domingo, novembro 30, 2014

Montevidéu

Por razões que não cabem análise, viajo menos do que gosto e preciso. Tirei poucas férias na vida. De 30 dias foram três. Mas não fico me lamentando e aproveito para comer, beber e viver intensamente os curtos períodos. Tirei 10 dias maravilhosos agora em novembro e segui com meu amor para a capital do Uruguai. Deixamos de fazer muitas coisas,  é fato. Porém tenho essa mania de ter uma pendência que me estimule a voltar.

No caso de Montevidéu, eu viveria fácil lá, por mais que conhecesse cada cantinho. Andar por ruas planas, sentir o vento que vem do mar, tomar vinhos e conversar com as pessoas que mal conheço me encantam. Por causa de Pepe Mujica, que hoje deixa de ser presidente por lá, muita gente tem escolhido o destino para o descanso. Assim os próprios montevideanos dizem.

A cidade é limpa e mesmo na área nobre não está gradeada de modo neurótico. Não há catracas nos ônibus. Os homens se cumprimentam beijando os outros. Como é permitido fumar maconha, jovens passam a tarde de sábado nas praças ao lado de velhinhos que não fazem cara de horror. Casais gays andam de mãos dadas na feira grande de domingo.  Até os partidos conservadores e progressistas coexistem sem a agressividade que se viu no Brasil. Todos tomam chimarrão o tempo todo. O sal na comida é o grande vilão e é possível nos dias úteis ver os executivos almoçando tomando uma tacinha de vinho. Foram muitas surpresas boas e pouquíssima vontade de voltar para casa. Por isso, mais do que um post, vou iniciar uma série por aqui.


domingo, novembro 16, 2014

Sobre matar o blog

Eu queria matar você.
Eu iria te excluir sem salvar nenhuma palavra.
Não haveria uma única letra necessária.
Não existiria mais o dia em que não aluguei aquele apartamento.
Todas as promessas de ano-novo sumiriam.
As frustrações, os pés na bunda, os textos em homenagem aos meus mortos estariam sepultados.
Há dias planejei sua morte.
Pensei até no post de número 1.000 pela simbologia.
Apenas oito publicações e pronto: você iria desaparecer do mundo virtual.
As pessoas abandonam seus escritos.
Percebi isso limpando a listas que eu seguia.
Eu não queria te largar apenas.
Seria matar mesmo, executar a sangue frio.
Não me lembrar de comentários ou das setenta e poucas pessoas que te adicionaram à lista.
Queria acabar com você.
Seria um grande feito.
Para essa que nada tem feito.
Desprezaria os porquês.
Já pensou?
Você, sepultado, mortinho da Silva.
Eu seria sua viúva-negra.
Quando me perguntassem pessoalmente, me esquivaria.
No Facebook, bloquearia.
No Twitter, ignoraria.
Seguiria meus dias clicando na página branca do word para que só eu lesse minha próxima inquietação.
Em inglês tem um termo de que gosto muito: the master plan.
Sua morte seria o meu trunfo.
Contra tanta coisa que não consigo explicar ou entender...
Acordei com um punhal na mão.
A conexão estava perfeita.
E você ali, quietinho, sem comentário para eu moderar.
Foram apenas 19 visualizações neste dia, quem iria perceber?
Veio o filminho na cabeça.
12 anos escrevendo num blog!
Gente que foi, gente que está.
Não sou a mesma.
Eu iria te matar, certamente.
Fiz uma mudanças no layout para você morrer mais atualizado, uma dignidade virtual, sei lá.
Então, fui alimentar as gatas, regar as plantas, pendurar roupas no varal, fazer um café.
Voltei, mas não consegui.
Abri outras janelas ao longo do dia.
Comentei lá e cá. Voltei e não havia medo no ar.
Eu poderia te matar tranquilamente.
Você existiria além de mim de algum modo.
E eu não consegui.

A última colaboração

Demorei a publicar por aqui. Minha última crônica para o Pandora. Eu me despedi de um espaço muito querido no último mês por alguns motivos, sendo a falta de tempo o principal. Carinho e gratidão imensos sempre irão permear a relação.

O primeiro dia

Há uma cena do filme “Vicky Cristina Barcelona” em que uma das protagonistas revira a mala e troca de roupa diversas vezes para passar a impressão de não estar tão ansiosa pelo encontro com Javier Bardem. Woody Allen traduz nossas fragilidades e inseguranças e as converte num sorriso reflexivo. Afinal, quem nunca?

Eu me lembro de ter usado amarelo quando fui fazer uma prova para trabalhar emO TEMPO. Quando vi os concorrentes todos discretos, nos mesmos tons, pensei: e agora? Seria impossível voltar para casa e improvisar um terninho. Eu havia escolhido amarelo porque era a cor da sorte da minha avó. Deveria ter lido aquele famoso consultor de etiqueta corporativa? Não necessariamente.

Eu, a roupa e o primeiro dia para quase tudo na vida somos um eterno caso pitoresco. Como Vicky, eu visto todo tipo de proposta num encontro. Quando conheci meu marido, estava num vermelho decotado e o puxei, tímido que só, para dançar The Cure. No meu primeiro dia no novo emprego em Brasília, mandei os looks por WhatsApp para minha mãe e minha irmã escolherem. Estava ótima de seda verde até babar com a espuma do creme dental no tecido depois do almoço. Pronto, será que vão me achar meio pateta? Ao menos, meus dentes estão branquinhos, pensei.

Primeiro dia é dia de frio na barriga, dia de “o que é que vão pensar de mim”, dia de “não acredito que falei essa besteira” e daquelas apresentações formais. Conto para que chegue lá pelo sexto ou oitavo dia para poder quebrar o gelo, usar um tênis ou sugerir: a gente bem que podia combinar um café, heim? Admito que ainda me atrapalho com o tal do “Casual Friday,” aquele dia em que os colegas da firma usam jeans. Já apareci de camisa social e me senti tão inadequada quanto a personagem título vestida de coelhinha na cena de “O Diário de Bridget Jones.”

Quando o tempo passa sem que eu perceba, vou alternando dias de ficar enrolada na toalha – bolando duas ou três possibilidades de vestir que dependem do meu humor, do meu manequim e do que quero dizer para o mundo – com dias de essa combinação está ótima, é o que temos. Eis que chega o último dia. Ele, de alguma maneira, me despe. Penso que nada cabe porque sobra tanto a se dizer, tanto a querer o impossível: de se voltar atrás, de fazer de outra maneira, de ter usado mais amarelo. Queria ficar um pouquinho mais pelo respeito e pelo carinho que construí com a turma da redação e com os leitores nos últimos anos. A eterna falta daquele outro tempo não me dá alternativas. Certamente, não agradei todo mundo, mas fiz o meu possível, como se estivesse vestindo a roupa do primeiro dia. Muito obrigada, um abraço e até, breve quem sabe.


Ludmila Azevedo é jornalista, pós-graduada em cinema e escreve essas e outras crônicas no ludj.blogspot.com.br.

sábado, novembro 08, 2014

O Flautista

Algumas manhãs, quando vejo o mercador de canetinhas entrando no ônibus, são como refrões do samba "Saco cheio" de Almir Guineto. Todo material que ele vende é para ajudar jovens dependentes de drogas. O sujeito consegue dizer o nome de Jesus umas 40 vezes para aqueles que supõe cristãos.

Sou do tipo que compra quase tudo de ambulantes: amendoins, incensos e até um CD que nunca escutei. As tais canetinhas sempre são recusadas e já levei uma direta de um desses voluntários cuja a boa intenção lotaria outro lugar. Diante da minha negativa, acusou-me de não ser solidária. Disse que os drogados sofriam o descaso da sociedade, de pessoas que não sabem o que é ter uma dor dessa para carregar.

Só não retribuí com meia dúzia de verdades porque estava a um ponto da descida e sem a menor disposição para expor aquele cidadão a uma situação constrangedora. Ando tolerante ou me forçando a isso, o que não tem nada de religioso.

Dia desses porém, acordei um pouco mais implicante e quis saber detalhes sobre a tal instituição. O cidadão me perguntou se eu era da polícia e eu afirmei que não tinha a menor obrigação de dizer o que eu estava representando, no entanto, caso ele quisesse meu dinheiro, devia prestar alguma conta.

Há tempos não esbarro com os mercadores de canetinhas nos ônibus da W3, deve ser a reza brava deles.

Andava naquele mais do mesmo: sendo ignorada ao dar o sinal na maioria das vezes, sacolejando nas zebrinhas e não facilitando o troco dos cobradores (uma nota de vinte reais é sempre uma afronta).

Então, essa semana aconteceu um novo encontro. O sol havia se posto, eu sentia um vento que prenunciava a chuva e, ao sair do trabalho, decidi beber uma uma taça de vinho.  Estava particularmente de bom humor.

Ao passar pela roleta ouvi acordes de Tom Jobim. Era um flautista tipicamente hippie, ignorado pela maioria dos passageiros que olhava para as janelas com tédio e cansaço.

Antes de passar o chapéu, ele informou que precisava juntar dinheiro para voltar para a Colômbia. Eu, sempre com trocos volumosos, tinha poucos centavos para dar. Fiquei triste e decepcionada, algo em mim queria contribuir de maneira mais justa, escutar um pouco mais daquele solo no coletivo.

Foi quando um garotinho pediu para ele, prestes a saltar, para tocar mais uma. O flautista tinha arrecadado tudo o que poderia, mas sorriu para sua principal plateia. Perguntou o nome do menino e se ele gostava de música. Só vi o pequeno balançando positivamente a cabeça.

Foram mais algumas quadras com Luiz Gonzaga e a vontade de esbarrar novamente com o artista num desses trajetos. Neste caso, não checaria a veracidade da volta para seu país.