sábado, dezembro 31, 2011

Que o tempo, mano velho, seja amigo, seja legal



O Tempo‎

"A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é Natal…
Quando se vê, já terminou o ano…

…Quando se vê não sabemos mais por onde andam nossos amigos…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…

Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casaca dourada e inútil das horas…
Eu seguraria todos os meus amigos, que já não sei como e onde eles estão e diria: vocês são extremamente importantes para mim.

Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
Dessa forma eu digo, não deixe de fazer algo que gosta devido a falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará".

Mário Quintana

Que 2012, que é amanhã, traga tempos bons

sexta-feira, dezembro 30, 2011

No dia que vem por aí - por Ivan Martins

É difícil não sentir esperança. A vida parece ter sido feita para isso. Em vez de um tempo contínuo e inacabável, dentro do qual a nossa existência teria o ritmo dos bichos, habitamos um tempo fragmentado, dividido, que se encerra e recomeça por ciclos – de uma hora, de um dia, de um ano. Esses períodos definem a nossa existência e ajudam a dar sentido a ela. Eles fomentam a esperança.
Lembro de uma conversa, já antiga, em que alguém me explicava, do fundo de uma grande tristeza, o alento que recebia de cada manhã. “Hoje”, ela me disse, “eu posso ser totalmente diferente do que fui ontem, mudar a minha vida, mudar eu mesma e começar do zero. Cada novo dia me apresenta a possibilidade de ser outra pessoa e deixar a dor para trás.” Essa não é uma definição soberba de estar vivo? Andamos tão presos ao passado que ignoramos a possibilidade de mudança embutida no futuro. Começar de novo é a maior delas – para todos nós.
Houve um tempo, quando criança, em que eu costumava me imaginar um homem feito. Teria 25 ou 30 anos, seria veterinário ou agrônomo, seria casado com uma mulher com cabelos de índia e olhos de jabuticaba e viveria, com ela e três filhos, numa casinha rural rodeada de colinas, com cerca de madeira e chaminé, como as crianças costumam desenhar. Nesse cenário idílico, que nunca se materializou, eu seria feliz, destemido e generoso, como os heróis dos livros. Sobretudo, eu estaria pronto, teria me tornado um adulto perfeito – e os adultos, toda criança sabe, não têm medos ou dúvidas.
Os anos se passaram e, a cada 12 meses, a criança que eu era se confronta com o adulto que eu sou. A conversa nem sempre é tranquila, mas é fundamental que ela aconteça. O cara que eu me tornei deve satisfações à criança que eu fui. Tem de lidar com os sonhos dela e com as ilusões que ela engendrava sobre o futuro. O homem tem de contar para o menino que as coisas não são como ele sonhava, que a gente não faz a vida exatamente como quer, mas que, nem por isso, deixamos de ser dignos e bons. É importante que a criança dentro de nós saiba, também, que nunca estamos realmente prontos, nunca crescemos inteiramente, e que as nossas dores – e essa é a pior parte da conversa – não somem quando ficamos adultos. Seguem conosco, mesmo não sendo parte de nós. São como espinhos na nossa carne, e é preciso arrancá-los. Existe, afinal, a esperança de viver sem eles no ano que vem, na semana que vem, amanhã.
A moça com cabelos de índia e olhos de jabuticaba tomou outras formas ao longo do tempo. Foi loira, teve olhos castanhos, cabelos crespos. Mas, em cada mulher real, havia algo da Eva infantil, primordial, que eu procurava como se fosse uma resposta absoluta. Aí há outra complexidade que o menino não previra. Parece não haver uma mulher na nossa história, mas várias. Parece não haver uma única resposta, uma única possibilidade. Também nesse terreno (o do amor), podemos tentar, recomeçar, sonhar, sofrer – ter alegrias e surpresas, enormes.
Então, eu penso, que venha o Ano Novo.
Que venham os velhos e novos amigos. Que o amor encontre o seu lugar na nossa vida e que saibamos reconhecê-lo, preservá-lo ou deixá-lo morrer, quando for preciso. Que o ano nos traga coragem para fazer coisas novas, coragem também para lidar com as coisas antigas que deixamos de lado. Que neste ano a gente se encontre – uns aos outros e a nós mesmos – de um jeito que produza mudança e transformação. Sem auto-indulgência, sem auto-piedade, sem mi-mi-mi. Que 2012 venha para alegrar a criança que fomos e nos ajudar a ser os adultos que merecemos ser – no novo ano, na próxima semana, no dia que vem por aí.

quinta-feira, dezembro 29, 2011

Vai, Carlos! ser gauche na vida

Escrever é Triste

Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, puré de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.
O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem você, porque com você não é possível contar. Você esperando que os outros vivam, para depois comentá-los com a maior cara-de-pau ("com isenção de largo espectro", como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo, que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto, uma revolução, um adultério grego — às vezes nem isso, porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. Sim, senhor, que importância a sua: sentado aí, camisa aberta, sandálias, ar condicionado, cafezinho, dando sua opinião sobre a angústia, a revolta, o ridículo, a maluquice dos homens. Esquecido de que é um deles.
Ah, você participa com palavras? Sua escrita — por hipótese — transforma a cara das coisas, há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos, adjetivos, verbos? Mas foram os outros, crédulos, sugestionáveis, que fizeram o acontecimento. Isso de escrever «O Capital» é uma coisa, derrubar as estruturas, na raça, é outra. E nem sequer você escreveu «O Capital». Não é todos os dias que se mete uma ideia na cabeça do próximo, por via gramatical. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. Vazio, antes e depois da operação.
Claro, você aprovou as valentes ações dos outros, sem se dar ao incómodo de praticá-las. Desaprovou as ações nefandas, e dispensou-se de corrigir-lhes os efeitos. Assim é fácil manter a consciência limpa. Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação, que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Ao passo que, em sua protegida pessoa, eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel.
E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado do espetáculo. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade em abranger a cena com o simples pai de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia... explosiva. Na hora ingrata de escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar, se não nos concedem tempo para isto entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. Não é redator de boletim político, não é comentarista internacional, colunista especializado, não precisa esgotar os temas, ver mais longe do que o comum, manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. Você é o marginal ameno, sem responsabilidade na instrução ou orientação do público, não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. Que é isso, rapaz. Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Concluiu que não há assunto, quer dizer: que não há para você, porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não sabe ir além disso, não corta de verdade a barriga da vida, não revolve os intestinos da vida, fica em sua cadeira, assuntando, assuntando...


Carlos Drummond de Andrade, 'O Poder Ultrajovem'

quarta-feira, dezembro 28, 2011

O diário de Marina

Não foi por acaso. Beatriz rastreava cada movimento de Marina. Tanto que no dia em que a viu, em carne e osso, sentiu o ímpeto de cumprimentar. Talvez no banheiro, quando fossem retocar a maquiagem. Beatriz sentiria-se um tanto quanto sórdida se o fizesse, uma espécie de personagem assustador interpretado por Glenn Close.

Não havia razão para olhar Marina daquele jeito de cima a baixo, atitude que destava que fizessem com ela. E Marina era jovem, bonita; dançava e estava visivelmente alegre. Dias depois, não haveria aquele sorriso. Não foi culpa de Beatriz, que agora, por ironia, desejava se aproximar de Marina por outros motivos.

Essa história termina com a leitura dos desabafos de uma estranha e começa com Marcos. Ele não pode ser considerado um sujeito bonito, ainda que ambas tivessem se encantado por ele. Beatriz adorava acariciar-lhe os cabelos. Já Marina fixou-se no segredo daqueles olhos.

De um jeito aparentemente displicente, ele sabia escolher o elogio, a trilha musical e a parte do corpo de cada uma para beijar. À Beatriz pegou emprestado um poema, colocou Nina Simone no toca-discos e, na sequência, sem a suavidade de instantes atrás, arrancou-lhe o sutiã. A primeira noite dos dois parecia não ter fim. À Marina presentou com chocolates e uma coletânea de Chico Buarque especialmente escolhida para ela. Dormiram abraçados, tomaram café da manhã juntos.

Marcos deixou Beatriz sozinha, na porta do cinema. Ela o esperou até o início da sessão. Ligou para ele algumas vezes e, sem resposta, decidiu ver um drama indigesto. Saiu dali querendo desaparecer. Mais ainda: precisava de uma justificativa. Ao menos, ele teve a coragem de terminar com Marina, dizer adeus. Beatriz foi meio que jamais.

Beatriz jura que ouviu alguma promessa. Era seu coração vagabundo que não se cansava de ter esperança e, eventualmente, pensava ser tudo uma grande invenção. Quem sabe Marcos nunca tivesse existido? No fundo, ela exigia resposta. Não se esquecia do fim de tarde em que cedeu lugar na fila da bilheteria para várias pessoas enquanto ele não vinha. Uma sensação estranha que voltava na madrugada, em sonhos. Estava ela numa caverna, só ouvia ecos.

Marina chegou a ostentar a condição de namorada, escutou "eu te amo" como se fosse "Sinfonia de Paris" e tinha a certeza que envelheceria ao lado de Marcos. Não economizou em carinhos, lingeries coloridas e até aprendeu a fazer panquecas cobertas de mel para acordá-lo aos domingos.

E Marcos? Marcos era só o caos, que atravessou a vida das duas e fez o diário de Marina cair nas mãos de Beatriz.

Beatriz nunca teve raiva de Marina. Quando soube que Marcos estava namorando, ficou magoada claro, porém, bastante intrigada. "Ele não queria nada sério comigo", pensou. Reviu diversos filmes bobos de amor e percebeu que boba era ela, que sua vida não seria um roteiro de Nancy Meyers. Naquela altura, seguia seu script: saiu, inclusive, com um ou dois caras. No entanto, Marcos era incômodo. Ela evitava todo e qualquer lugar que pudesse esbarrar com ele.

O que Marina era para Beatriz? A necessidade infantil de saber o que ela tinha de mais. Marina era mais nova, cultivava uma euforia dos iniciantes. Beatriz se considerava ponderada, só que Marcos foi seu incalculado equívoco. De maneiras extremamente distintas, eram mulheres interessantes, inteligentes e, não fosse aquele caos, descobririam uma série de afinidades.

Quando tirou o diário de Marina da bolsa, Beatriz não sabia o que estava acontecendo. Os relatos partiam de um arremedo de gente, com os sonhos dilacerados. Fechou o caderno rapidamente, com uma tristeza familiar.

Voltou para as linhas depois de beber duas taças de vinho. Decidiu ler de trás para frente afim de juntar peças, de tentar entender o que houve com Marina e o que houve com ela mesma. Marcos seguia como um mistério.

O namoro foi breve, de emoções intensas com as quais ele não soube lidar. Marina foi das nuvens ao inferno de não querer levantar da cama, comer ou sair de casa. Do namorado lindo, dedicado e sensacional, ele passou a gélido e covarde. "Covarde", Beatriz leu em voz alta. Concordava em gênero, número e grau. Estava com ódio de Marcos. Não sentiu isso antes porque até então era do tipo que alimentava uma ancestral resignação.

Beatriz agora conhecia a vida da outra. Queria chamar Marina para tomar um café, dar conselhos que daria para uma irmã. Sabia que Marina encontraria alguém realmente especial, com coragem e não é porque é o tipo de coisa que se diz após um tombo. Beatriz sabia disso...só não sabia como devolver o diário para a dona.

E que tipo de pessoa larga seu caderno de emoções inconfessáveis na mesa de um bar? Mesmo tomando aquele porre, com uma dose sutil de vexame. Para Beatriz era inconcebível: ela nunca esquecia nada para trás. Tinha listas infindáveis para todas as ocasiões.

Não devia ter ido sorrateiramente pegar o objeto esquecido. E agora? Se entregasse o diário no estabelecimento, seria questionada. Caso deixasse jogado na mesa, como se ele tivesse surgido num passe de mágica, poderia ser pega. Cogitou ligar para Marcos. Um desatino. Como ela diria para ele: "estou com o diário da sua ex namorada"? Insensatez, confissão de toda uma energia gasta para se chegar até Marina e a troco de quê? Já nem sabia. Beatriz não queria Marcos de volta e torcia para que essa vontade parasse de corroer Marina.

Nem correio, nem motoboy. Seria tão mais fácil se a dona do diário preenchesse um endereço ou tefone de contato. Jogar no lixo não era alternativa, de modo que optou por guardar aquele caderninho vermelho, escrito com letrinhas arredondadas, na última gaveta da cômoda, aquela que mal abria em seu dia-a-dia. Amanhã saberia o que fazer.

segunda-feira, dezembro 26, 2011

Ainda o amor

Não sou boa em guardar diálogos de filmes. Preciso rever para anotar. Alguns deles, nem sei se assistirei novamente. Mas Cindy disse algo como "não quero mais ter essa raiva e não quero mais que você beba tanto", assim que resolveu encerrar o casamento com Dean. O triste é que o fim é um pouco por aí mesmo. Se não é raiva, pode colocar tristeza no lugar. Se não é bebida, talvez tarja preta.

Outra cena de "Blue Valentine" (não gosto da tradução "Namorados para Sempre") que toca lá no fundo é quando os dois estão no banheiro daquele quarto ridículo de motel. Não há da parte dela nenhum desejo a não ser ir embora. E por que não foi ainda? Porque é duro aceitar que acabou. É difícil não se apegar à memória de quando tudo era apaixonante, engraçado e leve. Eu admiro quem consegue ser "funny valentine" estando casado, pois não há nada mais raro do que isso nesse mundo.

Estranhamente, um dia antes, eu havia visto "José e Pilar". Documentário que revela uma história de amor tão delicada que parece ficção. Há cenas muito emocionantes, como a de Saramago no hospital. Ele está preocupado com a solidão da mulher depois da partida dele, mas imediatamente diz que suas cinzas estarão no jardim, perto dela. Talvez seja mais complicado se encantar pela "personagem" Pilar. Seu pragmatismo, as cartas dos leitores que rasga, as ideias para a vida...No entanto, é impossível não se comover quando ela, por trás da agenda exaustiva que monta para o marido, quer somente que ele esteja em movimento, que ele fique mais. E não existe disfarce na cerimônia de casamento. Toda mulher, até a mais feia, fica linda nesse dia. Aquele brilho nos olhos é muito singular. Eu sei e reconheço. Nem preciso das minhas fotos antigas para lembrar.

Os filmes foram devidamente entregues na locadora. Só que eu fiquei pensando sobre o amor. Lembro-me vagamente de como ele age/reage. De vez em quando quero vivê-lo e penso que ele vai me encontrar (eu decidi que procurá-lo é das tarefas mais inúteis que existem), mesmo em meio a tantos desencontros. O fato é que já tive meus tempos de "Blue Valentine" e o depois desses tempos também. Portanto, nos pensamentos eventuais que me tomam de assalto, sonho com um José, que me faça dedicatórias e me dê as mãos. Parece-me tão simples quanto inatingível.




sábado, dezembro 24, 2011

Um pouco de Vinícius

Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

terça-feira, dezembro 20, 2011

inbox

Caixa de entrada cada vez menos com mensagens pessoais. São sempre as compras coletivas, horóscopos virtuais e outros que já vão direto para o spam. E eu adoro receber e-mails, notícias, músicas, sinais de fumaça de amigos que estejam tão longe, tão perto. Ontem fui presenteada com essa lindeza da querida Olívia. E isso me lembrou que tenho que caprichar nos meus desejos de ano novo para quem realmente importa.


A Carlos Drummond de Andrade (João Cabral de Melo Neto)

Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.

Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.

Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.

Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.

Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.


segunda-feira, dezembro 19, 2011

Staircase e The Daily Mail

Dia de duas músicas novinhas em folha da safra "The King of Limbs". O que mais dizer? Amo por demais o Radiohead! Mas isso todo mundo sabe né?



Fernando Pessoa disse...

"Que me pesa que ninguém leia o que escrevo? Escrevo-o para me distrair de viver, e publico-o porque o jogo tem essa regra. Se amanhã se perdessem todos os meus escritos, teria pena, mas, creio bem, não com pena violenta e louca como seria de supor, pois que em tudo ia toda a minha vida. Não é outra, pois, que a mãe, morto o filho, meses depois estar aí [?] e é a mesma. A grande terra que serve os mortos serviria, menos maternalmente, esses papéis. Tudo não importa e creio bem que houve quem visse a vida sem uma grande paciência para essa criança acordada e com grande desejo do sossego de quando ela, enfim, se tenha ido deitar".

domingo, dezembro 18, 2011

Para todo mal...

Outro dia brinquei com uma amiga que sempre que busco, por exemplo, uma frase do Shakepeare para definir o momento, acabo sendo traída por uma perfeita do Metrô (sim, a banda dos anos 80 que cantava "coração ligado, bit acelerado"). Tenho esse humor pop, essa coisa meio personagem de Nick Hornby de ser romanticamente infeliz por conta das músicas que escuto.

E cultivo também essa mania que devia ser superada na vida adulta: a de deixar no repeat uma faixa que me diz algo mais. Gosto de significâncias, significados, signos, sinais. Hoje me deparei com "A Cura", do Lulu Santos. Estava abrindo um vinho despretensiosamente e já havia gastado um trajeto de Contagem- Belo Horizonte (desses pós-plantão-com-iPod-descarregado) pensando em como prefiro nessa galáxia as pessoas que valorizam a consideração; respondendo a e-mails, buscando retribuir ou minimamente agradecer um carinho.

Achei que havia refletido o suficiente para o domingo chuvoso, mas não. Veio essa letra, esse trecho:

"E se virá
Será quando menos se esperar
Da onde ninguém imagina
Demolirá
Toda certeza vã
Não sobrará
Pedra sobre pedra

Enquanto isso
Não nos custa insistir
Na questão do desejo
Não deixar se extinguir
Desafiando de vez a noção
Na qual se crê
Que o inferno é aqui"

Cicatrizar uma dor é tão menos rápido do que a posologia que os nossos merthiolates prometem... E, às vezes, a gente estranhamente se apega ela, porque acredita que virou velha conhecida, está a um passo da cumplicidade.

E ouvindo "A Cura", percebi que insisti na questão do desejo, desafiei de vez noções (e até limites), vi que o inferno era aqui mesmo. Saio, na emergência, do processo dantesco e vou hiperdosando merthiolates, acrescentando arnicas, colocando band-aids na pele e na alma. Acontece que venho enxergando um certo farol que "iluminará uma ponta de esperança".

Me apeguei mais a ele do que àquela antiga dor. E agora?

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Thanks, but no

2012 será o ano do não. A afirmação sugere uma negativa, mas vou tentar explicar essa minha seta e meta para o ano do fim do mundo.
Saber dizer a palavra com três letrinhas e seu sinal em forma de arabesco vai tirar certos pesos que não pretendo carregar, nem ao longo dos 365 dias, muito menos dos dias que seguirão até o agora virar nunca.
O aprendizado é tardio, reconheço. Devia ter usado a palavra quando a colega de classe me fez trocar o papel de carta mais bonito que eu tinha por um ordinário, com um rasgo na borda. O fato é que aquilo foi a tradução do que se repetiria em outras circunstâncias, envolvendo pessoas, sentimentos e coisas. Dizer sim para ser aceito, para ser querido. Dito o não, eu teria feito o que costumava fazer: usaria o papel de carta para escrever para minha avó Celinha.
Da colega eu sequer lembro o nome, no entanto se fiz alguma questão em lhe ceder algo que era precioso de minha coleção, é porque eu queria ser chamada por ela para brincar no recreio. Da minha avó, sinto saudade todo santo dia e queria ter derramado meu amor na vida dela em doses mais generosas (e a gente sempre quer fazer isso quando a morte nos tira, sobretudo sem avisar, pessoas como ela).
A situação seria diferente se eu tivesse dito não? Quem sabe.
Ouvi mais não do que sim em 2010-2011. Para mim, aliás, eles foram um ano só, um ciclo. E, para me consolar, meus amigos estimados disseram: o apartamento não saiu porque não tinha que ser seu, aquele sujeito que não te deu valor, não merece sua consideração, por aí vai. Até ontem eu achava que isso era unicamente para me acalmar meu coração.
Até que percebi.
O poder do não.
Ele te leva a batalhar pelo sim, mais do que meramente desejar ou achar que merece. E quando o sim vem, não há dúvida. Aquele lar pode estar pouco mais de 500km de distância deste provisório, por que não? Ele ainda faz parte do que se quer realizar. A possibilidade do amor só existe pela travessa da conquista. Mensagem sem resposta nunca acaba em mãos dadas no escurinho do cinema. Contrariando a matemática, certas ordens de fatores alteram os resultados.
2012 será o ano do não. E ele rima com auto-preservação. Dispensarei um punhado de convites quando sentir a velha suspeita de que estou entrando numa situação que não me fará bem: seja ouvir a ladainha de quem só saber falar mal até dos próprios amigos, seja a chance de rever quem sumiu sem deixar pistas (após prometer um céu de estrelas), seja por não se sentir mais à vontade com determinados grupos/ assuntos porque afinidades são mesmo varridas e temos que aceitar isso e ponto.
Vou preferir sempre ler um livro, ver um filme, ouvir música e até arrumar o meu guarda-roupa.
Será um exercício, como foram os (poucas) promessas que cumpri no ano 2010-2011. Será complicado, pois sei que sou do sim. E devo peneirá-lo, torná-lo puro e simples, pois me enganei e enganei meio mundo tratando-o como abertura. Verdadeiro, libertador e necessário: que venha o não e que ele contribua para que façam-se a luz e a fluidez.

sábado, dezembro 10, 2011

Das sensações de dezembro

Não sentiu a intermitente euforia dos sábados ao acordar. Continuaria na cama, se pudesse...Se não se forçasse. "Melancolia", pensou. E vem desde aquele estranho sangramento, aquilo que já devia ter resolvido. Mas teve medo, engavetou o exame, embora saiba de tudo o que não pode mais adiar.

Das desconfianças que se arrastavam, vieram respostas imediatas. Eram óbvias. Nem devia se importar, ainda que estranhamente tenha se forçado a isso, como se forçou a levantar mais cedo. Necessidade de olhar para trás e ver que, enfim, passou. Foi encerrada por ela, na presente data, a procura nos cinzas e flicts (a cor que não existe) de elos entre o azul e o amarelo. O próximo movimento seria de retomada pela conquista de seus mais caros projetos (os objetivos e, por que não, os mirabolantes).

De seus poucos encantamentos nesse período dividido em 12 fatias, escolheu o improvável: por querer extrair dele a surpresa, não a ilusão. Terminou por descobrir que o maior encantamento estava onde sempre esteve. Por mais que, eventualmente, se perdesse de si mesma, iria se forçar a levantar da cama, a se importar, a olhar para trás sem mágoas. Sabia, agora, que não era esforço, era força.

Todos os desejos traídos, todo afeto que jogaram fora, todo mal estar inexplicável, todo sangramento silencioso eram como a melacolia, que dali sairia. Paradoxalmente, na marra, para que na metade do dia prevalecesse o gosto de chocolate com amêndoas e a vida que segue.

domingo, dezembro 04, 2011

Que emocionante é uma partida de futebol

No momento final eles choraram.
Eu fiquei engasgada.
Sou dessas que faz coro por jogadores que honrem suas camisas como outrora.
Hoje mordi a língua.
E quando o Roger pediu desculpas para torcida, quis abraçá-lo.
Nem lembrava mais do gosto amargo da decepção das partidas anteriores.
E vieram goleada, euforia, provocações aos vizinhos.
Vem sempre a lembrança do meu pai, com o seu radinho de pilha no campo, do vovô com seu radinho de pilha no quarto.
Aqui em casa a gente sempre xinga o comentarista televisivo atleticano. Xingar tevê é outro clássico.
Eu liguei para o meu amigo Thiago porque ele entende.
Ele entendeu quando eu disse sexta-feira: não vamos cair.
E sim, sou arrogante. E sim, sou apaixonada.
Passei parte da minha infância brincando na sede antiga do Cruzeiro no Barro Preto. Por incontáveis vezes, entrei de mãos dadas com os craques nos gramados naqueles tempos.
Tudo para mim sempre foi azul.
Eu vi meu time levantar taça em Libertadores, Supercopa e Brasileirão. Eu vi ídolos de cabeça ensanguentada lutando com dignidade celeste.
Um motivo? Eu canto porque o Cruzeiro existe. Nem sempre alegre ou triste. Eu não sou - e bem que queria ser - poeta. (E agora pareceu adequado fazer esse pequeno furto de Cecília).
Que nossas páginas sigam heroicas e imortais, que sejamos doces, azuis, estrelados.
E de alma lavada.

Dedico esse post, com foto da Uiara, para meus amigos Thiago, Leozinho e Cucuca


quarta-feira, novembro 30, 2011

PS do PS (Novembro não acabou)

E só porque adoro escrever cartas...



Querida Tristeza,

Esta é (mais) uma carta de despedida. Desculpe, não consigo ficar ao seu lado por muito tempo. Minhas prioridades são outras, "meu destino é agora, feito caldo de cana".

Eu sei que você tentou me manter ali, fiel e apegada. Você chegou até a convidar a Saudade, a Nostalgia e tantas outras para uma festinha particular. E não me surpreendeu.

Tristeza, Vinícius errou: você tem fim. Eu fui penetra nessa celebração. Eu não caibo mais nesse lugar.

Tristeza, eu hoje chorei de Alegria. Acho que, enfim, encontrei o meu lar. Chave emperrada na porta velha; eu quando abri logo pensei, "eu posso ser feliz aqui".

Não é apenas um cantinho alugado, emprestado, provisório. Vou desembrulhar minhas xícaras antigas, meus posters de cinema, tirar a cristaleira da garagem da amiga.

Quero pintar as paredes de lilás e amarelo. Quero deixar aquele ambiente com cheiro de bolo de maçã com canela, quero ver Alice dormindo na janela.

No fundo, Tristeza, eu também chorei um pouco por você. A gente ainda vai se ver, mas eu não vou te procurar. Estou nesse flerte com a Serenidade, me deliciando com o exercício de manter "a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo".

Não me queira mal. De algum modo, às vezes brusco, cuel e avassalador, você me ensinou. Com você ao meu lado, pude olhar para aquelas sombras, pude espantá-las.

Eu gosto de dançar, de tomar uma taça generosa de vinho, de morrer de rir, de marcar frases em livros, de encontrar amigos, de fazer novos, de cantar no trânsito, de ficar cheirosa, de ser essa manteiga derretida que não esconde as lágrimas por você, pela Felicidade e por tantos sentimentos que me vão servindo.

Obrigada, Tristeza, por me fazer melhor. "Deixe-me ir, preciso andar". O dia de folga nem é tão longo, porém eu irei marquei salão, pretendo ir ao cinema e depois tomar um café.

Espero que me entenda e aceite esse meu pedido.

Cordialmente,

Ludmila

terça-feira, novembro 29, 2011

Para encerrar novembro

...engraçado é que quando eu não escrevo, vem alguém e o faz por mim: aquilo que eu queria ter o talento para redigir ou simplesmente a mais completa tradução do que sou/ estou.

"Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite:"Sou mesmo forçado a escrever?" Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, a dizer o que vê, vive, ama e perde. (...)"

Rainer Maria Rilke


domingo, novembro 27, 2011

Dance with me

Venho sorrateiramente quebrando minhas regras.
E isso é muito bom.
Sou do tipo que quando discoteca, não aceita pedidos (aliás, esse blog chama-se Ludj porque adotei o "nome artístico" nos idos de 2001, quando fazia as chamadas "festinhas descontrol": ler no passado ou nas entrelinhas, whatever).
Sexta-feira, acatei um pedido.
Era um moço que não parava de dançar minha playlist de rock.
Ele sorria para mim e eu franzia a testa olhando para o iTunes.
No fim da noite, ele perguntou o que eu tinha de soul.
"Muita coisa", respondi.
Entrei na pasta da Aretha Franklin. Será que eu daria esse gostinho para ele?
Ele veio todo atrevidinho dizendo que ia me passar uma canção por bluetooth.
"Use o meu pendrive", eu disse.
Não fiquei "facinha". Acho que foi mais para "easy going" - ou seria "easy like sunday morning"?.
Quando coloquei o dispositivo no computador, fiquei surpresa com o bom gosto do rapaz.
"Só deixo você usar alguma dessas faixas, se dançar comigo". Ele foi categórico (e irresistível).
Outra regrinha quebrada.
Dançamos.
Os amigos o arrastaram na terceira música. E eu tinha que ir, pois acordaria cedo no dia seguinte.
Da varanda, acenei. E me diverti com a performance "quero voltar" dele.
Não trocamos nomes, números ou beijos.
Ele era um rapaz "cheek to cheek". Ainda que disfarçado de hipster.
E eu? Bem, eu venho tendo encontros maravilhosos e inesperados com o romance.

sexta-feira, novembro 25, 2011

Do amor, da dor, da morte e dos meus pensamentos desconexos

Mais de duas da manhã.
Estou exausta.
Queria dormir, queria ter sono. Mas tenho a urgência de escrever. Tomei algumas taças de vinho; eram para relaxar, anestesiar, sei lá o quê.
Mais um dia lidando com a morte. Pensando muito no meu estar aqui, naquela impossibilidade do "how to disappear completely".
Queria voltar apenas quando o jardim já estivesse florindo.
Então, amor e morte podem ser siameses, indissociáveis...é isso?
Eu preciso matar, de vez em quando, essa coisa insana, irracional e aderente para seguir adiante?
Minha dor não é minha. Eu já tive similar. Eu sei o que é me deparar com o inacreditável, embora (em alguma esfera) previsível.
Dia ordinário, dia de cão. De comer mal, de não saber o que dizer, de como agir...dia aéreo. E eu só pude dizer a verdade: "eu te adoro, conta comigo, sempre estarei aqui".
Aquela dor aguda, diferente da dor de outro tipo... eu senti.
Eu também sei o que se sente após dizer/ouvir "acabou". No entanto, nem imagine a intensidade dessa mistura.
Superei as duas. Ao menos penso que sim.
Alguma marquinha ali, acolá fica. Como as manchas roxas inexplicáveis que, minha avó já dizia, são "nada mais, minha filha, que melancolia".
Eu só puder abraçar forte, eu só pude repetir aquelas verdades. Porque o amor acaba, a dor acaba, os pensamentos desconexos também.
Com a outra, não há barganha. E alguém bem mais esperto, menos cansado e mais sóbrio que eu assim falou.
O amor vira outro amor, não sem antes passar por uma incrível e transformadora experiência. A dor se esvai e o pensamento, como cantou Caetano, "parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar"...
A morte vai esperar e sentada. Praga mesmo. E as minhas pegam!
Toda vez que ela me olha com esse jeito soberbo e multifacetado, respondo que permancerei resistindo, porque tenho um zilhão de coisas a fazer. Eu tenho que ter a generosidade, o lenço, o abraço, a força, a sanidade, a doçura, a firmeza e até o sono que me vença mais de duas da manhã.
Foi mais um dia para riscar, esquecer, apagar. Foi como a página do calendário-imã de geladeira recém rasgado: esse ano tem que acabar.
Que sigam amores e pensamentos - não necessariamente desconexos - por madrugadas, dias, semanas, meses. Da dor e da morte eu não faço questão alguma. Já gastei minha cota.

quarta-feira, novembro 23, 2011

Eu não tenho um moleskine...

...Mas deveria.
Inspirações repentinamente me perseguem. No estacionamento do shopping, no vagão do metrô, na sala de espera do médico. Falando nisso, meu terapeuta pediu que eu listasse um kit básico de sensações para ele analisar. Eu o faço descoordenadamente, em guardanapos de papel, na agenda que de vez em quando fica na bolsa e, agora, em sacolas de papelão. Aquele recipiente reutilizável onde guardo minhas frutas, barrinhas, iogurtes e queijinhos. Foi num desses, bem amassadinho, do Boticário (prestes a ir para o lixo) que identifiquei meu garranchinho no hai-kai:

"pague pelo ponto,
peça pelo número,
valha o quanto pesa".

segunda-feira, novembro 21, 2011

Do fazer tudo sempre igual

Não havia rede social e as pessoas já espalhavam por correntes de e-mail um certo texto intitulado "Mude". Ele foi atribuído a uma série de autores: Clarice Lispector, Marina Colasanti, Luis Fernando Verissimo. O mundinho de muitos amigos em cópia (o remetente tinha necessariamente certa dificuldade em usar o CCO. Daí, os milhões de vírus inbox) parecia o do Pequeno Príncipe, cuidando de seu baobá. E ficava eternamente cativado por aqueles mandamentos.

E não é que o mundinho mudou? Rápido e raspteiro. Os textos como "Mude" e outros devidamente créditados ou não são agora um turbilhão de informações. Sobre o fazer tudo sempre igual, esse continua condenável. A não ser na letra de "Cotidiano" do Chico, que é linda e uma delícia (pois há uma sensação de que não se beija mais com a boca de maçã).

Fui adepta do "Mude" por anos a fio. Ainda gosto dele, mas joguei fora bússolas. Não tenho GPS e, por mais que tente me fazer valer de um argumento mais "filsófico", me pego lembrando de "Igual a Tudo na Vida". A cena é Woody Allen dizendo a Jason Biggs algo como: "se alguém lhe der um conselho, não retruque. Diga 'ah, que ótima ideia'. E depois faça o que quer fazer".

Tem coisas que eu não vou, não quero e não necessito mudar. Isso não tem nada a ver com resistência ao novo, ser metódito, irrascível ou algo do gênero. Eu não mudo, por exemplo, do lado que viajo no metrô. Vou sempre sentada na janela direita vendo as árvores. Observo ali os raios de sol, algumas flores e linhas de trem. Os prédios surgem de vez em quando. No entanto, eles predominam no lado oposto.

Eu sempre como pão com manteiga e se for para usar margarina, prefiro a seco. Eu nunca deixo de ouvir uma música bonita quando estou muito triste: tenho playlists de dias cinzas e pouco inspirados. Em toda e qualquer gripe, como na que estou no momento, desejo canja de galinha que a mamãe faz. Posso estar a quilômetros de distância, casada ou morando em outro lugar como estive...não muda esse pedido de afago numa tigela com legumes picados em cubinhos.

Não mudo meu jeito de sorrir para o mundo quando estou apaixonada. Talvez, no fundo, eu devesse mudar a assustadora mania de acompanhar em francês (que eu não falo) ou italiano (menos ainda) canções na linha "que você fez para mim" escutadas em volume máximo no iPod. Não deixo de citar meus autores favoritos em momento "keep walking". De modo que vou juntando Pessoa, Drummond, Clarice, Leminski, Caio F, Manoel de Barros, Xico Sá, Martha Medeiros, Tati Bernardi. Desde que eu me entendo por mim, piso em sementes secas (aliás, faço uma competição com minha mãe e minha irmã) espalhadas pelas calçadas pelo prazer de ouvir "crec, crec, crec".

Quando eu era criança, pedia para meus pais repetirem incontáveis vezes o disco "Revólver" do Walter Franco. Aos sábados, comia espaguete ao sugo com meu avô Nunzio e, sorrateiramente, passava pãozinho francês para limpar o prato. E essa coisa de mudar atrapalha muito, pois me coço numa cantina para não fazer exatamente daquela maneira que fazia: ainda mais com o redor da boca todo vermelho e feliz.

Não mudar também é uma experiência maravilhosa, que traz lá sua mágica. Domingo fui ao Mercado Central tomar limonada na banquinha que existe desde 1938. Eu poderia tomar um açaí (que passo), o novo suco exótico daquela fruta asiática da qual não me lembro o nome. Nenhum deles me traria de volta lembranças tão instantâneas do meu avô Azevedo ou do meu pai. Nenhum deles seria capaz de convencer o amigo de São Paulo de que aquela limonada por demais adoçada era algo único.

Não mudar, enfim, é o lugar da memória, do conforto, do calar-se com a boca de maçã. Eu gosto disso.

sexta-feira, novembro 18, 2011

All by myself

E chega o dia em que você tem que lidar sozinha com coisas que costumava compartilhar. Olhar, sem a ajuda do outro, se o apartamento vazio para alugar tem alguma infiltração no teto do banheiro, pias com água vazando na cozinha e portas rangendo. Você tem que decidir se segue procurando ou se resolve logo a questão.

"Por que vai morar sozinha?", todos me perguntam.

Dividir é subtrair despesas e solidões. Temporariamente, moro com uma amiga maravilhosa, que foi das poucas alegrias nesse ano ordinário, essa sequência baixo-astral de 2010.

E por que abrir mão dessa pequena dose de felicidade? Por que ficar ouvindo o som da própria voz num domingo à tarde? Numa noite fria? Numa rua desconhecida?

Eu simplesmente preciso, fui levada (por mim mesma) a lidar sozinha com coisas que costumava compartilhar. Com o novo e provisório lar, com a eterna vontade de voltar para aquele lugar que me fez feliz (e também triste e também sozinha), com os projetos adiados que podem estar suspensos para todo sempre (uma viagem longa? Um filho? Um livro?).

Eu preciso entender sem o conselho amigo, o divã, a tarja preta, o floral o que eu venho fazendo da minha vida. Por que eu não economizei dinheiro? Por que, a essa altura, não estou olhando um imóvel para comprar?

Por que não soube lidar com o casamento? Por que não sei lidar com certas ausências, tristezas, falta de gentilezas, pisos sem sinteko, buscas em classificados?

E chega o dia que você tem que lidar sozinha com esse contrasenso de querer compartilhar algum sentimento e, por hora, não dividir isso que é incerto faz cinco anos: um lar.

Essa coisa difícil (e que dói) de querer ser você mesma e de não poder ser você mesma a todo momento. Estar por sua conta. O desconforto do ser demais intensa, nada organizada. A sensação de "minha vida sem mim".

Eu desperdiço horas com o inútil, eu quero ler mais livros, ver mais filmes, rir com minhas amigas, emagrecer quatro quilos, achar um apartamento, encontrar quem me ame assim sem tantos poréns, viver em outra cidade.

E chega o dia que você tem que lidar sozinha. Segurar o choro na marra. A roupa amassada não é o fim do mundo, os sapos que se engole no trabalho alguma hora vão coaxar em outro brejo. Tudo se ajeita, até com a pouca perspectiva de céu azul na maior parte de temporada de chuva.

Não dá mais para cair na tentação de culpar o retorno de Saturno, as escolhas da carreira, o relaciomento que ruiu, os pais por qualquer complexo mal resolvido e a si própria. Há muito com o que lidar.

E sozinha.

quarta-feira, novembro 16, 2011

Do amor inventado

Eu me acostumei há muito com o café sem açúcar e não me importo com a dança sem par, mas que você podia ter ao menos me contado uma estória romântica, ah podia. Logo você que tem tanto talento no trato com as palavras: não foi por acaso a mentira que a minha vaidade quis.

Tenho dificuldade em continuar parafraseando porque travo na hora do "nosso amor a gente inventa". Talvez seja "mudança de comportamento". Quase um mash-up, troca de playlist, só que tem a ver. Não é você, sou eu...essa vontade louca de mim mesma. A solidão tem mesmo me deixado forte. Mais fácil falar dela do que desse corte lento e nenhum pouco profundo entre você e eu.

E, de fato, te ver não é mais tão bacana quanto a semana passada...e olha que faz tanto tempo que nem cabe a licença poética. Nos vimos em 2010 ou 2009? Nem me lembro. Houve uma época em que eu memorizava datas do calendário com uma precisão invejável. Eu agora quero que os dias passem.

Você não pode ver que no meu mundo um troço qualquer morreu. E eu tenho que parar de inventar amores, que nunca existiram, para me distrair. No entanto, logo logo eu roubo mil rosas de novo. Sou exagerada, não tem jeito.

Imagem do tumblr Observando

sexta-feira, novembro 11, 2011

Hopes & Fears

Porque de vez em quando é preciso dar uma "pollyannada" diante das desventuras em série.

"Para celebrar o meu envelhecimento, certo dia eu escrevi as 45 lições que a vida me ensinou. É a coluna mais solicitada que eu já escrevi". Por Regina Brett, 90 anos de idade, que assina uma coluna no The Plain Dealer, Cleveland, Ohio

1. A vida não é justa, mas ainda é boa.

2. Quando estiver em dúvida, dê somente o próximo passo, pequeno.

3. A vida é muito curta para desperdiçá-la odiando alguém.

4. Seu trabalho não cuidará de você quando você ficar doente. Seus amigos e familiares cuidarão. Permaneça em contato.

5. Pague mensalmente seus cartões de crédito.

6. Você não tem que ganhar todas as vezes Concorde em discordar.

7. Chore com alguém. Cura melhor do que chorar sozinho.

8. É bom ficar bravo com Deus, pois Ele pode suportar isso.

9. Economize para a aposentadoria começando com seu primeiro salário.

10 Quanto ao chocolate, é inútil resistir.

11. Faça as pazes com seu passado, assim ele não atrapalha o presente.

12. É bom deixar suas crianças verem que você chora.

13. Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem idéia do que é a jornada deles.

14. Se um relacionamento tiver que ser um segredo, você não deveria entrar nele.

15. Tudo pode mudar num piscar de olhos Mas não se preocupe; Deus nunca pisca.

16. Respire fundo. Isso acalma a mente.

17. Livre-se de qualquer coisa que não seja útil, bonito ou alegre.

18. Qualquer coisa que não o matar o tornará realmente mais forte.

19. Nunca é muito tarde para ter uma infância feliz. Mas a segunda vez é por sua conta e ninguém mais.

20 Quando se trata do que você ama na vida, não aceite um não como resposta.

21. Acenda as velas, use os lençóis bonitos, use roupa chique. Não guarde isto para uma ocasião especial. Hoje é especial.

2. Prepare-se mais do que o necessário, depois siga com o fluxo.

23. Seja excêntrico agora. Não espere pela velhice para vestir roxo.

24. O órgão sexual mais importante é o cérebro.

25. Ninguém mais é responsável pela sua felicidade, somente você.

26. Enquadre todos os assim chamados "desastres" com estas palavras: em cinco anos, isto importará?

27. Sempre escolha a vida.

28. Perdoe tudo de todo mundo.

29. O que outras pessoas pensam de você não é da sua conta.

30. O tempo cura quase tudo. Dê tempo ao tempo...

31 Não importa quão boa ou ruim é uma situação, ela mudará.

32. Não se leve muito a sério. Ninguém faz isso.

33. Acredite em milagres.

34. Deus ama você porque ele é Deus, não por causa de qualquer coisa que você fez ou não fez.

35. Não faça auditoria na vida. Destaque-se e aproveite-a ao máximo agora.

36. Envelhecer ganha da alternativa morrer jovem.

37. Suas crianças têm apenas uma infância.

38. Tudo que verdadeiramente importa no final é que você amou.

39. Saia de casa todos os dias. Os milagres estão esperando em todos os lugares.

40. Se todos nós colocássemos nossos problemas em uma pilha e víssemos todos os outros como eles são, nós pegaríamos nossos mesmos problemas de volta.

41. A inveja é uma perda de tempo. Você já tem tudo o que precisa.

42. O melhor ainda está por vir.

43. Não importa como você se sente, levante-se, vista-se bem e apareça.

44. Produza!

45. A vida não está amarrada com um laço, mas ainda é um presente.


segunda-feira, novembro 07, 2011

Um post sobre sexo

Toda vez que vejo uma revista masculina descolê, dessas que não mostram as moças peladas mas se "insinuando" e fazendo "revelações picantes", penso na hipocrisia do "mondo macho". Nada contra a Fernanda Lima (que eu acho linda e talentosa), em absoluto: isso seria recalque. E posso ter todos os defeitos do mundo. Esse, graças a Buda, não me pertence... Mas quando a Fernanda Lima diz que adora sexo oral, que tem uma vida ativa, saudável, incendiária e tudo mais, os rapazes batem palmas, compram a publicação e sonham com ela.

Seja mais uma na multidão a assumir que gosta da coisa e que os moços precisam dominar certas técnicas (a Fernanda Lima disse isso) e pronto: o que os caras realmente pensam vêm à tona. Na mais gentil das possibilidades há uma distinção entre a facinha (que curte horizontalizar) e a moça fofa "para casar" (que amarra minimamente até o quinto encontro, como algumas norte-americanas fazem no "five date"). A primeira tem muito mais chances de ser descartada, mesmo que seja linda e bem resolvida como a Fernanda Lima. Ela vai seguir achando que quem a rotula é imbecil, embora, no fundo, fique um pouco decepcionada, pois já está no século 21 e blábláblá. Azar o seu querido? Azar mesmo!

Não falo aqui de amor, de pensar no futuro com dois filhos, casa de campo e afins. Falo apenas de desejo, puro e simples que devia ser respeitado parta de onde partir. Os homens héteros, que compram a revista com a Fernanda Lima na capa, morrem de inveja do Rodrigo Hilbert. No entanto, ignoram a realidade, pulam para a próxima sem aproveitar o supra-sumo do novo encontro, com novas posições. E olha que éramos nós as viciadas nas aventuras de Carrie, Miranda, Charlotte e Samantha. Nós aprendemos e ensinamos as desventuras do quarteto apimentado.

Eu tenho todos os DVDs de "Sex and the City" e acho a série genial. Ela traduz aquilo que nós, que não estampamos capas de revistas - com nosso corpinho desenhado pela ioga - pensamos sobre o sexo casual, por exemplo. Queremos tirar o melhor proveito dele. Só isso. E se na primera vez não foi grandes coisas, estamos abertas ao segundo encontro. Isso tem mais a ver com generosidade ou otimismo (vai saber) do que com o querer um namorado ou marido, como pressupõem os moços. Mas de uns tempos para cá, eles acham que a gente beija e, necessariamente, se apaixona (honestamente: eu queria ter uma auto-estima assim tão elevada).

Os caras somem e ficam nossas lingeries rendadas e intenções picantes para trás. Porque se não somos Fernandas Limas, divas globais, somos minimamente biscates, carentes, desesperadas e outros adjetivos misóginos. Uma pena. Eu esperava mais da minha era. Eu achava que a briga dos meus pais por igualdade, em todos os níveis, devia ser validada.

Eu não vivo em Nova York e só bebo Cosmopolitan perto do quinto dia útil. Todavia, no cafezinho, boteco e similares ouço (e faço) reclamações sobre o assunto. Chego à conclusão feliz de que por mais que tenhamos passado por séculos de repressão - e que se estendem em muitas culturas - nós mulheres, na maioria das vezes, temos um desejo sexual enorme; somos criativas. O fato de só chegarmos ao orgasmo com preliminares dignas já diz muito. Valorizamos a intimidade, seja ela conquistada em algumas horas, seja ela resultado de dias ou meses.

Não somos a Fernanda Lima. Não temos aquele marido gostoso, que supre todas as vontades dela na cama. Estamos, aliás, alguns quilômetros de distância dela: desde a conta bancária à pele perfeita. E quer saber? Sempre teremos nossa criatividade, brinquedinhos e cosmopolitans. Um dia aparece um Mr. Big, um Steve, um Harry e alguns peguetes bem bons para todas nós. O importante é acreditar no "happy end". E isso, rapazes e raparigas, é um departamento muito nosso.

segunda-feira, outubro 31, 2011

Dia D

Porque às vezes ou quase sempre há alguma poesia que fala para e sobre mim. Porque Drummond foi dos maiores e mais geniais. Porque enquanto o coração continuar, a gente pode ter o sentimento do mundo.


"Consolo na praia

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.


Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho."

quarta-feira, outubro 26, 2011

Give me a reason to be a woman

Vou dar um tempinho aqui nas minhas reflexões e no meu sabático coração para falar um pouquinho do mundo real. Esse que estampa as notícias dos jornais, dos sites e ganha compartilhamentos no Facebook. Sei que não é de hoje (que infelizmente se arrasta por décadas e é envolta em silêncio, medo e vergonha) a violência contra a mulher.

Ao ver a menina com a testa cortada em São Paulo, a que teve o braço quebrado em Natal, a que foi molestada em Belo Horizonte não consigo não ficar assustada, temendo por mim mesma, por minha irmã e por minhas amigas. Isso não vai acabar nunca? Que tipo de pais e limites esses sujeitos tiveram na vida?

Porque os "motivos" dos agressores passam por cachaça, ciúme, rejeição e provocação. Nesse último, o fato único e singular da nossa existência é o detonador da raiva. Tempos atrás, eu estava numa boate com amigas. Já cansada e um pouco alta, me sentei no sofá com uma garrafinha de água esperando que elas dançassem a última música para irmos embora. Derepente, um copo de vidro voou em minha direção. E foi tudo muito rápido. Uma delas foi agredida. Eu corri para ajudar; fui atingida no rosto.

Tive a sorte de ter testemunhas abismadas com aquilo, dos funcionários do local terem se mobilizado ao pegar RG do covarde, que fugiu correndo. Foi o que pensei. Mas para o meu azar, naquele dia, saí de casa perfumada, arrumada, de vestido. Pois como qualquer cidadã, não hesitei em prestar queixa numa delegacia onde o policial me olhou de cima a baixo e disse: "além de não adiantar nada, não vamos oferecer nenhuma proteção a vocês".

Aquilo foi mais injusto que receber menos que os homens para exercer as mesmas funções no trabalho, do que sangrar uma vez por mês, do que ouvir o jocoso "tinha que ser mulher" de alguma maneira. Aquilo me embrulhou o estômago, me deixou impotente, me tirou temporariamente a esperança e a vontade de sair à noite por um bom tempo.

Ouvi recentemente que deveria ter denunciado aquele policial, que era abuso de poder. Eu, como uma pessoa esclarecida e educada em valores que prezam a igualdade de todos os seres humanos, seus gêneros, cores, religiões e preferências sexuais, deveria ter feito algo mais. Me arrependo e não me arrependo. E se a atitude me expusesse a uma violência maior? E se afetasse, de algum modo, aqueles que eu amo? Eu leio os jornais, os sites, as redes sociais. Não é paranóia.

Eu me sinto violentada diante da violência. Sou do tipo que desvia o olhar de um acidente no trânsito com vítimas ensaguentadas, que não quer saber da reconstituição do assassinato de uma criança de cinco anos ou dos detalhes sórdidos sobre filhos que agridem pais idosos.

Talvez e nem só por isso é que aqui no blog, no meu sábatico coração e na minha vida eu tento ser algém melhor. Porque o caminho deve ser de flores, generosidade e gentileza.

sábado, outubro 22, 2011

A estrada é longa

A quantidade de dias para chegar ao destino eu não sei.
O pensamento é vasto, imperfeito.
E ouvi de alguém muito sábio que eu deveria tomar a direção dessa minha vida sem mim.
Eu não conheço atalhos, mapas ou respostas.
Estou sozinha.
Andei por alguns desses caminhos, de fato. Parei o carro e desci.
A estrada ainda está lá. Nem adianta programar o GPS
E ouvi também que eu deveria saber o que quero.
Passei tanto tempo achando que o que não quero fosse mais importante. E não soube responder o contrário.
Lá vou eu reunir essas coisas espalhadas, chamadas de bagagem. Colocar as malas no carro que não tenho.
Vou errar o itinerário por mais vezes, porém a estrada é longa.
Sinto falta de ficar no banco de trás apontando para a paisagem, para as vaquinhas no pasto e para o pôr-do-sol.
Queria colocar o rosto para fora, sentir o vento.
Aquele foi outro momento.
Poderia se repetir?
Talvez não. Alguma inocência ficou para trás entre curvas e quilômetros rodados.
Eu não sei o que encontrarei ao fim.
Eu não sei se chegarei ao fim.
Entretanto ouvi que deveria saber o que quero e concordo.
Ainda que eu mude de ideia, de rota, de casa, de cidade.
Saber o que quero.
Uma jornada e tanto.

segunda-feira, outubro 17, 2011

Nem é bem calmaria...

Tenho pensado no mar.
Não é bem a imagem de férias, dia de luz, festa de sol.
Me vejo olhando o mar; o mar imaginário que não virou cartão postal.
E na playlist, "12 Quedas" do China.
Tenho pensado em como essa letra diz muito sobre meu passado recente ou como me comportei quando deixei o meu destino para trás...

12 Quedas
China

Eu deixei o meu destino para trás
Como um rio desci doze andares
Doze quedas pra chegar no mar

Eu nadei contra toda corrente
Que tentou me afogar na ilusão
De um céu azul

O sal curou minhas feridas
E as ondas vem beijar meus pés
Mas de que adianta ter o mar

Se sou mais um rio que secou
Nem meu choro vai conseguir fazer
Uma nascente nova de esperança pra eu viver

Eu deixei todo o desejo me guiar
Me entreguei por tanta vezes
Sentimentos jogados no chão

E nadei contra toda corrente
Que tentou me afogar na ilusão
De um céu azul

O sal curou minhas feridas
E as ondas vem beijar meus pés
Mas de que adianta ser o mar

Se sou mais um rio que secou
Nem meu choro vai conseguir fazer
Uma nascente nova de esperança pra eu viver

Se sou mais um rio que secou
Nem meu choro vai conseguir fazer
Uma nascente nova de esperança pra eu viver


Tenho pensado no mar um tanto estático, como o momento presente. Não é bem calmaria. Venho me conhecendo o suficiente para saber que a decisão de levar a bóia à tira-colo é sábia. Nada de mergulhar sem saber qual a profundidade do mar, rio, piscina, fonte ou bacia. Chega de se "afogar na ilusão de um céu azul". Ao menos por hora. Por hora, não é bem calmaria, é pausa mesmo: mar em dia de chuva fina, sem vento ou ondas revoltas.

Tenho pensado em "12 Quedas" e na parte da letra na qual não me encaixo. Eu vejo um mar imaginário. Quem sabe porque sempre estive longe dele. Sou das montanhas e preciso viajar para pisar na areia. Talvez minhas analogias sejam outras, assim como minhas impressões sobre aquele infinito verde-azulado. A "nascente nova de esperança pra eu viver" é algo em que acredito, ainda que sugira agora a apatia (e nem é somente sugestão). Mas definitivamente, não sou mais um rio que secou. Seja nas profundezas oceânicas ou brincando com um caranguejinho grauçá na praia, a tal esperança aparecerá, em algum verão desses.

Tenho pensado no mar.
E por mais que não seja a imagem - longínqua - das férias, elas bem que podiam vir logo para eu mergulhar no mar.

Simples Assim:

quinta-feira, outubro 13, 2011

Post-its

Vou te contar como entrei nesse lugar.
Um belo dia, todo movimento resolveu acontecer e foi rolando rapidamente como uma bola de neve. Depois disso, tudo o que eu queria era ficar quieta. Mas aquela voz interna, impertinente, então, gritou: reaja.
Vou te contar como tento sair desse lugar.
Todos os dias, que nem sempre são belos, eu travo uma pequena batalha. Contra papeizinhos que se acumulam. Sabe os papeizinhos do visa electron? Eles se multiplicam na minha bolsa, no meu armário. Eles escondem as contas do mês. E minha memória esconde as datas de vencimento. Eu poderia colocar em débito automático. Mas antes, unificar contas de um mesmo banco. Coisa boba de se por em prática entende? Eu não consigo.
Vou te contar que todo dia acordo procurando coisas chatas. Um documento, um arquivo, um lenço. Não faço a vaga noção de onde estejam. Podem estar na casa da minha mãe, na minha casa, na caixa intocada desde a separação. Eu posso até ter jogado fora.
Para mim arrumar é jogar fora. Simplifica tudo.
Vou te contar que comprei uma revista cuja capa sugere que eu devo administrar melhor meu tempo. Eu até tenho uma planilha de orçamento doméstico no desktop e mantenho escritos na agenda quase em dia. O problema é que acabo fazendo cálculos mentais e guardando datas na cabeça: tenho determinado valor em conta, falta pagar isso e aquilo, não vai sobrar quase nada (de novo). Amanhã é consulta com nutricionista, semana que vem, terapeuta. Uma festa na terça e, no meio do caminho, programar de fazer unhas e sobrancelhas.
O dia passa.
Eu me dou a luxo de tomar um vinho, sem me lembrar da conta corrente. Eu vou resolvendo meu dia no trabalho e, quando percebo, adiei para o dia seguinte a tarefa chata de ser encaixada num horário digno com a manicure que não é a açogueira. Lá vou eu mesma pinçar a sobrancelha com medo de deixar o desenho torto.
O fogo anda comigo. A disciplina não.
O fogo anda apagado. Estou sem vontade de sair à noite, sem querer "conhecer gente nova" (e também achando que já conheci todo mundo que deveria conhecer), sem muita perspectiva de possíveis encontros com tilintar de sininhos e tudo mais (digo isso porque há uma pressão mundial para que eu me dedique minimamente aos "paraísos artificiais". E sim, tenho saído à francesa).
A disciplina vai mesmo até a página 9. Sigo o programa alimentar sem arroz, feijão, chocolate há meses. Não da maneira rígida, como deveria, porque o drink para relaxar é calórico e...bom!
Amanhã eu fico triste subindo naquela balança. Amanhã fico mais pobre com as tantas vitaminas caras que vão cutucar meu metabolismo. E quer saber? Ainda que na corda bamba, tirar oito quilos de mim foi a melhor coisa que já me aconteceu neste ano. Leveza, como na minha tatuagem do pulso esquerdo.
O problema é esse querer mais.
E o que eu quero é mais de mim.
Porque quero contar como finalmente saí desse lugar.

quarta-feira, setembro 28, 2011

Andando por aí...

Gosto de andar por ruas que pouco conheço. Em endereço novo, mudo minha rota com frequência para poder observar as casinhas que restam, os quintais escassos, as janelas com telas, plantas no parapeito ou simplesmente abertas. No Santa Efigênia há mercadinhos e armarinhos que parecem de cidade do interior. Eles constrastam com muros pichados, novos prédios e carros barulhentos. Mais do que dizer aonde eu posso comprar pão ou jornal na redondeza, sei que a duas esquinas abaixo da minha rua existem damas da noite no meio do quarteirão e também um boteco desses que parecem vender ovo cozido azul.

Gasto o tempo livre juntamente com a sola do sapato. Hoje ao sair do salão no Funcionários (onde cometi uma traição com aquele que corta meus cachos por tantos anos que perdi as contas), resolvi não pegar ônibus ou táxi. Decidiria no trajeto se o melhor era voltar para casa ou ir ao cinema. Porque comecei o dia inspirada, depois dei uma murchada com algo bacana que eu esperava que acontecesse e não rolou simplesmente. Muitos passos até a avenida e a resolução do impasse estavam por vir. Enquanto isso, li o emblemático "mudança" num caminhão, acompanhei o ritmo de uma velhinha amparada por uma enfermeira em seu caminhar, tentei reconhecer novas vitrines.

Não sei porquê parei diante de um lugar com a parede lilás. O cheiro amadeirado foi um convite para eu entrar. Diante de diversos incensos e mandalas (tenho esse lado riponga), surgiu uma mulher com uma expressão tão serena...Também não sei porquê, em segundos, comecei a contar tudo sobre mim. Um tudo recente, essa avalanche 2010-2011. Era Saturno, dizia ela. E foi assim que me convidou a ver como os planetas do meu mapa estavam transitando confusos enquanto euzinha andava pelas ruas procurando a tal poesia cotidiana. A mulher de ar tranquilo me deu uma essência, conselhos de purificação e, mais que qualquer fórmula mágica imaginada pelo leitor, um ombro amigo.

Porque tem coisas que às vezes a gente não diz mesmo nem para os amigos. Ou não fica repetindo como um disco arranhado.

E escrevendo essa crônica, que nem é das mais inspiradas, coincidentemente anotei de uma revista que estava lendo na espera do salão uma pequena delicadeza que sintetiza e coloca, talvez, a dose criativa que faltou nas minhas linhas.


"As coisas não querem ser vistas por pessoas razoáveis. Elas desejam ser olhadas de azul".


Só podia ser o Manoel de Barros

quarta-feira, setembro 21, 2011

Club Silencio

Eu estava ali, atrás da linha amarela, procurando o sol em frestas. Ventava muito, o trem demorava e meus pensamentos não. Comecei a chorar. Foi poucos dias atrás. Escondida pelas lentes dos óculos escuros, nem procurei disfarçar.

Porque eu choro semanalmente. Eu choro quando estou de TPM, eu choro vendo um casal de velhinhos de mãos dadas na praça, eu choro na volta de uma viagem a São Paulo, eu choro ouvindo música - e tenho até playlists específicas para tal -, assistindo a certos filmes e lendo o que me emociona.

Eu choro descascando a cebola e choro porque meu esmalte lascou. Porém nunca choro por esses motivos. São as lembranças fervilhando, as ausência assombrando, as limitações sufocando, as belezas sorrindo para mim. Eu choro para conseguir lidar. Eu choro por não conseguir lidar.

Eu enxugo minhas lágrimas tão rapidamente que, às vezes, acho que não choro há meses. Foi um cisco, foi um risco, foi o trem que eu perdi por segundos. E eu ali, atrás da linha amarela, procurando o sol em frestas.

terça-feira, setembro 13, 2011

Uma década

Ontem li algumas crônicas de colunistas da revista TPM dizendo como a vida delas mudou em dez anos. Fiquei pensando sobre a minha própria, pesando na balança as tais perdas e os tais ganhos, tentando entender se eu era mais feliz naquele lugar ou neste.

Não era. Não sou. E não que eu peça para tirarem o sorriso do caminho para passar com a minha dor. Eu simplesmente tive momentos maravilhosos e duros na casa dos vinte, como os tenho agora. E aos quarenta, cinquenta, sessenta e enquanto durar o estoque.

Dividindo os maravilhosos ontem, hoje e amanhã estão meus amigos. Eles são os protagonistas dos meus mais sinceras alegrias. Com eles eu viajei, dancei até o dia amanhecer, dividi sonhos e confidências. E eles seguiram ao meu lado quando as nuvens negras pairaram. Deram colo quando o sofrimento era agudo demais para suportar e sacudidelas quando eu encarnava a "drama queen".

Muita gente em dez anos trocou de carro, comprou uma casa e teve um filho. Eu não dirijo, estou tentando achar o meu lugar e tenho uma gata de estimação. Na minha rota, sempre sem planejamento, fiz a pós graduação que queria (e não aquela que garantiria um empregão), me mudei de cidade quando não desejava mais andar pelas ruas e ladeiras de Belo Horizonte, escrevi um livro virtual que me fez entender que seria possível arriscar, me casei e me separei de um grande amor.

O que eu sou hoje não é de perto o rascunho do que eu pensava que seria dez anos atrás. Sou bem melhor em muitos aspectos e, por que não, uma decepção em outros. O melhor não é para que eu me envaideça e o decepcionante é para que eu não desista.

Fiquei pensando naqueles textos das meninas da revista que eu lia e que hoje, eventualmente, folheio. Elas são como eu, como você, como o título do filme do Woody Allen, "igual a tudo na vida".

sábado, setembro 10, 2011

Vai chegar a hora...

Vai chegar a hora que eu vou te esquecer.
Não me lembrarei mais do sabor do seu beijo.
Vou me esquecer do seu sorriso tímido.
Não me lembrarei mais de como era ouvir você dizendo que me achava linda.
Vai chegar a hora que eu não vou querer saber por onde você anda.
Não me importarei se o acaso nos levou ao mesmo lugar.
Você já não será a saudade que eu não gosto de ter.
Vai chegar a hora que nossa predileção por chocolate meio amargo, cinema, música e pelo mesmo time no futebol serão apenas mais um punhado de interseções que me ligam a tantas outras pessoas.
Pessoas mais importantes do que você foi.
Você simplesmente nem quis ser.
Eu que te trouxe para o meu mundo, pois queria te dedicar poesias escritas em post-its e deixar de presente em alguns lugares.
Para você se lembrar de mim.
Mas você me esqueceu rápido.
Você nem olhou para trás.
Eu ainda estava me lembrando de você.
Eu ainda puxava da memória nossas conversas meio sem sentido.
Eu me lembrava de como era bom acariciar o seu cabelo.
Na minha recordação você fechava os olhos. Você sorria com seu sorriso tímido.
Era eu que enrubescia naquele breve intervalo.
Era eu que me esquecia de quem eu era ao seu lado, só de sentir suas mãos entrelaçadas com as minhas.
Eu que me esquecia de que precisava também não ser tão eu.
Fui eu, fui sua e fui outra.
Te confundi.
Estou tentando me lembrar de mim. Aos poucos.
E vai chegar a hora que eu vou te esquecer.


sexta-feira, setembro 09, 2011

Tomorrow is another day

Todo mundo tem um personagem de cinema para servir de alterego em determinados momentos. Eu tenho vários. Um deles, no entanto, nunca me abandona. Scarlett O' Hara. São delas frases como "amanhã vai ser outro dia", "amanhã eu penso nisso" e "nunca mais passarei fome". Mocinha épica, dramática, heroína...e eu arriscaria dizer que nasceu sob o signo de áries. Tudo bem que pode parecer devaneio, contudo se o alterego é meu, o roteiro também será.

Eu me lembro de Scarlett sempre que faço "algo errado". Um exemplo: beber além da conta. Amanhã, aquele dia sem ressaca, será definitivamente outro dia. E, com o estômago revirado, costumo sentenciar que nunca mais bebo tanto ou que nunca mais deixarei de me hidratar no processo e coisas do gênero. Diferentemente de Scarlett, essa é uma promessa não cumprida.

Decidi encarar então o lado diva quando eu sair da linha. Regra número um: checar com uma fonte confiável qual tipo de heleninha eu fui (alegre, sonolenta, chorona, agressiva). Regra número dois: não sofrer com o fato de ter sido um pouquinho inconveniente. Afinal, já aturei milhares de porres alheios levando super na esportiva. Se o estrago for grande, claro, o pedido de desculpas é imediato. E página virada, pois será um longa jornada sorvendo água, gatorade, coca-cola e todo milagre anti-ressaca que se anunciar. Regra número três: caprichar no visual. Sair de casa arrastando toda a lama da manguetown só irá piorar o olhar de inquisição daqueles que acordam dispostos e sãos em 80% de seus dias. Regra número quatro: rir de si mesmo por ter agido como adolescente bocó porque a vida é curta blábláblá. Regra número cinco: nada de rebater. Voltar o quanto antes para casa e dormir muito para receber feliz o tão aguardado o dia seguinte.

"Tomorrow is another day".

Esse é o mantra.

domingo, setembro 04, 2011

The Whole Love (este post não é uma resenha)

Azul de domingo. Café forte com pão de queijo. The Whole Love. E meu dia começa, minha vida se reinventa a todo momento. Penso em como não viveria sem a cor, o afago, o cuidado, a inspiração e a amizade.

Um punhado de anos atrás um amigo me deu meu primeiro CD do Wilco. E por mais que tempo, distância e circunstâncias adversas tenham nos afastado, lembro-me dele com carinho quando ouço Jeff Tweed cantar. Dedicaria, ainda, para um grande amor que hoje é um grande amigo. E faria o mesmo para o próximo escolhido. Tenho apreço profundo pela a cumplicidade. Simples assim.

Cumplicidade, aliás, invadiu minha vida. Estou dividindo casa com uma amiga extremamente gentil e de quem, a cada dia, gosto mais. E assim vou abrindo meu coração para que outras pessoas generosas, sensíveis e divertidas entrem lá e sejam sócias vitalícias.

Tenho estreitado outras amizades, que me comovem. Recebi um e-mail essa semana e me vi numa espécie de "Cartas para o Coração". Mas como não estamos em continentes distintos, conforme aconteceu com a Clarice Lispector e o Fernando Sabino, mais do que desejar, colocaremos em prática nossa ideia do pic nic na sala de estar. Porque a vida e as pessoas não precisam o tempo todo complicar.

Escuto essa lindeza The Whole Love querendo encher o tempo que resta de cores. Sei que às vezes baixa um "no colors anymore, I want them to turn black"...Porém, estou virando expert em nadar contra a corrente. Quem sabe aos poucos eu me liberte até de bóias que me ajudam a cruzar rios e mares?!?

Tem muito amor para haver nessa vida. Eu tenho essa sorte tranquila. Eu brindo essa sorte com música, com minha admiração sem fim. Porque a gente só consegue amar o que admira primeiro. E admirar é espontâneo.





quinta-feira, setembro 01, 2011

Entregando para poesia

Não é para Deus, para o acaso, para os astros, para a sorte, para o destino, para a análise. Eu sei que precisava de ter nessa vida - e nesses ciclos de mudanças intermináveis - mais fé, mais tranquilidade, mais paciência. Entrego para o que me inspira. Ainda e por enquanto. Entrego para me forçar a acreditar: que seja doce.


O Lutador

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entretanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.

Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue...
Entretanto, luto.

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.

Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.

Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor

me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.

O ciclo do dia
ora se conclui
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.

(Carlos Drummond de Andrade)


quarta-feira, agosto 24, 2011

Jardinando

Via-se, então, diante de uma nova perspectiva, necessidade e vontade. Cuidaria do seu jardim. Tentava, intuitivamente, como fazia com ingredientes e temperos na cozinha, planejar aonde ficariam roseiras, margaridas e que outras flores campestres - das quais não sabia o nome - iriam continuar por ali. Queria ter damas da noite para perfumar o caminho dos passantes admiradores de estrelas.

Cuidar daquele jardim pedia paciência, algo que nunca cultivou. Limpar aquele jardim previa eliminar muito do que estava enraizado, porém que não servia mais e até fazia mal. Contemplava seu jardim como a própria vida, que não parava de nascer, morrer e ressurgir.

Lembrava-se de que cuidar de jardins era um dom para os muito especiais, como sua avó e o George Harrison. Queria ser muito especial de algum modo. Queria menos som e fúria. Queria mais borboletas, passarinhos e joaninhas. Queria, cuidando de seu jardim, ser menos verbo em aberto para ser conjugado por quem imagina que possa pisar naquela grama. Pisar naquela grama só com autorização da dona do jardim, para um pic nic na primavera, quando tudo, sobretudo ela, florisse.

Sabia que a primavera não chegaria em setembro. Ao menos não em 2011. Precisava cuidar do jardim sem data-limite. Assim, devia ter toda atenção com o que estava plantado ali. Não adiantava desejar pé de cerejeira ou tulipas. Lidar com o que conhecia seria, desde sempre, o desafio. Quem sabe adiante, com mais habilidade na jardinagem, arriscasse um bonsai.

Agora não é para o risco. Agora é para aproveitar o silêncio.



segunda-feira, agosto 22, 2011

Da série "I'm a little bit witch"

Certa vez uma amiga me fez prometer passar pelo menos uma semana sem ler o Quiroga. Porque eu não saio de casa sem ele. E ainda sou o tipo de pessoa dramática que, se ele diz que o cenário está confuso, me apego a exemplos bocós do meu cotidiano para ilustrar. E haja Mercúrio retrógrado, lua fora de curso...
Também leio a Barbara Abramo, do uol, a previsão semanal do site Somos Todos Um e, claro, não deixo de, no primeiro dia de cada mês, acompanhar Susan Miller.
Meu terapeuta também torce o nariz para meus gurus online. Mais ainda quando eu pago por uma consulta dessas para saber "como será o amanhã" no mundo real.
Tenho um I Ching na gaveta do meu trabalho, três baralhos de tarô e, eventualmente, leio a Cabala. E quem acaba de me conhecer acha estranho, porque minha imagem não corresponde ao estereótipo daqueles que crêem que haja mais coisas entre o Céu e a Terra. Não uso bata, não falo manso, não tenho tatuagem de Shiva...
Ainda que eu não seja estudiosa do assunto, me pego explicando sinastrias amorosas para o mundo e para mim mesma. Defendo o meu tarôzinho que abro para poucos e bons, como um instrumento de compreensão usado no divã, como fez Jung. E o I Ching também era consultado pelos guerreiros asiáticos antes das batalhas.
Há fases em que desacredito totalmente nas previsões dos astros e no momento vivido no tarô. Isso é fundamental e chama-se livre arbítrio. Já me dei muito bem e muito mal quando o Quiroga aconselhou que eu ficasse na minha. E, como sei meu ascendente e lua, sempre vou bisbilhotar além de áries. Posso me apegar à doçura de câncer ou ao furor de escorpião. O fato é que o fogo anda comigo, como na música da Nação Zumbi.
Eu também me divirto com as previsões de internet, sobretudo as que parecem sair da boca do Mestre dos Magos, da Caverna do Dragão. Mensagens subliminares que não me dão a menor pista de como proceder.
Hoje mesmo, ao ler a semanal, me deparei com o seguinte enigma: "no amor, podem ocorrer novidades, mas tudo dependerá de sua atitude: não se precipite e não inicie relacionamentos com estranhos".
Relacionamento com estranhos quer dizer: aquele cara meio excêntrico que eu já mirava ou um desconhecido tipo, "se algum estranho lhe oferecer flores?". Tá bom, isso é propaganda muito velha de desodorante...
Mas que eu queria saber a definição de estranho, ah queria.





terça-feira, agosto 16, 2011

Dia do Solteiro

O dia do solteiro está quase acabando e eu me atrasei para comentá-lo por aqui. Coisa de gente solteira, que toma uma cervejinha descompromissada na segunda-feira, eu sei.

No ano passado pude comemorar o dia do solteiro, mas o fato é que eu nem sabia que ele existia. Passou em branco. Só mesmo agora, por uma questão editorial, me dei conta da data.

Honestamente, não faz muito sentido um esforço para celebrar (a cervejinha supracitada foi compartilhada com amigas comprometidas). E antes que alguém diga que estou maldizendo meu atual "status de relacionamento", explico: não há necessidade de comprar presente, de escrever poesia, de reservar restaurante ou de fazer fila na porta do motel. Logo, qualquer ritual que se cumpra em 15 de agosto é tão "whatever" que a publicidade não explora e a sociedade não cobra, por assim dizer.

Dia do Solteiro serve para lembrar que você está na pista. Alguns querendo um par, outros convictos. Existe, claro, o tipo mais interessante, embalado por aquela canção do Paulinho da Viola: "não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar. Sim, alguém que está. Está aberto, tranquilo, confiante no "best is yet to come", para lembrar outra música, dessa vez, de Sinatra.

Entre homens e mulheres não é difícil arricar que os primeiros se sentem mais à vontade nesse ser e estar. Mulheres, em geral, preferem a companhia. Ainda que sejam as que tomam as rédeas na hora de terminar uma relação ruim.

Como a lista de diferenças pode ser extensa, além de gerar controvérsias, prefiro me ater ao tipo de solteira que eu virei. Porque a cada término de namoro ou casamento fui uma. Cada pausa entre um e outro também.

Importante delimitar fases. Há no início aquela sensação de euforia, de querer beber todo o movimento da balada de canudinho. Tem a temporada de seca, em que parece que ninguém te quer. Tem a bonança, na qual você exala gostosura. Por fim, vem a normalização dos ciclos: de vez em quando se joga, porém passa dias em casa lendo e vendo filmes. Um cara aparentemente legal te dá um perdido. Surge outro, bem mais gato, te dá uns bons amassos e você esquece rápido o primeiro.

Então, é o momento em que aparentemente tudo parece estar propício para que, no próximo dia 12 de junho, você esteja às voltas com outra data. Não necessariamente. Quando penso como venho mudando, essa é a ideia que funciona como ponte e transição. Como na peça que vi recententemente, inspirada em Beckett, "o amor, isso, não se tem quando se quer".

Não é merecimento, matemática ou roteiro de cinema. Não adianta pedir para parar o carro porque você quer descer.

Eu caminho em direção à tranquilidade até no meio da muvuca, navego pelo mar que tem marola e também onda revolta. E nem sei aonde vai dar.

quinta-feira, agosto 11, 2011

Amostra Grátis (ou Das Impossibilidades)

Saudades do telefone fixo, de ouvir do outro lado a voz do rapaz marcando um cinema. Me lembro com carinho das festas "meninas de um lado" e "meninos do outro" feitas nas salas de estar, com luzes apagadas. E consigo tirar da memória exatamente aquela em que o primo de uma amiga me tirou para dançar "Hunting High and Low". Eu tinha 14 anos e ele 18. Eu era bobinha que só e estava vestida com uma camiseta de malha e um short roxo. Ele havia acabado de passar no vestibular, estava com o cabelo raspado. No fim da noite, que nunca atravessava a madrugada, alguns beijinhos e meu telefone anotado num papel.

No dia seguinte, ele ligou. Não sei ao certo se fomos ao cinema ou tomamos sorvete. Mas houve a possibilidade. Nós dois, por razões distintas e comuns, vimos que nossos passos na pista e nossos (ao menos os meus) beijos desajeitados estariam num lugar caro, com gosto de bala ice kiss. Seguimos adiante.

Como aquele moço, outros fizeram meus pais reclamarem que não eram "sócios da Telemig" por uns bons anos. E, obviamente, houve também a espera ansiosa por ligações que não vieram. Os tempos do Gran Bell não impediam o próprio roteirinho "Ele não está tão afim de Você" que as garotas sabem de cor e salteado. No entanto, digo isso assumindo todo meu saudosismo, eram tempos de possibilidades. Estranho pensar que elas se limitavam ao telefone fixo e hoje o contato pode vir pelos mais diversos meios. Só que o celular não toca e a mensagem não chega. As festinhas que começavam às oito ficaram para trás...

Os anos varreram aquele frio na barriga, ainda que trouxessem uma boa dose de coragem, de tomar as rédeas das próprias vontades e, por que não, convidar aquele rapaz que pareceu especial para sair. E par de vários conselhos de algumas amigas, que sugeriram que eu esperasse, funcionou em mais de uma circunstância. Teve reencontro, só para saber mesmo o que os dois queriam. Já quis a mesma coisa, já não quis mais nada. Eu e o cara pudemos, enfim, diante das possibilidades escolher.

Conversando com amigas e amigos que compartilham o mesmo barco, constantemente me pergunto: estamos nos tornando piores? Não temos tempo, paciência, disposição e segurança para o que vem depois. Porque aquele lugar só fica bom após a meia-noite. Lá pelas duas pode haver uma pegaçãozinha básica, que fica nisso ou evolui para aquilo. E só. Somos amostras grátis de nós mesmos. E no dia seguinte é acionar o recurso "brilho eterno de uma mente sem lembranças" porque se foi bom ou ruim, foi. Simplesmente.

Eu faço a mea culpa. Deixei, nos últimos meses, de dar meu telefone (ou seria esperança?). O fato é que o que há disponível nesse clube de corações solitários às vezes cansa e, às vezes, a gente não repara mesmo. Em algum momento, dancei com um cara que queria dançar de novo. Porém sei que as chances de repetir a dose são pífias. Uma amiga me disse outro dia: "só há a primeira ficada. Não existe mais sair de novo com o mesmo cara". A constatação dela, após experiências frustrantes, reforça mais do que o coro. É mesmo uma nota dissonante.

Ter gostado de passar meu precário tempo com alguém não pressupõe, ao menos para mim, em especial nessa altura do campeonato, a necessidade de um compromisso imediato. Eu quero apenas a possibilidade. E acho honestamente uma pena que aquelas "meninas de um lado" e "meninos do outro" cresceram acreditando que quem corre atrás de mais uns beijos, um café ou um filme está carente, desesperado e querendo amarrar o par da festinha em algo definitivo.

Tememos a luz do dia, o olho no olho, o telefone armazenado na agenda?

Eu quero ser passível de ser possível quando realmente valer a pena. Tenha o nome que isso tiver.









sábado, agosto 06, 2011

Pensamentos-pulguinhas

Eles ficam ali me picando, obsessivamente. Chegam ao desafo de me acordar cedo numa manhã de sábado.

E na ordem do dia, da semana e da vida, dois me ocorreram. Um nobre e um meu (plebeu).

"Tudo flui" Heráclito

"Eu sou boa entendedora, desde que a palavra exista"

E ainda há trilha sonora. Isso é muito a minha cara. Eu vou até o fim.