segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Parte 2

Ela chegou em casa querendo vomitar. Seu estômago sempre embrulhava quando se sentia frustrada. Estava com fome, mas não queria comer. Aliás, desde aquele beijo meio desajeitado que foi se encaixando, não quis mais devorar caixas de bis, heranças do fim do namoro sem graça e do breve caso com o famoso babaca. Chegou a se encantar pelo babaca e seu ar meio Julian Casablancas. No entanto, depois de levá-la para cama, sumiu, não respondeu a mensagens, deu "end" nas ligações e ela desistiu. Sorriu ao se lembrar do momento em que conheceu aquele cara meio convencido, que tinha sempre uma tirada engraçada no meio de uma turma que mal conhecia. Queria ser o centro das atenções. Devia ser de Leão, ela pensou de imediato. Com certeza, formou-se em comunicação. Errou o primeiro palpite.

Ouviu o toc toc toc na porta do quarto. 

- Filha, a tia Marta veio aqui e deixou aquela torta que você adora. Está no forno.
- Estou sem fome, amanhã eu como.
- Está tudo bem?
- Tudo ótimo. Só estou cansada.
- Não quer um leitinho morno?
- Não, mãe, obrigada. Qualquer coisa, belisco mais tarde.
- Boa noite então.
- Boa noite.

Acendeu o cigarro. Não parava de pensar nele. No beijo desajeitado que foi se encaixando, nos amassos no carro, quando ela ofereceu a primeira carona. Na primeira noite que passaram juntos, e ela não teve vergonha de ficar andando sem roupa pelo cômodo porque detestava seu tipo físico - peito grande e bunda pequena. Também veio à memória o fatídico dia em que ele falou sobre a ex, a relação complicada e mostrou-se realmente apreensivo, sem aquele jeito próprio de fazer uma piadinha no final. Nem hoje, quando ela o pressionou com a conversa de namoro foi assim. Talvez ele ainda goste dela, concluiu.

Era tarde para ligar ou mandar mensagem para qualquer amiga que pudesse ajudá-la a interpretar aquela conversa. Apagou o cigarro e foi tomar um banho. Ainda era terça-feira. Ele iria ligar. Odiava essa sensação de que não estava em suas mãos. E houve um tempo em que tudo era fácil, tudo era "você que sabe, lindinha". Arrepiava ao se lembrar do antigo namorado grudento, o genro que toda mãe pediu a Deus.

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Os pais estavam vendo um seriado na televisão.

- Filho, se quiser jantar faça um pratinho e esquente no microondas. Não bagunce a cozinha.

Ele abriu a geladeira, montou o prato. Comeu um pedaço de frango à milanesa frio, enquanto esperava a refeição aquecer. Ficou em dúvida se tomava uma latinha de cerveja.

Melhor jantar somente. Ainda era terça-feira.

Sentou à mesa da cozinha, comeu silenciosamente. Deixou o prato sujo na pia, como habitualmente. Foi para a sala.

- Esse episódio é muito bom.
- Eu nunca vi.
- Vocês vão gostar. Boa noite.
- Boa noite.

Entrou no quarto, deitou na cama. Pensou em mandar uma mensagem para ela. Não via muito sentido nisso, embora soubesse que ficou melancólica depois de sua indefinicão. Gostava dela, daquele perfume cítrico, das conversas sobre arte e arquitetos nas quais ela se empolgava além da conta. Era cedo, ele repetia. E também era tarde.

Tirou o tênis, jogou a roupa na cadeira e acendeu um cigarro. Lembrou-se da maldita campanha que deveria finalizar até quinta-feira. Ficou bolando mentalmente estratégias para o cliente. Ligou o computador e a inspiração não veio. Sabia que chegaria na última hora. Aproveitou para baixar o disco do Flaming Lips.

Continua

domingo, fevereiro 24, 2013

Parte 1

Dias atrás comecei a escrever este conto. Os personagens não têm nome, nem sei se terão. Mas eu já sei como termina a história...Preciso de alguns elementos para enriquecer ambos. O título eu ainda não escolhi...

Eles estavam naquele ponto da relação em que nove entre dez mulheres querem saber se é namoro ou amizade e dez entre dez homens nem estão pensando nisso.
Gostavam de bandas norte-americanas mais que inglesas, fumavam Malboro, viajaram para os mesmos lugares. Não torciam para o mesmo time, é fato. Aliás, esse único ponto de desavença era até favorável, pois pareciam um só. Cada vez mais.

Foi numa noite dessas, bebendo cerveja, falando sobre planos, bobagens que ela não resistiu e quis saber.
- E a gente, heim?
- O que tem a gente?
- É isso que eu quero saber.
- Ah, estamos nos curtindo. Você é divertida, inteligente, gostosa e...
- Hum
- Imagino que queira saber se me refiro a você: como namorada, ficante ou qualquer coisa do gênero.
- Olha, eu não quis ser chata, te pressionar...nem devia ter tocado no assunto.
- Tudo bem.

Pediram a conta e ela deixou sua parte. Sempre com uma observação para derreter icebergs, dessa vez emudeceu. Ele sabia que devia fazer algo, no entanto detestava essa mania que as mulheres tinham de discutir a relação. O que esperava? Um pedido solene de namoro num almoço de domingo na casa dos pais dela?  Alguém como ela não poderia ser tão insegura. Resolveu fingir que aquela conversa atravessada não existiu.

- Eu te convidei, não precisamos dividir.
- Faço questão.
- Não faça assim...Beijo? Sorriso?

Ela era ótima atriz ou ele era um crítico sofrível depois daquele esboço nada convincente.

- Tudo bem então...
- Para você está sempre tudo bem.
- Não entendi a ironia...
- Esquece. Aliás, não. Quero saber como você se refere a mim. Interrompi quando você iria falar.
- Pelo seu nome. Ainda é cedo para um compromisso. Você sabe, saí de um namoro longo e complicado.
- Claro. Já falamos sobre isso. O que são três meses né? Prazo de experiência. Desculpa por insistir.
- Boba, você não tem que me pedir desculpa. Vamos deixar levar, ok?

Ela sorriu amarelo novamente e foi caminhando em direção ao carro. Ele ficou na dúvida se ganharia uma carona até a avenida próxima à sua casa. Decidiu apertar o passo, ao menos para dar um beijo de boa noite.

- Te deixo em casa.
- Obrigado, mademoseille.

Mademoseille, que ridículo! Da onde ele tirou isso? Talvez fosse aquele clima tenso. Nunca a chamou assim. Tão pouco a chamava de apelidinhos no diminutivo. Não que fosse cedo para isso. Simplesmente porque achava idiota.

Ela conectou o iPhone ao rádio e selecionou o shuffle. Não queria escolher a playlist.  Porém, começou a cantarolar para disfarçar a decepção. Por que os homens tem que ser tão imaturos? Por que ficam cheios de medos numa nova relação? Deve achar mesmo que estou caidinha por ele, que com quase de trinta anos nas costas, nem sabe o que quer da vida.

- Sexta tem aquele show de que havia falado para irmos, lembra?
- Putz, combinei um churrasco no sítio de uns amigos no sábado. Vou ter que dormir cedo.
- Sem problema.
- Mesmo?
- Mesmo. Vou com as meninas.

Ela sempre apelava para seu clube de luluzinhas de vestidinhos curtos. Sabia que ele ficaria com ciúmes. Sabia que as "meninas" iriam colocar milhões de defeitos nele, sugerir que ela voltasse para o ex bom moço, advogado e engomadinho. Porém, não queria furar com o Pedrão e os caras. Não se lembrava que ela havia mencionado sobre esse show. Por que mania as mulheres têm essa memória de elefante?

- Então, a gente se fala.
- Eu te ligo.
- Ah, claro.

Beijaram-se. Outra ironia estampada no rosto. Dessa vez, ele percebeu. Ela sempre achava que ele não iria ligar, que sumiria sem deixar vestígio, como o babaca com quem ficava antes dele.

Continua

sábado, fevereiro 16, 2013

Marcelo, os escritos deles e nós mulheres

Marcelo Rubens Paiva faz parte de um time de homens raros e especiais. Não esbarramos comumente com caras como ele em baladas. Ele pode até ser aquele amigo que a amiga queria te apresentar, mas você não foi ao encontro porque não gosta dessa coisa arranjada. Talvez ele seja aquele que você viu na livraria semana passada. E, quando ele olhou para você, a reação foi mudar de estante. Homens como ele deixam a gente com as bochechas vermelhas e com a sensação de estar sempre dizendo algo bobo. E eles sempre riem, acham bonitinho.

São homens que amam as mulheres. Cúmplices,  gentis, donos do melhor abraço do mundo. Eles toleram chiliques e neuroses femininas, muitas vezes, de bom humor (como podem?). São homens que, mesmo quando pisam na bola, não te deixam partir. E você não vai, porque eles valem a pena. E se você for, eles correm atrás. Eles são para viver um grande amor. Desses que, por menos durem, ficam de alguma maneira. São deles as cartas amarelas que jamais irão para o lixo, as fotos daquela viagem para Ouro Preto e algumas de suas noites perfeitas.

Geralmente, esse tipo de homem não é o mais bonito (só que você o achará mais interessante que o George Clooney, ainda que não diga...entrando em cena mais uma dessas verdades que a gente não diz). Muito menos irá despertar seu interesse de imediato. Melhor assim. Ele é para se desvendar e ir se apaixonando aos poucos. A conversa dele é sedutora. Tudo com ele é melhor do que foi com qualquer um: beijar, transar e...fazer planos. Porque ele não foge, não tem medos idiotas, não é moleque.

Homens que pertecem a esse seleto time existem e são muito difíceis de se encontrar, sobretudo em tempos tão estranhos como esses. Namorei três ao longo da vida. Tenho meia dúzia de amigos que são exatamente assim. Há os que não conheço, como o Marcelo (usando aqui uma intimidade de quem já leu quase toda a obra dele), o Ivan e o cara de Porto Alegre que escreveu lindamente sobre mulheres de cabelos curtos...Eles escrevem, escrevem bem e nos fazem suspirar...ter aquela pontinha de esperança.

 E do livro que leio agora, "As Verdades que Ela Não Diz", uma crônica (como muitas) que, às vezes, me define. Só que eu hei de começar outro e outro...

E daí que acaba - Marcelo Rubens Paiva

Não aguento mais ouvir uma voz feminina afirmar com amargura e rancor que não quer mais se casar. As muitas seguidoras de Paulo Mendes Campos acreditam que, se o amor acaba, para que começar outro.

São aquelas que se casaram de branco, no dia mais feliz de suas vidas, apaixonadas e entregues, mas que depois enfrentaram a ira de um ciumento, as neuras de um obcecado, as fraquezas de um viciado, se envolveram com famílias alheias intolerantes, conheceram a frigidez na rotina, a traição injusta seguida pelas mentiras incabíveis, e decidiram pôr um fim no sonho de eternizar aquele instante em que tudo parecia fazer sentido, as estrelas estavam próximas, em que nasceram um para o outro e morreriam grudados, na alegria e na doença.

Aquelas que já passaram por um ou dois casamentos e mergulharam no tombo da separação, em que a decepção troca de lugar com o amor, e o futuro vira pó.

Eu não aguento mais replicar: “Se o amor nos enlouquece, imagine a loucura que é ficar sem ele.” Para aquelas que dizem não acreditar mais no amor, proponho então experimentarem outros e apostarem nesse bilhete só de ida.

Uma noite de prazer acaba. Um banquete acaba. Uma viagem inesquecível acaba. O fim de semana na ilha paradisíaca, um campeonato, o dia, o ano, o gozo, um livro, um disco, um banho de banheira acabam. Não por isso, evitamos outros.

Ah, foi o dia internacional delas, que amamos tanto, que nos deram à luz, intuição, formas alternativas de pensar, mostraram detalhes que passavam despercebidos, exigiram atenção, dedicação, carinho, nos fizeram ser românticos, abafar a vergonha e nos inspiraram música, poesia, até guerras. Mas sua descrença com os novos tempos e o velho homem nos deixa desesperados, órfãos. Nostradomus previu isso? Está escrito nos céus?

Se vocês não acreditam mais, quem acreditará? Lembrem-se de Nietzsche, que nos últimos dias numa vila italiana, com o calor na pele, viu alegria no niilismo e esperança no desamparo: “Cada passo mínimo dado no campo do pensamento livre, da vida moldada no seu formato pessoal, foi desde sempre conquistado com martírios espirituais ou corporais.”

Trégua. Que venham os clichês. Cá está o ombro para o choro da mudança de humor inexplicável e inesperada. Quer que eu apague a luz na enxaqueca? Explico com toda a paciência a regra do impedimento, quem joga contra quem, e o que significa aquele quadro no alto da tela, em que três letras, COR, vencem por 2 X 1 as três letras PAL.

Fique na cama na TPM. Trarei uma bolsa de água quente e o jantar. Sim, vamos comprar sapatos. Eu espero. Levo um livro, enquanto você experimenta a loja.

Adorei a cor do esmalte, o corte do cabelo. Batom vermelho te deixa mais bonita. Não, a calcinha não está marcando. Ah, põe o tubinho preto, se bem que gosto quando você coloca aquele vestidinho colorido. Não, o sutiã não está aparecendo.

Eu ligo para o despachante, faço um rodízio nos pneus, troco a bateria, reconfiguro seu computador, mando lavar o tapete, o forro do sofá, também adoro ele com almofadas indianas em cima.

Cuido de você na velhice, não te trocarei por uma adolescente que cheira a tutti frutti, nem pela secretária vulgar da firma, amarei a sua pele um pouco mais flácida, seus seios naturalmente instáveis, seu corpo maduro, seus joelhos frágeis. E tomaremos vinho tinto todas as noites. Prefere branco? Que celulite?

Porém a maioria de vocês conhece agora as teclas atalhos, a pressão nos pneus, sabem chamar o seguro, para uma pane elétrica, e que carrinho por trás dá cartão vermelho. Tornam-se independentes.

Pesquisa da Serasa Experian até mostrou que as mulheres são a maioria entre os mais ricos do País- segundo o estudo, cerca de 4,9 milhões de mulheres e 4,7 milhões de homens participam do grupo dos mais prósperos do Brasil, as classes A e B, e que as mulheres “ricas” somam cerca de 1 milhão, e 611 mil mulheres são executivas bem-sucedidas.

Foi uma semana cheia de dados e números sobre elas, vocês. E nós. Último censo do IBGE: o número de divórcios triplicou, enquanto o de casamentos formais, de papel passado, caiu 12%.
O amor se tornou líquido, não é, Zygmunt Bauman? “Se hoje vivemos em redes virtuais, que aproximam e afastam as pessoas, somos capazes de manter laços fortes e relações verticais?”, pergunta.

Eu entendi, deixamos de preservar o passado e começamos a viver um presente perpétuo, a era do hedonismo e consumo desenfreado, vazio difícil de saciar.

Desistimos da sede pelo amor? Não, mulher não é o apêndice do homem, mas a fonte original da vida e a nossa razão de ser. Não nos deixem desamparados. E aprendam com as nossas fraquezas e com todos os erros.