sábado, setembro 23, 2017

Amizade

Há muito venho pensando nos encontros que ganham profundidade e levam seu nome.
O que é a profundidade se não transcender os mesmos gostos por filmes, livros e discos.
Perceber que diferenças podem ser transformadoras quando sabemos aceita-las, abraça-las.

Semana passada, tive reencontros que me inspiraram a parar os relógios.
Que tempo é esse que nos rouba possibilidades de trocar afetos e ideias?
Que tempo é esse que nos dá a falsa sensação de que estamos presentes?
Nos aniversários.
Nas separações.
Nos nascimentos.
Nas mortes.

Outro dia, um conhecido disse que não usava redes sociais, para que ninguém soubesse quando estava gripado, sem grana, apaixonado ou triste. Ele completou que tinha o privilégio de tomar uma cerveja com a turma toda semana. Não precisavam nem telefonar para este encontro marcado.

Há muito venho pensando como a turma virou um encontro sazonal.
Nos aniversários.
Nos casamentos.
Nos velórios.

Onde estamos armazenando tantas ausências?





domingo, agosto 06, 2017

Domingo

Sem a televisão ligada, ouço o barulho das motos, as sirenes da ambulância e vozes embriagadas vindas do prédio vizinho no churrasco que já acabou. Não há fumaça ou cheiro de carne no ar.

A tevê na noite de domingo é das coisas mais desnecessárias que existem. Os programas que misturam jornalismo, entretenimento e espetáculo desde sempre trazem consigo uma angústia, um sufocamento.

Tenho evitado sofrer com o anúncio das segundas-feiras. Eventualmente, nem penso muito nelas ou penso que são um dia como outro qualquer. Ainda sinto dificuldades em dormir bem, certamente pelo excesso de edredom no fim de semana.

Aproveito que os sons lá fora começam a cessar. Tento planejar uma playlist, as comidinhas da minha marmita e coloco um livro na mochila. Vou ver um seriado, sonhar com férias como não tiro há três anos e com o bilhete premiado da loteria que não jogo.


domingo, julho 09, 2017

Dia a Dia, Lado a Lado

Tulipa Ruiz e Marcelo Jeneci são artistas contemporâneos, com propostas tão diferentes quanto complementares. Ela tem uma voz que trafega entre a doçura e a potência. Também assina a arte de seu disco de estreia. Ele canta de modo suave, além de ser um sanfoneiro de mão cheia. Tulipa faz deliciosas crônicas musicais sobre encontros após uma tarde de chopes na rua Augusta. Jeneci é afeito a letras para se viver um grande amor.

"Dia a Dia, Lado a Lado" foi composta pelos dois - e por Gustavo Ruiz, guitarrista e irmão de Tulipa -  há oito anos, nunca foi gravada, embora esteja disponível na rede. A música foi o melhor pretexto para uma dobradinha no dia 8 de junho, sábado, no Cine Joia. Com o repertório costurado por canções como "Felicidade", "Pra Sonhar", " O Melhor da Vida", de Marcelo Jeneci, e "Só sei Dançar com Você", "É" e "Proporcional",  de Tulipa Ruiz, os duetos são pontuados pela sintonia, espontaneidade e uma banda extremamente competente.

Impressionante como a voz dela me encanta, como se fosse a primeira vez que eu a tivesse visto ao vivo, tanto quanto a fluidez dele com a sanfona combinando baião com os solos de guitarra, por exemplo. Já tive o prazer de ouvir Jeneci acompanhando os sinos de uma igreja na hora da "Ave Maria", na Praça de Santa Tereza, quando um concerto que fazia para o Natura Musical precisou dar uma pausa para missa (coisas de Minas Gerais). São artistas múltiplos, poéticos e com muita personalidade.

Enquanto Tulipa, mais extrovertida, conta sobre sua viagem pela Colômbia e brinca de falar portunhol apresentando os músicos,  Jeneci, mais tímido, parece conversar apenas com sorrisos num primeiro momento. Mas à medida que o show avança até um passinho arrisca. A dupla retribui todo o carinho do público, que canta todas as faixas. Tulipa sempre dá um ar de descontração aos gritos de "linda" e "maravilhosa" que surgem da plateia entre uma e outra pausa. No fim do show, Jeneci literalmente "vai para a galera", circula pelo Cine Joia, permitindo que vozes emocionadas e desafinadas dêem o tom do espetáculo. Afinal, esses encontros únicos são feitos dessas muitas vozes: a do outro e a de nós mesmos.

Na literatura há obras que se tornaram clássicas, como as cartas trocadas entre escritores: Rilke, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Pablo Neruda, Vinicius de Moraes, Caio Fernando Abreu e tantos outros relatavam sentimentos alinhavados por amizades que atravessaram distâncias e o tempo. O encontro de Tulipa Ruiz e Marcelo Jeneci na composição e no palco dá um alento similar àquele de se encerrar um capítulo desses livros de cartas com sorriso e um punhado esperança. Celebrar a amizade, as afinidades e as particularidades de uma maneira tão generosa é resistir. Resistir a tempos duros, de indelicadezas e golpes. Fazer parte, de algum modo, daquela cumplicidade dos dois artistas é uma preciosidade.




domingo, junho 25, 2017

Contentamento

O despertador toca 6h45.
Para quem não gosta, para quem não está acostumado e pensa que o mundo seria um lugar melhor se aceitassem que há quem prefira levantar às 9h, só resta pular da cama em direção ao banheiro.
Torneira ligada, água gelada e alguns segundos para coragem de lavar o rosto...
Acorda! (Penso).
Visto qualquer combinação no escuro enquanto Emerson, quentinho, está dormindo aninhado com os gatos.
Se eu tivesse levantado às 6h30 faria o café, mas eu mesma pego uma banana e corro para o metrô.
Terça-feira, vagões lotados, fones de ouvido que ainda permitem ouvir os vendedores de aparelhos eletrônicos.
Os raios de sol invadem a janela. De Santana até a Armênia. Depois vem o túnel.
Chego pontualmente, converso com uma senhora que reclama de dores na coluna.
Juliana sorri ao me dar bom dia. Entrega a ficha para eu assinar.
Entro na cabine, tiro a meia calça para as agulhas serem fincadas de modo certeiro nas pernas e pés.
Passo meia hora tentando meditar, relaxo.
Acordo melhor.
Acordo, enfim.
"Até sexta", o doutor me lembra.
Passo pelos Budas do corredor.
Escolho um bom lugar na padaria e peço uma média caprichada com pão na chapa.
Faz menos frio agora.
Deixo os 10% que não aparecem na notinha.
Vou trabalhar.
Vou pro Yoga depois do trabalho.

Segue a semana com exposição do Cícero Dias no CCBB antes de um show incrível de Arrigo Barnabé, Claras e Crocodilos, na Casa de Francisca, quarta-feira. Aquele "date" com o marido fora do usual para quebrar a rotina.

Na quinta-feira tenho um encontro com a inspiradora Monja Coen. O coração se enche de paz e alegria.

E quando vem sexta-feira, a hora-extra é assistir à peça Nu de Botas, no Sesc Belenzinho. Volto para casa pensando na sorte de trabalhar assim. Há quem sinta a maior adrenalina numa super cobertura da editoria de cidades. Respeito. Meu desejo nunca foi aquele, embora saiba fazer  (como quase tudo e em constante aprendizado no jornalismo).

Sábado.
O despertador não toca.
São 10 horas da manhã. Gatos e Emerson ainda dormem.
Fico mais uns minutos na cama.
Ele acorda e me beija. Vamos juntos preparar o café.
Faço feira, compro frutas, verduras e plantinhas para enfeitar a casa.
Ele pinta nossas janelinhas de azul.
Tomamos vinho, almoçamos, ouvimos música.
Seguimos para o Sesc Pompeia para ver o maravilhoso show do Arnaldo Antunes. Revejo na plateia um amigo que nem imagina o quanto eu o admiro, por sua inteligência e generosidade.
Dançamos e cantamos juntos.
Olho ao redor e todos sorriem.
Saímos de mãos dadas pela noite fria.
No metrô, encosto minha cabeça nos ombros do meu amor.
Cochilo. Sempre cochilo depois de tomar chope e no sacolejar do trem.
Vou dormir leve.

Hoje é dia de fazer massa e de tantas outras coisas que fazemos juntos.
"A vida nem sempre é fácil, minha filha", já dizia minha avó.
Mas há o contentamento.


segunda-feira, maio 08, 2017

Cotidiano

Pensa nesse lugar que é o melhor lugar para perder-se de alguém.
Para não ter contato por dias, meses, anos sem se dar conta.
Até não reconhecer mais a importância do outro.
Teria sido um dia?
Foram apenas rodadas de cervejas, risos sobre banalidades e uma afinidade passageira?

O metrô passa lotado, o próximo também.
Não há sinal de celular, nem chance de escutar os próprios pensamentos no intervalo entre as sirenes.
A multidão conduz até o vagão, não há lugares para se segurar.
Ar frio demais ou sufocante demais.

Aqui não há meio-termo.
Aquela mensagem para tomar um café terá data ou sequer será entregue.
O trem estaciona e aguarda uma desobstrução qualquer da via.
Um dia a viagem leva 15 minutos.
No outro, em mesmo trajeto, uma hora.

Há o sorriso e a nota de dois reais depositada no chapéu do músico que adentra pela porta.
Há a irritação profunda com o vendedor estridente de fones de ouvido que passa pela mesma.
E o contrário.

Os dias se alternam entre as manhãs sempre atrasadas de segunda-feira com bilhete de transporte vazio e apenas um terminal de recarga funcionando e inesperada gentileza daquele que se oferece para carregar a bolsa pesada.
Senta, levanta, sacoleja, desiste de ouvir música, abre o livro, checa as mensagens.
Lembra-se dos amigos que moram longe ao ver uma foto, suspira.
Consegue um ingresso para um show disputado, suspira.

Já não pensa naquele que se perdeu.
O impasse é bem mais simples: baldeação por trem, o fim do trajeto por ônibus, caminhada ou táxi?
E se o trem enguiçar?
E se o motorista de ônibus estiver conversando animadamente com um passageiro e não acelerar?
E se chover no caminho sem marquises?
E se o taxista pegar aquela rua errada que nos obriga a uma volta interminável?

Está quente.
Vai Chover.
Esfriou...

Espirra.
Respira.
Amanhã é tudo igual e diferente.





domingo, março 12, 2017

Tosa

Cabelo é como pensamento. Concordo com a letra Arnaldo Antunes. E, definitivamente, eu precisava daquele corte. Houve quem dissesse: "mas o seu já é super curto. Para quê tanta tesoura?" ou que sugerisse "por que não deixa crescer?". Não se trata apenas de estética, embora eu estivesse me sentindo a Marge Simpson...

Marge Simpson, esse é o ponto. Enxergar-se como um desenho, uma caricatura e, no fundo, de maneira não muito generosa. Não havia nada de mais na opinião alheia sobre aqueles cachos armados e amontoados numa franja que não cresce (existem arrependimentos na vida e cortar a franja que estava bem, obrigada foi desses recentes). No entanto, todos os dias eu pensava: tenho que agendar o corte, tenho que conseguir um horário. Consegui inclusive me atrasar e ser atendida. 

Na cadeira confortável, debaixo de um agradável ar condicionado que contrastava com o mormaço de São Paulo em março, os pensamentos ainda eram embaralhados. Cortar o cabelo, mudar, ficar com aquele igual diferente. Falávamos sobre amenidades, astrologia e comentei que os meus 40 se aproximavam. No início, comparando com a chegada aos 30, pontuei a falta de pique para um monte de atividades que eu fazia antes, como aula de spinning e balada até o sol raiar. Depois, achei boas tantas outras conquistas de agora.

A medida que os cachos picotados caíam no chão, o pensamento foi se oxigenando. Como é leve chegar aos 40 praticando conscientemente tantas coisas boas. Ou mesmo tentando. O "bom dia" para desconhecidos em épocas difíceis, as posturas de equilíbrio do yoga, o telefonema para a amiga simplesmente para ouvi-la, os cursos de escrita, de meditação tibetana, a jardinagem e a feitura do pão no fim de semana. Eu não tinha muito tempo para nada disso aos 30. As urgências mudaram. 

Olhei para os fios brancos que surgiam após cada tesourada. Eu ainda os escondo com cores que não têm nem nome de tom natural de cabelo, como chocolate ou bordeaux. Haverá o dia de assumi-los. Meu pensamento foi ficando mais calmo e, quando veio o finalizador e aquela mexida das madeiras restantes para os lados, eu já era outra. Mais revigorada, menos dramática porque o sol já estava se pondo, porque no caminho eu encontraria um picolé para deixar a minha língua roxa cor-de-uva enquanto o pouco vento batia no meu pouco cabelo. 


quinta-feira, março 02, 2017

Quaresma

Das lembranças da escola estadual, o mural dos corredores com frases cristãs. Surgiam algumas variações ano após ano sobre o "tempo de renovação". Havia também os discos que tocavam no fim do recreio marcando a Campanha da Fraternidade. Além da voz empostada do cantor, uma espécie de Nelson Gonçalves que não deu certo, arranhões no vinil eram frequentes. Eventualmente, perdia-se quase todo o refrão na audição. Eu ria e a professora me reprimiam apenas com o olhar. As orações antes do início das aulas ganhavam sermões adicionais que seguiam por 40 dias. Ao mesmo tempo, sempre tinha um garoto puxando meu cabelo quando o esforço para se concentrar (e não gritar) era a garantia de se livrar do castigo depois da aula. Antes de tudo acabar em chocolate, o feriado era marcado por procissões, ladainhas, véus e tons de roxo. Os tapetes de serragem nas cidades históricas me encantavam e eu adorava o cheiro de madeira no ar. Ficava ansiosa para caminhar sobre eles, mesmo com os desenhos desfeitos.

domingo, janeiro 22, 2017

Todo sábado

Certa vez perguntei se estariam lá no feriado. Depois, quis saber se durante o mês de janeiro, quando o movimento cai, tirariam umas férias.
 - Não, estamos aqui todo sábado.
A tempestade também chegou naquele dia e os dois se abrigaram debaixo da frágil lona azul.
Era preciso separar o buquê colorido do Seu Osvaldo.
Tinham prometido novas ervas para a horta da Flávia e do Ricardo, que acabaram de se mudar para o bairro.
Esperavam por Dona Sílvia, a colecionadora violetas e flores de tonalidades roxas e lilases.
Explicavam sobre a delicadeza das orquídeas para Cláudia.
Ouviam Dona Margarida falar sobre o filho que mora longe. 
- Na Califórnia tem feiras de rua muito lindas, ele me contou por skype.
Maria Rita interrompeu o papo para saber por que não encontrava samambaia.
 - Chuva demais, sol demais. Tem que ter equilíbrio, né?
Rogério havia rondado a banca duas vezes. Não sabia se astromélias agradariam.
Cristina fotografou as suculentas e postou no Instagram, mas não levou nada.
 - Além da clorofila dos gatinhos, vai levar o quê mais?
No meu trivial sempre existia lugar para variações: buquê para receber uma amiga, salsinha para usar na salada e até mesmo um vaso de kalanchoe porque reguei a minha mais do que devia. 
Olhava para os dois e aqueles semblantes me davam uma paz imensa.
Eu era rápida para escolher cebolas, batatas e bananas.
Quando chegava na esquina à esquerda, onde todo sábado eles estão, a demora era inevitável.
Flores e plantas devem ser admirados, bem escolhidos. Embora naquela banca não houvesse outra opção. 
Cada vaso, cada arranjo era embrulhado com capricho e laços coloridos. Mesmo os que não fossem para presente, ficavam envoltos em jornais cujas dobras pareciam origamis. 
Escolhi mais uma planta para ocupar o cachepô vazio da minha janela com vista para telhados.
Ganhei uma rosa, a clorofila de quatro reais pelo preço de três e o sorriso.
 - Até sábado. 



domingo, janeiro 15, 2017

Meus bons amigos

Há dias quero falar de vocês, de como dividir várias garrafas de cerveja ou abraços, para matar saudades que atravessavam meses, me fizeram tão bem. Não liguei para nenhum, não combinei absolutamente nada. Mas os encontros foram acontecendo e, quando me dei conta da passagem do tempo, já era domingo. Eu tinha que voltar. Foi a primeira vez em anos que eu não quis partir. Tudo por causa desses momentos.

Quinta-feira
Foi aquela supresa no Maletta. E tudo voltou como num filme: os shows que vimos, as risadas, o trabalho coletivo, o sonho daquele mundo melhor pelo qual lutamos.

Brindes o dia inteiro. Cerveja, café e planos de um ano mais leve, de mais encontros.

Noite com a conversa que marcou. Sobre verdades, sobre amizade ser olho no olho, sobre mais de 20 anos de convívio (que milagrosamente dispensa ligar, mandar mensagem ou postar em redes. Como se telepatia fosse possível).

Sexta-feira
Mais flanar pela velhas esquinas com aquele "não vá embora, fique um pouco mais". Drinks, alegrias e dormir tranquila como criança.

Sábado
"Onde você está? Quero pelo menos te dar um abraço". E breve é a tarde, breve é a vida. Nem precisamos dizer muito, pois teremos mais um punhado de anos juntos, não importa onde um de nós esteja.

Domingo
De passeio no mercado, de sabores tão familiares, de trilha do Caetano, de vinho e de almoço farto. Hora de partir.

São Paulo
Atravessei a semana sentando ao lado de desconhecidos no metrô, sem "dolorosas" do bar para compartilhar e com os desencontros habituais - o "vamos combinar sem falta", que também foi dito lá em junho de 2016 (e sobre isso nem insisto para que um encontro sem assunto aconteça) -, além certeza de que não preciso de nenhum esforço para contar com meus bons amigos.



domingo, janeiro 01, 2017

Nada é certo


"Ninguém avança pela vida em linha reta. Muitas vezes, não paramos nas estações indicadas no horário. Por vezes, saímos dos trilhos. Por vezes, perdemo-nos, ou levantamos voo e desaparecemos como pó. As viagens mais incríveis fazem-se às vezes sem se sair do mesmo lugar. No espaço de alguns minutos, certos indivíduos vivem aquilo que um mortal comum levaria toda a sua vida a viver. Alguns gastam um sem número de vidas no decurso da sua estadia cá em baixo. Alguns crescem como cogumelos, enquanto outros ficam inelutavelmente para trás, atolados no caminho. Aquilo que, momento a momento, se passa na vida de um homem é para sempre insondável. É absolutamente impossível que alguém conte a história toda, por muito limitado que seja o fragmento da nossa vida que decidamos tratar"

Henry Miller

Feliz 2017!