeste.
Um motivo? Eu canto porque o Cruzeiro existe. Nem sempre alegre ou triste. Eu não sou - e bem que queria ser - poeta. (E agora pareceu adequado fazer esse pequeno furto de Cecília).
Que nossas páginas sigam heroicas e imortais, que sejamos doces, azuis, estrelados.
E de alma lavada.

Dedico esse post, com foto da Uiara, para meus amigos Thiago, Leozinho e Cucuca