quinta-feira, novembro 05, 2009

O adeus de Sorín




Não costumo falar de futebol neste blog, embora tenha uma bagagem considerável que me permitiria escrever mais vezes sobre o assunto. Na prática, porém, faltam-me os conhecimentos que não herdei dos meus avós e pais sobre as regras do jogo. Não importa.

Falar de futebol para mim é falar do Cruzeiro. Não torço para nenhum outro time, nem para a Seleção Brasileira. Cresci brincando na sede do Barro Preto. Entrei no gramado inúmeras vezes quando criança de mãos dadas com jogadores que embalaram o grito de uma torcida apontada por rivais estridentes como "fria".

Ontem retornei ao Mineirão depois de anos (provavelmente o último jogo que vi no estádio foi na companhia do meu pai e minha irmã). Na verdade, fui para trabalhar (como minha mãe fez no Clube para o qual dedicou uma penca de anos de labuta). Em meio ao estresse comum de um mega evento, às solicitações inconvenientes de alguns jornalistas, ao equivocado senso de urgência de certos focas que não sabem correr atrás do que querem e, finalmente, do suporte aos profissionais da imprensa que realmente entendem do cortado, consegui parar por uns minutos para curtir minha paixão celeste.

Nada é mais lindo que o Mineirão todo azul e estrelado. Numa noite agradável, de uma lua cheia incrível cantei com a China Azul a última canção para aquele que, com certeza, é meu segundo grande ídolo do Cruzeiro (o primeiro é meu avô Azevedo que jogou no Palestra Itália, onde tudo começou): Juan Pablo Sorín. Como jogador esbanjou aquilo que os adversários achavam que o time não tinha, o componente raça. E teve raça, paixão, deu o sangue. No fim, mostrou-se ainda um ser humano incrivelmente solidário. Virtude que falta não apenas no futebol dos super salários, falta em todos nós seres humanos irremediavelmente individualistas (para não dizer pior).

Aquelas entradas para o jogo poderiam ser um pé de meia e tanto. Desde o início, Sorín um cara verdadeiramente gentil, fez questão de que o torcedor pagasse o ingresso em alimentos não-perecíveis para que fossem doados a quem precisa. Não é o primeiro e nem o último ato generoso do craque e isso não é para ficar bonito no blog ou no release que escrevemos e traduzimos para mais três idiomas. Conheci e convivi intensamente com Sorín e a Sol, esposa dele, nos últimos dias e não precisei de muito para saber que essas e outras qualidades fazem parte da formação e do caráter de ambos.

Aquelas 50 mil pessoas ontem gritavam e cantavam com fervor para um ídolo que não se dissocia do grande cidadão que é. Não há dois Soríns. Ele é único em todos os sentidos. Para nós cruzeirenses, dos pouco praticantes aos alucinados, eterno.

Abaixo, a carta de despedida de quem escreve, com o coração, história.

Obrigada Sorín!



"Há quatro meses conquistamos a Copa Sul Minas.

Há quatro meses fui embora do Cruzeiro

O texto abaixo escrevi para mim, porém, senti a necessidade de compartilhá-lo com vocês.

Simplesmente para que saibam a importância que tudo isso tem na minha vida.

Simplesmente para seguirmos juntos, apesar da distancia.

Hoje, estréio em meu novo time.

São muitas as expectativas e as vontades de sempre, mas esperando um dia retornar a minha segunda casa.

15:58 hs – Banderas en tu corazón (Bandeiras no teu coração).

Setenta e cinco mil caras esperando ver o Cruzeiro campeão.

Saímos rodeados de mascotes e crianças, que nos acompanham sempre com um sorriso.

Pegamos forte e corremos para o gramado.

Uma olhada rápida, mãos para o alto e as primeiras emoções.

Não é comum e é até anormal muitas camisas argentinas, celestes e brancas, no Brasil todas sentimentalmente distinguíveis.

Chegam as placas de homenagem.

Primeiro, do presidente.

Depois, da Máfia Azul e logo uma camisa inesquecível com o meia dúzia nas costas, assinada por todos os funcionários do clube.

A melhor homenagem, da cozinheira ao roupeiro, os encarregados da limpeza, até meus colegas, médicos, técnicos...

Vale ouro! Vale mais suor, ainda!

Sorteio a moeda da Fifa.

Deu branco e ganhei.

No segundo tempo, atacaremos junto ao grosso da nossa torcida.

Antes de começar toca o hino brasileiro.

Todos cantam e eu não. Procuro minha companheira e concentro-me em silêncio.

Observo a torcida e na arquibancada há uma bandeira argentina.

Que orgulho! Não posso acreditar. Onde estão meus amigos do bairro para contar-lhes? J

ogam balões para os céus com meu rosto estampado numa bandeira vertical.

É minha despedida, a parte da final. Contenho as lágrimas, soa o apito.


16h20 - Sarando as feridas


Meu Deus! Um choque forte, toco a sobrancelha.

Sangue. Puta que pariu! De novo?

Quarto corte na cabeça em dois anos e meio.

Queria jogar e o juiz reserva "canarinho" disse-me que não!

Quase pede minha substituição e disse-me que há muito sangue.

Peço-lhe por favor. Hoje, não me deixes de fora, irmão!

Ele não entende bem, mas me permite entrar e lá vou eu como um "papai smurf".

Serão seis pontos no intervalo, 0 a 0, com uma bola na trave e um susto forte.

17h40 - Oh meu pai, eu sou Cruzeiro meu pai...


Tira a camisa! Tira a camisa!

Parece uma bola perdida, mas sei que o Ruy vai ganhá-la.

O "cabeção," meu amigo e parceiro de quarto, vai tocá-la por um lado e buscá-la pelo outro (fez uma gaúcha, berra o locutor).

Entra na área e só rola para trás.

Não sei o que faço aí, a não ser confiar nele.

Não sei o que faço senão ir além do sonho da despedida e não há tempo para pensar.

Com três dedos e meio esquisitos de prima, com a sempre canhota bendita e a rede se mexe, é o mundo que explode, vem o delírio, a festa...

Não pode ser real. As cabecinhas que pulam descontroladas, a camisa voando na mão e um grito eterno, inesquecível, uma dança especial.

17h55 - Ah, eu tô maluco!


Bicampeão!

Faltam segundos e não existe sensação comparável como a de ser campeão.

Nos olhamos cúmplices com o Cris e rimos da conquista depois do esforço.

Somos irmãos, somos um punhado azul de raça inquebrantável, enquanto o pessoal na arquibancada baila, grita, goza e por fim estoura com o final.

Escuta-se um estrondo inconfundível.

Um abraço, dois, um milhão, a correria perdida, louca, entre pulos, festejos com cada companheiro, Toninho, Valdir, Tita e Bolinha, todos malucos.

De repente um cara me leva nas costas e damos a volta olímpica.

Não quero que isso termine e penso se pudesse parar o tempo nesse instante, mas não posso.

E aí, vou dando-me conta que também é o final para mim, que estou indo embora do meu time, da minha cidade, da minha gente.

Então, vem a enorme emoção e comemoro como sempre, desenfreado, sem limites, como se fosse a última vez.

Comemoro e cumprimento cada canto do maravilhoso Mineirão.

Despeço-me e quero abraçar a todos.

Quero que dêem a volta conosco, quero dizer-lhes que eles não sabem como necessitamos de todos aqui dentro.

Vejo as faixas e ainda não acredito.

Vejo os rostos de alegria e até hoje nada sai da minha mente.

Depois de tudo, a surpresa com a presença de minha mãe exatamente no Dia das Mães e é impossível não chorar. F

inalmente, recebo a Copa tão desejada.

É bonito ser capitão.

É grandioso ser capitão do Cruzeiro e ser campeão.

Levantamos a taça, desfrutamos e saímos a oferecer aos milhares que estavam por todas as partes até o cansaço.

Imagino Minas.

Imagino Belo Horizonte.

Tudo se acaba e não podia ser tão perfeito.

Será que sonhei?

Nem um sonho seria tão incrível.

Estou partindo e pensando se algum outro dia serei tão feliz!"

Juan Pablo Sorín

2 comentários:

  1. sou atleticano, mas ta bom, ta bom... o futebol tem dessas coisas mesmo. rs

    legal o espaço aqui!

    até a próxima

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  2. Obrigada pela visita! Irei retribuir! Abraço.

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