quarta-feira, abril 24, 2013

Dos cadernos de viagem

Olhou-se nua no espelho. Reparou bem na pele branca, trêmula e por dias intocada.
Suspirou
Ligou o chuveiro, mas a água não esquentou.
Sentou-se no meio do box, tampou o rosto com as mãos.  E chorou.
Chorou pelas gotas geladas que escorriam pelo seu corpo.
Chorou porque teria que ligar para um faz-tudo, e não conhecia nenhum.
Chorou porque se viraria com a lâmpada queimada, a rolha emperrada do vinho e até o prego na parede.
Mas lidar com um possível curto-circuito ficou para trás, quando um dia estudou física.

Levantou-se, tomou aquele banho da maneira mais rápida que conseguiu.
Enxugou tudo, ainda que as lágrimas resistissem.

Colocou um roupão, foi até a cozinha preparar um café.

Remoendo o frio e a dor pensou que antes dele acreditava no amor.
Acreditava até mesmo na astrologia.
Acreditava naquelas promessas ditas no carro, durante a última viagem.
Era um sábado para se acreditar em céus avermelhados.
Era um tempo de tirar da caixa escondida tudo aquilo que, por algum motivo desacreditou, para acreditar de novo.

Agora acredita no que é concreto, palpável, real.
Acredita que fará calor em outubro, que esta é uma segunda-feira típica, que o engarrafamento vai atrasá-la em no mínimo 40 minutos, que vai passar o sábado à noite sozinha.
Talvez vá àquela nova sala de cinema.
Quem sabe marque uma viagem para a Turquia.

Bebe o café devagar.

Vai até o quarto e não encontra nada ao abrir o armário.
Escolhe qualquer combinação capaz de deixá-la invisível.

Decide chamar um táxi.
E no meio do trajeto parado, escreve esse texto na agenda.





2 comentários:

  1. Eu acredito nessa menina que acreditava no amor e na astrologia. Acredito também na sinceridade das promessas feitas em uma tarde vermelha.
    O frio do chuveiro quebrado, do engarrafamento inexorável ou do amor que se foi não podem abalar o coração dessa jovem acreditadora.
    Pois ela é feita da luz e do calor do sol, e nada do que é escuro e frio pode atingí-la.
    Só as suas próprias tempestades podem fazer-lhe mal, ao mesmo tempo que permitem lindas auroras boreais...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que lindo! Eu também acredito nessa menina de alguma forma. E gosto muito de receber suas visitas por aqui :)

      Excluir