quarta-feira, julho 31, 2013

O diagnóstico

Não sou médica, nem farmacêutica. Não poderia prescrever uma receita, ou dar uma dica para Carolina, dessas tiradas de uma das várias gavetas da prateleira de remédios. Talvez, ao revelar sua história, estivesse ainda quebrando uma situação de confidencialidade. Mas veja bem, meu caro leitor, minha cara leitora, não se trata de pedir um palpite por aqui. O que se passou com Carolina é apenas desencontro, mais um dos vários que me contam, ou que me acometem. Eu conversava com um amigo sobre isso, tomando um café. Foi no dia em que resolvi parar de usar adoçante e adotar o açúcar, mas essa fica para outra crônica.

Carolina atravessou uma fase de seca, que durou meses. Não tinha repertório quando amigos íntimos contavam, na mesa do bar, suas peripécias sexuais. Por vezes, ficava enfastiada daquele cenário "Sex and the City", do estresse do vestido justo, de dizer a coisa certa, na hora certa, aquele roteiro fictício que não funciona na vida real. Começou a exercitar seu lado outsider, sair com outra turma.

É aí que que entro na história. Foi numa terça, esses dias-nada. Carolina vestia jeans e camiseta. Ríamos de suas besteiras num buteco copo-sujo. Flávio, um conhecido meu, apareceu e se juntou à mesa. Encantaram-se um pelo outro. Era visível. 

(Sei lá o porquê ele pediu para mim o telefone dela no dia seguinte. Deixei minha parte da conta, saí sutilmente, justamente para não interferir)

E lá se foram três semanas até eu receber as primeiras notícias. Pode ser normal no caso dos dois gêneros, porém, entre as mulheres é mais comum o desaparecimento parcial ou completo da vida dos amigos após uma paixonite aguda. Se ela acha que vai dar namoro então...Nessa toada, já tive amigas que quase espalhei cartaz de "procura-se" nos postes.

Nas primeiras informações, via redes sociais, o mundo de Carolina e Flávio enjoava de tão doce. Até então, sem contra-indicações. No instagram, ela exibia sorrisos-prozac, o twitter só conhecia doses cavalares de poesia. O termômetro indicava febre alta.

Como os encontros, acredito que os desencontros também podem acontecer sem mais nem menos. Ela me ligou querendo conversar, precisava de um diagnóstico sentimental. Eu que não sou psicóloga, terapeuta e arrumei birra com o Lacan,  fiquei com um pouco de preguiça, mas fui.

Carolina encheu a casa de velas aromáticas, despachou Ana, sua roomate, para casa dos pais no interior. Comprou uma calcinha rendada, só que seus planos caíram por terra. Flávio chegou ao encontro com quase duas horas de atraso, depois de uma reunião de trabalho, e quis dormir. Ela tomou sozinha o espumante. Esperou pelo sono frustrada, pensou em provocá-lo, desistiu. Devia estar cansado, não era disso. No dia seguinte, ele partiu cedo. Não quis acordá-la, mandou um SMS bonitinho.

Interrompi dizendo que não entendia o motivo da minha consultoria.

(Fazia frio e eu, para variar,  estava sem casaco. Arrumaria uma gripe e dá-lhe resfenol, vick, naldecon...)

O fato é que, a partir daquele momento, uma rotina se estabeleceu. Toda abordagem dela seria mal-sucedida. Flávio, sempre educado, dava um beijo no rosto de Carolina antes de virar para o canto e repetia variações sobre o mesmo tema: estou cansado, me deu uma dor de cabeça, hoje não.

Nesse ciclo, lá se foram garrafas de vinho, espumante, cervejas especiais para agradar Flávio e shots de tequila para agarrá-lo de supetão e...nada. 

A questão é que Carolina não sabia mais o que fazer. O terapeuta - aquele que é pago para isso, não eu - falou que não havia nada de mais com toda aquela empolgação dela, havia muita energia acumulada mesmo, porém, aconselhou cautela e prescreveu um ansiolítico. Quanto a Flávio, podia ser uma fase, deviam conversar. O caso é que não eram tecnicamente namorados, de modo que  parou de pedir opiniões, sabe?

(Então, o que eu estava fazendo ali?)

O problema é que ela o desejava, e ele dormia. Ele era encantador, apesar de um tanto fanático por futebol (e sobre esse quesito, eu havia alertado), lia ótimos livros, gostava de bichos de estimação, tinha um beagle lindo e tudo mais. 

(Entendi...tu te tornas eternamente responsável por aquele que apresentas!)

Carolina subia pelas paredes a cada recusa. Na noite de drinks com as garotas, aquela turma chata que se acha habitante de uma ilha em Nova York, ela decidiu ligar para Flávio, dizer umas sacanagens. Nada contra, no entanto, pensei imediatamente que isso seria sugestão da amiga patricinha, a leitora de "50 Tons de Cinza". Caiu na caixa postal. 

Acordou péssima, ao mesmo tempo, desejando a fórmula mágica do amor, a que nem o Leo Jaime encontrou dos anos 80 pra cá. Passou o dia a base de sonrisal, engov e jejum, uma que Flávio não deu sinal de vida.

Eu me arrisquei no parecer: Carolina, contra o homem-neosaldina, do tipo que dá dor de cabeça (ou, vá lá, tenha) por qualquer motivo só há uma saída: evite! 

Ela, como de costume nesses casos, parecia pouco convencida. Coisas da superdosagem.




domingo, julho 28, 2013

O dia d*

Não foi exatamente quando disse que não dava mais para seguirem de mãos dadas. Tão pouco na manhã fria em que fez as malas.
Não foi exatamente quando fechou a porta, segurando as lágrimas insistentes.
Tampouco naquela tarde no cinema em que, às vezes, percebia a moça sentada à sua frente encostando a cabeça no ombro do rapaz.
Não foi exatamente quando inventou de entrar no shopping cheio, sem rumo. Detestava shoppings, achava triste tomar um chope na praça de alimentação. Chope é bebida para beira-mar.
Tampouco quando se deu conta de que um ano havia passado. Todos diziam “eu te amo”, mas isso estava mais para filme de Woody Allen.
Foi quando o despertador não tocou. O despertador, esse inimigo. Sintomático da correria cotidiana, do café forte bebido às pressas, que habitualmente lhe queimava a língua, do passar o olho na manchete do jornal e só.
O despertador não tocou. Não foi programado. Talvez para que houvesse aquele momento exato.
Às dez da manhã era possível escutar um bem-te-vi cantando na vizinhança, e isso dava uma angústia esquisita.
Era um dia qualquer.
Não era um dia qualquer.
Haveria tempo de tomar café da manhã em Plutão, em frente à Tiffany’s. Seria possível ler até os classificados, se assim desejasse.
E nessa extensa lista entrariam possibilidades como: passar o dia de pijama, o dia vendo televisão, o dia comendo chocolate, o dia arrumando o armário, o dia encontrando as velhas cartas de amor naquela caixa escondida.
Eram dez e quinze da manhã. Cada minuto iria se arrastar silenciosamente. O bem-te-vi ainda cantava.
Em algum momento, seria meio-dia.
E de que serviria o meio-dia? Não serviria canapés como entrada ou mesmo um brinde: “saúde, à nossa!”.
Não serviria para ser uma máquina do tempo capaz de levar à casa dos avós que não estão mais por aqui.
Serviria um almoço congelado, requentado no micro-ondas. Almoço com gosto de plástico.
Era o ponto em que a solidão rasgava, com exatidão.
Não há nada comparável à mesa para um no domingo. Por isso, seria inútil sair de casa. Melhor engolir aquele molho-cor de-rosa com pelotas de não sei o quê.
O telefone seguiria mudo, a caixa de e-mail só traria promoções imperdíveis. Vontade de comprar passagem apenas de ida para Paris, Montevidéu ou Nepal.
Restava esperar o fim da tarde sem bem-te-vi cantando, às seis em ponto, o sino da igreja, o sol indo embora, a noite chegando e o barulho vindo da casa do vizinho que assiste ao seu programa preferido em volume acima do tolerável.
Restava esperar uma madrugada sem insônia: uma irônica torcida pela segunda-feira.
*Minha crônica no Pandora deste domingo


segunda-feira, julho 15, 2013

Eu Não Sei Dançar Tão Devagar

Eu não tenho discos da Marina Lima. Mas ela tem músicas que me desconcertam e me definem de modo que prefiro nem admitir. Prefiro nem admitir porque são anos de terapia para resolver certas questões. Da antroposofia ao desastre da lacaniana até chegar na homeopatia. E, sim, estou há uma semana sem glóbulos da minha Ignatia Amara porque não tive tempo de mandar manipular.

Quando a Marina canta "às vezes eu quero demais, e eu nunca sei e eu mereço", me sinto na segunda voz desse refrão. Não no fiapo de voz que restou a ela, e sim da voz dos anos 90, da gravação original, porque ainda há algo de vigor em mim que não está na versão acústica.

Entrevistei Marina quando ela mal podia falar. Saí do Othon Palace devastada. Era um dia quente, no entanto ela estava agasalhada. Diante da minha visível consternação, a assessora me chamou no canto e disse: "você sabe, ela passou por uma depressão severa". Àquela altura, eu nem fazia cálculo do que era isso. A tarja preta ainda não havia me dado uma mãozinha para levantar da cama, trabalhar, viver os dias.

Agradeci o convite de assistir ao show no Palácio das Artes. Um amigo foi e me disse que chorou do começo ao fim. Por tudo. Pela Marina, pelo fim da voz da Marina, por ele, pela nossa existência de merda. Imagino o que tenha sido. Quando ouço "Eu Não Sei Dançar" sinto um monte de coisas. A diferença é que o que eu posso dar é solidão com vista para montanha. E o mar é mais bonito. Talvez, por isso, ninguém queira esse meu presente...

Eu ouvi a Marina, pela primeira vez na vida, sem o Lima. Extremamente solar, chamando o verão e o calor no coração. Essa não me pegou. Foi a Marina do "Virgem", das "coisas não precisam de você. Quem disse que eu tinha que precisar?" que me me obrigou a ir ao hotel com o nome dela para tomar um drink e riscar o amor temporariamente.

Eu risco o amor temporariamente. "Meus olhos se escondem onde explodem paixões".

C' est la vie.


sábado, julho 06, 2013

Na fotografia estamos felizes

Antes as lembranças que transcendiam a memória ficavam restritas a caixas. Na caixa de fotografia, eu apareço bebê no colo da minha mãe, filando sorrateiramente uma cerveja quando ainda era criança, chorando na minha própria festa de aniversário. Tenho fotos com quem se foi: meus avós, meu pai, meus tios e minha grande amiga. Tenho fotos com quem está aqui, mas não mais em minha vida. Eu acesso esse arquivo eventualmente. Do mesmo modo, as caixas de cartas. Divido-as em duas. Numa delas jazem os ex-amores, seus poemas, bilhetinhos, cartões postais, e até e-mails impressos. Ela é a caixa-preta raramente vasculhada, pois histórias findas, mesmo que um dia lindas, me entristecem.

Hoje, enquanto eu respondia um comentário sobre uma postagem de três anos atrás, fiquei intrigada. Minhas lembranças não são mais preservadas nas memórias e em caixas apenas. Posso tentar viver analogicamente, apagar esses históricos? Talvez não. Até pouquíssimo tempo, eu não tinha noção de quem me visitava por aqui. Então, desenvolveram ferramentas que me mostram visualizações até do leste europeu. Diariamente, alguém vasculha essa caixa de Pandora que atende por Ludj. Vou publicando e me esquecendo. No entanto, fico sabendo que leram sobre aquela solidão que eu senti num domingo à tarde de 2006, quando morava em São Paulo. Nessa semana, acessaram o álbum do meu casamento que já acabou. São populares os textos que remetem às poucas vezes em que achei que iria me apaixonar. A palavra "amor" é dos tópicos mais espiados neste blog. Sinto-me imbuída a mencioná-la, ainda que ficcionalmente.

Vou percebendo outras caixas abertas e criadas pela era digital. São intervenções no meu mural do Facebook, por exemplo: desde o carinho da amiga, que não vejo desde a faculdade, em forma de uma foto do antigo colégio à incômoda curtida, mensagem inbox e afins de um cara que apenas vagueia virtualmente em minha vida, após um breve histórico de três encontros, seguido do desaparecimento dele do meu mundo real. E sim, sou do time da Lia Bock ("Não me quer? Acha que eu estou indo rápido demais? Que não é o momento? Então não fica curtindo minhas fotos no Instagram! Não fica retuitando o que eu digo nem me mandando carinha sorridente no gtalk! Se não tá a fim de levar o pacote todo pra casa, me deixa esquecer, por favor! Esquecer que você existe, esquecer que você não me quis e, pior, que ficou sem graça por isso"). Acho que certas pessoas simplesmente devem ser coerentes com suas escolhas. Tenho a elegância de não blindar o que publico com bloqueios de qualquer tipo, porém deixo de ler feeds, pois nos tempos analógicos, quando uma tentativa de romance não ia para frente, os fantasmas se divertiam em outras bandas... Eu realmente sigo o refrão: "o que passou, passou daqui pra melhor. Foi. Só quero saber do que pode dar certo".

Se eu deixar de lado as fotos instantâneas, o check-in do Foursquare, parar de escrever aqui, ali, acolá, quantas caixas me restarão? Isso é só uma questão.