terça-feira, dezembro 29, 2009

Mensagem de Ano Novo - Por Monja Coen

Ame e manifeste esse amor

Pense em alguém que você goste muito. Do passado, do presente ou do futuro. Pode ser um bichinho, um brinquedo, uma pessoa, uma criança, uma situação agradável. Pense e sinta.

Sinta esse amor, agora, aqui, em você. Conecte-se com o amor que habita você. Comece a incluir nessa amorosidade todas as pessoas que estão próximas a você. Vá expandindo sua capacidade de amar.

Inclua todas as pessoas que você conhece. Agora inclua as que você não conhece. Inclua próximas e distantes. Inclua pessoas que você jamais viu. Os povos africanos, asiáticos, australianos. Os povos e tribos de toda a Terra.

Inclua em seu amor todo o planeta, com árvores e insetos. Flores e pássaros. Mares, rios, oceanos. Inclua a vegetação da Amazônia e da Patagônia. Inclua o Mar Morto e o Deserto do Saara.

Não deixe o Pequeno Príncipe de fora. Inclua os Lusíadas, a Odisséia, Kojiki. Inclua toda a literatura mundial, um pouco de Machado de Assis, Eça de Queiroz, Shakespeare, um tanto de Saragosa, uma gota de Jorge Amado, banhado por Herman Hesse e Amon Oz.

Inclua todas as religiões. Como se não houvesse dentro nem fora. Imagine, como John Lennon, que o mundo é um só. O mundo é uno. O mundo, o universo, o pluriverso é um só.

Nós somos unas e unos com o uno. Perceba. Isto que digo é a verdade. E só há esse caminho.Inúmeras analogias, linguagens étnicas, expressões regionais e temporais para tentar atingir o atemporal, o fluir incessante, incandescente, brilhante, da vida em movimento transformador.

Somos a vida da Terra.

Somos a vida do Universo.

Somos a vida do Multiverso.

E quando nossos pequeninos corações humanos se tornam capazes a ir além deste saquinho de pele que chamamos o eu, nos contatamos com a essência da vida. Que é a nossa própria essência e de tudo que é, assim como é.

Algum nome? Nenhum nome? Caminhemos. Tornamo-nos o caminho a cada passo. Que cada passo seja um passo de paz. Que o novo ano se abra com a abertura dos corações-mentes de todos nós seres humanos.

Abertura para o infinito.

Abertura para a imensidão.

Abertura para a ternura.

Abertura para a sabedoria.

Abertura para a compaixão.

Que todos os seres em todas as esferas e todos os tempos se beneficiem com esse amor imenso que aqui e agora juntas, juntos, nos tornamos. E ao nos tornarmos o amor tudo se torna vida e vida em abundância. Ame e manifeste esse amor agora.

Mãos em prece.

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Balanço mas não caio (uma quase retrospectiva)

Se há algo unânime entre religiões é a crença de que o sofrimento nos torna mais fortes. Minha querida avó Celinha dizia que Deus dá os maiores obstáculos para os mais fortes e nos vários textos budistas que passei a ler esse ano ficou claro que segurar barras pesadas tornas as pessoas mais humildes. “Então é natal” e parece que ninguém sabe a que veio Jesus. Trânsito caótico, grosseria, filas intermináveis, estresse, compras frenéticas, luzes, caixinhas de natal nos sinais e nenhum vestígio do tal amor ao próximo. Ele surgirá amanhã. Na ceia e troca de presentes para boa parte das pessoas.

Sempre amei o natal. Como toda criança, contava os dias para que chegasse a noite feliz. Ela não era feliz apenas pelos presentes ou pela comida deliciosa e farta. Era especial porque eu tinha meus avós e participava dos preparativos com entusiasmo. Montávamos a árvore não no pinheiro, mas na desgraça pelada (uma planta da minha avó cujo nome científico desconheço). Havia o presépio onde o menino Jesus aparecia como mágica à meia-noite do dia 24. Meu avô Azevedo por vezes contemplava sozinho as luzinhas, tão criança como todos nós. Meus pais e tios nunca resolviam o impasse da ceia e vovó ponderava que um franguinho com maionese estaria de ótimo tamanho.

Na minha memória não havia o caos, o motorista que quase me atropelou quando o sinal estava aberto para mim, a indiferença da vendedora quando perguntei o preço de uma echarpe ou a impaciência com o grupo de adolescentes que ocupava a mesa do café sem consumir – esbanjando suas espinhas, sonhos e despreocupações.

Eu vivi 31 anos amando e planejando o natal. De maneiras diferentes, claro: alguns tons reluzentes ficaram opacos depois que meus avós se foram. No entanto, prometi inconscientemente a eles que estaria mais para ajudante de Papai Noel do que para Grinch.

Em 2009 quebrei minha promessa. Não me entusiasmei nenhum pouco, sequer montei árvore ou pendurei guirlanda. Quase me alistei no exército dos que detestam a data e acham-na hipócrita. Digo quase porque não cheguei a detestar. Pior: fui/ estou indiferente. Foram tantas porradas que, embora tenha levantado, sinto-me zonza.
Difícil imaginar festa quando minha melhor amiga segue em coma há mais de um mês no hospital. Desde que nos reconhecemos (“a gente não faz amigos, reconhece-os”) dividimos a data. Sendo a primeira vez que não brindamos, só me resta ir ao hospital e dizer coisas que eu gostaria que ela ouvisse.

Fora isso, o resto foi igualmente cinza. Caminho de pedras na vida profissional e outros obstáculos na vida pessoal. Ainda bem que conheci pessoas adoráveis, entretanto me decepcionei com outras de modo inimaginável. “That´s life”, cantou Sinatra. Uma hora a gente está por baixo e outra no topo. Bem, eu achei que "o ano passado passou tão apertado" e foi só reclamar que o destino me provou por A mais B que “não há nada que seja ruim que não possa piorar”.

Sigo tentando me equilibrar. Voltei à terapia, às pílulas da felicidade. Troquei a academia pelo pilates e decidi parar de fazer planos que não irei executar. Estou me forçando a colocar em prática certas ideias. Porque cultivei por muito tempo boas ideias que não foram adiante. Organizei minha casa e estou exercitando a serenidade que não tive até o momento. Quero fazer mil coisas que não fiz porque soube reconhecer na tristeza um exemplo de vida que não é Jesus, Buda ou Gandhi. Minha amiga Mariana sempre quis viver. Por viver entenda-se viajar, dançar, paquerar, beber, curtir e sobretudo ter generosidade. Tudo que atravanca meu caminho é muito pouco para eu deixar de aproveitar esses prazeres. Mais ainda: de lutar.

2009 não deixará a menor saudade quando chegar ao fim. Ironicamente, irei me lembrar bastante dele. Mesmo que possa parecer que não haja evidência de otimismo nesse texto, sugiro aos que tiveram paciência de chegar até aqui que leiam nas entrelinhas, no título escolhido a dedo.

No mais, desejo felicidade maior que o mundo para os que me são queridos. Estou perto de esperar o mesmo aos que não o são.

domingo, dezembro 20, 2009

...

"Hoje é domingo pede cachimbo, o cachimbo é de barro, bate no jarro, o jarro é de ouro bate no touro, o touro é valente, bate na gente, a gente é fraco, cai no buraco o buraco é fundo, acabou-se o mundo."

terça-feira, dezembro 01, 2009

A última previsão do ano que finalmente está terminando

Depois de 11 meses de cão, para não dizer pior, meu astrólogo virtual favorito que não previu nada de bom para áries em 2009 (e acertou), me solta essa previsão de dezembro.

"Apesar de todos os apelos que distraem e que são verdadeiras tentações para você desviar o foco de sua capacidade produtiva, melhor será resistir e não se deixar levar pelas festas de fim de ano, porque há coisa melhor para fazer do que simplesmente se entregar a um festejo que poderia muito bem ser protelado. Você quer progredir? Então, menos festa e mais trabalho!" Oscar Quiroga

Devo agradecer às Luas fora de curso, Mercúrios retrógrados e o que mais?

quarta-feira, novembro 11, 2009

Bazar

Depois do sucesso da primeira edição, eu e Waleska + amigos bacanérrimos vamos fazer outro bazar no sábado. Há itens para rapazes, ok? Esperamos todos lá!


domingo, novembro 08, 2009

The Real Thing



Na primeira vez que assisti ao show do Faith no More a banda estava no auge. O ano era 1991. Confesso que tive um pouco de receio do revival: Mike Patton quarentão, meio desanimado cantando músicas que eu nem me lembraria...Quebrei a cara.

Minutos antes eu fazia comparações da Ludmila de 14 anos, apaixonada pelo vocalista do FNM - e que nem dormira na noite anterior de tanta ansiedade - e da Ludmila de 32, meio blasé quase desistindo na última hora porque o Chevrolet Hall tem uma acústica ridícula, porque é domingão, enfim...

Se antes meu problema era esconder as espinhas com minâncora ou ter uma prova de matemática decisiva no dia seguinte e, ainda, depender da autorização da minha mãe para ficar no gargalho, agora eu tinha o ácido retinóico para esconder os sinais, o fato de trabalhar no dia seguinte (que é pior que prova de matemática, diga-se de passagem) e não precisar pedir para ninguém para ficar onde bem entender. Além do mais, eu posso beber (ou não fica a meu critério).

Deixei minha rabugice antes do primeiro acorde e fui para grade. Cantei todas as músicas e, evidentemente, revivi meu amor adolescente por Mike Patton. Ele lá com um gel canastrão no cabelo (sem pança, thanks God!), um terno cinza metalizado meio crooner de boteco de quinta meio mafioso de "Gomorra" (que só tem mafioso sem glamour), falando palavrão, portunhol, tirando sarro, mostrando a língua...Super meu tipo: de novo!

Embalando as performances alucinadas de Patton, uma banda afiadíssima, pesada, excelente como o Faith no More sempre foi (mesmo com a saída do Jim Martin). Eu iria me arrepender demais se tivesse perdido a noite de hoje.

quinta-feira, novembro 05, 2009

O adeus de Sorín




Não costumo falar de futebol neste blog, embora tenha uma bagagem considerável que me permitiria escrever mais vezes sobre o assunto. Na prática, porém, faltam-me os conhecimentos que não herdei dos meus avós e pais sobre as regras do jogo. Não importa.

Falar de futebol para mim é falar do Cruzeiro. Não torço para nenhum outro time, nem para a Seleção Brasileira. Cresci brincando na sede do Barro Preto. Entrei no gramado inúmeras vezes quando criança de mãos dadas com jogadores que embalaram o grito de uma torcida apontada por rivais estridentes como "fria".

Ontem retornei ao Mineirão depois de anos (provavelmente o último jogo que vi no estádio foi na companhia do meu pai e minha irmã). Na verdade, fui para trabalhar (como minha mãe fez no Clube para o qual dedicou uma penca de anos de labuta). Em meio ao estresse comum de um mega evento, às solicitações inconvenientes de alguns jornalistas, ao equivocado senso de urgência de certos focas que não sabem correr atrás do que querem e, finalmente, do suporte aos profissionais da imprensa que realmente entendem do cortado, consegui parar por uns minutos para curtir minha paixão celeste.

Nada é mais lindo que o Mineirão todo azul e estrelado. Numa noite agradável, de uma lua cheia incrível cantei com a China Azul a última canção para aquele que, com certeza, é meu segundo grande ídolo do Cruzeiro (o primeiro é meu avô Azevedo que jogou no Palestra Itália, onde tudo começou): Juan Pablo Sorín. Como jogador esbanjou aquilo que os adversários achavam que o time não tinha, o componente raça. E teve raça, paixão, deu o sangue. No fim, mostrou-se ainda um ser humano incrivelmente solidário. Virtude que falta não apenas no futebol dos super salários, falta em todos nós seres humanos irremediavelmente individualistas (para não dizer pior).

Aquelas entradas para o jogo poderiam ser um pé de meia e tanto. Desde o início, Sorín um cara verdadeiramente gentil, fez questão de que o torcedor pagasse o ingresso em alimentos não-perecíveis para que fossem doados a quem precisa. Não é o primeiro e nem o último ato generoso do craque e isso não é para ficar bonito no blog ou no release que escrevemos e traduzimos para mais três idiomas. Conheci e convivi intensamente com Sorín e a Sol, esposa dele, nos últimos dias e não precisei de muito para saber que essas e outras qualidades fazem parte da formação e do caráter de ambos.

Aquelas 50 mil pessoas ontem gritavam e cantavam com fervor para um ídolo que não se dissocia do grande cidadão que é. Não há dois Soríns. Ele é único em todos os sentidos. Para nós cruzeirenses, dos pouco praticantes aos alucinados, eterno.

Abaixo, a carta de despedida de quem escreve, com o coração, história.

Obrigada Sorín!



"Há quatro meses conquistamos a Copa Sul Minas.

Há quatro meses fui embora do Cruzeiro

O texto abaixo escrevi para mim, porém, senti a necessidade de compartilhá-lo com vocês.

Simplesmente para que saibam a importância que tudo isso tem na minha vida.

Simplesmente para seguirmos juntos, apesar da distancia.

Hoje, estréio em meu novo time.

São muitas as expectativas e as vontades de sempre, mas esperando um dia retornar a minha segunda casa.

15:58 hs – Banderas en tu corazón (Bandeiras no teu coração).

Setenta e cinco mil caras esperando ver o Cruzeiro campeão.

Saímos rodeados de mascotes e crianças, que nos acompanham sempre com um sorriso.

Pegamos forte e corremos para o gramado.

Uma olhada rápida, mãos para o alto e as primeiras emoções.

Não é comum e é até anormal muitas camisas argentinas, celestes e brancas, no Brasil todas sentimentalmente distinguíveis.

Chegam as placas de homenagem.

Primeiro, do presidente.

Depois, da Máfia Azul e logo uma camisa inesquecível com o meia dúzia nas costas, assinada por todos os funcionários do clube.

A melhor homenagem, da cozinheira ao roupeiro, os encarregados da limpeza, até meus colegas, médicos, técnicos...

Vale ouro! Vale mais suor, ainda!

Sorteio a moeda da Fifa.

Deu branco e ganhei.

No segundo tempo, atacaremos junto ao grosso da nossa torcida.

Antes de começar toca o hino brasileiro.

Todos cantam e eu não. Procuro minha companheira e concentro-me em silêncio.

Observo a torcida e na arquibancada há uma bandeira argentina.

Que orgulho! Não posso acreditar. Onde estão meus amigos do bairro para contar-lhes? J

ogam balões para os céus com meu rosto estampado numa bandeira vertical.

É minha despedida, a parte da final. Contenho as lágrimas, soa o apito.


16h20 - Sarando as feridas


Meu Deus! Um choque forte, toco a sobrancelha.

Sangue. Puta que pariu! De novo?

Quarto corte na cabeça em dois anos e meio.

Queria jogar e o juiz reserva "canarinho" disse-me que não!

Quase pede minha substituição e disse-me que há muito sangue.

Peço-lhe por favor. Hoje, não me deixes de fora, irmão!

Ele não entende bem, mas me permite entrar e lá vou eu como um "papai smurf".

Serão seis pontos no intervalo, 0 a 0, com uma bola na trave e um susto forte.

17h40 - Oh meu pai, eu sou Cruzeiro meu pai...


Tira a camisa! Tira a camisa!

Parece uma bola perdida, mas sei que o Ruy vai ganhá-la.

O "cabeção," meu amigo e parceiro de quarto, vai tocá-la por um lado e buscá-la pelo outro (fez uma gaúcha, berra o locutor).

Entra na área e só rola para trás.

Não sei o que faço aí, a não ser confiar nele.

Não sei o que faço senão ir além do sonho da despedida e não há tempo para pensar.

Com três dedos e meio esquisitos de prima, com a sempre canhota bendita e a rede se mexe, é o mundo que explode, vem o delírio, a festa...

Não pode ser real. As cabecinhas que pulam descontroladas, a camisa voando na mão e um grito eterno, inesquecível, uma dança especial.

17h55 - Ah, eu tô maluco!


Bicampeão!

Faltam segundos e não existe sensação comparável como a de ser campeão.

Nos olhamos cúmplices com o Cris e rimos da conquista depois do esforço.

Somos irmãos, somos um punhado azul de raça inquebrantável, enquanto o pessoal na arquibancada baila, grita, goza e por fim estoura com o final.

Escuta-se um estrondo inconfundível.

Um abraço, dois, um milhão, a correria perdida, louca, entre pulos, festejos com cada companheiro, Toninho, Valdir, Tita e Bolinha, todos malucos.

De repente um cara me leva nas costas e damos a volta olímpica.

Não quero que isso termine e penso se pudesse parar o tempo nesse instante, mas não posso.

E aí, vou dando-me conta que também é o final para mim, que estou indo embora do meu time, da minha cidade, da minha gente.

Então, vem a enorme emoção e comemoro como sempre, desenfreado, sem limites, como se fosse a última vez.

Comemoro e cumprimento cada canto do maravilhoso Mineirão.

Despeço-me e quero abraçar a todos.

Quero que dêem a volta conosco, quero dizer-lhes que eles não sabem como necessitamos de todos aqui dentro.

Vejo as faixas e ainda não acredito.

Vejo os rostos de alegria e até hoje nada sai da minha mente.

Depois de tudo, a surpresa com a presença de minha mãe exatamente no Dia das Mães e é impossível não chorar. F

inalmente, recebo a Copa tão desejada.

É bonito ser capitão.

É grandioso ser capitão do Cruzeiro e ser campeão.

Levantamos a taça, desfrutamos e saímos a oferecer aos milhares que estavam por todas as partes até o cansaço.

Imagino Minas.

Imagino Belo Horizonte.

Tudo se acaba e não podia ser tão perfeito.

Será que sonhei?

Nem um sonho seria tão incrível.

Estou partindo e pensando se algum outro dia serei tão feliz!"

Juan Pablo Sorín

sexta-feira, outubro 30, 2009

As crônicas dos outros - a série

O Bloqueio.

De Edson Aran.

Escritor é um bicho muito besta.

Escritores não são pessoas normais feito eu e você. Escritores têm “bloqueio” – um jeito pretensioso de dizer que eles não têm porra nenhuma na cabeça. Você não vê carteiros parados no meio da rua, a mão cheia de envelopes, falando sozinhos: “Não adianta! Por mais que eu entregue cartas, eu jamais farei uma obra-prima! Ou cirurgiões: “Não adianta! Implantar esta ponte de safena não fará de mim um novo James Joyce!”

As pessoas simplesmente fazem. Plantam tomates. Colhem abóboras. Pilotam tratores. Praticam abominações com animais de pequeno porte. Escritor não. Escritor trava. Escritor estanca. Escritor estrila. E aí, meu amigo, não há o que fazer, a não ser, talvez, usar o bloqueio a seu favor e escrever um conto.

O NADA (Um conto de Oraldo Grunhevaldo)

Era outubro, chovia. E o escritor estava com bloqueio. “Não consigo pensar em nada”, ele pensava, se contradizendo. Pensar que não havia no que pensar era, em si, um pensamento, ele pensava. Ou pensava que pensava. O mundo, afinal, podia ser apenas um breve pensamento na mente de um deus infinitamente criativo ou genuinamente retardado. Isso lembrou Borges. Juvenal Borges, cafetão e agiota. O escritor devia 200 paus pra ele. Eu devia ter virado dentista, ele pensou. Dentista ganha dinheiro. Dentista não tem bloqueio, dentista só tem broca e boticão. Ele releu tudo. Ele pensou em suicídio. Mas tinha empenhado o revólver para comprar munição.

Mas veja: usar o bloqueio como tema não faz o bloqueio desaparecer. Você simplesmente muda de calçada e evita contato visual. Ele continua lá, paradão. Bloqueio adora ficar paradão. Então você finalmente percebe. Não é só você. Todos os escritores, em todo o mundo, estão diante do mesmo bloqueio. Ninguém escreve. Não há mais romances, contos, poemas ou livros de auto-ajuda. Não há mais bulas papais ou bulas de remédio. Não há mais roteiros, nem diálogos, nem peças, nem minisséries, nem novelas.

Você desliga o computador e vai assistir a um reality show.

terça-feira, outubro 20, 2009

O post que não quis se revelar

Gastei horas nas palavras que não serão publicadas. Escrevi e apaguei frases uma dezena de vezes. Talvez não fossem mesmo para ser escritas aqui. No fundo, eu não estou nenhum pouco à vontade de dizer como eu me sinto no momento.

Fechada para balanço.

domingo, outubro 11, 2009

Sobre tudo que temos que engolir

Desde criança odeio xarope. Não suporto o cheiro, a textura e, principalmente, o gosto. Para não tomar a colherada ou copinho indicados na bula, eu costumava me esconder inutilmente na minha barraquinha da Mônica. Mas a tática nunca funcionou porque, invariavelmente, eu tinha que engolir.

Impossível entender porque engolir, se ele é apenas um paleativo. Muitas gripes, tosses e amigdalites vieram desde aqueles tempos amargos e sempre me pergunto: por que xarope? Não dá para curar por hipnose? Quando me lembro de que no mundo há pragas como injeções e supositórios respiro fundo, tampo o nariz e tomo logo umas duas doses.

A vida foi seguindo com outros xaropes. Decorava a odiosa tabuada e isso me serviu para questionar, aos sete anos de idade, todo o sistema educacional brasileiro - o mesmo que impunha educação moral e cívica e outras lavagens cerebrais - e hoje usar a calculadora sempre. Tabuada teria sido útil se no meio do caminho não houvesse a recuperação. Aquele infortúnio de estudar semanas o que você deveria ter aprendido em um ano... Tudo para não voltar à estaca zero. Ao menos, nunca tomei bomba (coisa que não existe mais)...E eu me pergunto: para que aquela tabuada em cartolina rosa e números vermelhos?

Eu sempre questionei tudo tenho que engolir a contragosto. Na maioria esmagadora das vezes, sei que não devo (o que não me impede de mentalmente perguntar por que? Por que? Por que?). Ainda mais quando as respostas me parecem estúpidas. Sabe a resposta "porque sim"? Então, ela é a mais acionada nesses casos. Tem que tomar xarope para melhorar, decorar para aprender e aprender para não cometer novamente o mesmo erro.

Diante desse verdadeiro sacrifício voluntário (ou não) pelo qual passsamos eventualmente ou frequentemente, ficamos ali pendurados, como o Enforcado na carta 12 do Tarot, esperando que nunca possamos ter nada de muito sério à nossa espreita porque soubemos engolir certas coisas: o remedinho, o bife de fígado, a aula de matemática, pequenos e médios desaforos das pessoas que te cercam, algumas crises pessoais e profissionais.

Fundamental é engolir sabendo exatamente as consequencias por trás do ato de cuspir. Sim, cuspir é punk, é libertador. Pois da mesma forma de que me recordo com perfeição do gosto de xarope de morango na infância, lembro-me de meus primeiros momentos de "maturidade", digamos assim, na tenra idade (diante do que não era realmente necessário engolir). Argumentei que não toleraria comer um prato de dobradinha, pois já havia experimentado e detestado. Além do mais, aquilo não fazia bem para nada (nenhum adulto na ocasião mencionou ferro, vitaminas ou algo do gênero). Como não quisessem ouvir os argumentos bem ponderados que explanei, meus "algozes" assinaram minha sentença. Engoli tudo sem mastigar, com lágrimas nos olhos. Na última garfada, pus tudo para fora, feliz da vida.

quarta-feira, setembro 23, 2009

O ano em que meus posts saíram de férias

Olhando as atualizações ao lado, constato que nunca escrevi tão pouco no meu blog. Alguns motivos têm a ver com essa escassez: mais transpiração do que inspiração, a passagem do tempo que me fez compreender que nem sempre a gente pode escrever/dizer o que bem entende - ainda que o espaço seja virtualmente "meu" - e que as coisas que me moviam e emocionavam não possuem o mesmo colorido...Nem atribuo a ausência ao facebook ou twitter. Poucos caracteres me ajudam no poder de síntese que busco (em vão porque quando quero gastar o português, quase nada ou ninguém consegue impedir).

Eu me exponho - para quem nem sequer vi na vida - desde os 25 anos, quando criei meu primeiro blog. Muita gente que por este endereço passa acha que me conhece bem. Até eu mesma, relendo antigas divagações aqui rabiscadas, chego a achar, por alguns momentos, que me conheço bem. Preciso voltar à terapia para tentar entender o que não consigo publicar ou mesmo digerir. Não me lembro por que razão me dei alta ou por que parei de pintar, por exemplo. Temo, um dia, parar de escrever porque as tantas coisas que já quis expressar deixam de ser revelantes de um dia para o outro.

Num passado distante experimentei a sensaçao de ter uma ex-amiga, a única até o momento. Senti mágoa e raiva. Hoje não sinto nada. E se tivesse que recriar a história, ela teria menos nuances, pois precisei aprender a dar a devida importância ao que aconteceu. Recentemente, um amigo próximo fez a linha "casou, mudou e não convidou". O contexto da coisa me deixou meio passada (na ocasião) e, confesso, do alto dos 23 dias de setembro de 2009, não faz mais diferença alguma. Saí de tantos "mailings" nos últimos dois anos. Cumprimentos acalorados de gente por quem eu tinha um certo apreço viraram uma saudação mais formal. Afinal, não tenho um espaço na TV ou no jornal para oferecer. Não sou ninguém na noite. Ainda bem.

O que isso tudo tem a ver com eu não escrever com a desejada ou devida regularidade? Muita coisa. No meu mundo de malboro, quem sabe seja um exercício de compaixão? Com os outros e comigo. Sempre acreditei que férias são oportunas e revigorantes.

quarta-feira, setembro 16, 2009

Para eu não me esquecer

"A prática da paciência traz uma estabilidade emocional que não só nos faz mais fortes mental e espiritualmente como mais saudáveis fisicamente. Sem dúvida atribuo a boa saúde de que desfruto a uma mente em geral calma e serena.
Entretanto, o benefício mais importante da paciência consiste em sua ação como antídoto poderoso ao mal da raiva, a maior ameaça à nossa paz interior e, consequentemente, à nossa felicidade. A paciência é o melhor recurso de que dispomos para nos defender inteiramente dos efeitos destrutivos da raiva.
Pense bem: a riqueza não protege ninguém da raiva. Nem a educação, por mais talentosa e inteligente que a pessoa seja. A lei, muito menos, pode ser de qualquer ajuda. E a fama é inútil. Só a proteção interior do autocontrole paciente evita que experimentemos o tumulto das emoções e pensamentos negativos." Sua Santidade, o Dalai Lama

quarta-feira, setembro 09, 2009

Imã





Elogiar o Grupo Corpo pode ser chover no molhado, ainda mais quando há gente que entenda bem mais deste cortado do que eu, como a Michele Borges da Costa ou a Helena Katz. Eu apenas me emociono. Apenas lembro da poesia da Cecília Meireles porque como toda menina já quis ser bailarina. Claro que gostaria imensamente de ter o domínio que a Michele e a Helena têm, porque elas sabem traduzir isso para o papel e deixar a gente com vontade de correr para bilheteria, antes mesmo da estreia de um espetáculo.

Mas eu tive meus anos felizes, de contato mais direto com os bastidores da companhia. Porque entender o Corpo como um processo faz muita diferença. Até Onqotô, tive o privilégio de entrevistar os irmãos Pederneiras, a Macau, o Fernando Velloso e todos aqueles bailarinos que são além de extremamente talentosos, gentis. Arrisco dizer que foram as reportagens que fiz com mais carinho na minha vida de repórter (ainda que eu não saiba se poderiam ser consideradas as melhores, pois isso é muito subjetivo). Mesmo que dança seja o assunto que mais me desafia na área cultural.

Quando o Corpo sobe ao palco, eu sinto saudade de saber como se deu a escolha da trilha, do figurino, do cenário. Que intenções existem por trás da coreografia e quais as matizes exploradas para iluminar (ou não) tudo aquilo...Eu sinto falta daquela curiosidade que eu buscava satisfazer "olhos nos olhos". Porém quando o primeiro bailarino surge em cena, paro de pensar. Como fiz ontem. Só consigo me sentir maravilhada, só consigo pensar na beleza e em como tenho sorte de poder ter assistido a maioria dos espetáculos do repertório do Corpo.

Se Imã seguisse em temporada no Palácio das Artes, eu veria de novo. Imã é uma delícia.

terça-feira, setembro 08, 2009

Presente da amiga Carol

Briga de Cão e Gato

Por Fabrício Carpinejar

O gato é o melhor amigo do poeta brasileiro.

O cachorro antes era o preferido dos estros. Deixou a realeza para o felino. Talvez seja a mudança de hábito, a adoção do apartamento em detrimento da casa, a adoração do silêncio dos condomínios residenciais e dos escritórios na hora de escrever, sem o alvoroço dos quintais e dos pátios.

Não que a figura canina tenha desaparecido. Affonso Romano de Sant'Anna, em 'Textamentos" (Rocco, 1999), tece emocionada homenagem ao seu afinado cão, capaz de acompanhar o adágio da 6ª Sinfonia de Beethoven com o ritmo da respiração. O pernambucano Alberto da Cunha Melo (1942-2007) escreveu um de seus últimos livros dedicado a um cão de olhos amarelos, triste, soturno, sofrendo na calçada de um bar.

O que aconteceu é uma secreta revolução dos bichos. As patas perderam prestígio para as garras. Miados dominam o teclado e o mouse tem que se cuidar para não ser engolido.

A verdade é que o cão ficou trancado na máquina de escrever. Pode até permanecer como o dileto na memória dos ficcionistas (destaque para Baleia, de “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos), mas não manda mais nos versos. Antigamente, até os anos 70, o cachorro funcionava como um alter ego confessional. Aparecia como personagem predileto de toda a geração 60 brasileira e de grande parte dos portugueses, de Fernando Pessoa a Ruy Belo. Mario Quintana o idealizava como um paranormal do lar, "o único que enxerga o vento" e percebe sua corrida pelas árvores. João Cabral de Melo Neto chegou a fazer todo um volume comparando os movimentos do rio Capibaribe de Recife a um cão sem plumas.

"O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão."

Houve uma variação da tipologia do poeta que abandonou o aspecto baldio de vira-lata e boêmio, do senhor do boteco e da rua, do uísque cão engarrafado celebrado por Vinícius de Moraes, para assumir o espaço doméstico, individualista e caseiro do escritório.

Os gatos são as novas beldades dos enigmas e das metáforas. Do Rio de Janeiro de Carlito Azevedo a Manaus de Aníbal Beça. Além de tomar a companhia da escrita, abocanharam a ração da bandeja.

Poetas jovens como Alice Sant'Anna, em Dobradura (7 Letras, 2008), extravasam a predileção com humor. Cria cinco tópicos com o título "O que sei sobre os gatos". É óbvio que ela cutuca os adversários de estimação, exercendo comparações de comportamento.

"Os cachorros mexem o rabo
quando estão felizes, os gatos mexem o rabo
quando estão nervosos: quando estão contentes
os gatos fazem barulho de motor
que se chama ronronar."

Ter um gato perto é quase uma escolha filosófica, uma postura reflexiva. Ganhou o eleitorado lírico pela sua independência e cotidiano autônomo. Por circular entre mundos. Pelas sete inesgotáveis vidas. Como parece que não está nem aí para o que está acontecendo, excita a meditação e os símbolos. O gato já é um poema naturalmente, inescrutável, dono de uma discrição absoluta. Facilita inúmeras interpretações.

A paulista Orides Fontela (1940-1998) demonstrava um fascínio pelas criaturas de bigodes, investigou seu domínio misterioso tanto em "Helianto" (1973) quanto em "Teia" (1996). Considerava o animal como um visitante, que não se entrega à submissão e ao controle. Tanto que gato não usa coleira, usa colar.

"na casa
o imperecível mito
se aconchega
quente (macio) ei-lo
em nossos braços"

O cachorro protege a residência, o gato protege a solidão. O cachorro mendiga afeto, o gato seduz com a distância. A sensação é que o cachorro é fofoqueiro, quer contar algo sempre, o gato já é um confidente, que escuta e guarda, protetor dos segredos. Nasceu com a batina no pêlo.

Assim como pode ser um gorducho preguiçoso, comilão de pizza, ilustrado pelo temperamento Garfield, pode ser um corajoso trapezista dos telhados. Concilia a dupla personalidade com perfeição. Sadiamente bi-polar. Em “Livro de Auras” (Iluminuras, 1994), Maria Lúcia Dal Farra tenta registrar sua rápida transformação, essa metamorfose súbita, a migrar de repente da maior inércia para elasticidade de um acrobata. Define o bichano como "um viveiro de alheios". Está com um olhar aqui, atento aos mínimos movimentos próximos, e outro acolá, em pensamentos longínquos.

Chacal, em sua antologia premiada "Belvedere" (Cosac Naify/7 Letras), traduz essa contemplação suficiente. Nem é bem um olhar, significa uma admiração.

"o gato lhe acompanha
onde quer que você vá
só com olhos - não é besta -
para ele basta olhar."

Os gatos são os filhos dos tigres de Jorge Luís Borges, netos dos tigres de William Blake. Herdaram a floresta, resíduos elegantes do mato. Sábios, professam sabedorias em fachada de esfinge.

Ensinam inclusive Ferreira Gullar. Em "Lição de um gato siamês", da obra "Muitas Vozes" (José Olympio, 1999), Gullar passa a entender que o tempo é eterno porque afetivo.

"Dura eternamente
enquanto vivo."

Ser professor de um dos maiores poetas da língua portuguesa não é qualquer coisa. É tarefa inspirada de musa.

quinta-feira, agosto 27, 2009

Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima

Mais um agosto que se vai. E ao contrário dos supersticiosos, não acho que seja mês de mau agouro. Já tive agostos excelentes e outros nem tanto. Para falar a verdade, nunca fui fã de março por causa do tal inferno astral. Eis que o terceiro mês do ano virou o mês em que comecei a namorar o Ale e, mais importante, o mês do aniversário dele. E, em 2009, a primeira vez que vi o Radiohead num show teve o embalo das águas de março, que fecharam o verão em São Paulo.

Até o momento, o esse ano me sorriu bem pouco. 2008 também foi assim: de escassas alegrias. Só que ao invés de reclamar e fazer mandingas para o próximo ser mais digno, projetar conquistas para os meses que virão, estou tentando fazer isso hoje. Tentando. Então, acordei achando o dia cinza e frio bonito. Adoro dias cinzas e frios. E juro, vou me esforçar para gostar do sol quente, da chuva que não pára, quando eles vierem.

terça-feira, agosto 18, 2009

Ao Jubão

E tudo tem uma primeira vez, que não é tão esperada e surpreendentemente boa.
A primeira vez que viajei para um funeral também foi a primeira vez que dormi num cemitério.
Mas não foi a última vez que vi meu querido tio Fabio, o tio gordo - como ele dizia -, o Jubão.
Se eu for mais generosa, se souber dar a volta por cima diante dos problemas e ter o coracão gigante, capaz de perdoar as pequenas e grandes faltas das pessoas, talvez eu o encontre no outro plano.
Espero conseguir.
Já escrevi sobre meu tio neste blog há alguns anos, quando ele foi morar conosco. Jubão precisou amputar as pernas e poderia ter entregado os pontos ali mesmo.
Com a teimosia de um Azevedo e a emoção do Santos, usou seu talento para a criação de cadeiras de roda e equipamentos multifuncionais que melhoriam a vida de grande parte dos portadores de deficiência. Venceu prêmios, mas ninguém de fato comprou a ideia. Por que? Porque aqui se faz politicagem e até as "respeitáveis ongs" deixam de responder emails quando é conveniente.
Meu primo José disse hoje que irá batalhar para que as criações do pai possam tornar-se acessíveis: elas foram pensadas para quem não pode gastar muito e deve exercer o direito universal de ir e vir. José contou emocionado que o Fabio não inventara as engenhocas para ele mesmo, queria mesmo ajudar.
E queria mesmo. Não é porque é meu tio ou porque estou triste.
Sabe aquele garoto que levava a culpa pelas travessuras do irmão caçula? O cara que enrolou os pretendentes da irmã até que ela se decidesse "quem ficaria com Mary"? Sabe aquele sujeito que tocava música na varanda da casa dos pais no final da tarde? Que elogiava sempre a comidinha da mãe? Que tinha profunda admiração pelo padrinho? Aquele tio que ficou furioso com o ex namorado da sobrinha porque este a largou num restaurante, enquanto ia atender um capricho da progenitora? Aquele tio que diante da tristeza da sobrinha, de perder sua gatinha de estimação, lhe dera de presente outra tão especial que encheria a vida de todos de alegria?
Esse mosaico era meu tio Jubão, o mais bem humorado da família, o que trazia bombons garoto de Vitória, que conversava longamente com os adultos e brincava com as crianças. O tio que nunca deixou de me dar parabéns nos meus 32 anos de vida e que sonhava levar a vovó para passear pelas ruas de Lisboa (e lá eles se esbaldariam com pastéis de Belém, eu aposto).
Quando eu era bem pequena, um desenho do Mickey no armário do quarto dos meus tios me intrigava. Na verdade era a marca de um adesivo retirado do móvel. Parecia uma sombra. Ele, ao me observar contemplando o rato de Disney, afirmou que desenhara a dedo a figura. Eu acreditei por anos a fio. E quando desconfiei da verdade - nada mais sem graça que um adesivo removido - sustentei a versão de que ele era o criador do personagem. E por que não?
Em sua prancheta, ele desenhou mais que pontes, projetos e fez mais que cálculos até hoje impensáveis para mim.
Como a página branca que escrevo, as linhas do tio eram para expressão, para o desabafo, para o sonho.
Se a gente carece de mais gente como o Jubão por aqui, me alivia saber que lá em cima ele estará junto aos melhores, aos que eu mais amo, aos que fazem-me falta todos os dias.

terça-feira, agosto 04, 2009

Férias (bastidores)







Eu amo viajar, embora viaje menos do que eu realmente queira e mereça. E desde que ingressei na chamada "vida adulta", só tirei férias cheias (mais de 20 dias) três vezes: na primeira vez fui para o Rio Grande do Sul, na segunda para Buenos Aires e no final de julho vim para Pernambuco, com minha amiga Cacá.

Descansar mais de 15 dias por ano é essencial, embora não seja possibilidade para todo mundo. Basta trabalhar num lugar que não respeita seus direitos, como eu trabalhei anos a fio ou cuidar do próprio negócio, digamos assim, como agora. Em 2008 eu estava com a faca e o queijo na mão para o recesso. Veio um evento para aumentar o kit estresse e fiquei a ver navios, aviões e até ônibus.

Então, o cansaço acumula, a tolerância diminui e a criatividade...bem a criatividade parece adorar férias nessas horas! Como a necessidade física e mental de pausa é emergencial, você meio que surta e aciona o botão "F", que também fica ao lado do "foda-se".

Mas se fosse simples assim, pessoas como eu ficariam fora de suas casas 30 dias por ano. Esse luxo para poucos vem acompanhado de planejamentos, adequações, ajustes que permanecem até que a gente se desligue de tudo. Quando esse estágio de plenitude acontece, pode ser a hora de voltar.

Há um prazer absurdo em acordar sem despertador, usar shorts e chinelos o dia inteiro, beber uma cerveja segunda pela tarde (vendo o sol se pôr), tomar coca-cola normal, comer fritura sem lembrar das calorias, ficar boiando no mar, ler deitada na areia, catar conchinhas, conversar longamente com pessoas de outras terras, de outro mar...

Só que de vez em quando, bem de vez em quando, bate uma culpa meio cristã mesmo: a gente lembra que tem as contas quando voltar, tem os problemas e seus filhotes (como Quintana, acredito que eles vêm em família), tem a mala para desfazer. Aí você acha que férias podem nem ser tudo isso na vida. Afinal, existe a chance de engordar, de arrumar insolação, ser picado por insetos imunes a autan e raid protector e ficar com brotoejas (o meu caso desde ontem).

Que tipo de pessoa pode ter alergias e restrições durante suas esperadas e sagradas férias? Saia desse corpo workaholic que não te pertence!

Só de birra amanhã (ou daqui a pouco) vou pedir uma tapioca a mais no café da manhã, ficar mais tempo ainda na praia (hoje bati meu recorde), comer camarão e aproveitar porque não sei quando serão as próximas.

terça-feira, julho 28, 2009

Meu Esquema




Existe a paixão, aquela que eu já tive pelo Rio. Existe o contrário dela, que é a que venho sentindo por Belo Horizonte. Agora, cidade que sempre será "Meu Esquema" é Recife. Correr na Boa Viagem, tomar suco de graviola, cajá... Comer tapioca, camarão, passear no Mercado São José, visitar o Brennand e o melhor: conversar com os pernambucanos longamente são daquelas coisas que você tem que fazer na vida antes de partir dessa. E se os livros falam em maravilhas - que talvez eu nem vá conhecer - eu já me sinto feliz por ter minha própria.

Meu Esquema - Fred 04
Ela é meu treino de futebol
Ela é meu domingão de sol
Ela é meu esquema

Ela é meu concerto de rock'roll
Nação, minha torcida gritando gol
Minha Ipanema

Ela é meu curso de anatomia
Ela é meu retiro espiritual
Ela é minha história

Ela é meu desfile internacional
Ela é meu bloco de carnaval
Minha evolução...

Galega
Tento descrever o que é estar com você

Princesa
Todos vão saber que eu estou muito bem com você

Ela é minha ilha da Fantasia
A mais avançada das terapias
Meu Playcenter

Ela é minha pista alucinada
A mais concorrida das baladas
Meu inferninho

Ela é meu esporte radical
Poderosa, viciante, mas não faz mal
Meu docinho

Ela é o que meu médico receitou
Rivaldo Maravilha mandando um gol
Minha chapação...

Galega
Nem dá pra dizer o que é estar com você

Princesa
Todo mundo vê que eu sou mais...

quarta-feira, julho 22, 2009

segunda-feira, julho 20, 2009

Dia do Amigo

Entre Amigos
Martha Medeiros

Para que serve um amigo? Para rachar a gasolina, emprestar a prancha, recomendar um disco, dar carona pra festa, passar cola, caminhar no shopping, segurar a barra. Todas as alternativas estão corretas, porém isso não basta para guardar um amigo do lado esquerdo do peito.

Milan Kundera, escritor tcheco, escreveu em seu último livro, "A Identidade", que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos.

Verdade verdadeira. Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo contruído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou se serão varridos numa chuva de verão. Veremos.

Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos.

Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta.

Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país.

Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu.

Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o reveillon.

Um amigo não caminha apenas no shopping. Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado.

Um amigo não segura a barra, apenas. Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.

Duas dúzias de amigos assim ninguém tem. Se tiver um, amém
.

segunda-feira, julho 13, 2009

Escola de Rock

Tem gente que agradece aos pais pelo investimento nas melhores escolas, pela temporada fora do país durante o intercâmbio, pela festa de 15 anos, pelo primeiro carro, pela faculdade cara, pelo apartamento que nem precisou suar para pagar, pela festa de formatura, festa casamento... Eu agradeço aos meus por várias regalias que tive na vida, claro. Mas não acho que elas tenham sido a coisa mais importante que recebi dos dois (eu sei que teve todo um sacrifício no meio desse caminho de pedras. Não estou entrando no mérito da questão ou sendo injusta, viu madresita que lê este blog!?!).

Para mim, entre as melhores coisas que os pais podem proporcionar aos filhos são as formações cultural e humana. Falando sobre primeira, graças a eles eu sempre li muito, fui a muitas sessões de cinema, peças de teatro, exposições, balés. Experimentei novos sabores porque lá em casa criança comia não só colorido (pratos exóticos também), viajei para cidades legais, acampei no meio do mato e por aí vai...Contudo, minha primeira "aula" de arte e cultura foi definitivamente musical. E de rock. Eu me lembro que mal falava a maioria das palavras que uma criança domina na língua portuguesa e já balbuciava canções dos Rolling Stones. Sticky Fingers foi, é e sempre será o disco mais importante da minha formação musical, embora haja o Radiohead em mi vida...

Estou falando de base, de chão, daquilo que te faz ter a curiosidade de um dia ouvir outras canções (visto que criança adora ver/ouvir a mesma coisa milhões de vezes), que serão sua trilha em algum momento da existência. Os Stones foram minha porta de entrada para Beatles, Doors, Hendrix, Led, Animals, Ramones, Clash, Cure, Echo, Chili Peppers, Faith no More, Pearl Jam, Nirvana, Queens of the Stone Age e tudo mais que eu nunca parei de escutar e amar. "É apenas rock and roll, mas eu gosto". E pronto. Até para me justificar para o mundo, uso uma composição de Jagger&Richards. Teve um tempo - microtempo, admito - que eu até ficava um pouco sem graça de preferi-los aos Beatles, dada a magnitude, a aura de revolução e a oponência do quarteto de Liverpool. Há um punhado de anos nem me faço de rogada; não entro em nenhuma discussão sobre quem é melhor. Eu sei perfeitamente quem é melhor, porém prefiro aqueles caras sujos, malvados e imperfeitos, com discos que nem sempre são obra-prima. No meu critério musical basta comparar as gravações de "I wanna be your man". A versão Beatles é casamento. A versão Stones é trepada.

E como hoje é dia do rock - e eu habitualmente divago sobre minha disciplina favorita entre todo e qualquer gênero musical inventado até o momento -, separei um blues dos Stones, que eu cantava desde não me lembro quando. Sabe aquela música que a criança escuta e cai na gargalhada de tanto que gosta? Para a geração de agora pode até ser uma Adriana Calcanhoto, whatever. Essa era a minha e, arrisco dizer, da minha irmã. Porque nossos ouvidos musicais foram muito apurados ainda quando éramos fetos.

"You Gotta Move". Always!

terça-feira, julho 07, 2009

Alguma poesia? (Ou enquanto faço o curto trajeto a pé para o trabalho)

Um homem vestido de branco está descendo a rua.
Enquanto fala ao celular.
Ao passar por mim, aciona o modo automático de sua emoção
E diz, em tom menor, beijoeuteamotchau.

Mesmo com a cinza névoa no céu,
as amoras da minha rua insistem em tingir o chão de roxo.

Já me perguntaram um milhão de vezes se não canso de te escutar.
Quando driblo as faxineiras dos prédios, que varrem as folhas para longe,
Nem sequer as surpreendo com meus olhos fechados
Ao cantar desafinadamente sua música, agora minha.

terça-feira, junho 30, 2009

Mais uma despedida

O mundo fica muito pior quando pessoas como ela se vão...

Coreógrafa alemã Pina Bausch morre aos 68 anos - Da Redação do Uol

A coreógrafa e bailarina alemã Pina Bausch morreu aos 68 anos, informa o jornal britânico "The Guardian". Bausch, nascida Philippine Bausch, era diretora artística do Teatro de Dança de Wuppertal desde 1973. De acordo com o jornal alemão Deutsche Welle, recentemente a coreógrafa foi diagnosticada com câncer.

As coreografias da bailarina, que estreou como coreógrafa em 1968, caracterizam-se por uma junção de teatro e dança moderna, refletindo sentimentos humanos como a tristeza e o amor.

Entre as suas produções mais conhecidas estão "Komm tanz mit mir" ("Vem, Dança Comigo", 1977), "Keuschheitlegende" ("Lenda de Castidade", 1979) e "Viktor" (1986), ou "Café Muller".

Parte dos trabalhos da companhia Tanztheather Wuppertal de Bausch tomou por referência países por onde passou desde a década de 1980. A Coreografia "Rough Cut" é dedicada à Coréia do Sul, por exemplo, e "Água", de 2001, é fruto da passagem da coreógrafa pelo Brasil.

Em 2007 ela ganhou o Prêmio Kyoto, importante prêmio internacional de dança, em homenagem ao seu trabalho, rompendo a fronteira entre dança e teatro e estabelecendo um novo parâmetro da arte teatral.

O trabalho de Bausch pode ser visto também no cinema, no filme do diretor Pedro Almodóvar "Fale com Ela" (2002).

Desde setembro de 2008, o trabalho da bailarina e coreógrafa era objeto de uma biografia cinematográfica conduzida pelo diretor Win Wenders.

quinta-feira, junho 25, 2009

R.I.P Michael Jackson



Ele fez parte da formação musical de quase tudo mundo, do contrário não seria o "Rei do Pop"."Thriller" fez com que toda uma geração se apaixonasse pela linguagem do videoclipe e segue ainda como um dos mais importantes de todos os tempos. Era preto e virou branco, comprou os direitos dos Beatles, foi acusado de pedofilia...Michael Jackson era um enigma e era foda.

Ninguém pode constestar sua importância e está sendo difícil acreditar: o rei está morto. Como? De que?

Foi tudo muito rápido. Felizmente Michael, que levou uma vida de glamour e de cão, teve um fim rápido. Ou não. Quem vai saber?

Eu me lembro como se fosse hoje quando ganhei o vinil e o ouvi repetidas vezes (mania de criança que eu trouxe para a vida adulta). Nos anos 80, sem globalização, blogs, comunidades virtuais e milhões de criticozinhos de música de meia tigela, Michael Jackson era uninanimidade. O break estourava e todo mundo queria ser como ele. Surgiam, então, as réplicas. Sábado era dia de ver MJs fakes no Chacrinha e domingo no Sílvio.

Michael era o cara, não tinha concorrente. Mesmo porque até a Madonna, em início de carreira, teve engolir a Cindy Lauper. Ele não. Ele era a história do pop, da música negra mundial...

Imagina crescer num lar onde só o que era autêntico sobrevivia? Meus pais só ouviam rock, blues e música brasileira. Tinham aquela alma hippie, olhar crítico e ouvido musical apurado...O Michael foi o primeiro ícone pop que foi avaliado pela família e conquistou todo mundo. E, se couber uma análise mais aprofundada, o único artista do gênero de que todos (meu pai, minha mãe, eu e minha irmã) gostaram...

Estou triste. Achei que a partida de Michael, mesmo com seu aspecto fragilizado, demoraria um pouco mais.

quarta-feira, junho 24, 2009

quarta-feira, junho 17, 2009

O fim do diploma?

Como o assunto atinge minha área de formação e, por enquanto, de atuação, eu não poderia deixar de opinar sobre o "calcanhar de Aquiles do dia" da maioria dos jornalistas brasileiros (ao menos pela minha constatação no fórum do Comunique-se e no twitter): o fim da obrigatoriedade do diploma por meio da votação no Supremo Tribunal Federal.

Em alguma ocasião (talvez na época da faculdade), eu posso até ter achado legítima a tal conquista do canudo. Mas desde que me formei, penso na exigência como uma bobagem. Apesar de todo o meu desencanto alimentado ao longo de quase 11 anos de estrada, fiz vestibular para comunicação porque acreditava ter vocação para a coisa. O jornalismo foi uma escolha precoce, já que nos tempos de escola criava fanzines e até uma "emissora de rádio" que operava na hora do recreio. Comunicação (para o bem e para o mal) está no meu código genético.

Eu quis ser jornalista porque aquele universo um dia me fascinou: da apuração do fato (não do recebimento do release pronto e mastigado) à correria do fechamento e suas eventuais desventuras em série. Há um prazer indescritível em se realizar uma boa entrevista. Quando digo boa, não me refiro àquela troca de gentilezas entre entrevistado e entrevistador. Uma "alfinetada" na dose certa - e dependendo da circunstância e necessidade, óbvio - tem seu lugar e isso só se dá também à custa de muita pesquisa, informação e "feeling". Então, quando se deseja algo não interessa se alguém irá validar isso com um diploma.

Sempre afirmei que a faculdade para mim foi apenas um consórcio. Me dei conta disso no segundo ou terceiro período, quando ingressei no meu primeiro estágio. A prática destoava bastante de toda aquela teoria ministrada por muitos professores que ou estavam fora do mercado ou possuíam um único referencial. Eu só assimilei disciplinas como filosofia, sociologia, artes. Contudo, resolvi seguir para ver no que dava. Para os meus pais não deixaria de ser uma conquista importante (não essencial) ver a filha concluir uma faculdade (temos que lembrar que moramos num país que até pouquíssimo tempo atrás só acessibilizava o ensino superior para quem tinha condições financeiras para tal ou um esforço incansável para batalhar uma vaga em universidades públicas, sem cursinho ou mordomias do tipo. Nenhum dos meus avós passou do ensino médio, só para constar).

Uma pena que somente na casa dos 30 vejo que seria melhor "fechar o livro e ir viver", como já disse o poeta. Entrei no curso com apenas 17 anos. Poderia ter rodado o mundo com a grana da mensalidade, aprender sobre diversas culturas, falar outras línguas. E só agora isso tudo cai por terra? Não, não é essa "desobrigação" que gera um certo arrependimento. Foi minha imaturidade na escolha da carreira. Eu devia ter adiado por um tempo uma decisão tão importante.

Eu acho que no mundo ideal (vá lá, meu "mundo de Malboro"), eu poderia ter tido a chance da prática antes de optar por aquilo que faria o resto da vida porque estagiário, em geral, é preservado de certas pautas recomendadas, da falta de visão de certos superiores, de qualificação de certos colegas...O fim da necessidade de diploma pode trazer essa perspectiva. Isso pode ser melhor para o jornalismo a médio e longo prazo, ainda mais se considerarmos que ele mergulha numa grande crise.

Ter ou não um diploma não exclui ninguém de um compromisso ético. Ética a gente aprende em casa e leva para toda existência. Ter ou não um diploma não torna nenhum profissional especialista na maioria dos assuntos. Leio, ouço e vejo muita porcaria mesmo de "bacharéis" que se metem a tratar de cinema, artes plásticas, música, moda só para citar aquilo em que me "especializei" dentro do jornalismo. Ter ou não diploma, não exime o cidadão do compromisso com o outro, com o revelar dois lados da mesma moeda e ter o mínimo de senso de justiça. Por fim, ter ou não diploma não torna ninguém melhor que ninguém.

De todo chororô que acompanhei hoje, o mais lamentável foi o desconforto de alguns jornalistas na comparação com um cozinheiro, que foi feita pelo Ministro Gilmar Mendes (por quem não nutro nenhuma simpatia, aliás). Alimentar é extremamente digno e essencial à sociedade tanto quanto recolher sacos de lixo, fazer uma cirurgia de alto risco, defender um caso complicado, planejar a construção de um prédio, cuidar da segurança de uma rua dentro de uma guarita...

Há muitos cursos não regulamentados - em comunicação temos publicidade, por exemplo -, sem sindicatos fortes (o dos jornalistas para mim só faz barulho e mais nada) e isso não é drama, é apenas motivação para lutar por condições mais justas e melhores remunerações. Quem tem talento e profissionalismo não fica sem boas oportunidades (emprego é uma palavra complicada).

Para encerrar, gostaria de pontuar que tenho grandes amigos atuantes em redações e assessorias (e não se graduaram no curso de jornalismo necessariamente) e superam requisitos que a sociedade poderia esperar de um profissional da área: escrevem extremente bem, possuem noção global dos processos, têm faro, curiosidade, criatividade, sensibilidade, ética, comprometimento. A estas pessoas incríveis, dou as minhas "boas-vindas" ao clube. Ainda que eu espere acionar meus planos B e C um dia.

terça-feira, junho 16, 2009

Um pouco do ponto de vista do outro (neste caso, o meu também)

Sub Solo 1 - por Antonio Prata

“Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não uma solução”.Os versos de Drummond me desabaram na cabeça assim que saí do elevador no andar errado, num prédio da Berrini, e dei com um piso inteiro de restaurantes; uma praça de alimentação submersa em toneladas de concreto, no centro empresarial de São Paulo.

Então assim é o mundo – pensei -, é aqui que estão as pessoas normais. As pessoas que têm emprego, FGTS, crachás, férias remuneradas, chefes que admiram e/ou detestam, colegas com quem competem e se comprazem, horário de almoço e happy hour, todo mundo, enfim, que sai de casa toda manhã para trabalhar num escritório, em vez de caminhar, só, em direção a uma edícula, no fundo do quintal.

Eu leio sobre o mundo com frequência, nos jornais. De vez em quando, leio livros sobre o mundo. Pensando bem, estudei o mundo por cinco anos, na faculdade de ciências sociais, mas raramente vou até ele, e precisei do choque daquela praça de alimentação submersa para dar-me conta de quão distante nós estávamos – eu e o mundo. Para um escritor, poucas constatações podem ser mais trágicas.

Posso me acabar de ler Shakespeare, Dostoievski, Kafka e Goethe, mas os verdadeiros Macbeths, Ivans Karamazovs, Gregors Sansas e Faustos estão entre as máquinas de café e os scanners, tiram fotinhos na portaria e alimentam as catracas com seus crachás; nos vinte andares acima daquelas bandejas, todo dia, sonhos medram ou murcham, homens competem, traem, fofocas são discretamente difundidas, alguém entregará o que tem de mais precioso em nome de uma causa; a glória e o fiasco espocam, das oito da manhã às seis da tarde. Como posso querer ser um escritor se só trato com o Ser Humano por e-mail? Se só o vejo amistoso e calmo, no cinema ou num restaurante, no fim de semana?

Voltei ao elevador decidido a raspar essa barbicha calculadamente desleixada - meu crachá de escritor, que pretende dizer, ingenuamente, “não faço parte do mundo” - e arrumar um emprego na Berrini. Pode ser de quinto auxiliar de almoxarifado ou sub-analista de cafezinho, não importa. Só preciso ter acesso ao coração do mundo. Uma vez ali dentro, ouvirei as moças falando mal do chefe na fila do Subway, descobrirei o que planejam os jovens de terno na mesa do Súbito, verei a felicidade do garoto do interior que acabou de ser contratado e o ódio de seu vizinho de baia, que não foi. Depois, e só depois, poderei voltar para minha edícula e tentar escrever algo que preste. Algo que, um dia, espero, chegue aos pés do último verso do poema de Drummond: “Mundo, mundo, vasto mundo, mais vasto é meu coração”.

domingo, junho 14, 2009

A verdadeira Vida Simples

Eu já fui leitora assídua de muitas revistas. Na pré-adolescência devorava Capricho, depois veio a fase Bizz. Antes mesmo da morte da publicação, ela já não me interessava por uma série de motivos que não convém enumerar. Fui assinante da Elle por um ano e, em seguida, da TPM. Cheguei a ensaiar a compra de edições seguidas da Bravo e os primeiros números da Rolling Stone. Gosto de revista, eventualmente até colaboro para algumas (menos do que eu gostaria, entretanto é outro ponto que não vem ao caso).

Atualmente, tenho lido - e cogitado assinar - a Vida Simples. Porque descomplicar é o verbo da vez para mim. Não preciso fazer um teste para saber se "ele gosta mesmo de mim"; a crítica ferrenha de qualquer jornalista musical sobre alguma banda que eu goste, não me atinge nenhum pouco; tenho meu próprio estilo; não vejo necessidade de apoiar campanhas do tipo "boicote a chapinha"; faço meu próprio roteiro cultural e baixo minhas músicas com indicação de amigos.

Em tempos de pressão extrema no ambiente de trabalho, correria no dia a dia, frustração com certas escolhas profissionais, dá um certo alívio saber que isso não é "pessoal" e a Vida Simples acompanha, digamos, essas mazelas sem dramatizar como muitas outras revistas costumam fazer...

Mas o que eu queria dizer com esse post é que mesmo tendo uma bagagem meio hippie, por conta dos vários acampamentos que fiz com meus pais, ir para lugares mais tranquilos em feriado nunca foi uma opção (e acredito que eu não seja influenciável nem mesmo por uma revista bacana). Dessa vez foi diferente: eu quis ir para um lugar mais distante e calmo. Escolhemos Diamantina porque é charmosa, sem a pretensão de Tiradentes, preservada ao contrário de Ouro Preto. Ideal para curtir o frio (que eu amo), passeios diferentes, exageros à mesa e, principalmente, observar.

Em Diamantina as pessoas são genuinamente mais simpáticas. Não é só uma "carcaça Senac" que Tiradentes possui com os indinheirados e Ouro Preto nem isso. Conversamos com muitas pessoas que nos atendiam com presteza e cordialidade. Contamos casos, rimos. Na volta, quisemos comprar uma carne de sol e o comerciante falou que teve um problema no freezer no dia anterior, que não seria prudente viajar 3-4 com a carne. Uma honestidade que não se vê facilmente.

Em Diamantina, não recusei sobremesa porque, quando tentei, fui surpreendida por um doce de casquinha de limão recheado com doce-de-leite delicioso. Também comi o que tinha restrição (pequi). Não posso dizer que mudei de ideia, mas ao menos não bati o pé. Também comi paçoca de carne seca, pão de queijo com linguiça, torresmo, carne serenada...Tudo sem pensar nas calorias. Subi e desci ladeiras para compensar, ainda que essa não fosse uma preocupação.

Fiquei como criança na quermesse, quis dançar quadrilha. Aqui já não temos a legítima festa junina, na rua, com as crianças correndo, os velhinhos dançando, os namorados se abraçando, a fogueira, o quentão, a canjica. Para aproveitar este tipo de festejo em BH, eu teria que ir num condomínio fechado ou no super clichê "Arraial de Belô", promovido pela Prefeitura.

Então eu vi a lua enorme no céu e estrelas, muitas estrelas. Eu vi gatos no telhado, cães passeando simpáticos pelas ruas e gente na janela vendo o tempo passar, esperando o amor chegar, pois sexta foi dia dos namorados. Eu vi gente de fé entrando nas igrejas, gente encantada com a Casa de Chica da Silva e os adolescentes paquerando na praça. Vi um tiozinho bêbado discutir com a caixa de som. Uma tiazinha catadora de latinha dançando com o vento. Ninguém ali parecia perturbar a loucura, a sanidade, a crença, a alegria, a melancolia, a festa ou o sono do outro.

Pela primeira vez, senti uma ponta de inveja da verdadeira vida simples. Li todos os dias, não liguei a TV e, mesmo sem despertador, acordei cedo porque queria aproveitar o dia. Não atendi o celular, exceto para saber de notícias do Tétinho. Podia ser sempre assim...

terça-feira, junho 02, 2009

American Beauty*

Todo mundo tem (ou pelo menos deveria ter) um plano B. Centenas de jornalistas que eu conheço, por exemplo, querem abandonar a redação e abrir um boteco. Outros tantos acham que podem virar Verissimo ou Martha Medeiros e viver do que escrevem. Há, ainda, a categoria mais curiosa - normalmente pertence aos extremamente estressados - que é virar hippie e vender colar de coquinho na praia.

Não quero jogar areia no plano B de ninguém, que fique claro.


Por muito tempo, pensei em vários planos de fuga. Estudar era um deles, mas a roda-viva do trabalho nunca deixou. Claro que quem quer muito colocar a ideia em prática faz-se valer da máxima "o que você faz de meia-noite às seis?". Depois de muito pensar nisso, cheguei à conclusão de que desejava atingir a meta sem sacrifícios extremos. Simples assim. Acho muito admirável quem trabalha 50 horas semanais e ainda estuda, namora e vai ao cinema. Só que comigo não funciona. Tenho uma alma de bon vivant.

Como não virei mestre ou doutora em coisa alguma, o plano B continuou a ser uma pulga atrás da orelha. Comprei um livro sobre períodos sabáticos e também concluí que não seria tão fácil fazer a mochila e me aventurar. Afinal, para se desprender da rotina de trabalho, você tem que ter uma reserva em dinheiro basicamente para comprar as passagens para aquele destino distante e guardar para emergências (tipo pagar um médico/curandeiro quando for picado por um inseto raro na Savana). Eu sou a cigarra e não a formiga nessas horas.

Sem muitas cartas na manga, comecei a refletir de maneira mais crítica sobre meus talentos e potenciais artísticos e...nada! Eu não canto, não danço, não pinto e não atuo. No campo das ciências exatas e biológicas, bastou eu lembrar da quantidade de notas vermelhas que eu colecionei nos tempos de escola durante toda minha vida. Eu sempre passava com excelência em redação, línguas, história, geografia e dada minha extensa capacidade de comunicação, era assunto regular nas reuniões de pais e mestres.

Acontece que o plano B virou uma espécie de obsessão, uma nova diretriz em tempos de crise e não me refiro somente à econômica mundial. Fiquei em pânico, sobretudo quando me dei conta que uma década de passou desde que me formei e de lá para cá, a pressão só aumentou e o mercado - no caso de BH, feira - virou uma prostituição generalizada. Ninguém pode querer isso para mais uma década, certo? E não se trata da dificuldade de lidar com um chefe na redação ou determinado cliente na assessoria. É um campo minado e ponto.

Eu não quero ser o que o mundo espera de mim, à essa altura da minha vida, pelo menos na minha área. Sofro menos com esse conceito de "bem sucedido" do que posso fazer parecer nessas linhas. Acredito na frase do Bob Dylan que é algo como o sucesso é ter feito só o que se gosta entre acordar e dormir.

Enquanto seu lobo não vem, passeio na floresta com minhas divagações meio insanas, meio idealistas. Na atual conjuntura, tem dias que dá vontade de largar tudo e virar Cachorro da Emive (uma empresa de segurança, para quem não conhece). Ele está em todo lugar: no sinal, na linha de chegada da corrida, dançando na festa do Comida di Buteco. Sempre acenando. No meu caso, toda vez que eu visse um mala, mostraria o dedo médio e, em seguida, acenaria de novo para confundir a pessoa.

Seria uma grande realização pessoal.

É algo meio American Beauty, eu sei. O cara larga tudo e vira atendente do Mac Donalds...Mas no terceiro mundo isso não cola. A opressão ao trabalhador não deixa brecha para criatividade. Cachorro da Emive seria uma vingança poética, doce e lúdica (odeio essa palavra).

Pode não ser propriamente um plano B, todavia, se um dia alguém vir um Cachorro da Emive mais insano que o normal, pode desconfiar. A boa notícia é que com aquele cabeção, eu não morderia.

*Esse post é dedicado às amigas Júlia e Carol que curtiram minha ideia.


quarta-feira, maio 27, 2009

Advogando em causa própria

Afinal, para se divulgar algo, tem que ser em todas as mídias em que estou disponível/online


Hoje eu discoteco no Casa Lounge Café. O tema é Phil Selway´s Birthday (baterista do Radiohead), que foi comemorado no último dia 23, quando eu estava num momento "lerê Comida di Buteco".

E por que eu estou convidando em cima da hora?

Bem, minha memória está que nem a da Dori ("Procurando Nemo"). Combinei com Rafashion, dono do Café, e ele me lembrou. Sei que meus amigos são pessoas que se animam para happy hour e não tem essa frescura de marcar com 5 dias de antecedência na agenda, que não precisam ir em casa trocar o rexona (afinal, não estamos no verão).

É bem verdade que hoje tem jogo - e não é qualquer um - do Cruzeiro. Já expliquei pro marido que lá não tem telão, portanto, imagino que o público será menor que o esperado por conta disso (não porque eu estou chamando em cima da hora).

Enfim, será uma noite ótima e vou até deixar pedirem música (desde que eu as tenha).

Lá agora aceita a família Visa. Para os que resmungarem que é fim de mês, etc.

Até às 19h30 entonces.

Rua Congonhas, 527, Santo Antônio.

segunda-feira, maio 18, 2009

Radiohead em estúdio

Da série: coisas que amenizam os dias de cão. A dica é de Rafashion e a notícia da Rolling Stone.

Radiohead, R.E.M. Hit the Studio to Work On New Albums

A pair of the biggest bands in rock, Radiohead and R.E.M., hit the studio recently to begin work on their next albums. While both groups are in the beginning stages of writing and recording, they offered up some early details in a series of interviews.

Radiohead have reconvened with longtime producer Nigel Godrich to start work on the follow-up of 2007’s In Rainbows. “It was very noisy and chaotic and really fun,” bassist Colin Greenwood told BBC’s 6 Music of the band’s recording session. “It’s at the stage where we’ve got the big Lego box out and we’ve tipped it out on the floor and we’re just looking at all the bits and thinking ‘What’s next?’ I’m very impressed and grateful for Nigel our producer and his ability to make it all sound vaguely plausible.”

Greenwood had some more vague details for NME.com, adding, “It’s really cool and everything is sounding great. It’s early days and it is a bit like having a scrapbook at the moment because everything is up in the air, but it’s good to be back in the studio.” Considering the recent report that the band was encouraged by their management to “split up” during the tumultuous recording of In Rainbows, we’re glad to hear that things thus far are going smoothly. While the band provided no specifics, one of the tracks that may get the studio treatment is “Super Collider,” which Radiohead premiered during concerts on their In Rainbows tour.

As for R.E.M., guitarist Peter Buck spoke to Pitchfork about the early stages of recording their follow-up to last year’s Accelerate. Buck and bassist Mike Mills recently entered a Portland, Oregon studio to record skeletal tracks that they written wrote touring behind their recent album in the hopes of making some music that would “excite Michael [Stipe] about getting inspired.” Unlike the stripped-down Accelerate, Buck says, “This record, I want it to be broader; I think Michael [Stipe] is into that. So there are some really pretty acoustic things, some really total noisy rock, and some kind of poppy stuff. It runs the gamut.” While Jackknife Lee will likely serve as producer again, Tucker Martine, who produced the Decemberists’ Hazards of Love helped Buck and Mills lay down the demos.


Efeito Placebo

Para depressão, anti-depressivo.
Para ansiedade, ansiolítico.
Para insônia, sonífero.
Para irritabilidade e impaciência eu tomo o quê?
Anti-rábica?

domingo, maio 10, 2009

Delicadeza

Ontem ganhei um lindo presente da Dani, que cria bolsas e acessórios sensacionais. Vale visitar o blog dela e encomendar ou saber onde comprar, se você mora em Belo Horizonte. Já até fiz um passeio com meu fusquinha!

quarta-feira, maio 06, 2009

O legado de Eddie Vedder (mais do mesmo)

Sempre que os dias de cão insistem em devastar meu sonho de uma rotina felina, penso na época em que as coisas eram mais fáceis. Não que fossem necessariamente melhores. Mas eu gosto de me recordar que um dos meus grandes amores da juventude foi o Eddie Vedder. Ele era perfeito quando eu tinha meus 15 - 16 anos: o cabelo mais lindo, a voz mais incrível, as camisas mais xadrezes...

Minha obsessão por ele era tamanha que um carinha, com quem ficava naquele contexto, um dia confessou que queria ser o Eddie Vedder, por quem eu realmente suspirava. Talvez a partir dali, eu tenha ficado mais afim do tal cara. Não foi para frente. Nem deveria, enfim. Durante anos achei engraçado o pobre mortal querer alcançar o Olimpo do grunge. No entanto hoje vejo que foi uma das declarações de amor mais bacanas que recebi. Possuo uma lista bem boa nesse sentido e diria que até agora, especialmente agora, tenho muita sorte no amor.

É o que me equilibra. O que acontece de melhor atualmente. Não fosse assim, os dias de cão seriam de espumar.


terça-feira, maio 05, 2009

Minha conversa com Thom Yorke

Sorry, periferia! Quem ficou na esperança de um autógrafo, de uma fotinho com Thom Yorke em sua temporada no Brasil deve contratar o meu personal Morfeu. Depois de me encontrar com David Bowie em Tóquio (e ele falar comigo em português), fui para Londres na madrugada de ontem bater um longo papo com Thom, em inglês (porque David fala todas as línguas quando eu adormeço). Digamos que acordei até cansada, com a sensação de que nenhum outro sonho paralelo estragou minha noite com meu vocalista/compositor/músico/letrista favorito. Rafa disse que trabalhei com sorriso no rosto.

quinta-feira, abril 30, 2009

Adote um gatinho (e faça sua vida mais feliz)



Se você procura um animal de estimação elegante, carinhoso, inteligente, belo, leal, brincalhão, sensível e independente, você procura certamente um gatinho. A autora deste blog ama e prefere gatos. Com isso, contribui para todas as iniciativas de adoção. Essa ninhada, que procura um lar, é de uma amiga do meu cunhado Fabiano. Quem se interessar, comente abaixo e deixe o e-mail que eu entro em contato.


SE O POETA FALAR NUM GATO

Se o poeta falar num gato, numa flor,
no vento que anda por descampados e desvios
e nunca chegou à cidade…
se falar numa esquina mal e mal iluminada…
numa antiga sacada… num jogo de dominó…
se falar naqueles obedientes soldadinhos de chumbo
que morriam de verdade…
se falar na mão decepada no meio de uma escada
de caracol…
Se não falar em nada
e disser simplesmente tralalá… Que importa?
Todos os poemas são de amor!

Mário Quintana

quarta-feira, abril 29, 2009

Da Intolerância

Não suportar as diferenças é uma das molas que movem o mundo. Em algum grau ou perspectiva, todos somos intolerantes. No budismo, uma das buscas - feitas através da meditação - é cultivar o oposto desse sentimento. Semana passada estive na Associação Cultural Oriente Ocidente refletindo sobre a questão. Como posso vencer minhas pequenas e grandes incapacidades de aceitação?

A intolerância sempre esteve comigo, mesmo quando não estava dentro de mim. Certa vez, quando era criança, saí no tapa com um garoto que fez um comentário racista sobre uma pessoa muito querida. Quase tomei uma suspensão. Lembro-me da diretora da escola - uma italiana anarquista, que eu adorava - pedindo primeiro para a agressora (no caso, eu) a justificativa. Entre soluços de dor e raiva, dei minha versão. Como sempre houve a tal "psicologia infantil", fomos convidados a refletir. Afinal, meus tabefes não tornariam o mundo melhor.

A técnica nem sempre funcionou muito bem. A partir dali, me tornei intolerante a gente preconceituosa. Mesmo que eu não dirija, odeio quando alguém solta um batido "tinha que ser mulher" no trânsito. Acho um absurdo coexistir com sujeitos machistas em maior ou menor grau e, normalmente, tomo dores, causando mal estar ao interlocutor (e sem o menor peso na consciência, diga-se).

Há menos de um mês, numa conversa trivial com um grupo de conhecidos (médicos, inclusive) falei sobre o rigor da doação de sangue, que impossibilita as pessoas de ajudarem a quem precisa. Óbvio que o alvo da minha indignação era a proibição de doadores homossexuais. Mas para a medicina existe grupo de risco e não comportamento de risco, certo? Evidentemente, ouvi uma justificativa que não me desceu. Entendi que era melhor falar de amenidades.

Aquela menina que resolvia as diferenças "lá fora" fica querendo sair de mim. Na meditação, eu peço para que ela busque a sabedoria. Só que ela é extremamente teimosa, de natureza ariana. Quando eu dou por mim, ela está arregaçando as manguinhas. Ontem foi um desses momentos.

Falando sobre a gripe suína, uma colega da academia - uma senhora de seus 60 anos - expôs que essas pragas deveriam varrer o mal do mundo. Eu me antecipei, como é usual, e falei que elas varrem primeiro os pobres, não necessariamente o mal. Felizmente, não rendi muito. Depois pensei melhor na frase dela. Talvez aquela senhora idealizasse apenas um planeta sem gente escrota e isso não tem a ver com ricos, pobres ou remediados.

Não posso partir direto para o ataque. Estou trabalhando arduamente para conter essa atitude, que acaba virando nada mais nada menos que intolerância. Logo mais, quando encontrá-la, pedirei desculpas pelo meu comentário infeliz.

Atualmente, estou envolvida com um trabalho que está testando diariamente a minha capacidade de aprisionar a justiceira mirim do passado, já que tem a ver com minha intolerância à grosseria. Não chego ao ponto de retrucar com gentileza. Sou seca, objetiva, respiro, conto até dez, olho o calendário e penso que tudo passa.

Agora, sei que sou transparente como água tratada com meus sentimentos. No entanto, eu estava de verdade predisposta aos bons modos, à fluidez e aos bons resultados. Contudo, à medida que a coisa desandou, passei a ser formal porque a tal "etiqueta corporativa" é algo que salva nessas horas. No amplo círculo de relações de meu trabalho aprendi a tratar algumas pessoas de forma polida, impessoal (ainda que minha intolerância berre).

Questão de sobrevivência? Pode ser. Pode ser também a tal tolerância que espero há anos.

Para ler ouvindo:
Optimistic - Radiohead

Flies are buzzing round my head
Vultures circling the dead
Picking up every last crumb
The big fish eat the little ones
The big fish eat the little ones
Not my problem, give me some

You can try the best you can
If you try the best you can
The best you can is good enough
If you try the best you can
If you try the best you can
The best you can is good enough

This one's optimistic
This one went to market
This one just came out of the swamp
This one dropped a payload
Fodder for the animals
Living on animal farm

If you try the best you can
If you try the best you can
The best you can is good enough
If you try the best you can
If you try the best you can
The best you can is good enough

I'd really like to help you, man
I'd really like to help you, man
Nervous messed up marionettes
Floating around on a prison ship

If you try the best you can
If you try the best you can
The best you can is good enough
If you can try the best you can
If you try the best you can
Dinosaurs roaming the Earth
Dinosaurs roaming the Earth
Dinosaurs roaming the Earth

terça-feira, abril 21, 2009

Oh, yeah

Há muito não indico um filme por aqui. Não que não esteja assistindo a bons filmes, mas é que existem hoje tantos blogs cinemaníacos, musicais ou literários que, muitas vezes, guardo para mim certas impressões. Guardo também em tíquetes de viagem (como foi a psicografia Radiohead), bloquinhos (não sou chique o suficiente para molesquines) ou nos extras (o que escrevo e, evidentemente, não posto). Enfim, depois de muitos anos, aprendi a não compartilhar o que penso. Honestamente, tem sido bom para mim em muitas circunstâncias. Mas voltemos à dica.

Não sou uma profunda conhecedora de blues e, confesso, tenho uma certa preguiça do estereótipo de blueseiro (pelo menos os "made in Brasil"aos quais fui apresentada: tiozões meio Nasi, ex-Ira!, que vagam por bares dando em cima de lolitas). No entanto, saí do cinema com vontade de tomar um trago e me deixar levar pelos solos - alguns, familiares - de "Honeydripper". Passei a maior parte da projeção tensa, porque a vida do protagonista é uma desventura em série. Fui relaxando até quase cantar o que conhecia (a música que o Sonny canta na prisão, diga-se, e que acho que os Stones gravaram), torcer por aquelas pessoas, vibrar em muitos momentos e desejar que a vida - não apenas as da ficção - seja mais do que as contas a pagar.

Bem, como isso não é uma resenha (não ganho mais para fazer essa tarefa), fica o toque. Como minha querida professora Agnes fez em "Ratatouille", vale ver (ou rever) levando uma garrafinha mini de Jack Daniels na bolsa (no caso dela, foi uma de vinho). Só pude fazer isso depois (como em "Sideways"), mas pelo menos serviu para escrever aqui.

segunda-feira, abril 20, 2009

Momento "The Office"

Competências essenciais não são mais suficientes, afirma Eugenio Mussak
por Viviane Macedo


Correria, acúmulo de funções, competências indispensáveis para o mercado. Esses e muitos outros assuntos foram abordados durante entrevista com Eugenio Mussak, conferencista, consultor e professor nos campos de liderança, mudanças, aprendizagem e desenvolvimento profissional. Mussak conversou com o EMPREGO CERTO e falou sobre a importância de fazer uma coisa de cada vez, tema de um de seus livros; sobre a busca pela excelência e a tão almejada metacompetência.

Segundo ele, o organização é uma competência que ainda precisa ser muito trabalhada pelos profissionais, e o mercado hoje tem uma nova exigência, além das habilidades básicas, busca valores. "Profissionais competentes há centenas, milhares, e na hora de decidir quem contratar, a empresa vai ver quem é capaz de agregar valor, além de conhecimento técnico", afirma o professor.

Acompanhe a entrevista exclusiva e saiba como tornar-se mais atrativo ao mercado de trabalho.

EMPREGO CERTO: Vivemos numa correria e, muitas vezes, qualidade se confunde com quantidade. Você escreveu um livro exatamente sobre o assunto: Uma coisa de cada vez. Acredita que os profissionais estão passando da conta nas funções?

EUGENIO MUSSAK: Estamos numa era em que somos demandados a fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Temos de ser uma espécie de super-homem ou super-mulher para conseguir atender todas as demandas que recebemos no dia-a-dia. Eu até acho que podemos fazer várias atividades, assumir diferentes papéis, mas não na mesma hora, porque assim perdemos o foco. A maioria das pessoas tem essa capacidade multitarefa, mas ela é questionável, porque é limitada. Mesmo assim, eu noto que há quem se orgulhe de fazer várias coisas ao mesmo tempo, sem perceber que nenhuma dessas atividades é realizada com a devida atenção e energia. Nós temos plena capacidade de dar conta de nossos compromissos diários, mas atendendo uma coisa de cada vez, e para isso existe algo extremamente importante e que pode ajudar, uma agenda. Algumas pessoas ainda acreditam que ela aprisiona, mas muito pelo contrário, a agenda liberta, desde que seja seguida à risca. Um compromisso de cada vez, assim o resultado final se torna muito melhor.

EMPREGO CERTO: Além desse ponto levantado sobre concentração, o que você acha que pode ser melhor trabalhado na carreira?
MUSSAK: Eu tenho impressão de que a capacidade de organização é uma delas. Eu insisto que as pessoas precisam ter uma agenda de qualidade. Outro ponto muito importante e que vem a partir da organização é a disciplina, porque você não consegue se organizar se não for disciplinado. E algo também esquecido por profissionais é a questão de definir horários para estudar, e estudar sempre. Ler livros, fazer cursos, ler revistas, acessar sites de interesses pessoais e profissionais, tudo que possa agregar conhecimento e aumentar a cultura geral. Uma pessoa mais culta tem maior percepção sobre as coisas e mais facilidade para se adaptar a situações, mudanças e novas realidades.

EMPREGO CERTO: O mercado costuma ser exigente com relação a essas lacunas dos profissionais?
MUSSAK: Na realidade, o mercado de trabalho é um pouco paradoxal, porque ele exige das pessoas algumas características que vão contra as necessidades das organizações. Por exemplo, a empresa exige que o profissional seja criativo, mas ao mesmo tempo, exige que ele seja focado - a pessoa excessivamente focada, não consegue ser criativa, porque criatividade depende de uma visão mais sistêmica. A organização exige resultados com qualidade, com excelência, mas ao mesmo tempo, exige que a pessoa atenda muitas demandas ao mesmo tempo - o que contraria a exigência de qualidade. Por isso, é necessário que o profissional seja muito disciplinado com a carreira e aprenda conviver com essas armadilhas do mercado.

EMPREGO CERTO: Estamos falando sobre competências e características importantes para o mercado. A questão da metacompetência, assunto abordado em um de seus livros, tem ligação com isso?
MUSSAK: Sim, porque metacompetência é o que está além da competência. "Meta", nesse caso, tem sentido de transcendência não de objetivo, é alguma coisa que está além. Acontece que hoje, o mercado está tão competitivo que parece que não é suficiente que sejamos somente competentes, precisamos ter alguma coisa a mais. Profissionais competentes há centenas, milhares, e na hora de decidir quem contratar, a empresa vai ver quem é capaz de agregar valor, além de conhecimento técnico. Quando você vai selecionar um motorista, por exemplo, ele precisa ter duas competências que chamamos de competências essenciais - saber dirigir e conhecer a cidade. Mas, essas duas competências eu acredito que quase todos os candidatos à vaga tenham, aí a empresa vai verificar aqueles que têm outras competências. De repente, tem um que entende de mecânica, tem um que fala inglês, tem um que se comunica bem, então a pessoa acaba sendo selecionada não pelas competências objetivas, e sim pelas competências transversais. A metacompetência insiste que você deve desenvolver competências transversais, as essenciais já não são mais suficientes. Os metacompetentes têm um grande diferencial no mercado, eles criam um novo cenário de competitividade.

EMPREGO CERTO: E o mercado tem muitos profissionais metacompetentes?
MUSSAK: Claro que sim, muitos e em todas as áreas. Você encontra restaurantes competentes e restaurantes metacompetentes. Dentro do restaurante, você vai encontrar garçom competente, aquele que te serve, somente. E aquele outro que você percebe que está fazendo o trabalho com prazer e orgulho. Ele pode ser garçom para o resto da vida, se quiser, mas tem chances de ser gerente e até dono do restaurante algum dia. O competente é aquele que faz o que se espera dele, o incompetente é aquele que não faz o que se espera dele ou faz menos, e o metacompetente faz mais do que se espera dele. E isso serve para empresas e profissionais de qualquer área.

EMPREGO CERTO: O metacompetente seria algo próximo ao profissional perfeito?
MUSSAK: A perfeição não existe, é uma utopia, mas a busca por ela é o que nós chamamos de excelência. Excelência não é um padrão, é um estado, há pessoas que têm uma espécie de insatisfação com o desempenho, sempre querendo mais, e isso é o que garante a evolução do profissional, da empresa, da sociedade e da humanidade. Nós temos sempre que querer mais, isso é ambição, é querer deixar um legado, querer fazer, ser e ter mais. É uma visão que já faz muita diferença para os profissionais e para as empresas, mas que ainda está em carência, ainda faz falta esse olhar da evolução profissional atrelada à evolução humana. Valores como respeito, confiança, ética, sustentabilidade, alegria, amor. A visão dos valores é o que vai permitir que o profissional tenha uma melhor visão do negócio, da profissão.

EMPREGO CERTO: As organizações têm responsabilidade nesse processo de evolução de seus profissionais?
MUSSAK: A empresa tem a responsabilidade de oferecer os meios, mas a responsabilidade do desenvolvimento é de cada um, porque eu não posso desenvolver um adulto, eu posso dar para esse adulto os meios para que ele se desenvolva. Eu não posso pegar um adulto pela mão e levar para o colégio, ele tem de ir com as próprias pernas e isso é que não fica claro muitas vezes nas organizações. A organização tem a responsabilidade de oferecer os meios, de dar condições, de estimular, mas cada pessoa tem de assumir a responsabilidade por seu desenvolvimento.

EMPREGO CERTO: E você acha que os profissionais confundem isso?
MUSSAK: Sim, os acomodados, aqueles que esperam que os outros façam por eles. Vêm com frases como "ninguém me pediu... ninguém me disse que precisava...". O acomodado é um problema nas organizações, inclusive, porque muitas vezes ele é um sujeito que tem muitos anos de casa e tem bom resultado no trabalho, então quando alguém se queixa ou critica que ele não está evoluindo, ele não gosta, porque está entregando o resultado. Mas ele não percebe que podia estar entregando resultados muito melhores. Precisamos evoluir sempre, as empresas não se interessam por profissionais que querem só um emprego.

EMPREGO CERTO: Que dicas você deixa para que os profissionais aprendam a trabalhar a metacompetência?
MUSSAK: Eu acredito que algumas listas podem ajudar muito nessa questão. A primeira seria uma lista de competências essenciais e de competências transversais. A segunda com qualidades, forças e com fraquezas, deficiências. E uma terceira com sonhos e medos - os medos são os grandes inimigos dos sonhos. Colocar no papel os grandes sonhos da vida e os medos é muito importante, pois sem conhecê-los não há como combatê-los. Então essas três listas, sempre atualizadas, ajudam não só para o melhor autoconhecimento, mas também para a percepção do mundo, do mercado, do que os outros esperam da gente. É importante sempre ter em mente que você não pode só dirimir as suas fraquezas, é preciso potencializar as suas forças também. Lembre-se, você não será reconhecido pelos seus pontos médios, você será reconhecido pelos seus pontos fortes.