quinta-feira, setembro 19, 2013

Para Mariana

Primavera, essa estação exaltável.
Que venham os ipês abarrotados, que as flores se abram.
Adeus, inverno, mesmo que ele não exista de fato.
Não há frio nessa (minha) irônica Belo Horizonte.
As pessoas cantam Tim Maia e Los Hermanos.
Acreditam que agora vai.
Vai?
Um estranho te oferecer flores é propaganda dos anos 80, com violinos de Vivaldi.

Quando vem a primavera, penso nela, com seus cabelos da cor de girassol.
Lembro-me com exatidão do sonho que tive na véspera de sua partida.
Estávamos de branco, num jardim.
Não sou de usar branco, mas era ocasião de despedida.
A única possível.
Na vida real, eu torcia por sinais naquele quarto de hospital. 

Mas ela se foi no outono, pouco antes do meu aniversário.
E quando chega a primavera, a saudade dá aquela espetadinha no meu coração.
Lá se vão três anos.
Saudade sem chance, por hora, de acabar.
Honestamente, nem sei se um dia irei para o mesmo lugar.
Pois o dela é, por demais, especial.

Não esperei o dia 23 dessa vez. 
Queria essa hora estar planejando uma festa de arromba, como fazíamos.
Éramos jovens, seríamos para sempre.
Dançaríamos Bowie.
Olharíamos nos olhos da outra na hora do brinde para não cair na maldição dos sete anos sem...
Trocaríamos livros, confidências, e-mails e mensagens.
Combinaríamos, enfim, aquela viagem para Paris que eu não pude - até hoje - fazer.

Toda primavera, penso nela.
Penso em mim.
Penso em seguir.
Penso em florir.






domingo, setembro 15, 2013

Maria

Prólogo: Resolvi contar a história de Maria por aqui depois de ler o resultado da pesquisa do Think Olga. O site foi idealizado pela Juliana De Faria, com quem trabalhei no Jornal da Tarde, em São Paulo. A Ju era estagiária naqueles tempos, mas meu faro certeiro sempre deu conta de que ela viraria uma grande profissional. E foi o que aconteceu.

Maria autorizou que eu publicasse aqui o porquê de ela não querer saber de fiu fiu quando anda pelas ruas. Eu sou como Maria. Imagino que a maioria das mulheres seja.

A história.

Maria tinha medo de andar nas ruas à noite. Também não gostava de passar por becos ou lugares sombrios. Não era medo de assalto. Ela teria esse medo se morasse numa cidadezinha de poucos habitantes, pois entre eles estariam os homens.

Maria tinha 12 anos quando aconteceu pela primeira vez. Ela estava deitada na sala de televisão assistindo a desenhos. Fazia calor, ela usava um vestido curto. Como parte da geração "meu primeiro sutiã" da Valisére, ela mal tinha peito, no entanto, usava seu modelo branco que a mãe lhe deu de presente, a exemplo de todas as meninas da classe. 

Achou estranho o barulho que vinha da casa ao lado, uma oficina. Resolveu olhar da janela. Saiu correndo ao perceber que o mecânico que sempre a olhava de um jeito estranho quando passava pelas ruas estava de calças arriadas. 

Ficou quieta o dia inteiro. Quis contar para a empregada, para os pais. Os dias se passaram. Ela dava a volta no quarteirão para entrar em casa, evitando passar na porta da tal oficina. Via desenhos com as cortinas fechadas. 

Por anos, apagou aquela imagem de sua memória. Achou que um episódio assim, jamais se repetiria.

Maria completou 16 anos. Gostava de futebol, ia ao estádio com o pai. Vestia-se como um garoto às ocasiões: calça jeans, tênis e a camiseta do clube. Mesmo assim, ao passar no meio da multidão, sentiu uma mão apertando sua bunda com força. O homem desapareceu. Ainda que dessa vez tenha contado para o pai, foi inútil.

Parou de ir ao campo.

Maria passou no vestibular. Não se aguentava de felicidade. O curso era noturno. A mãe achava perigoso ela voltar sozinha de ônibus. O pai argumentava que, em algum momento, ela teria que enfrentar os perigos da vida. Como não havia celular naqueles tempos, o combinado era que se alguma aula se prolongasse, ela deveria ligar para o pai buscá-la.

Rapidamente, Maria arrumou uma turma de amigos que pegava a mesma condução. Mas foi justamente no dia em que Renato faltou que ela correu desesperada pelas ruas do bairro. 

Eram onze horas. Desceu do ônibus e seguiu pela parte iluminada da rua. Andaria três quarteirões apenas. Foi quando ouviu passos atrás. Olhou de relance, acelerou o movimento. O sujeito, então, começou a chamá-la de gostosa, descrever tudo o que faria com ela assim que lhe arrancasse a roupa.

Correu, correu como nunca. Imaginou tantas coisas, como uma bala lhe atravessando as costelas. Na porta do prédio, não achava as chaves. Chorou, jogou tudo que havia na mochila no chão. Entrou em casa, contou para a mãe. Ligou para o pai, que já não morava com elas.

Nas semanas que se seguiram, o pai a esperava no ponto de ônibus. Era horrível, mas era bom conversar com ele, contar como foi o dia, assim como era quando era criança.

Maria mudou-se, arrumou uma carona que a deixava na porta de casa.

Ela já havia se formado quando aconteceu pela última vez. Era uma festa fora da cidade, todos riam e bebiam. Fernando se aproximou. Não era bonito, mas tinha algo de atraente que não sabia explicar. Conversaram a noite inteira, começaram a se beijar. Maria estava exausta, embriagada e disse a ele que retornaria à pousada. Fernando fez questão de acompanhá-la. Foram de mãos dadas. 

Na despedida, ele disse que queria ficar um pouco mais, insistiu para que ela fosse até o quarto dele. Não que Maria fosse bobinha e inexperiente. Um lado dela até pensou em não resistir ao charme de Fernando.

Quis que aquele beijo prolongado fosse a despedida. Subitamente, ele segurou forte em sua cintura, foi a empurrando para um cômodo vazio. Maria pediu que Fernando parasse, queria ir embora.

Percebeu que ele ficou agressivo e tentava rasgar sua calcinha. Não tinha forças, estava apavorada. Foi quando veio o grito "socorro" uma, duas vezes bem baixinho, tão baixo que nem ele ouviu. Na terceira, o tom era grave. Ouviram um barulho no corredor. Fernando a soltou e disse: você queria, só estava fazendo charme.

Não dormiu. Passou a madrugada observando a porta, imaginando que ele voltaria, que conseguiria o que não conseguiu.

Quando amanheceu, ficou mais de uma hora no chuveiro. Percebeu hematomas nas coxas. 

Sentia pavor, nojo e culpa: por que ele achava que ela queria, quando disse na festa que iria embora?

Encontrou com Fernando no café da manhã, que a chamou de gatinha. 

Não conseguiu comer.

Vomitou quando foi buscar sua mala no quarto. Vomitou até sangrar.

Contou para Daniela, a amiga que chegara na sequência, após uma madrugada animada em outro quarto. 

Dani perguntou se Maria queria registrar queixa. Maria não sabia se tentativa era crime. Desde que colocou o maldito primeiro sutiã, foram várias tentativas. Essa, de longe, a mais terrível.

De volta à cidade, ela que nem tinha religião, entrou numa igreja. 

Rezou e caiu em lágrimas.

domingo, setembro 08, 2013

Arrumação

Lavar as mantas e edredons. Guardá-los. Parece simples, não para mim. Pensar na ausência de noites frias me dá uma certa melancolia. Vem a primavera, o horário de verão, o verão, o calor e a chuva. O frio ficou quase nada. E desde o último dia quente há coisas não resolvidas. Papéis, sempre eles. Livros espalhados, outros não lidos. As gravuras à espera de moldura, o sofá pedindo reparo, a consulta médica que eu não agendei.

Pode pedir tempo? Pode pedir altas?

Estranho que ouvi outro dia esse pedido de altas, e concedi. Eu beijava um cara no cantinho de um inferninho, mas ele achou por demais intenso, o que para mim não era nada demais. Pediu o telefone, mandou mensagem de madrugada, de manhã, disse que estava apaixonado, que queria me levar ao cinema. Evidentemente, me assustei porque nossas urgências eram bem distintas. Visualizei o facão, a cena de "Psicose". No entanto, nem tive tempo de cultivar essa neurose, pois ele sumiu na mesma rapidez que apareceu. Não me importei. Um beijo é só um beijo...as times goes by.

Na vida que segue, enfim, depois de mais de um mês coloquei as músicas no iPod. Eu as perdi em agosto, andei por aí sem trilhas. Ouvia o funk dos carros tunados que subiam a Serra, as conversas das pessoas no celular, a seleção da rádio que o taxista escolheu. Imaginei que seria mais sofrido, pois para mim tudo é melhor quando estou com fones de ouvido.

Pintei o cabelo, manchei o tapete do banheiro de vermelho, encontrei cds perdidos, tomei meu café com açúcar em mais essa dança sem par.

Semana que vem eu como menos carboidratos, vou mais ao cinema, faço a unha no salão, arrumo uma diarista e ligo para a agência de viagem.

Estou amarrando esses lacinhos-lembretes invisíveis nos dedos, sempre nessa eterna arrumação.

segunda-feira, setembro 02, 2013

No último domingo...

Comédias românticas pós-Balzac

Após ser beijada, o que acontece com Josie Geller? O casamento de Matt e Jenna é feliz? Janine, após a separação, está namorando? Os personagens citados de comédias românticas de Hollywood – “Nunca Fui Beijada”, “De repente 30” e “Ele não Está Tão A Fim de Você” – estiveram comigo na casa dos vinte e dos trinta.

Uma vez alcançada a marca dos trinta e tantos, passei a não identificar meus dilemas amorosos com o que via na telona de modo tão recorrente. Eu tinha essa curiosidade de saber o que vinha depois, o ponto exato de quem já sentiu o frio na barriga, namorou, usou um vestido de noiva bordado com corações e, um belo dia, desfez a casa, disse adeus, voltando a marcar a opção “solteira” nos formulários de hotéis.

Em qual trama eu estaria? O cinema sempre ajudou a entender a minha própria vida – e sim, faço terapia para ir a fundo, que isso não seja uma preocupação – e sentia que ele congelou na casa dos “vinte-trinta”. Os pré-quarentões, quarentões e cinquentões estariam por onde nas tramas?

O que me faltava, admito, era um pouquinho de pesquisa, pois não desisti da comédia romântica – me desculpe, caro leitor, se você não gosta de doses generosas de açúcar, mas a vida dá muito limão tanto quanto o excesso de caipirinha causa ressaca no dia seguinte – e comecei a prestar mais atenção em filmes franceses, especialmente que não focassem na turma recém-formada da faculdade, cheia de ilusões e com nenhuma ruguinha no rosto.

O que era doce deixou de ser melado. Não se perde, porém, a ternura. Como sabiamente poetizou Drummond, “o primeiro amor passou, o segundo amor passou, o terceiro amor passou, mas o coração continua”. Vieram sessões solitárias com pipocas e lencinhos de papel para ver “Românticos Anônimos” e “Paris- Manhattan”, ambos franceses. De maneiras muito distintas, mostram que é preciso vencer resistências (apaixonar-se novamente ou simplesmente apaixonar-se) e aceitar o outro com uma bagagem que inclui até mesmo pequenas obsessões e loucurinhas.

Eis que nessa semana entrou em cartaz no cinema o ótimo “A Sorte em Suas Mãos”, do argentino Daniel Burman (“O Abraço Partido”), estrelado pelo cantor uruguaio Jorge Drexler. Separado, com dois filhos, Uriel (Drexler) reencontra uma antiga ficante dos tempos de faculdade, Gloria (Valeria Bertuccelli). O termo ficante aqui é apropriado, pois o fato de ele nunca ter pegado a mão dela ou ligado no dia seguinte ajudou o desencontro do passado (as mulheres gostam disso em qualquer idade, e em qualquer cultura).

O fundamental no longa, vale ressaltar, é a relação que ambos querem construir, apesar de tantas complicações. Dessas que a gente vai criando e desatando, relação após relação, com intervalos de desilusão intercalados com aquele otimismo romântico incorrigível. Por isso, no fim, o que queremos é que tudo fique leve, com sorriso e beijo na boca no final, assim como acontece no cinema.