terça-feira, junho 17, 2014

Ainda saudade

Saudade é aquilo que não muda.
Talvez a forma de de lidar com ela sim.
Anos atrás, morando em outra cidade, eu não tinha a tecnologia que tenho agora disponível para falar com a minha família em diversos momentos do dia.
Havia email, skype e tudo mais. Eu nem possuía uma computador em casa. Aliás, em 2006, eu vendi muitos livros que ganhava para fazer supermercado ou mesmo esperava um pouco mais para jantar no bandejão do jornal.
Eu sentia falta do tempero, dos lugares, dos rituais, especialmente de almoçar domingo com a minha família.
Estranhamente, quando voltei para casa, passei a sofrer de outras ausências. Eu queria ter aqueles amigos por perto, ir a um show internacional em plena terça-feira e cultivar certas desobrigações.
Saudade tem é onipresença.
Agora, vivendo longe do ninho de novo ela atravessa a minha rotina. Quando atendo o telefone e digo o nome da editoria de cultura que eu trabalhava até março no lugar do "alô", quando recebo fotos e mensagens de amigos dizem que eu deveria estar ali, quando desligo o telefone após ter falado com a minha mãe e a minha irmã.
Saudade é inimiga da ciência.
Por que não posso teletransportar?
Como antes e diferentemente daqueles tempos, tenho muitas horas de ficar olhando para o teto. Horas que deveria gastar lendo, indo ao cinema, porém que se contrapõem com a necessidade de ficar online. Tem dias que não tenho para quem ligar e chamar para um chope, há territórios ainda difíceis para eu circular com a mesma destreza que eu tinha de pegar a linha verde e fazer  uma pequena baldeação.
Vou tendo com Brasília a mesma relação de São Paulo e Belo Horizonte: uma alternância de ser ou não o meu lugar.
Saudade, roubando de um dos brasilienses mais famosos, "tem sempre algo mais, seja como for..."


domingo, junho 01, 2014

Supermercado

Tenho uma relação de amor e ódio com supermercados. Gosto de conhecer novos produtos e de saber que minha despensa estará cheia, mas não gosto do tempo que perco ali e do ritual de mirar um produto cinco vezes (pega na prateleira, coloca no carrinho, devolve para a esteira do caixa, enfia na sacola e, enfim, guarda).

No supermercado invento receitas, canto musiquinhas (no caso do Carrefour que tem uma rádio com hits dos anos 80) sem perceber que estou sendo vigiada, me irrito com gente que fecha o caminho (lugar nenhum supera o Verdemar do São Pedro nesse quesito), tento alcançar produtos que não sei porque cargas d'água colocam lá no alto (mostarda dijon, alcachofra em conserva).

Se existe uma coisa que nunca deixo de fazer é bisbilhotar o carrinho alheio, como naquela crônica do Luis Fernando Verissimo sobre vizinhos que comentam o lixo um do outro. O sujeito bonachão que compra carne gordurosa, caixas de cerveja, mas tem o cuidado de ligar para a mulher para saber se precisa levar algo; a moça com milhares de produtos saudáveis que não resiste a um danette; o econômico que só compra produtos genéricos; os pais que deixam a molecada encher a gondola de gulodice; os vários tipos de chatos que analisam rótulos de cerveja, vinho e café como se fossem grandes entendedores do riscado.

Na minha frente na fila havia uma família que aparentemente ia abastecer um bunker. A famosa "compra do mês". Isso era muito comum nos anos 80, quando o preço de um achocolatado quintuplicava de uma semana para outra. Não vejo muito sentido com a estabilidade econômica atual, a não ser o fato de que eles possam odiar ficar horas vagando com carrinhos num domingo de manhã. Foram dois cheios: mil reais em produtos, entre biscoitos recheados, queijos amarelos, refrigerantes. Havia naquele meio uma revista dessas de dieta.

Ao lado, a típica mulher light comia um saquinho de Ferrero Rocher, esses vilões que fazem a barreira até o caixa que, por sua vez, para, registra coisa errada, acende a luz à procura do gerente. Trabalhar domingo é mesmo a coisa mais chata do planeta. A cara da funcionária não deixa dúvida. Sigo bicando o carrinho da vizinha e flagro mais duas porcarias: um pote margarina e aquela famigerada revista semanal.

Repreendo com o olhar o tiozinho que larga nos biscoitos diversos frios. Com a fila parada, não custava nada deixar no lugar de origem. Mas as pessoas acham que funcionário de supermercado e de praça de alimentação estão lá para recolherem mesmo ou "ganham para isso". Sempre penso que não custa nada devolver o produto, colocar a bandeja no local indicado...

Sou interrompida por um "próximo, por favor". Momento de olhar para o que comprei e fazer a minha própria (auto) crítica.