domingo, janeiro 22, 2017

Todo sábado

Certa vez perguntei se estariam lá no feriado. Depois, quis saber se durante o mês de janeiro, quando o movimento cai, tirariam umas férias.
 - Não, estamos aqui todo sábado.
A tempestade também chegou naquele dia e os dois se abrigaram debaixo da frágil lona azul.
Era preciso separar o buquê colorido do Seu Osvaldo.
Tinham prometido novas ervas para a horta da Flávia e do Ricardo, que acabaram de se mudar para o bairro.
Esperavam por Dona Sílvia, a colecionadora violetas e flores de tonalidades roxas e lilases.
Explicavam sobre a delicadeza das orquídeas para Cláudia.
Ouviam Dona Margarida falar sobre o filho que mora longe. 
- Na Califórnia tem feiras de rua muito lindas, ele me contou por skype.
Maria Rita interrompeu o papo para saber por que não encontrava samambaia.
 - Chuva demais, sol demais. Tem que ter equilíbrio, né?
Rogério havia rondado a banca duas vezes. Não sabia se astromélias agradariam.
Cristina fotografou as suculentas e postou no Instagram, mas não levou nada.
 - Além da clorofila dos gatinhos, vai levar o quê mais?
No meu trivial sempre existia lugar para variações: buquê para receber uma amiga, salsinha para usar na salada e até mesmo um vaso de kalanchoe porque reguei a minha mais do que devia. 
Olhava para os dois e aqueles semblantes me davam uma paz imensa.
Eu era rápida para escolher cebolas, batatas e bananas.
Quando chegava na esquina à esquerda, onde todo sábado eles estão, a demora era inevitável.
Flores e plantas devem ser admirados, bem escolhidos. Embora naquela banca não houvesse outra opção. 
Cada vaso, cada arranjo era embrulhado com capricho e laços coloridos. Mesmo os que não fossem para presente, ficavam envoltos em jornais cujas dobras pareciam origamis. 
Escolhi mais uma planta para ocupar o cachepô vazio da minha janela com vista para telhados.
Ganhei uma rosa, a clorofila de quatro reais pelo preço de três e o sorriso.
 - Até sábado. 



domingo, janeiro 15, 2017

Meus bons amigos

Há dias quero falar de vocês, de como dividir várias garrafas de cerveja ou abraços, para matar saudades que atravessavam meses, me fizeram tão bem. Não liguei para nenhum, não combinei absolutamente nada. Mas os encontros foram acontecendo e, quando me dei conta da passagem do tempo, já era domingo. Eu tinha que voltar. Foi a primeira vez em anos que eu não quis partir. Tudo por causa desses momentos.

Quinta-feira
Foi aquela supresa no Maletta. E tudo voltou como num filme: os shows que vimos, as risadas, o trabalho coletivo, o sonho daquele mundo melhor pelo qual lutamos.

Brindes o dia inteiro. Cerveja, café e planos de um ano mais leve, de mais encontros.

Noite com a conversa que marcou. Sobre verdades, sobre amizade ser olho no olho, sobre mais de 20 anos de convívio (que milagrosamente dispensa ligar, mandar mensagem ou postar em redes. Como se telepatia fosse possível).

Sexta-feira
Mais flanar pela velhas esquinas com aquele "não vá embora, fique um pouco mais". Drinks, alegrias e dormir tranquila como criança.

Sábado
"Onde você está? Quero pelo menos te dar um abraço". E breve é a tarde, breve é a vida. Nem precisamos dizer muito, pois teremos mais um punhado de anos juntos, não importa onde um de nós esteja.

Domingo
De passeio no mercado, de sabores tão familiares, de trilha do Caetano, de vinho e de almoço farto. Hora de partir.

São Paulo
Atravessei a semana sentando ao lado de desconhecidos no metrô, sem "dolorosas" do bar para compartilhar e com os desencontros habituais - o "vamos combinar sem falta", que também foi dito lá em junho de 2016 (e sobre isso nem insisto para que um encontro sem assunto aconteça) -, além certeza de que não preciso de nenhum esforço para contar com meus bons amigos.



domingo, janeiro 01, 2017

Nada é certo


"Ninguém avança pela vida em linha reta. Muitas vezes, não paramos nas estações indicadas no horário. Por vezes, saímos dos trilhos. Por vezes, perdemo-nos, ou levantamos voo e desaparecemos como pó. As viagens mais incríveis fazem-se às vezes sem se sair do mesmo lugar. No espaço de alguns minutos, certos indivíduos vivem aquilo que um mortal comum levaria toda a sua vida a viver. Alguns gastam um sem número de vidas no decurso da sua estadia cá em baixo. Alguns crescem como cogumelos, enquanto outros ficam inelutavelmente para trás, atolados no caminho. Aquilo que, momento a momento, se passa na vida de um homem é para sempre insondável. É absolutamente impossível que alguém conte a história toda, por muito limitado que seja o fragmento da nossa vida que decidamos tratar"

Henry Miller

Feliz 2017!