sexta-feira, dezembro 28, 2012

Para encerrar o ano do fim do mundo

O dois mil  que bate à nossa porta será 13. No tarô é o jardineiro eliminando tudo que não serve para que o jardim floresça. Renascimento, renovação...tempo da borboleta sair do casulo e voar.

No horóscopo chinês é o ano da serpente. Bom para fazer outra festa no dia 10 de fevereiro quando acontece a virada.

Também comemoro quando o sol ingressa em áries e se inicia o ano de Buda (normalmente em abril).

Restinho de 2012 que serve para balanços. O ano do fim do mundo. E eu achei essa resposta  incrível de Proust para a pergunta: Que efeitos essa iminência do fim causaria? O que você faria?


“Acho que, de repente, a vida nos pareceria maravilhosa se estivéssemos ameaçados de morte como o senhor diz. Pense em quantos projetos, viagens, casos de amor e estudos a vida oculta de nós, tornando-os invisíveis por causa da nossa preguiça, que, certa de um futuro, adia-os incessantemente.
Mas, sob a ameaça da impossibilidade eterna, tudo isso voltaria a ser lindo! Ah! Se o cataclismo não acontecer desta vez, não deixemos de visitar as novas galerias do Louvre, de nos jogar aos pés da Srta. X, de fazer uma viagem à Índia.
O cataclismo não acontece e deixamos de fazer tudo isso porque voltamos ao âmago da nossa vida normal, no qual a negligência arrefece o desejo. Mas não deveríamos precisar do cataclismo para amar a vida hoje. Seria suficiente pensar que somos humanos e que a morte pode acontecer esta noite.”

Por esse ângulo, meu saldo é positivo. Não deixei de arriscar, de saber que minhas escolhas em busca do meu mais precioso objetivo me levariam a ele, de alguma maneira. Naquele Réveillon de 2011 usei uma calcinha branca e pedi paz. E para que ela invadisse o meu coração, como cantou o Gil, precisei até guerrear internamente. Consegui, enfim, minha casinha. Com meus discos na prateleira, meus móveis vintage e a sensação de aconchego. Lar é paz em estado puro. 

Acreditei mais em mim, nos outros e até aqueles que não mereceram o crédito ficaram em débito com eles mesmos...que sejam felizes e sigam bem longe de mim (porque, afinal, não tenho sangue de barata). Tive o privilégio de fortalecer algumas amizades e, ainda, de conhecer gente que quero para perto nos próximos dias, meses e anos. 

Aquele branco lá de dezembro passado segue ganhando novas formas. Agora é uma folha para anotar ideias, escrever cartas e deixar tomar conta da memória quando não se tem resposta para tudo. 

Eu aceito e agradeço o que 2012 me trouxe. Tudo de ruim e de bom. Nada disso me derrubou ou me envaideceu. Sigo querendo paz, batalhando por sua permanência. Mas nesta virada de segunda-feira, confesso, mudarei a cor da calcinha (único ritual que pratico porque não como 12 uvas, não pulo 12 ondas e nem nas 12 badaladas fico eufórica, pois estamos em horário de verão). 

Meu próximo desejo de ano novo vai gostar de andar de mãos dadas com a paz. Desconfio que sejam almas-gêmeas.






terça-feira, dezembro 25, 2012

Feliz, feliz Natal. Merecemos. Por Caio Fernando Abreu


Amanhã à meia-noite volto a nascer. Você também. Que seja suave, perfumado nosso parto entre ervas na manjedoura. Que sejamos doces com nossa mãe Gaia, que anda morrendo de morte matada por nós. Façamos um brinde a todas as coisas que o Senhor pôs na terra para nosso deleite e terror. Brindemos à vida – talvez seja esse o nome daquele cara, e não o que você imaginou. Embora sejam iguais. Sinônimos, indissociáveis. Feliz, feliz Natal. Merecemos.

Páragrafo final de Mais Uma Carta Para Além dos Muros, publicada no Caderno 2 do Estado de S. Paulo na véspera do Natal de 1995, o último Natal de Caio Fernando Abreu por aqui. Está no livro Pequenas Epifanias.






Deste blog sensacional aqui






sexta-feira, dezembro 21, 2012

Então eu vou ali...

Comprar minhas flores, renovar na marra a tal esperança. Não porque seja fim de ano e nessa época é o que se faz por hábito. Mas porque o fim de ano, às vezes, vem com aquela peça de mau gosto que o destino gosta de pregar. E quando não vem, algumas reflexões são inevitáveis.

Fui uma pessoa melhor em 2012. Pratiquei o que para mim é muito difícil, a tolerância. Ao conviver com o que me faz mal, testei limites, respirei fundo, busquei minha fé meio adormecida, os glóbulos mágicos da homeopatia e o colo, que não me falta, dos poucos e bons.

Não emagreci cinco quilos, não voltei a estudar inglês, não escrevi um livro, não tirei carteira, não ganhei na loteria, não conquistei o coração de ninguém.

Eu poderia chamar a lista de frustração ou transformar, novamente, todo esse pacote em meta...No entanto, decidi jogar fora. Parar de esperar que eu vá ser perfeita, que as coisas irão surgir por merecimento. Parar de olhar para os tempos difíceis com raiva e os incríveis com nostalgia.

Nesse estranho 21 de dezembro tão malfadado ao fim do mundo, eu vejo os dias que virão sem tons cinzentos ou fluorescentes. Terei que ter saúde e disposição para um novo trabalho. Seguirei exercitando a paciência para lidar com aquilo que preciso e desprendimento para tudo que não está em minhas mãos. Nas horas vagas, vou sair para dançar, vou preparar um suflê, vou ligar para um amigo apenas para dizer o quanto ele me faz feliz, cuidarei do meu lar...bem, serei eu com a esperança renovada na marra, as astromélias no vaso às sextas.

Então eu vou ali, porém não quero deixar de agradecer, que é mais legal que pedir qualquer coisa, àqueles que seguem comigo de mãos dadas e todo sentimento do mundo (" minhas lembranças escorrem/ e o corpo transgride/ na confluência do amor". Carlos Drummond de Andrade, claro, e sempre).




quinta-feira, dezembro 20, 2012

Álvaro de Campos

quarta-feira, dezembro 19, 2012

Desconstruindo Mutantes

Calor insuportável, desses de delirar. Eu, meu caderninho em minutos de pausa, nas primeiras horas do dia. Lembrei-me de "Baby", dos Mutantes e escrevi a bobagenzinha abaixo, que transcrevo para apenas não perder.

Está decidido: vou comprar um biquíni
Para que você possa me chamar para a piscina
E farei com que nem queira saber de gasolina ou Carolina
Você só  precisa saber de mim
Baby, há quanto tempo...
Também vou tomar um sorvete na lanchonete
Mas você não precisa ir, se não quiser.
Nem mesmo terá ouvir aquela canção do Roberto
Para mim tá tudo certo, baby
Você só precisa saber de mim.




segunda-feira, dezembro 17, 2012

Ainda a impossibilidade



Todo dia a impossibilidade nos atravessa de algum modo. Hoje a mulher que saiu de casa para visitar a família, comprar presentes de natal ou ir ao cinema sofreu um acidente. Seu carro derrapou e ela morreu na hora. Também o garoto, que jogava futebol com os amigos. Ele sonhava ser um craque, no entanto, olhou para os olhos dela. E seu coração parou de bater.


"Não é possível completar sua chamada", diz a voz metálica do outro lado do telefone. "Desculpe, senhora, não foi possível localizar um carro para te atender", completou a atendente da cooperativa de táxi. Não teve jeito da espuma do meu cappuccino italiano vir espessa naquela padaria chique e também o encontro foi desmarcado.


Então tem hora que é melhor não insistir. Saber recuar, parar de pensar simplesmente. Parar de ligar, ir para a rua pegar o tal táxi, beber um chá e não remarcar. A impossibilidade sempre esteve rondando nos últimos tempos, seja por conjunção astrológica, ciclos a serem encerrados ou azar mesmo. Eu inclusive, num contexto bem diferente, escrevi sobre uma de suas facetas em agosto de 2011. Para lembrar, basta clicar.






Desse substantivo feminino composto por 15 letras, com 4 vogais e 6 consoantes derivam sensações incômodas e perguntas sem respostas convincentes. Ao menos para mim que, insistente, no fundo acredito naquele refrão do Roy Orbison ("anything you want, you gotta it"). Quem sabe na próxima.  








segunda-feira, dezembro 10, 2012

Um cappuccino morno

Um cappuccino morno. Nada poderia ser pior. O dia estava estranho e ainda choveu. E eu não gosto de chuva, de sol escaldante, dessa combinação veraneia. Sei que a natureza tem ciclos, blá blá blá. Mas invejo os pássaros que voam atrás do clima que consideram mais agradável.

Um cappuccino morno. Não era italiano. Umas pelotas de leite em pó, café solúvel e achocolatado. Eu ilhada naquele café ordinário pensando que a vida não poderia ser como aquele cappuccino. Estava melado, quase transbordando na xícara. A atendente fria provavelmente o esquentaria no micro-ondas, caso eu me valesse da máxima "o cliente tem sempre razão".

Um cappuccino morno. Era preciso fumegar, me esquentar e até quase me queimar...não tenho problemas em ferir a língua. Com um bebida quente ou um beijo demorado e rasgado. Não sou de selinho, não acredito nesse hype. Não sei viver de maneira morna, essa coisa meio Leila Pinheiro cantando: afinadinha, pero non Maria Bethânia. Vá ser abelha rainha na vida e faz de mim um instrumento de seu prazer.

Um cappuccino morno, uma tarde vazia, uma vontade de fim de mundo diante do que é mais ou menos, preguiçoso, pela metade, nem oito, nem oitenta, cheio de medinhos ou não me toques. Nada morno, a não ser um banho antes de dormir, serve para mim. Pago a conta e nem abro a sombrinha. Deixo as gotas geladas me ensoparem. Ao menos, os tais deuses da chuva sabem dosar quando querem.




domingo, dezembro 09, 2012

Cuatro Caminos

Eis que surge o bom e velho impasse.
Eis que você quer estrear na modalidade prática e racional.
Eis que você procura resposta nos seus oráculos, nos tempos passados, no que um dia deu errado.
Eis que você faz um verdadeiro plebiscito: qual o conselho da amiga que não é impulsiva? Alô, alô amigo marciano, aqui em fala é da Terra, me ajuda a resolver essa guerra?
Eis que você percebe que isso tudo daria o nome de um disco do Café Tacvba: Cuatro Caminos. Por qual seguir?
Melhor colocar a música para tocar.
Melhor esperar que passe, impasse.
Ou, pelo menos por hoje, fingir que ele não está diante de mim.


sexta-feira, novembro 30, 2012

Não conta para ninguém

As coisas não vão bem: o relacionamento está ruindo, há mais dúvidas do que certezas sobre suas escolhas ou emprego não satisfaz e o que você faz? Divaga na terapia, aluga os ouvidos dos amigos, se acaba na cachaça. Tristeza e  frustração são menos quietos do que parecem. Conheço mais canções sobre dor de cotovelo do que as que tratam da felicidade, de um novo amor.

Mas se você comprou um apartamento, recebeu uma promoção, vai passar um mês em Edimburgo ou se apaixonou é hora de se filiar ao Clube Silêncio...No hay banda. Por que? Reza o velho conselho de Jorge Ben que prudência, dinheiro no bolso e canja de galinha não fazem mal a ninguém. As palavras são medidas na iminência da conquista. Você convida para o "open house" quando está com a chave do apartamento na mão, paga uma rodada de cerveja quando o acréscimo caiu na conta corrente, dá detalhes da aventura no outro continente na volta e só confirma que o coração vai bem obrigada quando o tal status se transforma.

Então, as pessoas se acostumam com o mundo mais triste e miserável. Com histórias que começaram bonitas e um dia viram histéricas e sem tesão; acham normal muita ralação e pouco dinheiro e o eterno "ser ou não ser" da questão uma grande frescura. Lamentar é tão fácil e automático que outro dia uma amiga me agradeceu por eu ter lembrado dela ao contar um episódio que me deixou bastante alegre.

Pactos com o contentamento são extremamente solitários. Pois os  "outros" - que na verdade somos nós, todos nós - pensam que não existiu uma verdadeira odisseia até que se chegasse a um destino satisfatório. Todo caminho tem muitas pedras e um espertinho para dizer que as de fulano nem eram tão tortuosas quanto as dele. Há um orgulho de medir e quantificar esses pesos...Pois eu tenho total desapego em relação ao meu sofrimento. Ele serve para eu ter aprendido, não o quero de volta.

Diante daquilo que vem me acontecendo de bom, que eu tenho vontade de contar até para o padeiro da esquina,  no entanto, procuro me conter. Escolho as pessoas certas para saber de antemão, uma vez que é difícil segurar meus sorrisos fáceis. Sei que torcem por mim, como eu torço por elas. E são poucas e boas mesmo. Se esse pedacinho de alegria se desfizer, poderei contar com elas. Afinal, seremos nós que planejaremos outras porções da melhor coisa que existe.





segunda-feira, novembro 26, 2012

Carta para alguém bem perto

Querido amigo,

Não sei se você gosta da Fernanda Young. Eu dei uma surrupiada no título de um livro dela para nomear esse post (que nem é um post). Acho que, como eu, você talvez pudesse eleger como preferido o "Vergonha dos Pés". O que eu penso da escritora agora não é diferente do que muita gente pensa...e nem quero ficar falando de Fernanda Young, faça-me o favor.

Eu queria escrever uma carta para você. À mão seria um completo garrancho. Tão pouco uso a máquina do meu avô. Não tenho impressora e a telepatia ainda não chegou ao nível desejado. Como eu sei que passará por aqui, não precisamos de correio.

Seu presente está comigo há meses e sinto saudade das nossas conversas literárias, dos planos - ao menos, os meus - de jogar tudo para o alto e viver uma temporada Kerouac. Sinto mais falta, confesso, da cerveja no copo lagoinha, numa noite qualquer. Por que começamos a descombinar mesmo?

Eu queria escrever algumas cartas para você, queria ter tempo para isso. Ou não. Meus livros de cartas entre escritores revelam intervalos inacreditáveis. Não somos como Clarice e Fernando. Somos como naquela música da Tulipa: eu sou assim e você assim, assim.

Esse "farway, so close" é engraçado porque eu fico lendo coisas suas que a gente não conversa e você faz o mesmo. E é como se conversássemos exatamente sobre isso que eu vivo ou que você sente na pele. Aí, a gente nem precisa falar, mas seria transgressor se mantivéssemos correspondências. Só para irritar esses tempos SMS.

Fica o convite

Cordialmente,

Ludmila



quarta-feira, novembro 21, 2012

Do Extraordinário

Houve um tempo em que se acreditava que tudo seria extraordinário um dia. E nesse tempo era comum usar a expressão "quando eu crescer" para validar a convicção.

A vida adulta parecia fantástica. Dormir tarde, almoçar na hora que fosse conveniente, não pedir para os pais a assinatura naquele boletim com notas vermelhas em exatas.

No início da vida adulta, acredita-se ainda numa dose de "extraordinariedade": o primeiro emprego, a chance de passar uma temporada fora do país, aquele amor de tirar o fôlego cujo desejo de eternidade insiste ou quando extraordinário aquieta (e espera-se um fim tranquilo).

Extraordinário vai virando extra-ordinário em meados da vida adulta: aquele gasto não planejado que bagunçou as finanças, uma doença na família, a pressão absurda no trabalho...então, há um desejo de que tudo seja ordinário, sem susto, sem trauma, sem solavancos.

Ordinário vira quase um mantra. No entanto, você se conhece desde aquela faísca da infância e se pergunta: depois de querer tudo ordinário, como vislumbrar a possibilidade? Como achar que haverá frio na barriga, viagem inesquecível ou viver de escrever?

E a noite cai, a grande ideia não chegou. No relógio é hora de dormir. E a inspiração não vem, nem de madrugada. E de manhãzinha é preciso tomar muito café para dar conta do expediente. E dar um jeito de passar no banco, ligar para a amiga que há dias combinou um encontro. Algo sempre vai faltar no percurso ordinário.

No meu caso, sempre falta. Eu fico procurando "extraordinariedades" escondidas, assim como procurava ovinhos de chocolate que minha mãe espalhava pela casa na Páscoa.



quinta-feira, novembro 08, 2012

Novembro é para se desacreditar

Desculpe, mas novembro não me desce. Ainda que eu tenha amigos incríveis que festejem seus aniversários, dois feriados (no meu caso, invariavelmente, um) e 30 dias (prefiro meses menores), ele traz algumas crises existenciais, culpas cristãs e auto-análises rígidas. Nem é preciso que venha o seu sucessor para se fechar para balanço. Até porque o tal último mês do calendário é aquele turbilhão de eventos esperados e indesejados. Não se pode respirar em dezembro.

O que resta é usar novembro como um espelho. A meta dos três quilos a menos não foi cumprida, tão pouco a de frequentar a academia com regularidade. Também não foram reduzidas as as taças de vinho, bem como palavras impensadas. A cada ano, pelo cansaço, pela correria, pela letargia, pela agonia, não foram lidos uns quatro livros por mês. Houve pausas significativas. O mesmo aconteceu com as sessões semanais de cinema. E ainda atravessaram-se os dias e meses em que aquela combinação de receber em casa pessoas queridas não passou de conversa fiada.

Novembro é para ver que as previsões falharam. O tarot, a astrologia, o I ching, a cabala, aquela cartomante picareta que te arrancou cem reais...todos mentiram. Ou você conseguiu ser tão azarado que não teve sorte no jogo e nem no amor. Novembro não irá te dar mega-sena acumulada ou uma ligação do Mark Ruffalo. Novembro é o caminho oposto de Elizabethown. Nada acontece. E isso não é um ataque de fúria contra o 11, no meu caso, é constatação.

Não acredito em novembro. Faço todo dia, tudo sempre igual em novembro. Não corro atrás de tempo perdido em novembro. Tento não surtar em novembro.

E faltam menos de 22 dias...



domingo, novembro 04, 2012

Sobre o valor que se dá ao que se perdeu

Foi-se o dia de finados e eu não o usei para me lembrar dos que partiram. Minha vida e meus mortos têm caminhos tortos. E as ausências são sentidas sem data no calendário.

Morreu essa semana o Jornal da Tarde (JT) onde trabalhei durante um ano e meio. Foi um período de muita coisa: aprendizado, adaptação e descobertas. Talvez seja o lugar mais importante em que estive, não porque pertencesse ao Grupo Estado ou estivesse em São Paulo.

Foi importante, pois no JT entendi que estudei jornalismo com a finalidade de escrever (e eu, fominha, sempre queria um paginão só para mim). Poderia ter sido letras? Sim, mas eu também adoro entrevistar, de modo que o jornal me parecia a união de tudo isso e algo mais.

Das primeiras lições assimiladas no JT: minha escrita deveria ser mais fluida, meu humor poderia fazer parte do pacote e isso até derrubaria, se necessário, a estrutura que seguimos à risca do "quem", "quando", "onde", "como", "por que" e "o que".

Conversei com artistas de todos os cantos do mundo (de Anish Kapoor a Franz Ferdinand), passava ao menos oito horas por semana assistindo a filmes, com a finalidade de escrever sobre eles, e até as pautas que pouco combinavam comigo, como as de TV, cumpri de um jeito diferente. Numa novela do Manoel Carlos, por exemplo, a matéria era em forma do poema "Quadrilha", de Carlos Drummond de Andrade.

Havia a parte ruim, que os paulistanos chamam de holerite e aqui em Belo Horizonte tratamos como salário. Na verdade, uma parte inerente à profissão. Uma parte da qual iremos reclamar a vida inteira. E reclamar é um talento peculiar de jornalista. Tanto que passei esse período do JT não só reclamando como correndo atrás de freelas que me proporcionassem um pouco de conforto (e a verdade é que quando o conforto financeiro surge, perdem-se algumas alegrias bobas como a pizza do fechamento,  a cervejinha na praça Roosevelt, aquele rebolado).

Tive dois chefes bem diferentes no Variedades e aprendi bastante com ambos sobre liberdade e respeito, essencialmente falando. O mais incrível é que alguns colegas de redação viraram amigos queridos, desses que parecem que vi ontem, mesmo que se tenham passado meses ou anos.

Nunca ganhei individualmente um prêmio de jornalismo e, para falar a verdade, não me esforço para isso. Gosto dos reconhecimentos em equipe - dos tempos de Agenda, na Rede Minas, até agora  - porque eles rendem brindes em botecos, lembranças boas ou ruins para carregar para onde quer que eu vá.

Logo eu que sempre quis voltar (estranhamente, nunca fui do tipo que voltou para um ex-amor ou um ex-emprego)...Definitivamente, o JT me transformou.

Segue a vida, segue o jornalismo e o ciclo para ser concluído. Saudades, ainda mais de você, JT...


segunda-feira, outubro 29, 2012

Everything in its right place

Faz muito tempo. Eu tinha onze anos. Meu sonho era morar sozinha. Pré-adolescente bocó, eu me sentia fora do lugar. Queria ir para a escola de ônibus, mas tinha que ir junto com minha irmã no especial, em minha concepção, lotado de "pirralhos". Enfim, eu já era meio chatinha. Melhorei em certos aspectos, piorei em outros e me mantive fiel à convicções traçadas na maternidade.

Demorou para eu morar sozinha. Vinte e oito anos ouvindo "não sou sócia da Cemig" (porém eu entendo nesse momento o desespero da conta alta). Daí vieram dois roomates, um casamento, novamente casa da minha mãe após a separação, mais uma roomate, outra volta e...voilá! "A casa é sua/ Por que não chega agora?/ Até o teto tá de ponta-cabeça/ Porque você demora?"

Na verdade...Adoro a música, deixaria esse alguém chegar nesse minuto. Ficar, habitar é outra coisa. Devo admitir: acho que não sei mais dividir meu espaço, minhas manias, minhas loucuras a não ser com Alice, minha gata. Não é egoísmo, é auto-preservação.

Está tudo no lugar certo, mesmo que em dias pré-Cida de quase caos. Nesse lugar estou como quero, com minha pilha de livros na cabeceira. Minha garrafa de vinho aberta em plena quarta, meu CD do Radiohead tocando inúmeras vezes, meu buquê de flores comprado às sextas. Eu vejo o mesmo seriado (e choro), o mesmo filme (e choro) sem passar por canais de esporte. Acordo e limito-me a uma salada de frutas ou troco o jantar por uma cervejinha com tira-gosto.

É muito antagonismo para ser aceito como algo encantador. Ainda assim, decidi que minha liberdade foi conquistada com muito esforço, o que implica em nem sempre ceder ou agradar, em ter o direito de ir e vir sem ser questionada. O pacote também inclui generosidade e discrição.  Perguntas como: "quanto você gastou nesse creme anti-sinais?" ou "para que flor de sal, se existe sal?" são irrelevantes. Fred Astaire, por exemplo, não as faria. Melhor dançar comigo.




domingo, outubro 14, 2012

Basta eu encontrar você no caminho

São planos bobos que faço para quando você chegar. Algo como voltar a usar minha batedeira para preparar suflês numa terça-feira qualquer ou sair do pacote básico da TV a cabo para passarmos a tarde de domingo disputando o controle remoto. Desapegar-me dos vários vestidos e deixar uma gaveta livre, caso você queira e até assistir no cinema, sem fazer biquinho, a aquele filme de ação que você descreveu com olhos de luzes de natal.

Semanas atrás, entrei numa agência de turismo decidida a comprar um pacote para o tal réveillon de que tanto tenho pavor. Por instantes, o fato de não achar nenhuma viagem boa o suficiente - porque ano novo tem aquele punhado de rituais cansativos e um sambão na linha "viver e não ter a vergonha de ser feliz" ao final - me pareceu um sinal de que você chegaria para me tirar desse tipo de cilada. Olhei para a porta e não tinha ninguém.

Confesso que ando meio desanimada trafegando por "desinteressâncias" e "semgracezas" que se apresentaram nos últimos tempos. Ficou difícil te enxergar nessa confusão. Se passou por mim, volte. Se eu não te conhecer ainda, diga que leu essa mensagem. Pois eu sou de planos bobos, de festas surpresas, de carinho nas costas e de tantas pequenas doçuras-travessuras que podemos descobrir quando houver eu e você. 


Desse tumblr bacana aqui

segunda-feira, outubro 08, 2012

Melancolia

Eu criei esse espaço para me repetir de vez em quando...toda vez que eu quiser. Há 58 seguidores na lateral direita, mas às vezes prefiro pensar que não escrevo nem para mim e o porquê publicar é tão contraditório quanto igual à tudo na vida.

Ando pensando nesses tempos eufóricos. A eleição, a final do futebol, as "timelines" das redes sociais e tudo que tem que ser no peito, na raça, no grito, em plenos pulmões. E se eu quiser ficar quieta?  Eu, logo eu, que falo pelos cotovelos? Posso apenas votar, esquecer a decepção do meu time e postar uma música bem triste no Facebook sem ser questionada por tanta gente barulhenta, metida a engajada, torcedora incondicional e pseudo feliz?

Os tempos eufóricos são difíceis para quem tem a melancolia circulando nas veias.

Melancolia = essas manchas roxas que surgem não sei da onde na minha pele. A vontade de seguir deitada na cama olhando para o teto por horas a fio. E não, não preciso derramar uma lágrima. Isso é outra coisa.

Devia ser um direito poder faltar ao trabalho porque não se quer sair da bolha. Cadê meu atestado? Aonde assino?

E não sai de mim, não sai de mim, não sai.

Explicações desde a bossa do Tom Jobim ao movimento de Saturno milimetricamente calculado pela astrologia. E por que raios não consigo não ser arrastada por essa multidão?

Deixem-me com minha taça de vinho, a minha canção deprê no repeat e, especialmente, meu silêncio...

Ao menos até as manchas sumirem por completo.


sábado, outubro 06, 2012

Sobre realidades e cigarros



Seria muito oportuno acender um cigarro neste momento. Mas eu não fumo. Não há tragada para contemplar a noite vazia ao meu redor, para acompanhar uma dose de Jack Daniels ou para ser parte de um ritual entre amantes.

Seria urgente entrar na minha própria ficção. Observar o céu ao invés do relógio, esse eterno monitor da tal hora de dormir, que nunca vem fácil. Uma dose cairia bem, no entanto bebo um refrigerante zero caloria, sem cafeína para colaborar com o relógio supracitado. A cama está arrumada, impecável e esperando apenas por mim.

Seria excelente não ter o dia seguinte com as perspectivas que se apresentam. A improbabilidade do cigarro, portanto, faz todo o sentido.

segunda-feira, setembro 24, 2012

What if...

...e se eu publicasse aqui aqueles arquivos que salvo em "documentos"?
 ...e se eu deixasse de lado essa outra eu que conta até trinta para não dizer um punhado de verdades?
 ...e se nesse ano eleitoral eu, enfim, admitisse que sou um bom partido?
 ...e se eu tivesse dito para aquele moço o que estava engasgado?
Ou melhor...
...e se eu o beijasse?
 ...e se eu confessasse tudo sobre mim na terapia?
 ...e se eu ficasse offline uns dias?
 ...e se eu me desprendesse de tudo e fosse viver em Butão?
 ...e se eu entrasse no banco para pedir um super empréstimo milionário? Eu sumiria do mapa? Eu gastaria tudo em bolsas e sapatos? Eu rasgaria as notas de cem?
 ...e se eu não tivesse feito aquela escolha?
 ...e se eu ainda fosse loira, ruiva ou tivesse o cabelo verde?
 ...e se eu ainda acreditasse na esquerda, no Cruzeiro e no amor, na vida após a morte, na palavra das pessoas, na dieta milagrosa, na previsão da taróloga?
 O que seria de mim?
 O que seria de ti?

segunda-feira, setembro 17, 2012

Simplesmente Alice

Faz um tempo que eu devia uma poesia, um post ou qualquer homenagem mais explícita a ela. É que a dor de perder o Tétinho ainda não passou. Nós duas ainda sentimos a falta dele, ainda o procuramos pela casa. Ele era nosso lord gato, exuberante e doce. Nós duas somos falantes, meio loucas e estamos nos ajustando. Tanto a nós mesmas quanto às ausências. Por isso dormimos grudadas. Viro e mexo e lá está ela, com a patinha colada no meu braço, fazendo carinho, dando lambidinhas com a língua áspera como uma lixa.

Alice.
O nome foi em homenagem ao Alice in Chains, que eu amava nos anos 90. Já havia o Téti e uma imensa crise conjugal, o prenúncio da separação. Só eu a queria. Era pequena, meu negro amor. Temeu os primeiros dias na casa nova dominada pelo persa mimado. Tétinho, esse por quem ainda nossos corações se apertam.

Alice venceu o "this is a man's world". Impôs seu miado agudo, seu jeito malandro vira-lata como a gata cantada pela Nara em "Os Saltimbancos". Perdeu a casa mais de uma vez, e nunca teve dúvidas sobre quem era, afinal, sua mãe. E ainda dizem que felinos são interesseiros...

Ela pula no meu colo todas as noites, quando chego exausta. Espera que todo o ritual seja cumprido (colocar mais ração, mais água, limpar a brita, tomar banho, passar os mil cremes no rosto e corpo, pegar as revistas e livros que irão para a cama, desligar as luzes, acender o abajur, chamá-la). E faz charme até o último momento, pois não é facinha...não, não mesmo.

De madrugada, em toda minha agitação durante o sono, Alice pode até dar umas voltas pela casa, contudo - e invariavelmente- acordará ao meu lado, odiando a ideia de eu levantar da cama. E vai comigo ao banheiro, à cozinha quando eu vou beber água no modo quase sonâmbulo. Pula novamente na cama e tenta impedir a arrumação, como se fosse uma estratégia bem bolada para eu não trabalhar.

No café, fica louca, pois ama manhãs com peito de peru e iogurte. Fica brava quando o menu é cereal ou café preto, sem complementos compartilháveis.

Entra no armário e se esconde, já num instante inconveniente. "Alice, cadê você?". Não suportaria ficar sem minha pretinha. E, num misto de amor e raiva (sempre estou super atrasada quando ela some), eu a procuro em todos os cantinhos.

Alice ouve as minhas abobrinhas, me vê dançando de calcinha pela casa, põe a cabecinha no meu ombro quando acho que estou chorando sozinha. Alice me observa tomando banho, acompanha o passo-a-passo da maquiagem pré-balada (com direito a dar sumiço em pincéis), lê jornal comigo (deitando em cima da parte que me interessa), reclama quando eu coloco a música no repeat, detesta internet, TV a cabo e qualquer coisa que me distraia, pois ela é a estrela.

Na verdade, ela é minha constelação, meu amorzinho, minha panterinha, meu bebê, minha filhinha. Sei que o mundo torce o nariz para quem acha que cães e gatos são da família, porém desde a chegada de Tétinho em minha vida tudo mudou. Ou, talvez, porque eu seja parte desse artigo e o meu lado maternal foi canalizado para eles, Téti e Alice. Não sei se terei filhos. Gostaria, claro. No entanto, parei de sofrer com isso... Então, brinco com minha filha de quatro patas, que mia como louca, destrói meu sofá, ama meus dias de folga e ainda dorme de conchinha (e olha que eu nem gosto, me sufoca. Mas Alice pode. Alice pode quase tudo). Ao menos para Alice, eu simplesmente sou o máximo.




segunda-feira, setembro 10, 2012

Do que morrem os jornalistas?

Fiquei comovida com o texto abaixo. Não sei porquê o jornalismo ainda me comove...


VIDA E MORTE...
...de um jornalista chamado Anselmo
Por Magda Almeida

De que morrem os jornalistas no Brasil? Dizem alguns estudiosos que as doenças cardiovasculares e o câncer vêm prevalecendo nos últimos anos. Mas há alguns subprodutos, como o álcool e as drogas, que ajudariam a aumentar essas estatísticas. Não chega a ser uma grande novidade, se lembrarmos dos muitos que já se foram em décadas passadas e nas mais recentes por alguma dessas razões acima. O que esses estudiosos pouco ou nada falam é de algo que costuma estar na raiz de muitas falências físicas e emocionais que vitimizam centenas de jornalistas vida afora: a solidão e tudo que vem com ela. Há especialistas que já a incluem no rol das causas dos males citados.

Em meus 47 anos de Redação, vi e ouvi de tudo, provei de todos os venenos, experimentei todas as dores alheias, as vividas e as ouvidas. Mas uma me fez repensar –em uma noite não muito remota – a profissão, seus ideais, suas contradições e os seus profissionais. Essa experiência tem nome: Anselmo de Souza, ou o que dele sobrou.


Saíra da redação da Sucursal Rio do Estado de S.Paulo, à época instalada na Rua da Quitanda, às carreiras. Precisava chegar à Praça 15 a tempo de tomar a barca das 22 horas que me levaria à Ilha do Governador, onde morava. Já me aproximava da bilheteria quando ouvi meu nome. Era quase um sussurro. Olhei em volta e o único humano mais próximo era um mendigo, um entre tantos outros que aproveitavam a noite para dormir sob as marquises do comércio local. Não podia ser nenhum deles, pensei. Mas quem me chamava?

E, então, ele se aproximou. Um monte de trapo, mal se equilibrando sobre um cabo de vassoura, cabelo e barba imundos e crescidos, cheiro insuportável. Uma das pernas permaneceu levantada e mostrava um curativo velho e sujo. Trazia na mão uma lata vazia de leite Ninho, que escondeu quando parei. Perguntou se eu não o reconhecia. Não, eu não o estava reconhecendo. Quem era? Eu tinha alguns trocados, lhe disse, já abrindo a bolsinha de moedas, mas estava com pressa. Não queria perder a barca. E aí, o mundo à minha volta como que congelou: “Sou o Anselmo, que trabalhou com você no Jornal do Brasil...”

Bolsa integral

Anselmo chegou à redação do Jornal do Brasil, então na mítica Avenida Rio Branco da década de 1960, recomendado por um professor do curso de jornalismo da PUC, onde era bolsista. Negro, pobre, morador da periferia, queria muito ser jornalista. Gostava de escrever, era safo na velha Olivetti, tinha um bom texto e a curiosidade necessária para aprender e crescer. Era o seu discurso. Não chegava a ser demasiadamente tímido, mas reservava-se para poucos.

José Gonçalves Fontes, nosso saudoso chefe de reportagem, rapidamente simpatizou com aquele estagiário e logo o entregava a mim, para orientá-lo nas rotinas da redação. Anselmo usava sempre o mesmo amassado terno, o único que tinha e que não tirava nunca, mesmo tendo permissão para vestir-se mais informalmente.

O tempo me mostrou que Anselmo era talentoso, mas esse mesmo tempo também me fez perceber que gostava de beber. Na verdade, era alcoólatra. Não era o único naquela redação e em muitas outras pelo país afora, mas eu temia que, tanto quanto o álcool, alguma coisa a mais o tornaria vítima do mais infame bullying que eu já vira praticado contra alguém... dentro de um jornal. E já vira muitos.

A barca chegou, foi embora e eu fiquei. Buscamos um banco ali por perto e ouvi sua história ou o que dela ele ainda se lembrava. Não conhecera seus pais, fora adotado por uma tia e cresceu correndo atrás da familia biológica, que nunca encontrou. Na juventude, aprendera a ler e a escrever com a ajuda de uma professora para quem fazia pequenos serviços domésticos. Foi arrumando a biblioteca de um escritor famoso que conheceu o prazer da leitura dos jornais e dos livros.

Nunca se casara, namorara pouco, era reconhecidamente um solitário. Mas queria muito ser jornalista. Conseguiu terminar o segundo grau, passou no ainda fácil vestibular para a PUC e, melhor ainda, deram-lhe uma bolsa integral. Trabalhar num grande jornal não era apenas o sonho da elite intelectual de então. Anselmo, negro, pobre, de pais desconhecidos, também sonhava com isso.

Martírio e esperança

O nome hoje é bullying, mas pode-se chamá-lo por vários outros nomes, alguns aqui impublicáveis. Dizem os psicanalistas que é coisa de criança e adolescentes, geralmente. Nem sempre. A maldade humana nunca conheceu seus próprios limites, atestam a História e o que dela se conhece. Muitas vezes, corri atrás de Anselmo, para tirar de suas costas bilhetes maldosos ali pregados e que ele corria o risco de levar para a rua. Disfarçava, dizendo que estava tirando pó do casaco. Ele ria, mas acreditava ou fingia que.

Vez por outra, mandavam-no à sala dos copidesques, sob pretexto que estava sendo ali chamado. Território proibido para os não iniciados, era corrido de lá de forma humilhante. Um dia descobri porque chegava todo amassado à redação: dormia na rua, em qualquer banco, em qualquer praça. Tomava banho no próprio jornal, usando o banheiro do pessoal da limpeza. Com o tempo percebi que, à medida que as “brincadeiras” aumentavam, aumentava, também, o imenso sentimento de rejeição que o atormentava, traduzido nas piadas e nas maldades miúdas cada vez mais criativas.

Algumas vezes tinha que ir buscá-lo no Simpatia, um bar das proximidades, muito frequentado pela galera das redações localizadas no centro da cidade. Os rapazes da limpeza o empurravam chuveiro abaixo, enquanto eu e Fontes providenciávamos um reforçado café. Em algumas situações não o deixava chegar à redação, só pioraria seu estado emocional. Devolvia-o ao mundo. Um dia sumiu.

O tempo passou, a madrugada chegou, a família se apavorou porque eu não chegava. Marido e filha já me procuravam, temendo o pior. Mas lá estava eu, ouvindo o que para todos era uma esquisita conversa entre uma provável maluca e um mendigo. Anselmo não suportara a vida como ela se apresentava naquela conturbada década de 1960. Fora humilhado acima do que lhe seria suportável, descobrira que não tinha estrutura emocional para tanto. O esforço de alguns poucos também não fora suficiente para ajudá-lo. O passado estava sempre presente; o álcool, sua única droga, era seu principal alento. Comia o que lhe davam, quando lhe davam. Conhecera a poesia e, quando não estava com sua latinha em busca de alguns trocados pelas ruas do centro da cidade, sentava no banco e escrevia.

Pedi para ver. Ele tirou de um envelope, que um dia fora branco, um punhado de papéis com alguns incompreensíveis garranchos escritos a lápis. Não deixou que eu levasse. Eram garranchos, ele reconhecida, mas era tudo que sobrara de uma época em que o martírio se juntou à esperança. Venceu o primeiro.

O que faz a diferença

Anselmo morreu e foi enterrado como indigente. Ainda o procurei lá pela Praça 15 e arredores, mas nunca mais o encontrei. Soube pelos outros mendigos da área que havia morrido e estava enterrado, provavelmente, em um cemitério localizado em Ricardo Albuquerque, subúrbio da Zona Oeste do Rio, e único em todo o estado voltado para o sepultamento de indigentes e de cadáveres produzidos pela polícia. Sofria de diabetes em grau elevado, que nunca tratou. Quando ainda estava no JB, várias vezes lhe perguntei a quem deveria procurar, caso adoecesse. Fugia da resposta, como se o assunto fosse um doloroso tabu.

Infelizmente, casos como o do Anselmo não são raros em nossas redações, embora o dele tenha sido o mais trágico, pela forma como era humilhado publicamente. Meus heróis eram de barro e Anselmo, entre outros, me mostrou isso. Também não foi o único que socorri em situação desesperadora. E nem sempre o álcool foi o maior problema. A droga fez muitas vítimas também. A Aids levou amigos e colegas queridos. Que tipo de ajuda poderiam receber de seus próprios pares e das empresas onde trabalhavam? Muita, mas eram ignorados, além de ridicularizados. Faziam parte, como numa espécie de catarse coletiva, daquela porção folclórica das redações.

Por que nada se publica a respeito? De que e de quem temos medo? Por que essa blindagem em torno de uma realidade que ninguém desconhece? Para nos manter como heróis perante essa garotada desinformada que sai das universidades sem a menor noção para onde estão indo? Por que posamos de deuses, se não passamos de seres humanos fragilizados por um trabalho que, se numa ponta nos gratifica, na outra nos mata aos poucos?

O jornalismo brasileiro não precisa de heróis. Ele precisa, isso sim, de profissionais qualificados, éticos, menos comprometidos com a fama e mais com o bom sentimento do dever cumprido, em todos os níveis. Principalmente, mais coerentes com aqueles princípios que fazem a diferença entre os bons e os maus.

Ouvi de um grande brasileiro uma frase que marcou a minha vida em muitos sentidos: a gente conhece os bons não tanto pelo que fazem, mas justamente pelo que NÃO fazem.

segunda-feira, setembro 03, 2012

Um recadinho (ou desabafo)

Queria que isso se chamasse raiva. Ao menos seria alguma coisa. Não é nada, para mim nem faz cócegas mais, não me surpreende.
(e olha que eu ainda acho que a vida é curta demais para ser blasé).
Mas sem delongas, já deu: babaquice demais torna o sujeito de menos. E olha que podem sobrar zilhões de mulheres lindas por aqui, por aí ou em qualquer lugar. Problema mesmo envolvendo o gênero oposto é um só: qualidade. Quando é que dispensamos mesmo caráter, gentileza e atitude? Não se iludam, moços, ninguém aqui pediu para que esses atributos fossem embora junto com os sutiãs incinerados em praça pública.
Eu mesma colecionei durante uma gestação - de janeiro a setembro - casos que dariam para o Veríssimo escrever mais "Comédias da Vida Privada", se eu optasse pelo humor. Nelson Rodrigues também faria um "A Vida Como Ela É" para entrar no compasso da desilusão. E já que todo bolo possui sua cereja, tenho ouvido de amigas dos vinte e poucos aos quarenta relatos bizarros. Bizarros mesmo. De total descuido, insanidade e risco.
E diante disso, acho que quem está certo é o Laerte: façam sua própria revolução.
Ou façam terapia, façam amor.
Whatever works, já dizia Woody Allen.

segunda-feira, agosto 20, 2012

Dos rituais

São essas tantas coisas, esse quase nada que acontece.
As observações dos outros que, às vezes, sugerem que eles não tem vida própria para cuidar e se ocupam da minha.
A faixa no repeat, o vinho tinto, as lágrimas que insistem em sair depois de assistir a uma bobagem na tevê, ficar tomando sol na varanda num dia frio, perder a hora todos os dias, consultar o oráculo para saber se o amor um dia voltará, lembrar de tomar os glóbulos, a pílula, a vitamina...esquecer de ir ao banco, de ligar para a amiga, de comprar o maldito refil do aspirador de pó, de vender o iBook G4 que me pede para interromper scripts o tempo todo, mas que armazena os textos, as fotos e as canções (que eu queria que tivessem feito para mim).
Vontade de voltar a correr, de ter milhas para gastar em viagens, de pregar logo os quadros na parede, de ter outro gato persa, de não fazer nada um dia que seja (inclusive pensar, tomar decisões e passar corretivo nas olheiras).
Cultivo meu pequeno jardim de suculentas, separo o lixo, como vegetais orgânicos, tento ser tolerante, compro mais livros que sapatos, desejo "bom dia" até quando estou de mau humor, assino petições para libertarem o Assange, as meninas do Pussy Riot, torço pelos meus amigos mais do que pelo meu time (e sem comentários sobre ele), acendo incensos para purificar o ambiente, cedo lugar para velhinhos e me esforço para manter a leitura, a escrita e as contas em dia.
O que mais?


quarta-feira, agosto 15, 2012

Sobre a vontade de voltar a ser estrangeira

Caminhava na larga avenida onde ninguém me conhecia. Quadras e mais quadras. Nenhum "ei, você por aqui?". Entrava num cinema de galeria, sem me preocupar com o que estava em cartaz. Um café, CPF na nota, metrô e casa. Observava janelas com luzes acesas e quem as conservava assim alta noite.

Parece que foi ontem.

Vagar pela Liberdade e me sentir no Japão, na China, na Coreia...lost in translation. "Qual o preço dessa echarpe?"(sem resposta imediata). A vendedora conversava com o gerente que devia ser seu pai. Poderiam estar me xingando. Jamais saberia.

E as ruas arborizadas para se perder, os endereços que eram verdadeiros achados, o sorriso do outro quando eu soltava inadvertidamente um "uai". O brinde com amigos, a vida sem ninguém, as horas insanas de trabalho, o noitão da sala do HSBC...e assistir ao New Order em plena terça, ter um cara lindo oferendo um drink no balcão de um bar descolado, sentir-se numa canção do Ira!

Posso voltar? Aquela cidade ainda existe?

domingo, agosto 05, 2012

Pensamentos de um domingo qualquer

Quando olhar para aquela sua foto rindo ao lado dos seus amigos não me diz mais nada.
Quando aquela ruguinha na testa que eu vejo todos os dias pede uma providência.
Quando não faz diferença dormir do lado esquerdo ou direito.
Quando o corpo pede que eu me alongue.
Quando a mente insiste para eu não delongar nas minhas palavras.
Quando o diagnóstico da terapia sugere que eu me recolha.
Quando o coração, esse desacreditado, disparou pela última vez mesmo? Ah, sim. Na pista de cooper. Semana passada, num dia de quase sol, por volta das dez da manhã.

sábado, julho 28, 2012

You can close your eyes and never be alone

Me acho meio Caio F - apesar de as recorrentes referências a ele no mundo virtual sugerirem uma banalização - quando misturo minhas palavras, sentimentos e percepcões astrológicas...enfim.

Venho sentindo o caranguejo, a profundeza canceriana de maneira meio aguda nos últimos dias. O batidão por vezes é tanto, que transformo a música da Bebel Gilberto em mantra, fecho os olhos e me transporto para lugares do passado pontuados por um tipo de afeto que agora falta.

Essa semana foi aniversário da minha avó amada, que não está mais aqui. Mas eu voltei a dormir naquela cama ao lado dela e, em meio a madrugada insone, ouvi: "vira para o cantinho que você dorme". Respondi: "Vó, me conta uma história?". E fez-se o silêncio.

Também me peguei lendo sobre capitanias hereditárias e repassando o que aprendi para minha mãe, que chegava em casa exausta do trabalho, no entanto, em épocas de provas, fazia uma espécie de arguicão para eu tirar boas notas.

Das maiores lembranças foram os finais de semana no Miguelão, rindo com a Marianinha, a Manu e uma turma enorme, rodopiando na sala ao som de "Dancing Queen". Saudade dessa coisa telepática de amiga do peito. Estranho porque a gente já trabalhava e, de quebra, estudava. Contudo havia um tempo que não sei onde foi parar.

Acordo, leio o jornal, a internet, respondo os emails e quando me dou conta, estou atrasada. Almoço correndo, gasto dinheiro com táxi para ganhar minutos e diminuir o estresse. Recordo-me da Zélia Duncan, em seu último show, dizendo que só fazia sentido correr tanto se na chegada houvesse alguém te esperando.

Talvez eu ainda esteja no meio do percurso, talvez a minha chegada tenha eu, eu mesma e Irene. Ando sem a esperança desse alguém faz tempo, o que não me entristece profundamente: eu fecho os olhos e não estou sozinha. E, contrariando o resto da cancão com a parte do "eu vou rodar o mundo, mas aqui é o meu lugar". Eu sou sem-lugar, a exemplo do Caio F. Só não morei em tantas outras cidades ou países. Esse aí é outro capítulo.

segunda-feira, julho 23, 2012

Croniquetas

Da roda "Young Folks" (regada a vinho)

- Eu tenho resoluções de final de ano por semestre.
- Como assim?
- Ah, como eu não as cumpro nos primeiros meses do ano, jogo para julho em diante.
- E qual é sua resolução de segundo semestre?
- Não ficar com nenhum amigo meu.
- Imagina! Eu não tenho problema com isso, mas acho que tem um limite sabe? Suruba com amigo não dá.
- Nó...tenso.

Silêncio

- Ah, mas e se vocês tiverem amigos "surubentos" que não se importem com isso?
- Surubentos? Essa foi boa...bem, eu pulo.
- Hummm...eu também.

Após a sessão

Assisti ao "On the Road" e um lado meu saiu do cinema achando a própria vida completamente sem graça. Onde estavam as viagens sem destino, os amigos insanos, a busca incansável por poesia, o amor de tirar o fôlego??? Tomei um café, sem benzedrina, e pensei que não estou entre os loucos e os desajustados. Quem sabe rebelde, criadora de caso e aquela que vê as coisas de forma diferentes? Se eu vou mudar algo, nem sei. O mundo, certamente não.



No táxi

- Quero uma coroa bem bonita...ah moça, escreve uma homenagem legal dos amigos do ponto de táxi da Serra...não consigo pensar em nada. Sim, obrigado. Tchau.
- Bom dia. Eu vou para a Savassi.
- Desculpa a demora... é que um amigo nosso morreu, o Paulão, dono da bar. Você conheceu?
- Ah, sim. Morreu de quê?

Pausa para olhar para a câmera imaginária
Na verdade não conhecia, mas não queria ser antipática ainda mais num momento difícil.

- Ele estava numa festa, tomou uns goles a mais, sabe como é... Aí alguém o deixou em casa e ele caiu ao subir as escadas. Teve traumatismo craniano.
- Puxa, que triste.

E pensei: ainda bem que tenho elevador...
E me lembrei: claro que eu conheço o bar do Paulão! O clássico copo sujo que não tem um tira-gosto sequer e desde cedo reúne uns habituês meio estranhos.
E me repreendi: outro dia até quis tirar uma foto de um cartaz que havia ali para o Instagram. Bem intencionado era o Paulão, dono do buteco, que proibia "homens sem camisa" (considerando os tipos, ainda bem) no recinto.

sábado, julho 07, 2012

De uma saudade que sempre vem...

Eu também estou sentindo falta de mim...
Numa sessão de cinema, na mesa animada de bar com amigos que há muito não vejo, diante da manicure escolhendo um tom de vermelho para passar nas unhas.
Eu também acho que devia escrever mais, inventar uma nova receita para o almoço de domingo, cumprir certas promessas e não desistir daquele moço tão facilmente.
Não vi o novo do Woody Allen, abri uma cerveja para beber sozinha, preciso parar de adiar a ida ao salão.
Eu ando ocupada resolvendo miudezas, entraves: um pequeno desastre doméstico cá, uma burocracia de banco lá e...voilá! Acabou-se o tempo.
O tempo de ser aquela que acorda cedo, come maçã e vai correr. Aquela que grifa livros e suspira ao pensar em seu mundo imaginário, infinito particular. Aquela que lembra de regar as plantas, de comprar o catnip para a gatinha estressada, de retornar a ligação...e faz tanto tempo.
Faz tempo que não descubro uma banda nova, ganho um beijo bem dado, brinco com uma criança na praça, viajo, bato claras em neve, choro.
Sempre sinto saudade daquela que deixo de ser: quando sensível, durona. Quando disciplinada, pisando na areia. Quando workaholic, delirante.
Eterno ou isto ou aquilo.
Até quando, até sempre.

sábado, junho 23, 2012

Temporada de gripe

De vez em quando acho que para algumas coisas na vida sou que nem homem. Listo a incapacidade de lidar com a dor física nesse quesito. Quando contam sobre como foi um parto que demorou horas, costumo ficar horrorizada. E sou tão avessa ao desconforto que radicalizo: tirei os quatro sisos de uma vez, porém o dentista teve que chamar minha mãe para me dar a mão. Depois, claro, morri de vergonha do meu papelão e nem voltei no consultório.

Ficar doente me tira do sério. Não achar posição para dormir, ainda que sonolenta por conta dos remédios, sentir que tomei uma surra. Existem também agravantes como a minha neurose: desconfio do diagnóstico simples. Esse horror não pode ser uma gripe ou "virose" (clínico geral de pronto atendimento ama dizer que é virose. Nem sei para quê se deu ao trabalho de entrar na faculdade de medicina). Digo porque não há efeito instantâneo para os malditos remédios. Faço um coquetel com toda vitamina C possível e nada...é que o vírus já está lá fazendo a festa. Alguns dizem que o melhor é esperar e tomar água.

Repouso forçado. Nada pode ser tão anti-natural para mim do que ficar quieta. No final de semana que eu iria ao show do Marcelo Jeneci, ao teatro para ver "Estamira" e ao Natura Musical, usando o intervalo para fazer as malas para, enfim, mudar, me vejo caindo pelas tabelas. Perdi a apresentação de ontem, estou um zumbi hoje com o ingresso na mão. Só pode ser castigo por algo que se fiz, nem me lembro (aliás, o esquecimento, como no post abaixo, anda comigo. Ele e o fogo, igualzinho a música da Nação Zumbi).

Por fim, a gripe em particular tem poderes devastadores sobre mim. Ao contrário de toda humanidade, fico com um apetite de leão (e não deixo de sentir o gosto de nada porque a superdosagem de analgésicos não deixa) e me sinto a mais solitária das pessoas, levo a coroa "drama queen" de qualquer um. Não que não tenha colo, pois minha mãe sempre me dá. Tanto que quando eu era casada, fugi gripada para a casa dela para ser devidamente mimada e tomar canja de galinha. Entretanto, com um certo nojinho admito: faz falta ter um namorado para contaminar. Ficar debaixo das cobertas fungando juntos, acionar alarmes para a hora do próximo comprimido, saber que mesmo com o nariz de bambi e o pijama molambo, alguém me acha especial.

Minha sorte, enfim, é que gripes devastadoras são muito esporádicas em minha vida. Amém.


quinta-feira, junho 21, 2012

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

quanto mais vivo, escrevo, leio e pesquiso, mais tenho a sensação de que aquilo que se esquece é mais importante, para o indivíduo e para a coletividade, do que aquilo que se lembra. quando o que se esqueceu ressurge, por esforço mnemônico, por documentos buscados ou casualmente surgidos, por atos falhos ou por acaso simplesmente, revela-se mais sobre o presente do que tudo aquilo que dizemos, ou que nos esforçamos por lembrar.a psicanálise já tinha dito isso e explica o fenômeno com termos como recalque e repressão. mas, para além (ou aquém) disso, no plano linguístico e existencial, sinto (mais do que penso) que a memória é um depositário de esquecimentos, mais do que de lembranças. e que é no que se esquece que estão os cadinhos estalactíticos da poesia.

"Esquecimento", de Noemi Jaffe, do Quando Nada Está Acontecendo

Ou como diria o filósofo, "Abençoados os que esquecem, porque aproveitam até mesmo seus equívocos"( Friedrich Nietzsche)

sábado, junho 16, 2012

Sobre as madrugadas com ele

Foi quando, enfim, nos encontramos. E seu sorriso era o mesmo de quando tínhamos vinte e poucos, tanta pressa e muitos planos. Nossa conversa poderia ter durado mais do que algumas horas - ou seriam minutos? - dessa madrugada. Seu cabelo continua lindo, sem um único fio branco. E houvesse uma centena deles, não me importaria.

Passada aquela introdução diplomática sobre nossas viagens, escolhas e amores desfeitos, os assuntos eram plurais: você firme em suas posições, mas com uma doçura ácida que tanto me desconcerta. E mesmo que tenhamos falado sobre política, sobre a ausência de ambulantes vendendo balões coloridos nas ruas cidade e sobre aquela banda da qual agora não me lembro o nome, estar ali era tão bom quanto naquele dia, há mais de dez anos, no inferninho com o som alto.

Eu quis dizer que te vi no carnaval, com um tom de amarelo em sua alegria. No entanto, achei que não cabia me aproximar no meio da multidão, do calor e do alto das três latinhas de cerveja que eu havia bebido. "Você por aqui?" soaria meio ridículo.

Enfim, esse momento inesperado, um pouco nonsense - dada a circunstância - como tantos que espero subsequentes, entrou para a coleção das diversas coisas sobre você que quero desvendar. Mais uma vez, me apego a melhor lembrança que ficou entre o silêncio e quando (de novo) nos aproximamos. Fechei os olhos para me certificar se já não estavam assim.

Então, eu os abri. E despertei.

sexta-feira, junho 15, 2012

O bilhetinho

Eu nunca irei te dizer isso olhando nos olhos. Tão pouco você irá receber essas linhas um tanto inacabadas por e-mail, correio ou debaixo de sua porta num envelope branco sem remetente...

Se te assustei, se te aborreci, se nos tirei de um lugar especial, se me afastei, me desculpe. Eu não sou assim, mas estou.

E gostaria que houvesse um prazo de validade na embalagem... Para minha insensatez, para minha culpa, para o que não se pode remediar.

Essa minha insônia, esse meu receio de esbarrar com você amanhã ou depois de amanhã.

E vai acontecer. Irei sorrir mais estranha do que essa ficção sem roteiro ou diretor, pois da realidade pouco me lembro.

Não me queira mal.

Só ando um pouco perdida.

domingo, junho 10, 2012

Dos Fragmentos

Quando eu juntava frases, poemas, sonetos para te enviar.
Quando eu mesma brincava de escrever para você.
Quando bastava um sorriso seu para eu ganhar o dia.
Quando inventávamos nossos próprios rituais e roteiros.
Quando a gente tentava esticar os braços para tirar uma foto.
Quando tirávamos no par ou ímpar para decidir entre a pizza e o sushi.
Quando era domingo e você ia embora.
Quando a gente transformava a terça em sexta.
Quando meu coração disparava.
Quando a gente fazia as pazes.
Quando nos beijávamos pela manhã.
Quando eu encostava minha cabeça em seu ombro.
Quando você achava "bonitinhas" minhas estranhas manias.
Quando eu não ligava para seu moleton velho.
Quando eu dançava e você observava sério.
Quando morríamos de rir de uma bobagem.
Quando você me abraçava enquanto eu chorava, achando o mundo injusto.
Quando o nosso mundo nos bastava.
Quando a gente tirava uns dias de férias do outro. Forçadas ou voluntárias.
Quando você dizia que era eu.
Quando até doía essa coisa que eu sentia.
Quando eu achava que haveria o jardim, o crochê, a torta de maçã, eu contando histórias, você dormindo em frente a TV, os filhos, os netos, a morte...
Quando eu traçava planos para o final de semana, para o próximo ano, isso tudo deixou de ser.
Fragmentou-se o amor.
Despedaçaram-se essas lembranças do que fomos e do que não chegaremos a ser.
Tentei juntar caquinhos.
Achei inútil.
De menos valia foi ignorá-los, pois ando pisando neles.
E esses restinhos de amor também eram de sonhos.
Mas eles estão em algum lugar insuspeito, entre o atalho e uma longa viagem.


“Como serás tu que imagino mais do que recordo – a memória traz consigo também o esquecimento, continuando embora memória de gestos repetidos – com quem te encontras, como pensas, que brisas novas suavizarão teu sangue inquieto. Na distância imprecisa que o tempo traz recordo vagamente teu rosto rude e já marcado, a ternura inconsistente e macia da areia deslizando em nossas mãos.” Roland Barthes em "Fragmentos de Um Discurso Amoroso"

sexta-feira, junho 08, 2012

Das conversas de espelho

"Sempre é tarde quando se chora." Cayo Salústio Crispo, historiador romano

Estamos aqui de novo. Eu olhando para você com mágoa, raiva, decepção e medo. Esses seus rituais insanos que só sossegam quando machucam a pele e alma. Essa mania de me tirar do lugar do contentamento e me empurrar para o abismo.

Pois agora é ultimato. A vontade que eu tinha ontem era mesmo era de te matar, mas nós sabemos ser impossível. Vou acionar a Karma Police, te prender e torcer para a pena máxima. Você precisa me deixar em paz...

quarta-feira, maio 30, 2012

A urgência do amor e a felicidade ao redor

Duas amigas soltaram a mesmíssima frase essa semana, quando disse que tinha "uma novidade para contar".
- Já sei, você está namorando!
Como as duas são gentis, delicadas e torcem incondicionalmente por mim, segui com o meu sorriso mal interpretado e, sem respirar, revelei que era uma mudança bacana na minha carreira, um novo trabalho, um desafio pela frente. Por que as mulheres em especial tem essa obsessão pelo "happy end" de comédia romântica?

(pausa para mea culpa)

E fiquei pensando...
Nessas coisas que não tem a ver com as outras, mas que se misturam virando aquilo que convencionamos a chamar de "realização": empregão, status de relacionamento sério no Facebook, cozinha planejada, férias em Ibiza, milhões de amigos "para bem mais forte poder cantar", barriguinha enxuta, filhos e um pique de atleta...
Minha empolgação tem cores e brilhos; estende-se por mais de uma área da minha vida. Sou capaz, inclusive, de noticiar aos pulos felicidades dos outros, como se fossem do meu infinito particular.
Não estou torcendo o nariz para o que não acontece nesse momento - ele, sempre ele, o amor. Ainda mais agora, às vésperas do dia dos namorados. Vejo o amor espalhado em vitrines, em vídeos virais fofos, em historinhas edificantes contadas nas revistas, em campanhas da internet que pedem "mais, por favor". E os propagadores mais entusiastas são normalmente os que não sabem lidar com ele, me perdoem a franqueza.
Amor não depende somente de combos de lealdade e admiração, como na amizade, ou de dedicação e talento, como no trabalho. O elemento sorte tem sua cota de participação. E sorte é algo muito subjetivo para ser resumido a um oráculo que prevê: "saia de casa, você irá encontrar o seu par" (e você fica entre ir para a rua como uma diva do cinema americano e não dar a menor atenção para aquilo, enquanto assiste de pijama àquele sitcom pela enésima vez).
Conselho bom e dos pouquíssimos que sigo é do meu terapeuta. Eu lido com aquilo que está em minhas mãos. E sigo bem sem a urgência do amor (não quero de jeito nenhum a ausência, que fique fluorescente), comemorando conquistas que também me dão frio na barriga e causam efeitos externos notáveis. Hoje, por coincidência, outra amiga e minha prima disseram: "nossa, como você está bonita! Esse reconhecimento profissional te fez muito bem".
Foco, pé no chão, perseverança...Esses são os tons da vez, ainda que toque eventualmente aquela notinha dissonante que faz com que eu desvie o olhar para algum rapaz que valha a pena, por seu papo divertido, gostos em comum e sorriso encantador.

sexta-feira, maio 25, 2012

Strike a pose

Ainda que alguns tenham caído em lugar comum, Oscar Wilde tem aforismos geniais. Dia desses, eu estava pensando justamente em "só os tolos não julgam as aparências". Quem me conhece bem ou superficialmente, sabe que não levanto bandeira de que a beleza deva por a mesa. Sou mais os charmosos, os levemente desalinhados, os descabelados. O fato é que certos códigos estéticos bem particulares me aprisionam no bom e velho "botar reparo".

Pois a cena que me vem agora é minha e de uma ótima amiga num evento, conversando com o gerente de marketing da empresa. De cara, impliquei com a camisa jeans do moço. Eu sei que não tem a gravidade da pochete, do sapatênis, mas para mim é do mesmo clube. Como o papo estava agradável, pensei: "ah, o que é uma camisa jeans, né?". Havia espumante e preferi ser meio tolinha para variar. Minha amiga trocou um olhar de cumplicidade, aquele que se estivéssemos num restaurante anunciaria: "vou ao banheiro". E eu, claro, "vou junto". Tivemos que esperar alguns instantes, com a língua coçando.

O veredito foi unânime: sim, ele era bem interessante. Ela, bem mais entendida de moda que eu, não mencionou o alvo da minha implicância inicial, totalmente absolvida antes de deixarmos o local. Foi quando eu revelei: "mas tem uma coisa que incomoda muito: a pulseirinha com as cores da bandeira da Jamaica". O acessório está na lista "don't". Eu sei, sou chata, sou o diabo que nem veste Prada. Oscar Wilde me entenderia, mas "reggae night" é demais...

Meses atrás, um amigo de um amigo confessou na mesa de bar que achava muito antipática essa mania feminina de torcer o nariz se o cara não estava com "a camiseta certa" (e olha que ele vestia uma camiseta tão legal que até tirei foto pro Instagram). Defendi o meu gênero afirmando que todos nós colocamos o tal reparo. Se não é no "look", é no "shape", só para usar linguagem fashion, style, sei lá o quê. O amigo deste supracitado rapaz, que estava na mesmíssima mesa, por exemplo, quase quebrou o pescoço observando as curvas de outra amiga minha que se juntou ao grupo, fazendo cair por terra esse discurso de que a primeira impressão não tem valor algum.

Se ela fica? Dificilmente, mesmo que seja boa. Foram pouquíssimos os meninos por quem me apaixonei que já vinham na embalagem Mark Ruffalo. O que ficou foi a primeira vez que senti as pernas tremerem, o rosto arder de tão vermelho, perder todos os fios da meada. Essas bobagenzinhas são para rir com a amiga, que vai entender perfeitamente...são boas para virar crônica...

Mas que um sujeito que prefere a camisa xadrez ao modelito jeans, a surradinha camiseta de banda indie àquelas sem personalidade e um all star ao tênis mega colorido que parece ter saído da academia ganha mais estrelinhas douradas, ah isso ganha.

domingo, maio 20, 2012

Frio

Pode continuar assim.
Que eu me enrolo nas cobertas feliz, ainda que você traga o vento para assoviar na minha janela, interromper meu sono leve.
Pode atravessar o outono e ficar até a última hora do inverno. Pois se pudesse, eu te daria uns dias de primavera e todos do verão.
Deixe-me mais tempo com a xícara de café quente nas mãos, o afago da minha gatinha Alice e meus casacos coloridos.
Você me faz buscar aquele solzinho raro, aqueles pensamentos escondidos, aquele sabor concentrado.
Pode esperar um pouquinho?
...
Fui ali garimpar um poeta de verdade para te encantar.
Porque essa estação em mim não é gelada.
Um pouco de Alberto Caeiro, Fernando Pessoa, como queira.
Fique.

"Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar —
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável".


domingo, maio 13, 2012

Dos guardados

Eu sei, é puro apego. Guardo coisas como minha primeira boneca Juanita, figurinhas que já perderam a cola, a cor e uma tonelada de papel. Dos itens desse meu colecionismo mais afetivo do que acumulador, diria que adoro minhas caixas de cartas, em especial, as de amor.

Estava na minha torcida por dias frios, à procura das blusas quentinhas que, entre as várias mudanças que faço, sempre vão parar em malas distintas, escondidas. Foi quando decidi abrir a terceira porta do alto do armário onde, sabia, iria encontrá-las (confesso, costumo evitar esse tipo de arquivo em determinadas circunstâncias. Contraditoriamente, é número um dos itens empilhados. Talvez o botão de emergência).

A caixa de cartas de amor contém, por exemplo, e-mails daqueles que sequer conheci. Eram os tempos da internet discada, dos chats. Para ser precisa, o ano era 1998. Skywalker foi meu primeiro "namoradinho" virtual. Passamos meses nos correspondendo, porém a distância, somada ao fato de que éramos jovenzinhos estagiários sem grana, fez com que deixássemos para a memória tanta coisa em comum confessada nas salas virtuais, nas correspondências e, finalmente, no telefone.

Numa atitude nada ecologicamente correta, eu imprimia TODOS os emails dele. Só que antes, eu ficava uns minutos olhando a caixa de entrada em negrito com aquela nova mensagem, suspirava. Chamava-se Sérgio, morava em Campinas, gostava de Star Wars e de britpop. Quando a gente não estabelecia nenhum tipo de contato, era como se o dia não tivesse existido.

Não me lembro o que levou ao nosso estágio offline. Imagino vagamente que foram as coisas da vida, acrescidas de um amor desses que a gente pode dar as mãos, beijar e dormir abraçadinho. Relendo tudo, sorrio. Fizemos uma série de pactos não cumpridos e sinto um imenso carinho por Sérgio. Não tenho nenhum retrato dele. Não sei se casou, se teve filhos, se é feliz, se mudou de país...

E das centenas de escritos dele, escolhi este para partilhar aqui.

sexta-feira, maio 04, 2012

Esse meu bobo coração

Bocó, tolinho, meu coração é uma bobagem.
Dispara feliz ao saber que aquele moço gostou do que eu escrevi e seria capaz de parar por instantes se o vir andando por aí.
Remendado, esperançoso, meu coração se derrete com certas músicas que aquele moço poderia ter oferecido para mim.
Medroso, meu coração prefere os pequenos gestos, as singelezas, as entrelinhas, a distância. Não quer se partir de novo, mas quer ser também daquele moço.

segunda-feira, abril 30, 2012

#astrologiafail

Eu ri depois de ler o horóscopo do dia...vou até comentar em tópicos.

"Conte com uma dose extra de animo e autoconfiança". Não existe ânimo na segunda, ainda mais com a dobradinha plantão de final de semana (último) e feriado (amanhã).

"Rituais em momentos de relaxamento serão ótimos pra conectar você consigo mesmo". Relaxamento em meio a mudança (isso porque moro em média em três lugares diferentes por ano desde 2010)...sei. E se tem algo que eu quero muito é me desconectar, sobretudo de mim mesma. Quero outra eu há tempos.

"Ciúmes tendem a abalar relacionamentos afetivos e sociais. Seja mais constante nas promessas". Não vou mencionar relacionamentos afetivos. Quanto aos sociais, o fim de semana e o feriado seguem tão "forever alone" que meu telefone nem toca. E o que eu posso prometer para qualquer cidadão? Ahh, me poupe!

Já passou da hora de eu continuar acreditando em bobagens. E o post é só mesmo para registrar isso.

Outro abril de que não gostei.

terça-feira, abril 24, 2012

Uma busca

Não era o que queria ser quando crescesse.
Não foi o que desejou quando partiu.
E agora dobra quereres e desejos como se fossem origamis.
Nada de apartamento com varanda, amor tranquilo ou viagem a Londres.
Quer simplesmente sofisticar.

Meia hora na festa, poucas palavras, duas taças no máximo, bom dia, boa tarde, boa noite, muito obrigada.
Quer sorrir e agradecer quando surgirem as inúmeras fórmulas dadas pelos outros sobre como conduzir sua própria vida.
Espera de fato respirar - contando até 5.912 - sem que isso pareça um exercício árduo.
Trocará as horas lendo besteiras na internet por livros, e-mails por cartas, redes sociais por encontros com amigos de verdade, o passeio no shopping pelo parque, o seriado pelo cinema, a ansiedade por uma xícara de chá.
Voltará a cozinhar, a plantar os próprios temperos.
Retomará as aulas de inglês e espanhol.
Quem sabe até pinte quadros novamente?

Terá disciplina para alongar-se e correr.
Seguirá a dieta.
Dormirá mais, a ponto de, um dia, fazer a sesta.
Não dará bois ou boiadas por meia briga.
Nem emitirá opiniões que não sejam deliberadamente solicitadas.
Não cairá em conversas fiadas ou promessas furadas.
Passará longe de sujeitos descuidados, indecisos, bobocas e cretinos.
Evitará qualquer relação com pessoas de temperamento sórdido.

Sofisticar é simples.
O simples é que é extremamente complexo.

domingo, abril 22, 2012

Post Mal Humorado

Dor de cabeça insuportável. Redundância, pode ser? Talvez não. Tenho resistência a uma série das dores físicas. Cabeça e estômago, definitivamente, me tiram do eixo. Resolvi escrever porque pensei nisso como um experimento. Já redigi sob efeito de alegria, lágrima, álcool e por que não dor física? Tudo influencia...então esse é um post mal humorado porque é assim que eu fico quando a (s) neosaldina (s) não funciona (m).

Cogitei ir ao hospital. No entanto, fico pesando no que é pior: aquele monte de gente amontoada esperando a vez por horas a fio, num lugar abafado e cheio de bactérias no ar para depois ser atendida por um clínico pedante que vai te injetar algo (odeio injeção) ou prescrever um medicamento qualquer sem perguntar o histórico de alergias...

Prefiro ficar sob o efeito da máscara de ferro.

Olho para o dia bonito, sei que estou de folga e nada disso ameniza o meu azedar. O blogger mudou a interface, o que num dia como esse, quase fez com que eu deletasse esse endereço, who cares? Fúria que dura segundos. Não posso gesticular muito porque vem logo aquela pontada...

Fiz um chá, escuto uma música suave só que não consigo não fritar. Com meu saldo negativo no banco, com o vazio de tantas coisas na minha vida, com os acontecimentos emperrados, emperradíssimos há meses. E diferentemente do que aconteceu no passado, não sinto a terrível pena de mim mesma. Estou com raiva mesmo. Da sorte (falta de), do destino, dessa maldita dor de cabeça, da solidão, da minha falta de talento para ganhar dinheiro. E, óbvio, do blogger.

Esse é um post que nem deveria ser publicado. Não gosto dele, não tenho o interesse em revisá-lo, relê-lo.

Meus olhos ardem muito.

Não há nesse post inspiração, protesto ou relevância. Há uma velha resmungona que habita em mim, com dor de cabeça insuportável tentando passar o tempo, fazer disso uma experiência. Sem sentido.

Espero que não seja lido, não renda comentário e nem vá para as estatíscas, que nem sei aonde foram parar com a novidade.

Chega de ó vida, ó céus, ó azar. Nem eu me suporto e ainda bem que estou sozinha. Não existe nada pior do que azedar o dia do outro. Vou me trancar no quarto. Saio quando melhorar.

quinta-feira, abril 12, 2012

Ao vento

Eu gosto desse vento gelado que vem da janela. Estou arrepiada e nem busco casaco ou manta. Eu vejo as manchinhas roxas na minha pele pálida, na minha carne trêmula e não sei distinguir quais vem da melancolia e quais de uma noite dessas, dias atrás.

Queria uma grande inspiração para agora. Não me repetir nas palavras, nas incertezas, nas atitudes. Queria suspirar por alguém, mesmo que dificilmente admita ou cada vez menos acredite nessa possibilidade. Disse essa semana para uma amiga que amor, para mim, é como a ararinha azul.

Pensei naquele moço que vive longe. Foi por instantes. Sempre são. Em algum momento do mês, me imagino como seria se estivesse com ele e faz mais de um ano que não o vejo. Há um sentindo enorme em pescar ilusões nessa distância. Se não der certo, não iremos nos encontrar no mesmo bar, os amigos não me darão notícia alguma dele e vai ser tranquilo esquecer.

O amor é uma ararinha azul. Eu fico aqui tomando vento frio, café quente e nenhuma decisão significativa. Olho para minhas manchinhas roxas. Estou lendo um romance: me identifiquei com a personagem, suas convicções e maneira de ver a vida. Não terminei o livro, mas sei o que acontece no final. E quanto ao meu?

Procuro pistas no horóscopo online, que me aconselha a ser o contrário do que sou. Se eu for paciente, se eu deixar de ser impulsiva, dramática, delirante, o Senhor Destino me dá um presente? Desculpe, acho que ando cética demais para cogitar essas barganhas.

Fecho os olhos e escuto Roy Orbison. Ele me consola, tira do foco alguns devaneios (ainda que alimente outros). Como se fosse meditação para minha mente inquieta, espinha torta e coração intranquilo. E cá estou eu, recontando a mesmíssima história.

domingo, abril 08, 2012

Renovação

Quando 2012 começou, mais uma vez, reuni minhas melhores intenções para aplicá-las. Acontece que no meio do caminho há um ou outro atalho, percalço ou tentação. Então, veio o início do ano astrológico e, novamente, aquela canção do Roberto: daqui pra frente, tudo vai ser diferente.

Poucos dias depois, nada de incluir frutas no cardápio, lembrar do significado de moderação ou organizar aquilo que desde anteontem me espera. Em outros tempos, existiu a sensação de fraqueza quando não perseverava no que sempre achei que poderia me fazer bem. Hoje aceito minhas imperfeições e, de vez em quando, sei que preciso estar perto do fogo, sentir a altura do abismo.

Renovação é agora, a cada dia, na queda de braço entre o lado sensato e o desatinado. Renovar a ação, seguir adiante, deixar para trás certos condicionamentos. Fundamental encerrar ciclos, eliminar (res)sentimentos. Libertar-se do outro, de mim. Depois do julgamento: carta vinte no tarô traz redenção.

E lá vem o sol.

terça-feira, abril 03, 2012

Federico e Giulietta


Durante as férias quis morar no Instituto Moreira Salles, no Rio. Minto. Antes delas e depois também. Há dois lugares em que viveria tranquilamente com a minha cama no meio de tudo: o IMS e a Livraria Cultura, em São Paulo. Seria delírio, se a dimensão do sonho não fosse maior do que aquilo nos habituamos a acreditar.

Nos desenhos de Fellini, feitos ao despertar, imagens fantásticas e reflexões de um gênio. Tenho muita afinidade com o cinema dele. Embora as obras-primas citadas de modo recorrente sejam outras, guardo um carinho especial por "Noites de Cabíria". E por que? Porque vejo a Giulietta, ainda que em cena, pelo olhar do Federico.

Não dá para não se emocionar com uma foto gigante da atriz logo na entrada da exposição "Tutto Fellini". Giulietta está com uma cara doce, de palhacinha. E o amor de verdade é isso: é você enxergar com ternura, querer abraçar e não soltar mais. Ficar toda produzida num vestido sensacional, com uma maquiagem deslumbrante capaz de chamar atenção numa festa pode ser incrível, algo meio Anita Ekberg, aquele furacão. Não acho que seja fácil também sustentar a diva, porém no fundo para uns e escancarado para outros, queremos aquela simplicidade tão sofisticada

Giulietta está em muito, quase tudo. Sempre parece bobagem ter coração de manteiga como o meu nesses tempos em que o espaço do beijar é tão na velocidade da luz, que mal cabe o amor. Fiquei comovida com aquele casal unido por 43 anos e nem foi essa medida o essencial. Não são dias multiplicados por milhares. Nem imaginar que meses depois da morte dele, ela não aguentou as saudades e saiu de cena.

Tudo se resume a ler o depoimento de Fellini sobre a amada. São trechos em que ele conta que ela não fazia ideia do quanto é talentosa e incrível. Fechei os olhos e juro que ouvi o diretor falar, em bom italiano, cada palavra ali escrita. Naquele instante, me lembrei do Oscar que ele ganhou pelo conjunto da obra. Giulietta chorava e para Federico parecia não existir plateia, apenas a esposa. E eu já nem estava mais no Instituto Moreira Salles.

Acordar todos os dias junto, dividir as contas, as responsabilidades, as dores e prazeres parece...casamento. O que eles viveram foi livro dos sonhos e quando digo isso, nem penso em contos de fadas. Há o amargo entre os sabores doces em tudo. O admirar é o segredo. Porque o amor em si não é suficiente. Você pode amar e mesmo assim se separar, amar e ficar procurando defeitos no outro, de modo que as críticas começam a minar tudo e aquele encanto dos enamorados se perde. Admirar não é idealizar. Talvez seja algo felliniano, difícil de se traduzir em palavras.

Quis logo escrever sobre as milhares de impressões sobre aquela exposição. Precisaria morar naquela casa até junho. Há fragmentos guardados na minha memória que podem fazer com que em volte ao assunto.

Ironicamente, faz dois anos que comecei mentalmente a preparar minhas malas, meus gatos e seguir pela estrada de vida sem o co-piloto que tinha escolhido. Naquele três de abril, em meio a festa de casamento tão especial, fiquei sozinha por instantes. Me pareceram eternos. Na valsa, a mão da amiga me segurou. Silenciosamente, foi como a certeza que daria tudo acabaria bem.

Muitas sensações incômodas se esvaíram. O recomeço com o mais importante, a tranquilidade, já não é luz no fim do túnel. No amor, acredito umas terças ou sábados, esqueço aos domingos ou nem penso. Já procurei em lugares inadequados, em meio aos descuidados, indelicados e covardes. E não que tenha desistido. Simplesmente espero - e não busco - que quando (e se) chegar, tenha mais admiração que qualquer coisa no pacote. A vida pode ser doce. Basta entrar na fonte e experimentar.