terça-feira, agosto 16, 2016

Farmácia

Tento me lembrar dos itens que faltam. Não sei se a cartela da pílula está no fim, se há o remédio para sinusite em casa. Pego apenas a solução para lentes de contato. Deveria aproveitar o colírio, embora tenha aflição de usá-lo. Misturo colírio e delírio na fila do caixa. O cara engravatado na minha frente desabotoa a camisa impecavelmente passada. "Estou um molambo", penso. Ele borrifa o desodorante ali, no meio das pessoas, no começo do dia. Paga em dinheiro, não quer o CPF na nota. Possivelmente não tomou café. Ele tem cara de café de cápsulas. Ouço um "próximo, por favor" cheio de tédio. Dou bom dia sem resposta, CPF na nota e recuso a promoção de levar duas vitaminas. Só me lembro da caixa cheia, de a a zinco, que era para ser aberta diariamente. Dispenso a sacola, jogo a embalagem na bolsa e saio de lá com olhos espremidos. Esqueci os óculos escuros. No dia anterior foi o bloquinho. Penso no quanto me identifico e me distancio do homem que usou o desodorante sem o menor constrangimento. Há meses não saio de casa com uma camisa bem passada.

2 comentários:

  1. Ludj,
    As vezes penso nas farmácias como armadilhas de humanos... todos nós, vez por outra, numa aleatoriedade democrática, caímos como presas nesses lugares. E por alguns minutos observamos nossos semelhantes (nem tão semelhantes assim) com a surpresa de quem vê um animal exótico. O constrangimento é inexorável ao comprar preservativos, pílulas azuis, pomadas suspeitas, remédio para vermes, lenços higiênicos, absorventes... Nessas estranhas armadilhas nos surpreendemos com o limites da nossa humanidade... Você com sua sensibilidade doce, retrata em prosa essa aventura...
    Beijo.

    ResponderExcluir
  2. obrigada, querido. beijos

    ResponderExcluir