sexta-feira, janeiro 29, 2016

Sabemos

Observo o colega que compra suplementos online.
Ele vai converter o valor  da compra em pontos, 
os pontos para adquirir uma cafeteira com cápsulas. 
Eu mesma tenho janelas simulando vôos para lugares onde meu dinheiro não vale muita coisa. 
Entre as planilhas do excel, a campanha pausada na frase de impacto que não veio.
Sonhamos com aquele corpo jovem, capaz de correr uma maratona.
Queremos receber amigos e finalizar a noite com um sabor inusitado,
Imaginamos um museu com arte do século XVII.
Ouvir aqueles palavras que não saberemos traduzir...

Parte disso será realizado por alguém.
Há quem tenha tudo.
Ou quase.

Sabemos (entre a abertura das outras janelas que trazem as notícias):
Sobre a nova epidemia.
Sobre "Como se programar para curtir os blocos de Carnaval na cidade" (os títulos dos portais jornalísticos e de entretenimento são siameses).
Sobre a decisão arbitrária de um juiz a respeito da guarda de um menino que apanha do pai.
Sobre como fazer economia doméstica em tempos de crise.
Sobre a morte de um cineasta da Nouvelle Vague.

Sabemos (entre a abertura das outras janelas que nos trazem uma avalanche de pessoas):
Quando piscam as janelas com notificações das conversas no gtalk.
Quando vem aquela interação na rede social de alguém que mal nos cumprimenta na rua. 
Quando é hora de desabilitar parte dos alertas em vermelho. 
Quando uma propaganda chata atrapalha a sequência de músicas (porque não optamos por uma vida sem intervalo comercial por apenas R$9,99 por mês).

Sabemos que seremos interrompidos para explicar algo sobre o trabalho, pelo horário de almoço, por mais uma reunião e até pelo telefone que sequer conserva o hábito de tocar em meio a whats apps e sms.

Mas não sabemos por que os ponteiros do relógio parecem estagnados...
Nem o colega que concluiu a compra de whey protein, nem eu que não tenho destino de viagem.

Quanta eternidade cabe nesses minutos em que observo?


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