sexta-feira, maio 08, 2015

Inquietude

Nesses tempos em que as minhas horas passam sem vínculo com pontos eletrônicos e rotinas de escritório fico inquieta, não apenas em face da necessidade de não desperdiçar minutos de trabalho com distrações, o que é um grande desafio.

Então, converso com meus gatos longamente, observo as reações bem particulares deles. Amelinha responde, Alice deita no meu colo e Chivito morde meu dedo.

Faço compras a conta gotas para poder caminhar, olhar para o céu, registrar uma imagem diferente. Minha observação não é meramente contemplativa. Puxo papo sobre a farinha com o padeiro. Sou interrompida pela senhorinha que diz evitar o glúten. "Só que antigamente a gente comia tudo. Ao longo dos anos, o trigo já não é mais o mesmo". Ela reproduz um desses milhões de artigos que transformaram os apaixonados por pãezinhos quentes com manteiga em monstros sem amor próprio. Quando vai me dando aquela pontinha de vergonha por admitir que poucas coisas na vida são melhores que esse carboidrato assustador, embora eu coma o integral na maioria das vezes, ela arremata: "olha, todo sábado eu tomo duas cervejinhas, sabe? Aquelas de garrafinha porque faz muito calor em Brasília e não dá para viver evitando os prazeres!". Concordo e afirmo que preciso chegar na média moderada das duas garrafinhas.

Saio da padoca artesanal feliz com o multigrãos de um lado, o pão de mandioca do outro e dois recheados de ricota e azeite.

Mais tarde, chego à consulta médica e sendo a recepcionista de uma extrema simpatia pergunto de onde ela é: Bahia. Respondo que adoro e morro de saudades. Ela saca o celular, me mostra fotos de sua cidade, vizinha a Ilhéus, e começamos a falar sobre Jorge Amado, seus personagens, a comida arretada da terra dela, essa coisa de morar longe dos pais...revista velha para quê mesmo?

Nisso, a médica abre a porta e observa que apenas esquecemos de preencher o prontuário. Reitero que a culpa é toda minha, que não deixei a moça trabalhar.

Depois da consulta, a médica que é super gente fina e àquela altura já sabe mais do que as informações sobre a minha saúde conta que adora a recepcionista justamente pela espontaneidade e que isso ajuda os pacientes a ficarem mais confortáveis.

No meu prédio, cogito abordar o porteiro sobre como foi bom a chuva ter dado uma trégua. Me contenho. Sorrio e dou boa noite.


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