sexta-feira, maio 30, 2008

Tarot do Dia



O 4 de Espadas como arcano de aconselhamento sugere que é aconselhável, ao menos por um tempo, que você assuma a importância de ficar na sua, ao invés de procurar companhia demais e entupir seu tempo com afazeres fúteis ou atividades sociais desnecessárias. Compreenda esta parada em sua vida não como paralisia, mas como um processo necessário ao seu desenvolvimento. Não force a barra, Ludmila! Há tempo para se divertir e tempo para a quietude, mas este momento demanda maior reflexão e meditação de sua parte. Busque um centro de tranqüilidade e evite afazeres excessivos que dispersam seu foco. Se possível, converse com alguém mais próximo sobre as coisas que lhe incomodam, pois a partir do diálogo tranqüilo você perceberá que muitas das coisas que você deseja mudar nos outros precisam primeiramente ser mudadas dentro de si!

Conselho: Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, acorda.


Eu acho válido ficar na minha. Ainda mais porque se eu resolvesse tornar (mais) público o que penso sobre vários assuntos que vão do trabalho às relações pessoais (que neste caso não tangem a família, os colegas da Noir e os amigos próximos os quais faço questão e me esforço para encontrar sempre) seria, com o perdão da expressão grotesca, muita merda no ventilador. Uma pena eu não ser uma pessoa contemplativa, que cultiva a interiorização. Quem sabe na próxima encarnação.

quarta-feira, maio 21, 2008

Cena da noite passada

- Desliga a TV porque já está na hora de dormir.
- Tá bom, tá bom.
- Já tomou o remédio, como eu pedi? Você está com febre.
- Você pega água para mim?
- Toma e vai deitar, meu anjo. Você não está bem.
- Pega meias quentinhas pra mim?
- Toma: as mais quentinhas da gaveta.
- Não! Coloca nos meus pés! Tô fraco.
- Pronto. Vou te enrolar no edredon para você ficar bem confortável. Preciso terminar um trabalho agora, ok?
- E meu beijo de boa noite?


Não, eu não tenho filho. O diálogo acima é com um homem barbado, de 34 anos: meu marido.

terça-feira, maio 20, 2008

Enxaqueca, labirintite, virose e anemia. Ou uma trilha para meus diagnósticos

O pulso ainda pulsa
O pulso ainda pulsa...

Peste bubônica
Câncer, pneumonia
Raiva, rubéola
Tuberculose e anemia
Rancor, cisticircose
Caxumba, difteria
Encefalite, faringite
Gripe e leucemia...

E o pulso ainda pulsa
E o pulso ainda pulsa

Hepatite, escarlatina
Estupidez, paralisia
Toxoplasmose, sarampo
Esquizofrenia
Úlcera, trombose
Coqueluche, hipocondria
Sífilis, ciúmes
Asma, cleptomania...

E o corpo ainda é pouco
E o corpo ainda é pouco
Assim...

Reumatismo, raquitismo
Cistite, disritmia
Hérnia, pediculose
Tétano, hipocrisia
Brucelose, febre tifóide
Arteriosclerose, miopia
Catapora, culpa, cárie
Câimba, lepra, afasia...

O pulso ainda pulsa
E o corpo ainda é pouco
Ainda pulsa
Ainda é pouco
Assim... - Titãs

sábado, maio 17, 2008

Pronta para ir embora

Descobri que não irei me readaptar a Belo Horizonte, mas não que eu esteja querendo voltar a morar em São Paulo. Estou pronta para partir para um lugar diferente. Um lugar que não seja provinciano e que, contudo, não oprima por sua grandeza e voracidade. Quero um lugar em que eu possa andar pelas ruas sem precisar parar o tempo inteiro para cumprimentar (e conversar amenidades com) as pessoas, porém este não deve ser longe da casa da minha mãe porque não gostaria de encontrá-la uma vez por mês, como aconteceu no passado recente. Quero um lugar que me faça querer sair de casa diante de suas várias opções de diversão, todavia essas tantas devem ser estar dentro das minhas possibilidades financeiras e de locomoção, uma vez que não dirijo.

Ao longo da infância tive alguns amigos imaginários que não necessariamente eram invisíveis. Muitos deles eram bonecos que interagiam apenas comigo e quando eu desejava. Eu tinha também meus refúgios, lugares comuns que se transformavam diante dos meus olhos como a floresta (o quintal da casa da minha avó), a cabana em cima da árvore (minha barraquinha da turma da Mônica) e a torre da princesa (meu quarto quando habitado apenas por mim, pois princesas não dividem espaço com a irmã). Talvez eu sempre precisasse do real - ou pelo menos palpável - para vislumbrar o ideal. Logo é triste pensar que o lugar que eu quero agora não existe. Fica assim a sensação de não pertencimento até que eu crie coragem de me arriscar novamente, apesar das raízes que me seguram.

quinta-feira, maio 15, 2008

Na bilheteria do cinema com minha amiga Samira

Foi um encontro rápido, como os vários que tive recentemente com essa minha amiga querida. Eu, fazendo divulgação do filme. Ela, uma das atrizes.



Quando Samira me perguntou como eu me sentia na nova velha vida desabafei: "o problema é que eu nunca estou satisfeita". Mais do que compreender, ela citou Florbela Espanca. Identificação imediata e arrebatadora:

"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade…sei lá de quê!"

terça-feira, maio 13, 2008

Piripaque

Hoje faz dez dias que minha saúde vai mal. Começou com a febre no dia do aniversário da Mari (e por isso não pude ir ao sítio onde ela festejou). Depois de um batidão em São Paulo, fui parar no hospital. Achei que era dengue, mas era virose. O médico mandou eu ficar em repouso. Repouso enfiada em casa quando se tem muito trabalho é tortura. Repouso para mim é ir pra um lugar distante tipo alpes suíços. Enfim, o meu máximo foi colocar em dia alguns filmes que não havia visto no cinema, com o telefone tocando freneticamente. No domingo, aparentemente melhorei. Até que uma crise de labirintite me nocauteou. Ontem, mais uma vez, fui ao médico. Perdi minha aula de culinária e estou no meu limite porque desde sempre odeio remédio, termômetro, chazinho e o universo enfermo. Mais um post reivindicando uma vida menos ordinária.

terça-feira, maio 06, 2008

"As formigas nunca morrem de fome"

Não adianta sair da redação, festejar o fato de que não se tem (pelo menos com data marcada) plantão. Não adianta mudar de cidade com a ilusão de que se terá mais tranquilidade. As pessoas não mudam. Não mudam sua forma de encarar o trabalho e a responsabilidade, pois têm que pagar a conta, limpar o nome e sonhar com as férias sempre adiadas.

Sim, eu tenho inveja de quem não é formiga na vida. Gente que faz o próprio horário, que não se preocupa com míseros reais no banco, que viaja para onde e quando quer, que não perde o sono, muito menos a festa de um grande amigo por conta do ofício porque ele é um meio e não o fim. Ao contrário da fábula, a cigarra da vida real não fica sem as provisões porque preferiu tocar violão. O conto da carochinha, como tantos outros, legitima conceitos tortos de bem e mal, príncipe encantado e finais felizes.

Conheço pessoas de carne e osso que não são ricas, trabalham bem menos que eu e divertem-se infinitamente mais. Podem ganhar super bem, a mesma coisa e até pouco. A grande diferença que sabem se planejar. Não entram na fila como idiotas que carregam fardos que o corpo não suporta sem questionar se isso a levaria a algum lugar. "As formigas nunca morrem de fome", como na música do Virna Lisi, contudo não aproveitam a vida intensamente porque estão sempre tensas, querendo fazer melhor.

Quando acham que estão trabalhando demais, as formigas não dão tempo. As formigas não se permitem jamais a isso! O melhor (e normalmente no estágio agudo) é arrumar um terapeuta, fazer uma acupuntura, tomar uma tarja preta enquanto acorda cedo, entra na fila, carrega o peso, volta para casa, dorme, acorda e o cliclo recomeça.

Ser formiga na vida é constatar que, aos poucos, perdem-se os prazeres bobos. Como aquele antigo de enrolar a tarde inteira, assistir a sessão da tarde e fazer o dever de casa correndo no dia seguinte cedinho, antes da aula começar. Perde-se o prazer de fofocar por fofocar durante horas com bons amigos em plena semana cheia porque beber para "relaxar" ou a tentar um sono de verdade podem virar prioridades no período fora do expediente. Então vem a culpa de não ter tempo para os amigos, a cobrança de não ter tempo para os amigos e tudo vira obrigação. Obrigação como se ler um livro para não sentir-se alienado, ir a um show concorrido para não ter a sensação de estar pouco antenado. E pensar que isso tudo era tão fácil, tão delicioso...

E a vida da formiga segue se não mesmíssima, com poucas variações (e a ilusão de mais conforto), da vida que foi de seu avô que levantava cedo, fazia café, acordava as netas para a escola, passava o dia todo no trabalho e voltava tarde. Dormia vendo o Jornal Nacional quando podia estar curtindo a aposentadoria como tantos outros velhinhos que viajavam de excursão, faziam aula de dança ou curso de jardinagem.