sexta-feira, maio 31, 2013

Sobre o querer e a mexerica

Engraçado o Antonio Prata ter escrito essa semana que gostava de goiaba, mas não de comê-las. E que gostava de Alice, mas não de namorá-la por motivos similares à implicância dele com goiabas...

Pois hoje eu pensava em você enquanto comia mexerica.

Você me beijaria com a boca de mexerica? Estabeleceria comigo uma nova versão de "Cotidiano", do Chico? Confesso que eu queria aquele tudo sempre igual. Não há mais lugar para o meu querer na montanha-russa, muito menos trancafiado por meses no meu quarto.

Tenho a sensação de que para você eu sou como Alice. Desconfio até que não goste de mexerica. E eu encolhida nesse frio que eu amo, abrindo os gomos, tirando os caroços. Fico com a boca de mexerica, a mão de mexerica...até meu pijama, outrora com cheirinho de amaciante, exala mexerica.

Sou mesmo a Clementine Tangerine. Diante agora de certezas trazidas pela ausência e, pior, pela indiferença. Apesar de desejar que você nunca tivesse existido, desenvolvi meu próprio brilho eterno de uma mente sem lembranças.

Seguirei esperando alguém que aprecie mexerica.


terça-feira, maio 28, 2013

Antes tarde...

Como saiu justamente no dia das mães, foi aquela correria. Acabei não postando a crônica do mês no Pandora, mas é como reza o ditado.

Para a minha amiga Mary
Elas se encontravam eventualmente, e sempre havia uma cordialidade pairando no ar nesses momentos. Foi quando a morte deixou como herança para minha pequena família pertences que não se doam ou não podem ser jogados fora, como aquele álbum de fotografias da formatura da turma de odontologia da UFMG na década de 80. Mary havia sido colega do meu tio Marco. Nenhum dos dois virou dentista. Minha mãe, por sua vez, diante das lembranças e de tamanha tristeza sorriu ao reconhecê-la naqueles registros longínquos.

Não sei precisar quando os encontros das duas viraram marcados. Só me lembro da alegria da minha mãe dizendo que seria uma das musas inspiradoras da nova coleção de ninguém menos que Mary Design! Por trás da marca que virou praticamente o sobrenome dela – poucos dizem Arantes – e é reconhecida em território nacional pelo bom gosto e pela feminilidade, há uma mulher tão delicada e generosa quanto justamente a perfeita tradução do tema que escolheu para a temporada, certamente atemporal.

A designer selecionou um time de mulheres incomuns para elaborar muito mais que acessórios. Imagino que traduzir personalidades tão distintas em colares, anéis e brincos não deva ter sido tarefa fácil. Digo isso pela minha mãe... Ela viveu fora do Brasil nos anos 70, foi da geração hippie supercolorida, mas adora uns ícones, digamos, góticos (eu e minha irmã, por exemplo, somos chamadas carinhosamente de morceguinhos por ela).
Durante o processo de pesquisa da Mary, acabei ouvindo relatos da minha mãe sobre as afinidades das duas, suas surpresas ao remexer seu baú afetivo, a tarde divertida no ateliê da designer, o café da manhã das musas inspiradoras, a empatia com a turma do estúdio Chá Gelado, que fez uma série de vídeos sobre a coleção. Essa indizível sensação de sentir-se querida acabou por virar um presente não apenas para a minha mãe.

Entrevistei a Mary algumas vezes. Desde o primeiro momento, anos atrás, percebi que fazia parte de um tipo raro. Como se seu talento não fosse suficiente, ela nunca deixou a doçura de lado, ao oferecer um café passado na hora com bolo de laranja, assim que você entra em seu showroom nada impessoal, por exemplo. Particularmente, sempre peço para visitar o jardim dos fundos para observar detalhes, como a plaquinha com uma frase de Rubem Alves na parede.

Por causa da sensibilidade de Mary, que mostrou a um punhado de gente um pouquinho da mulher maravilhosa que é minha mãe, agora ela me parece mais uma amiga de longa data que uma fonte para reportagem. Sei que com amigos a gente não fica cheio de dedos e formalidades, mas eu não consegui, até o momento, agradecer a ela por todo carinho. E carinho, ainda mais num mundo cada vez mais indiferente, a gente não só agradece como tenta, na medida do possível, retribuir.

Foi assim que minha mãe me ensinou.

sábado, maio 25, 2013

Sobre desejos para o Gênio da Lâmpada

Eu ouço constantemente a mesma música um milhão de vezes.
Eu também tento me livrar das minhas manias irritantes e insanas.
Busco cultivar disciplina e plantas.
Não gosto da maior parte dos meus sonhos quando estou dormindo, porém adoro fazer pactos com pequenas alegrias de olhos bem abertos.
Tem gente que torce o nariz quando eu digo que sou ariana, me acham briguenta, difícil...
Para ser sincera, não quero que me entendam.
E sobre pouquíssimas pessoas, espero apenas que me abracem.
Eu sou aquela que quer fazer mais algumas tatuagens e suspira quando lê fragmentos de discursos amorosos.
Choro com frequência, rio todo dia.
Larguei a dieta e a malhação, mesmo assim, preciso ajustar minhas roupas.
Torço para que os dias frios permaneçam.
Acendo incensos para purificar o astral.
Se pudesse, viajaria mais, leria mais, beijaria mais, dormiria mais...
Acho que já tive muito do menos até o momento.
Nem precisaria ganhar na loteria.
Meus desejos são tão realizáveis que não hesitaria diante do Gênio da Lâmpada.



segunda-feira, maio 20, 2013

Há alguém

Você não me perguntou, mas percebi sua intenção.
Estranho te conhecer tão bem só agora, e isso nem fazer diferença.
Você insiste sem ao menos me dirigir a palavra.
Eu te digo, sim, há alguém.
Depois que tudo entre nós se findou, e eu fiquei vendo a banda passar tocando coisas de amor (à toa na vida).
Displicentemente, coloquei flores na janela.
Estranhamente eram violetas.
Eu voltei a me alongar, parei de me delongar.
Ele chegou devagar.

Inesperadamente, diria.
Para mim.
Para você.

Há alguém.

Ele não sabe, suponho.
Não me arrisquei a contar.
Pois perco meu tempo imaginando como seria beijá-lo.
Eu gasto minutos nesse pensamento.
Esse pensamento dura horas ao longo do dia.
Porque chego bem pertinho da perfeição.
Quando abro os olhos, não há transito ou deadline que me tirem do sério.

Houve um dia que pensei em você dessa maneira.
E essa sua mania de me cercar, depois de ter me perdido, irrita-me bastante.

Penso nesse alguém na tarde de domingo.
Tomando esse vinho.
Imaginando o que ele acharia do novo livro que comprei.

Há alguém.

E dele, sinais que você não deu.
Como a chance de uma  manhã preguiçosa de sábado ao meu lado, que você evitou.

Porque simplesmente ele quer o mesmo que eu.




quarta-feira, maio 08, 2013

Pure Morning*

Gosto do café expresso. Mais ainda do seu sorriso instantâneo que me acompanha enquanto rodopio pela cozinha com meu ar de sabe-tudo.
Gosto do aroma que invade as nossas manhãs. Mais ainda de você interrompendo minha metodologia no preparo de uma torrada cheia de manteiga. Sim, há uma ciência neste prosaico afazer.
Você concorda, me beijando concorda.
E nós não lemos o jornal nesse dia. Não conseguimos nos importar, por algumas horas, com o mundo que não é o nosso: de sabores quentes, concentrados e doces.
E na nossa mesa há aquelas flores do campo, que você trouxe para mim noite passada.

*com o nome de uma música (Placebo) que me ocorreu, o rascunho num caderninho perdido recém resgatado e a inspiração que bateu no momento