sexta-feira, janeiro 29, 2016

Sabemos

Observo o colega que compra suplementos online.
Ele vai converter o valor  da compra em pontos, 
os pontos para adquirir uma cafeteira com cápsulas. 
Eu mesma tenho janelas simulando vôos para lugares onde meu dinheiro não vale muita coisa. 
Entre as planilhas do excel, a campanha pausada na frase de impacto que não veio.
Sonhamos com aquele corpo jovem, capaz de correr uma maratona.
Queremos receber amigos e finalizar a noite com um sabor inusitado,
Imaginamos um museu com arte do século XVII.
Ouvir aqueles palavras que não saberemos traduzir...

Parte disso será realizado por alguém.
Há quem tenha tudo.
Ou quase.

Sabemos (entre a abertura das outras janelas que trazem as notícias):
Sobre a nova epidemia.
Sobre "Como se programar para curtir os blocos de Carnaval na cidade" (os títulos dos portais jornalísticos e de entretenimento são siameses).
Sobre a decisão arbitrária de um juiz a respeito da guarda de um menino que apanha do pai.
Sobre como fazer economia doméstica em tempos de crise.
Sobre a morte de um cineasta da Nouvelle Vague.

Sabemos (entre a abertura das outras janelas que nos trazem uma avalanche de pessoas):
Quando piscam as janelas com notificações das conversas no gtalk.
Quando vem aquela interação na rede social de alguém que mal nos cumprimenta na rua. 
Quando é hora de desabilitar parte dos alertas em vermelho. 
Quando uma propaganda chata atrapalha a sequência de músicas (porque não optamos por uma vida sem intervalo comercial por apenas R$9,99 por mês).

Sabemos que seremos interrompidos para explicar algo sobre o trabalho, pelo horário de almoço, por mais uma reunião e até pelo telefone que sequer conserva o hábito de tocar em meio a whats apps e sms.

Mas não sabemos por que os ponteiros do relógio parecem estagnados...
Nem o colega que concluiu a compra de whey protein, nem eu que não tenho destino de viagem.

Quanta eternidade cabe nesses minutos em que observo?


terça-feira, janeiro 12, 2016

O dia em que encontrei David Bowie

Quando veio a notícia da morte, não consegui escrever nada. Estava profundamente triste, mas a verdade é que eu já me encontrei com David Bowie. Era uma tarde fria em Tóquio. Eu estava olhando a vitrine de uma loja, quando notei o reflexo dele no vidro, vestido com um sobretudo bege e um terno bem cortado por baixo. Não consegui me segurar: "David Bowie!". Ele sorriu e respondeu: "sim". Repeti algumas vezes algo como "inacreditável". Ele falou que não era inacreditável, que adorava passear por Tóquio, que a cidade o inspirava. Eu, atônita, perguntei por que ele estava me respondendo em português. Ele sorriu, mais uma vez, e disse: "porque eu sou David Bowie, não há nada que eu não consiga". Então, ele me perguntou se eu queria tomar um café. Aquilo durou minutos ou horas? Não sei. Acordei me sentindo a melhor pessoa do mundo. Quem não queria bater um papo displicente com o David Bowie numa tarde qualquer em Tóquio? Então ontem veio o pesadelo. Eu só consegui me lembrar do sonho.


segunda-feira, janeiro 04, 2016

Desejos grisalhos

Primeiro dia útil do ano.
Tem aquele sono,
aqueles dois quilos a mais,
aquelas pessoas bronzeadas,
as que não voltaram de viagem,
as que não foram.
As mesmas velhas resoluções,
as novas com muitas chance de não ir para frente.
Eu me antecipei e li as previsões de 2016 para Áries em dezembro de 2015.
Ainda não sei se vai ser bom, mas vou até o fim trabalhada no livre arbítrio.
Faz tempo que larguei oráculos.
E projetos.
E escritos.
E pessoas.
Vai, 2016, vai ser melhor para humanidade.
Eu só não quero ter muitos solavancos.
Porque já balancei demais.
Como meu último ano na casa dos 30 gosto de pensar que, de uma vez por todas, poderia existir o tal respeito aos meus cabelos brancos.