sexta-feira, dezembro 31, 2010

Receita de Ano Novo - Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Da amizade

"O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica..." Vinícius de Moraes

Eu estava ali cheia das minhas convicções esotéricas. As cartas já não adiantavam mais, como cantou Roberto. O I Ching me colocava na geladeira e as previsões para áries eram um fiasco. Então, ela me disse: "a vida é muito mais interessante do que isso".

Não foi a primeira vez que a amiga dissera, com a maior elegância, "pare de se vitimizar". Por que há gente de sobra neste mundo para se achar no direito de falar o que quer, sem pensar nas consequências. Eu mesma sou um pouco assim e, honestamente, não acho que seja motivo para me vangloriar. Ao contrário.

E foi desta maneira, doce e firme, que ela entrou definitivamente para a galeria dos pouquíssimos e preciosos amigos do coração que tenho hoje. Porque amigo sabe quando tem que puxar sua orelha, amigo sabe quando precisa te tirar da linha reta e enfadonha da normalidade e te aplicar uma dose de loucura, amigo tem sempre o melhor abraço e a frase certa para sacar em momentos de tristeza ou desilusão.

Minha amiga é a primeira pessoa do dia a me ouvir tagarelar. Só por conta disso, merecia um prêmio, pois eu acordo com a corda toda. Brindamos com vinho o show do Ney Matogrosso, com suco de uva nossa troca de presentes de natal. Ariana e passional - sinônimos? - que sou avisei um dia desses que ela é a irmã mais velha que eu sempre quis ter.

Para minha surpresa, minha amiga não saiu correndo com o "torna-te eternamente responsável por aquilo que cativas". Capricorniana típica, como descreveu Sabino ("nasce velho e morre menino"), retribuiu com carinho. E continuará retribuindo.

Porque ela sempre será a doçura de pessoa que distribuiu bombons para agradecer homenagem que recebeu incerta feita, ela sempre será a maluquinha que agitou o plantão de domingo pós show do Del Rei, ela sempre será a que utiliza tão bem, e como poucos, as palavras.

Para minha amiga Silvana Mascagna, que é um verdadeiro presente na minha vida.

domingo, dezembro 26, 2010

Mudando o perfil

Outro dia quis saber onde - e se - guardei meu velho caderno de "perguntas e respostas". Era um clássico entre as meninas da minha época e tinha duas finalidades: registrar o grude entre as amigas de adolescência e saber se havia alguma chance com aquele menino tímido do lado oposto da sala.

As perguntas tinham todo um conjunto de intenções bem delineado, embora soassem idiotas. Passavam por "qual sua cor favorita?", "Seu estilo musical predileto?", "Para que time de futebol você torce?" e chegavam a "Está namorando?", "O que você diria para/sobre mim?".

Entre nós, garotas, valia a mensagem fofa. Bem clichê e breguinha, diga-se. Eram recadinhos do tipo: "seja pouco, mas seja você. E se esse pouco for pouco para alguém, esse alguém é pouco para você".

Eu passei o tal caderno para os quase 40 alunos da classe responderem. E o último foi o tal mocinho, que só não desconfiava porque...bem, porque alguns caras são assim: os últimos a saber. Mas fazia parte do jogo e, àquela altura da vida, eu costumava fingir não estar nem aí por aquele que me fazia roubar gotinhas de perfumes da mamãe para ir à escola.

Ele gostava de azul, preferia rock e, infelizmente, torcia para o atlético. Não tinha namorada, no entanto me achava apenas legal. Li tantas vezes aquelas respostas lacônicas. Foi a última vez que me apaixonei por um cara da mesma turma. Eu estava na sexta série.

Não cheguei a ficar sem esperanças, pois não havia uma namorada e alguém legal poderia virar alguém especial. Sim, eu já assistia às terríveis comédias românticas e ficava com aquele pulguinha: "por que não o rapaz da vida real não iria preferir a Watts à Amanda Jones?".

Porque eu deveria tomar meu primeiro fora. E foi numa festa, quando ele me chamou para conversar num canto. Na verdade, ele queria fazer um pedido duplo. O primeiro, me pedir uma simples carona, e o segundo, que eu o ajudasse com uma das meninas mais bonitas da escola. Disse sim ao primeiro e não ao segundo. "Mal a conheço", disse. "Vocês fazem aula de educação física juntas", retrucou. Minha tréplica foi verdadeira. Jogávamos em times rivais no volei.

Sem o meu apoio e com toda aquela timidez, ele conseguiu mesmo assim.

E, estranhamente, a lembrança daquele garoto se despedaçou na sétima e na oitava série, quando ainda estudamos juntos.

Foi o que hoje seria um perfil amigo que oculto no Facebook (algo que faço por diversas razões).

Até hoje acho que caderno de "perguntas e respostas" era bem mais direto. Ainda que às vezes impreciso.

Mais fácil que tentar interpretrar os murais e, principalmente, as informações não reveladas.

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Fechando para balanço

Para isso servem os poucos instantes em que paramos - ou somos, no meu caso, por conta da gripe, forçados a parar - no último mês. Inevitáveis retrospectivas sobre os meses que foram arrancados da folhinha. Um ano do tigre que quase me engoliu com tantas mudanças. Nem todas para melhor, embora eu não seja propriamente resistente a elas. Quem lê este blog já sabe tudo: perdi minha melhor amiga, me separei e voltei a morar com minha mãe. Mas também fiz outros amigos do peito e recebi uma ótima proposta de trabalho.

Disse outro dia para minha terapeuta que queria parar de sofrer pelo que não tenho. Mais do que isso, estou fazendo desse desejo um exercício. E daí que não vivo um grande amor? E daí que não tenho grana sobrando na minha conta corrente? E daí que já não uso mais manequim 38?

E daí mesmo.

Nada disso é inatingível para quem tem coragem de tentar. Encontrar um par, economizar, me equilibrar...Não falo de metas que me farão sofrer ao longo de 2011. Eu comecei desde já. Eu paro. Eu recomeço. Eu sou assim.

Que o ano do coelho seja mais suave.

domingo, dezembro 19, 2010

Eu nunca...

Há coisas na vida que a gente precisa experimentar. Quem nunca comeu geleia de rosas, por exemplo, não sabe o que está perdendo. Até ontem eu não tinha dançado gafieira na vida. Mas a vontade de um "dois pra lá, dois pra cá" sempre existe quando a gente fica no nosso cantinho observando os casais rodopiando. E tem essa coisa bacana de todo mundo arrumadinho, as moças de vestidos esvoaçantes no salão.

Pois estava eu sentada com amigas até que fui tirada para dançar. Coisa que não me acontecia desde as festinhas de aniversário da pré-adolescência. Recusei porque o medo de pisar no pé do cavalheiro é uma constante. Por isso que fui, de certa forma, para inferninhos dançar sozinha de lá para cá. Perdi um tempão com essa bobagem.

Resolvi brincar de "eu nunca" e a partir de agora fazer o que não tenho coragem, porém que morro de vontade. Aceitei o pedido seguinte do simpático Robinho, professor de dança de salão, que me ensinou que como dama posso conduzir tudo, exceto a dança. Claro que me achei dura e desengonçada. Na terceira tentativa, eu estava soltinha. Ao meu redor, as meninas também se mostravam "pés de valsa".

Do cantinho fui para o meiodo salão. Dancei com mais dois cavalheiros e me senti incrivelmente leve. Como a madrugada prometia seguir surpreendente, esticamos do Centro e Quatro para o Nelson Bordello para que pudéssemo participar do "show de calouros", que, naturalmente pela hora, deveria ter chegado ao fim.

Parece que quando estamos dispostos ao sim, as perspectivas são melhores. Entramos dançando na pista vazia um ótimo set list de rock clássico. Havia diante de nós, um palco. E por que não criar uma one hit band? Foi quando Nati pegou o microfone e deitou-se no sofá, eu toquei um baixo e fiz backing e Tuza dançou na frente do nosso ilustre desconhecido baterista.

Não sei se foi a cerveja, a empolgação ou algum tipo de delírio coletivo. Eu e as meninas juramos que naquele amanhecer de domingo, a pista se encheu para nos ver cantando Beatles e The Stooges. Tivemos até fãs pedindo bis. Mas o show teve que acabar e fomos comer uma massinha no meio do caminho para dormirmos acarinhadas pelos momentos felizes.

Em 2011 quero dancar mais gafieira e fazer coisas bacanas que eu nunca fiz. Montar uma banda pode até ser uma dessas coisas.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Vontade traduzida por Thom

Pensando que era exatamente disso que eu preciso na vida.




This Mess We're In

Can you hear them?
The helicopters?
I'm in New York
No need for words now
We sit in silence
You look me
In the eye directly
You met me
I think it's Wednesday
The evening
The mess we're in and

The city sun sets over me

Night and day
I dream of
Making-love
To you now baby
Love-making
On-screen
Impossible dream
And I have seen
The sunrise
Over the river
The freeway
Reminding
Of this mess we're in and

The city sun sets over me

What were you wanting?
I just want to say
Don't ever change now baby
And thank you
I dont' think we will meet again
And you must leave now
Before the sunrise
Above skyscrapers
The sin and
This mess we're in and

The city sun sets over me