quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Ha Ha Ha Ha - por Antônio Prata

Há mil razões para detestar o carnaval e não deveríamos acusar os dissidentes de não serem bons sujeitos, estarem mal da cabeça ou doentes do pé. O cara às vezes é mais do rock, tem agorafobia, não está disposto a compartilhar do suor alheio. Tudo certo. Como já dizia Confúcio: cada um é cada um e vai da pessoa. Só não entendo quem se recusa a participar dos folguedos argumentando ser “contra essa imposição de alegria, essa obrigação de felicidade!”. Quem foi que falou em felicidade?

O carnaval é uma festa trágica. Basta prestar atenção nas letras das marchinhas. O negócio é barra pesada. É pierrô rejeitado tomando vermute com amendoim, morenas que passam despedaçando corações, canoas viradas, homens atirados na sarjeta, hasteando bandeiras-brancas, o deserto do Saara cruzado à seco, a camélia falecida (suicida?) e a cueca transformada em pano de prato: desgraças épicas ou tópicas compartilhadas pelas ruas, avenidas, becos e praças.

O carnaval não é, portanto, uma fuga da realidade, mas o contrário: a percepção de que tudo o que está antes da sexta e depois da quarta é que é empulhação e engodo, que o terno e a gravata, as fibras pela manhã, a previdência privada, o clareamento dental e o “Bom dia, Dr. Esteves, parece que vai chover, não?” são firulas para escamotear a nossa condição. No fundo, sabemos que a Aurora não é sincera, que ninguém nos dará um dinheiro aí, que a morte nos espreita adiante e não nos iludamos: só na hora do aperto é que dos carecas elas gostam mais.

O carnaval é um caótico choque de realidade. O mundo está cada vez mais chato, planejado e bem diagramado: poetas têm personal stylists, não se pede mais a um papagaio que diga currupaco sem antes falar com sua assessoria de imprensa e desde a invenção do Photoshop os pêlos púbicos correm sério risco de extinção. Durante alguns dias, no entanto, Obamas, Pierrôs e Dilmas, Batmans barrigudos, bebês barbados e Bin Ladens de colar havaiano derrubam suor e cerveja sobre pó ao qual voltaremos e da lama que toma a cidade vem a lembrança de que a vida é dura, é curta e nessa breve passagem ainda perderemos preciosos minutos negociando com o ambulante que se aproveita da situação para vender a Skol a cinco reais...

Diante dessas constatações, ou a gente chora e vai ler Schopenhauer, ou mete um cocar na cabeça e vai pra rua cantar: “Pode me faltar tudo na vida/ Arroz, feijão e pão/ Pode me faltar manteiga / e tudo mais não faz falta não/ Pode me faltar o amor – ha! Ha! Ha! Ha! / Disto eu até acho graça/ Só não quero que me falte/ A danada da cachaça”. Não são os versos mais otimistas que já foram escritos, eu concordo: mas quem foi que falou em felicidade?

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Igual a Tudo na Vida

O papel de parede rosa com textura antiga finalmente saiu do quarto de bagunça. Foi aplicado na tarde de domingo. O quadro, que não tinha lugar, está agora num espaço nobre. E assim, ajeitando as pequenas coisas, a gente vai se ajeitando. Uma sessão de cinema solitária: singelo presente para quem se basta com o escurinho do cinema. E nele, deveria valer a máxima parafraseada para a ocasião: "onde os chatos não têm voz". Aprender uma nova regra da língua portuguesa e esquecê-la na prática. O e-mail já foi enviado, concedendo um agudo acento à ideia de se aprender espanhol. Enquanto se corre na esteira pela manhã, o pensamento voa. As noites em claro dançando freneticamente em inferninhos com uma long neck nas mãos ficaram a léguas submarinas de distância da realidade. Imersa numa juventude por enquanto companheira, lembro-me com carinho da amiga-irmã que passa por maus momentos num quarto de hospital. Quisera poder fazer mais. Por ela, por mim. Se for possível ser feliz e triste, esse é o momento.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Eis a questão

Transições na nossa vida
por Felipe Machado

Quem me conhece sabe que não sou a melhor pessoa do mundo para dar conselhos, mesmo gostando de me meter na vida dos outros – no bom sentido, claro.

Costumo falar o que penso, e não o que os outros desejam ouvir. (E quem pede conselhos quer que alguém concorde com o que a pessoa mesmo já decidiu.) Mesmo assim, uma amiga de 30 anos disse que estava pensando em se mudar para Nova York e queria a minha opinião.

Não precisa ser nenhum gênio para saber que morar em Nova York é sempre uma opção inacreditavelmente boa. Até eu quero me mudar para Nova York. Perguntei então mais detalhes sobre seus planos, o que ela estava pensando em fazer lá, etc. "Um curso", ela respondeu. "Que tipo de curso?", perguntei. "Hummm... ainda não sei."

Estou usando esse exemplo apenas para dizer que hoje em dia há uma onda de indecisão em relação ao futuro profissional. Conheço várias, mas várias pessoas nessa faixa etária que simplesmente querem revolucionar suas vidas, mesmo sem ter certeza do que querem realmente fazer. Sinal dos tempos? Provavelmente.

Trinta anos é uma idade complicada. Você não tem mais 18, mas ainda não tem 45. O que isso quer dizer? Que não é tarde para começar uma nova carreira, mas também não dá para marcar bobeira muito mais tempo.

Mudar para o exterior é uma das primeiras opções que vêm à cabeça de uma pessoa nessa idade. Como eu disse para a minha amiga, porém, não são os ares do estrangeiro que vão resolver todos os seus problemas. E não é nada agradável pensar no futuro gastando em dólar no presente. Quem quer morar no exterior deve planejar dez vezes mais do que se ficasse por aqui, até porque lá geralmente a gente não pode contar com família, amigos, empregada...

Mas não quero ser o chato que acaba com os sonhos dos outros. Quer mudar de vida? Mude. Quer largar o emprego e virar atriz de teatro? Faça isso. Só pense duas vezes, porque uma eventual volta à realidade também é pelo menos duas vezes mais traumática. O segredo é ser pragmático: quanto tempo você consegue viver sem salário? Que tipo de emprego você espera encontrar aqui após se formar em um curso no exterior? E, se resolver ficar por lá mesmo, como você pretende pagar as contas?

Fazer perguntas é sempre uma coisa muito chata, mas até hoje não inventaram um jeito melhor de encontrar respostas. Pensando bem, fazer as perguntas certas não é tão chato assim. Afinal, as respostas são o seu futuro – e, se você acha isso chato, é melhor mesmo mudar de vida.

Pagando de simpáticos


Alê, Ju e eu em momento "little joy"