quinta-feira, março 11, 2010

Remember Yesterday

O Guns n' Roses já foi um dia minha banda preferida. Lá pelos idos de 1990, quando eu queria estar no show que deu origem ao clipe de "Paradise City", a vontade de ver ao vivo Axl Rose, Slash, Izzy Stradlin, Duff Mckagan e Steve Adler era completamente incompatível com as reais possibilidades.
Então eu comprava Bizz, Fama (uma revista tosca que vinha com pôster encartado) e todas as publicações que abordassem a banda. Eu me reunia com amigos para ouvir os discos (vinis) e, claro, como toda adolescente achava o Axl lindo, maravilhoso. Houve uma época - durante a separação dos meus pais - que jurava que apenas ele me compreendia.
O Guns n' Roses veio ao Brasil e só vi da televisão porque não era tão simples viajar para São Paulo ou Rio quando se tem menos de 17 anos (meu primeiro show fora de Pequenópolis foi o primeiro dos Rolling Stones no Brasil). Segui ouvindo outras bandas e substituindo gradativamente o Axl Rose pelo Kurt Cobain, o Eddie Vedder e, por fim, o Thom Yorke.
A banda praticamente acabou, as tretas ficaram mais evidentes. Só que Axl não quis enxergar que nada mais seria como antes. Os antigos fãs com certeza nem esperaram com ansiedade o Chinese Democracy. As pessoas tem pressa, elas vivem o tempo presente, miram as tendências ou ficam aprisionadas num lugar confortável se negando a dar bola para a nova sensação da garagem que acabou de soltar o disco na internet.
O Guns n' Roses não está em nenhum outro lugar que não o limbo. Mas evidentemente, quem nunca pode assistir a banda ao vivo, não perderia o revival. Ainda que a crítica tenha malhado (o que convenhamos, no caso do GNR, não é nenhuma novidade. Axl é basicamente a Geni que a turma da Bizz e seus herdeiros adora jogar bosta). É preciso ver com os próprios olhos.
No palco surgem integrantes que parecem ter saído do Good Charlotte ou qualquer banda emo. Fogos e explosões no lugar onde a acústica é de longe a mais pavorosa já presenciada (quem conhece o Mineirinho sabe do que estou falando). Axl surge acima do peso, não tão acima quanto já vi nos tablóides porém sem a mesma potência vocal, sem o mesmo pique.
Para quem já achou que aquele cara que um dia foi lindo, maravilho e o único a entender suas dores adolescentes, a sensação foi de uma estranha melancolia e um pouco de admiração. Nesse mundinho em que sua imagem vale mais que a ideia, que a etiqueta é corporativa e que as bandas de rock usam Karl Lagerfeld ou sem ter coragem para assumir publicamente seus monstros ou se tem muito oportunismo (que é o que eu basicamente penso sobre o Sérgio Dias dos Mutantes). Não saberia analisar qual é a do Axl.
A dancinha caraterística não estava lá, o correr de um lado para o outro e o fôlego ficaram nos 90's, cristalizados na memória. Para cada canção havia um solo interminável e virtuoso dos músicos dos quais nenhum fã saberia o nome. A exceção era o Dizzy Reed, que entrou para a banda durante o "Use Your Illusion".
Valeu ouvir "Wellcome to the jungle", "Sweet Child O' Mine" e "Paradise City" e foi importante saber que aquele ídolo não era nada mais do que um cara normal - um pouco mais perturbado que a média -, que faz cagada, brigou com os amigos, destruiu tudo e depois tentou se reerguer, sem muletas espirituais como muitos artistas que "encontram Jesus" fazem no Brasil (vide Rodolfo dos Raimundos).
Se eu tirasse uma carta de tarot para o Axl seria "A Torre", uma ruptura radical, destrutiva. Diferente da "Morte" que tira o que não presta mais para continuar semeando. Erguer um novo castelo é sempre mais difícil. Reconquistar o reinado, talvez não seja algo possível. Com o tempo será menos desejável, se já não for.
O que lembro de ontem com mais nostalgia e leveza foi o show da abertura. Sebastian Bach da banda que apelidei de Skid Ruim tempos atrás, estava enxuto, desenvolto e interagindo em português com o público. Esbanjou pique, simpatia e bom humor. Vestiu uma camisa amarela que mais parecia um abadá em que estava escrita "Tião". Valeu o ingresso de muita gente, até dos que como eu achavam que aquilo era apenas rock farofa.

terça-feira, março 09, 2010

Vamos amar?

Não sei se já coloquei este clipe do Ludéal aqui. O excesso de redes sociais começa a me confundir...De qualquer modo, como amo essa música, mesmo que seja repeteco vale a pena.

quarta-feira, março 03, 2010

O Amor Acaba - Paulo Mendes Campos

"O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba".

Acho essa crônica tão triste e tão linda...

terça-feira, março 02, 2010

Para se acreditar no amor

Uma mais ou menos longa cerimônia de adeus - João Paulo Cuenca

Um homem entra por acaso num café de livraria e pede uma água com gás. Uma mulher percorre lombadas de uma prateleira com os dedos. O homem olha com atenção aquela mulher maravilhosamente desconhecida. Estamos no momento em que faltam poucos segundos para que ele se levante e vá falar com ela.

Ou ainda: um homem lê o jornal na praia. Uma mulher, três barracas depois, precisa do caderno de classificados. Esse homem maravilhosamente desconhecido lhe atrai. Estamos no momento em que faltam poucos segundos para que ela se levante e vá falar com ele.

Esse momento se repete milhões de vezes, todos os dias, a qualquer hora, em qualquer parte do mundo. Normalmente é fruto do acaso (“uma teia de coincidências”), mas pode também fazer parte de uma orquestração que envolva terceiros. As variações sobre ele são infinitas. Pode acontecer na saída de um teatro, numa madrugada de aeroporto, num velório, num bloco de carnaval, pela internet etc.

Pouco importa o que está no fundo da cena. Importante é o que há em comum entre todos esses encontros. Dizer olá ao desconhecido sempre será começar a despedir-se do futuro conhecido. A história que unirá os que tiverem sorte é uma cerimônia de adeus. Uma mais ou menos longa cerimônia de adeus.

***

Peço licença e me aproprio de algumas rolandbarthianas questões – inúteis, logo veremos. Serei capaz de olhar o rosto de quantas mulheres ao longo da vida? Centenas de milhares? Milhões? Entre as donas desses rostos, desejarei algumas centenas. Mas estarei sempre amando só uma. E por que não outra? O que me fará escolher exatamente essa e não aquela? O que me fará ter medo de perdê-la?

Formulação melhor para essa pergunta: o que me fará querer despedir-me dessa e não daquela?

A mecha de cabelo que cai sobre a testa, a cintura fina, o formato das panturrilhas, o jeito que ri? O seu suor? Ou uma palavra? Um gosto em comum? A timidez do ridículo? O livro que escolhe para ler? O senso de humor? O toque dos dedos? O tom da voz? Jamais saberemos. Novamente, pouco importa o que está no fundo da cena.

Depois de eleito o objeto de desejo, alguém lúcido diria que o amor se construirá sobre camadas de engano e falsas ofertas. Até que cumpra sua vocação irresistível (a despedida) e ressurja num novo encontro entre dois novos anônimos, depois daquele instante vertical que existe entre olhar, levantar-se e dizer “olá”.

O risco de saber disso tudo é, num ato falho, saudar alguém na praia ou na livraria dizendo “adeus”.

***


- Adeus.
- Como?
- É isso. Começou a acabar agora... Nós dois, eu digo.
- Mas eu te conheço?

***

Um bom começo para crer na possibilidade de adiar eternamente esse adeus é curar o excesso de lucidez. Para isso, recomenda-se esquecer os parágrafos acima imediatamente. Além de não ler filósofos germânicos, poupar-se do cinema sueco - e do novo cinema dinamarquês. E, claro, ter fé no acidente.