quinta-feira, janeiro 08, 2015

(Con) tradição

Todos os meus posts de janeiro são um coquetel de otimismo. Já comecei os novos anos com fotos festivas, poesia e arte. Mesmo depois de anteriores devastadores, com mortes e tragédias pessoais, havia em mim algo meio Scarlett O' Hara. A "fome" que concluiu a frase  "jamais passarei" era trocada por tristeza, decepção, raiva.
Ilusão.
Não há barganha com as dores, há aprender a lidar com elas, pois existirão até o último ano de nossas vidas.
O poeta, que habitava um mundo particular, sugeria que anos novos pudessem ser folhas em branco para escrevermos nossas próprias histórias.
Escrevemos. Alguns até em papéis de carta floridos e com ursinhos carinhosos.
No entanto o destino, o karma, o acaso e o que quer que seja trata de amassar a folha, rabiscar a letrinha redonda.
"Querida vida, hoje fui uma pessoa melhor".
Quantas porradas depois irão manter a doçura ou a tolerância? Não se sabe.
Então a gente levanta, segue, apanha e também bate.
Bate nem sempre porque foi provocado.
As religiões e os livros de autoajuda insistem que rupturas são ruins.
Não as vejo de maneira tão limitada.
Eu já deixei de falar meses e anos com algumas das pessoas mais importantes para mim.
Não me orgulho, mas não fico me culpando.
O destino, o karma, o acaso e o que quer que seja resolveu a questão. Evidentemente à maneira dele.
Então, eu aceito.
Eu aceito as coisas boas que 2015 vai me dar e as ruins também. As primeiras agradeço e faço por merecer. Para suportar as últimas, peço força, calma e sanidade.
Levei anos para me despedir dessa personagem cheia de esperança de janeiro. Serei eu mesma, achando cada momento do dia diferente: preocupada com o mundo que explode e sorrindo ao ver um amigo querido mandar uma mensagem de amor para o namorado numa rede social.
Eu continuarei promovendo começos com fotos festivas, poesia e arte, ainda que sejam nos derradeiros meses já com as folhas escritas, rasuradas e amassadas.





segunda-feira, janeiro 05, 2015

Para abrir 2015

ovo
o ano n'ovo cresce bem devagar, como fazem as coisas que ficam nos ovos. por enquanto, ele ainda está clarinho, clarinho, quase branco, de uma transparência viscosa e pegagenta. o ano n'ovo acabou de ser concebido e parece meleca. logo ele começará a amarelecer, encorpar, liquefazer e suas partes vão começar a se distinguir, as fronteiras se delinear. no meio do processo, as fronteiras ficam bem claras. como são chatas essas fronteiras bem delimitadas do ano n'ovo. mas o que se há de fazer? é assim com tudo o que quer nascer. vai chegar uma hora, enfim, em que, de tão bem configuradas as formas, o ano n'ovo vai querer sair para fora da casca. e, pronto. lá se vai outro ano n'ovo de novo se preparar para virar passarinho. e a casca do ovo, quebrada, ficará vazia do ano, já velho, que partiu para fora. é o fado das cascas e dos anos, dirá alguém mais sabido. e outro alguém, mais perplexo, responderá: puxa vida, mas tudo sempre tem que ser assim?

Noemi Jaff, do Quando Nada Está Acontecendo