sábado, agosto 24, 2013

Videotape*

É uma imagem bonita, já usaram até em videoclipe: o passado revisto produzido em Super-8.
Pois eu andava na manhã fria fugindo de marquises para que o sol me alcançasse.
Veio o filminho na cabeça, a menina de 13 anos no pátio da escola observando os outros correndo.
Eventualmente, seu olhar se fixava na colega mais bonita da sala rodeada de amigas.
E os meninos passavam por ela com cara de idiotas.

Ela gritava por dentro, eram tantas coisas inquietantes e urgentes:
a prova de matemática,
o garoto de cabelo comprido daquela pequena ruazinha do Prado,
pedir para os pais dinheiro para com as amigas sair no fim de semana,
não ter que dividir o quarto com a irmã,
querer passar a tarde ouvindo Faith no More...

Veio a sombra inevitável, o bom dia do porteiro, o celular tocando.
A menina foi embora.
Mais uma memória fragmentada, um cinema mudo.
Não me lembro de como era a minha voz.

*Esse post tem a trilha sonora da música homônima do Radiohead


sexta-feira, agosto 16, 2013

Quando estávamos offline

Há dias venho sofrendo pelo inbox que não vem. Sim, a mensagem foi visualizada, sei a hora exata. E nada de 17h, 21h ou 23h30. Foi algo como 19h47, essa coisa fragmentada.

O mundo era um lugar melhor quando a gente beijava o menino e ele ligava no dia seguinte. No meu caso, mais ou menos. Nós dificilmente nos encontrávamos. Eram horas de vigília no telefone e o pensamento constante: Será que deu pane na Telemig? Então, eu ia fazer qualquer coisa, ia escrever, viver, me refugiar numa banca de revistas para comprar meu exemplar da Luluzinha da semana. Quando voltava, a empregada dizia com desdém que um tal de Leonardo havia telefonado. Quer dizer: ela não se lembraria do nome com exatidão porque o arroz estava queimando quando o infeliz interrompeu sua rotina. Poderia ser Ricardo ou Bernardo... O tal de Leonardo, antigamente, poderia ainda ter o azar de se deparar com meu pai do outro lado da linha, que iria tratá-lo mal e não daria o recado. Minha irmãzinha também, ao pegar o telefone, balbuciaria o dialeto do bebê e dá-lhe "desista, ela não vai te atender".

O bom é que esse cara existiu um dia e não se deu por vencido. Hoje, ele não está na rede de amizades do Facebook, definitivamente. Pode estar casado, com filhos ou morar em Londres e você junto com  aqueles tempos ordinários de colégio serão uma vaga lembrança, mas tudo bem. Se o Leonardo atravessasse as décadas e me adicionasse, não ficaria no curtir ou cutucar. Ele não seria o tipo de fazer suspense no inbox, não postaria indiretas, não demoraria meses para chegar a qualquer finalmente. Mesmo porque ele foi o garoto que, nos primeiros acordes aquela música brega do A-Ha, te tirou para dançar. Os outros apenas olhavam quando o menino desajeitado passou a mão na minha cintura. E todos comentaram quando não nos desgrudamos no cantinho da sala.

Saudade dele, saudade imensa. De tudo que é palpável e possível. De menos musiquinhas, poeminhas, emoticons, coraçõezinhos e mais "te encontro no pátio durante a aula de religião". Não sei nada da bíblia por conta dele, admito. Pior: não me fez falta...mas sei beijar, gosto de beijar, aprendi com ele. E de dançar, de pisar no pé dele, de saber que ali não tinha joguinho, não tinha "o que minhas amigas iriam pensar" porque, sim, elas pensavam e eu não dava a mínima. 

Os olhos dele brilhavam ao me ver naquele uniforme azul  horrível que parecia um pijama. A gente fazia provas em dupla de história. Eu, na verdade, porque ele nem era de estudar. E teve o dia em que combinamos de ir ao cinema juntos, aquela mentira pros nossos pais, numa tarde de quarta: "Vou estudar na casa da Flávia". E foi assim que ele me deu a mão na sessão de "Ghost" e me perguntou - para o desespero do meu coração que saía pela boca - se eu não queria ser sua namorada.

Eu não sei como tudo evaporou, como ele sumiu, como a faculdade chegou e os anos se passaram. Não sei como outros amores surgiram e partiram...eu sei que ele ficou nessa saudade, memória ou invenção.

Porque ele teria me respondido no Facebook, no Twitter. Teria postado comentários no blog. O que são esses míseros caracteres para um moleque de 13 anos que virou uma batida de côco só para chegar perto de mim na frente de toda a sétima série? Pois eu digo com muita propriedade, os homens hoje estão muito bobos e não são páreo para o Léo e seu beijo metálico com sabor de ice kiss.